
Talvez você conheça a canção “Com Açúcar, com Afeto”, em que Chico Buarque descreve, com sensibilidade, o cotidiano de uma mulher que espera o marido em casa. Ou quem sabe as árias de Porgy and Bess, de George Gershwin, que imortalizaram o protagonismo e as dores de mulheres negras, produzidas nos anos 30.
O que essas obras têm em comum, além do talento dos autores, o fato de terem sido criadas por homens que “atravessaram a fronteira” de suas próprias identidades. Gershwin era um judeu branco do Brooklyn; Chico é um homem da elite intelectual carioca. Nenhum deles viveu na pele o que seus personagens viveram, mas ambos foram capazes de capturar dramas humanos universais — perda, exclusão, amor e solidão — que não escolhem cor, gênero ou fé.
Essa capacidade de se colocar no lugar do outro para expressar uma dor que não é sua é a marca fundamental do humanismo. No entanto, hoje vivemos a popularidade do conceito de “lugar de fala”. Ele faz sentido quando serve para dar voz a quem sempre foi silenciado, mas perde o alvo em sua versão radical.
O problema surge quando o “lugar de fala” vira um monopólio do sentido. Se acreditarmos que apenas quem carrega determinada identidade pode falar sobre ela, destruímos a ponte da empatia. Eu, por exemplo, me permito sentir a dor do povo palestino em Gaza. Meu histórico familiar de perdas no Holocausto não me afasta desse sentimento; pelo contrário, ele me qualifica a compartilhar essa dor humana.
Como afirma o autor Amartya Sen, sempre teremos alguma identidade comum que nos permite conversar. Somos diferentes, mas compartilhamos humanidade. Sem essa troca, o mundo vira uma Torre de Babel onde todos gritam e ninguém se entende.
Gershwin e Chico assumiram vozes alheias com respeito e profundidade. Eles provaram que a sensibilidade é o que nos salva do isolamento. Afinal, a arte e o diálogo só sobrevivem quando temos a coragem de enxergar o outro como uma extensão de nós mesmos.
Texto leve e, ao mesmo tempo, denso.
Se colocar no lugar do outro é também arte.
Um desafio a ser praticado, sempre.
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