EU DEVERIA TER VOLTADO: QUATRO CENAS

Encontros

Cena 1: No final da década de 80, levado pela mão de José Pelúcio Ferreira (1928-2002), fui ao encontro do governador Miguel Arraes no Palácio das Princesas no Recife, próximo ao ponto de confluência dos rios Beberibe e Capibaribe. Pelúcio era um aglutinador que agia acima das ideologias partidárias, cultivava a visão de um Brasil moderno, com educação pública de qualidade e uma universidade que acompanhasse a fronteira do conhecimento. Ele fundou e presidiu a Financiadora de Estudos e Projetos, vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia com a atenção voltada para as mudanças tecnológicas que o Brasil deveria acompanhar. A biotecnologia prometia impactar a agricultura e a saúde e havia um misto de euforia e receio a respeito do novo paradigma.

Miguel Arraes

O Dr. Arraes foi anistiado em 1979, havia retornado ao Brasil após 15 anos de exílio na Argélia e foi eleito em 1986 para o segundo dos três mandatos que exerceu como governador do Estado de Pernambuco. Eu fui recebido em uma sala com as janelas voltadas para o Capibaribe. Me lembro do rosto do Dr. Arraes, de esfinge, forte e tranquilo no olhar e na fala. Um rosto de quem tinha histórias para contar, mas se mostrou econômico nas palavras. Ouvir é mais importante do que falar, aprendeu aquele homem que viveu momentos intranquilos, como quando foi levado daquele mesmo palácio com as mãos algemadas pela ditadura. A esfinge deu lugar à delicadeza e à gentileza. Assim, o ambiente em que pudemos conversar sobre biotecnologia agrícola, tema que eu estudava. Arraes e Pelúcio sabiam que o Brasil precisava investir em educação inclusiva e em pesquisa para se tornar uma sociedade mais justa. Novas tecnologias emergiam e a biotecnologia era a bola da vez. Em algum momento uma senhora entrou no salão e nos serviu café. O Dr. Arraes me apresentou a D. Maria Magdalena, sua esposa. Quanta honra.

Josaé Pelúcio Ferreira

Quando nos despedimos, ele balbuciou um convite: “Espero que você volte para continuarmos essa conversa”. Eu anuí e tomei o rumo do Aeroporto de Guararapes, retornei a São Paulo e nunca mais encontrei o Dr. Miguel Arraes.

Cena 2: Eu estava em um voo que me levaria ao aeroporto de Fiumicino em Roma. Não era uma viagem comum, eu compartilhava a cabine dos passageiros com Antônio Paes de Carvalho, médico e pioneiro na biotecnologia aplicada à agricultura. Foi pelas suas mãos que recebi o convite para participar do encontro da Academia de Ciências do Vaticano, uma entidade composta por cientistas de várias partes do mundo, em particular dos países menos desenvolvidos.

A Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, presidida pelo Professor Carlos Chagas Filho, promovia debates que exploravam as relações entre ética, ciência e relações humanas. Eu trabalhava em um projeto de biotecnologia agrícola liderado por Antônio Paes de Carvalho, ex-aluno do Professor Chagas Filho. Essas conexões motivaram o convite para que eu falasse sobre biotecnologia agrícola em Roma. No palácio da Academia, localizado nos Jardins do Vaticano, conversei com cientistas de países em desenvolvimento. Viajei para Roma ao lado da Dra. Johanna Dobereiner (1924-2000), mulher que contribuiu para o conhecimento da microbiologia dos solos, particularmente na área da fixação de nitrogênio por plantas gramíneas. Ela formou gerações de pesquisadores no Brasil, país que a recebeu e a protegeu dos conflitos na Europa do pós-guerra. Os alemães étnicos foram perseguidos na antiga Tchecoslováquia, o que causou a morte de sua mãe em um campo de detenção. A Dra. Dobereiner criou as bases para uma agricultura menos dependente de fertilizantes químicos, que se mostra tão importante no presente momento (2026). Aquela mulher, econômica no verbo e raros sorrisos, falou da natureza da sua pesquisa, tema sobre o qual discursou em plenário. Ela me convidou para prosseguirmos com a conversa quando voltássemos para o Brasil. Eu nunca mais a encontrei.

Johanna Dobereiner

Cena 3: Ainda nas alamedas dos Jardins do Vaticano encontrei o argentino, então exilado no México, o Professor Rolando Garcia (1919-2021), físico, epistemólogo, especialista em sistemas complexos e interdisciplinaridade. Foi um precursor do estudo das mudanças climáticas. Por ter repudiado o golpe militar na Argentina, foi agredido fisicamente na Universidade de Buenos Aires e exilou-se no México. Dele eu ganhei um livro sobre meio ambiente que emprestei para um aluno. O aluno progrediu, mas o livro nunca mais encontrou o caminho de volta. A conversa com o Professor Garcia foi agradável, assim como a presença de sua esposa, sempre ao seu lado, cujo nome não constava no programa das palestras. Ela trajava saia comprida de algodão, usava tranças formadas pelos seus brancos cabelos e tinha o rosto tão sereno quanto a sua fala. No pouco que conversamos, ela se mostrou uma pessoa acolhedora. Em agosto de 2023, uma notícia publicou a foto que me revelou a sua identidade. O jornal anunciava a morte de Emília Ferreiro aos 86 anos, ex-aluna de Piaget, que contribuiu para o estudo da psicologia da educação. O seu livro mais conhecido – Psicogênese da Língua Escrita – é considerado um clássico. Eu nunca mais encontrei o casal ilustre.

Emilia Ferreiro

Rolando Garcia

Cena 4: Em julho de 1979 eu me despedi do Brasil para cursar um programa de Ph.D. em Economia nos EUA que duraria 4 ou 5 anos. Antes de deixar o país, eu fui visitar Ubatuba mesmo sabendo que uma frente fria entraria pelo litoral. Correndo pela praia, sob uma garoa invernal, passei por um senhor sentado em um banco cuja fisionomia me pareceu familiar. Na volta da corrida, diminui o passo e me certifiquei de que o senhor de feição triste, e com o olhar voltado para o mar era Amácio Mazzaropi. Imediatamente pensei: vou cumprimentar esse gênio do cinema brasileiro, mas a minha timidez me venceu e eu não parei. Pouco tempo depois, já instalado na universidade norte-americana, recebi a notícia do falecimento do Mazzaropi. Em que estaria ele absorto naquele dia? Talvez a notícia do mal que lhe roubaria a vida? Nunca saberei responder.

Amácio Mazzaropi

Existem pessoas raras que merecem toda a atenção possível. Se eu tivesse parado, se eu tivesse voltado, se eu tivesse aceitado os convites. A realidade me levou por caminhos que roubaram o tempo que eu deveria ter dedicado ao cultivo dessas pessoas. As oportunidades que eu perdi não voltariam e o meu mundo ficou mais pobre. Hoje procuro recuperar esses perfis na minha memória. Poderia citar outros tantos encontros com pessoas desconhecidas que também me emocionaram.

Quem me salvou do dilema causado pelas minhas decisões imaturas foi a escritora Siri Hustvedt, romancista, ensaísta e estudiosa da mente humana. Segundo ela, o que permanece nas nossas mentes é aquilo que nos causa emoção e, de tempos em tempos, nós reconstruímos a nossa memória. Então tenho a liberdade de revisitar Miguel Arraes, Johanna Dobereiner, Amácio Mazzaropi, Emília Ferreiro, Rolando Garcia e outros tantos seres que já não se encontram por aqui, mas que me emocionaram. De algum modo, continuamos a nossa conversa.

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