Os jardins são a resposta a um desejo atávico de nos percebermos como parte da natureza.
Cidades são construídas para facilitar a vida coletiva. Pelo menos assim deveria ser. São um espaço de relações que multiplicam as oportunidades para os seus habitantes, embora de maneira desigual. Como toda obra humana, as cidades são imperfeitas. Algumas crescem sem planejamento, criando problemas para a maioria que trabalha em áreas distantes das moradias. A qualidade de vida se deteriora com o crescimento da malha urbana. A população se afasta do contato com ambientes naturais que se distanciam da paisagem urbana.
Parques e jardins são imitações desses ambientes, necessários para os habitantes de centros urbanos. Suponho que a sua criação seja uma tentativa de responder ao anseio de nos percebermos como parte da natureza.
A maior parte da história do homo sapiens (título cada vez menos merecido) se deu em ambientes pouco antropizados. A natureza, generosa, permitiu a nossa sobrevivência como coletores. Depois nos fixamos no território e nos adaptamos aos períodos de plantio e colheita. Nós, sapiens (sic), apreciamos a previsibilidade e agradecemos aos deuses por meio de rituais em que celebramos a colheita farta. Mas, os deuses podem se rebelar impondo castigos. Assim, criamos condições de abrigo e de segurança para lidar com a incerteza. As cidades são parte dessa resposta.
Viver em cidades exigiu a criação de lugares onde podemos usufruir elementos da natureza, ainda que de forma limitada. Os parques e jardins urbanos, como o Central Park em Nova York, o Jardim da Luz e o Parque Ibirapuera em São Paulo, o Bois de Boulogne em Paris, o Máxima Park em Utrecht, o Horsh al-Sanawbar em Beirute, a Floresta da Tijuca no Rio de Janeiro, inter alia, são exemplos desse propósito.
Na formação agronômica na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP nos anos 1970, tive aulas de paisagismo com o Professor Jairo Ribeiro de Matos. Aprendi a respeito da importância dos espaços que permitem o exercício dos sentidos, contemplativos e desenhados para a interação social. Aprendemos sobre os diferentes tipos de jardins e como projetá-los.
As funções dos jardins variam. Podem ser locais de estar, locais para o isolamento ou recantos que convidam à interação dos frequentadores. Os carmens são os jardins de estar que podem ser vistos nas ladeiras da cidade de Granada, na Espanha. São pérolas da civilização moura. Há parques e jardins que abrigam coleções de espécies, estufas com plantas exóticas ou reservas de material genético para pesquisa. Os estilos dos jardins variam desde os europeus, com linhas sóbrias, monótonas, organizados sem acidentes até os jardins tropicais, que preservam as curvas e contornos que simulam acidentes naturais, com linhas quase sensuais. Os jardins mouros do complexo do Alhambra utilizam delicada simetria associada ao uso da água que traz o frescor e o som convidativos à contemplação.
As transformações das cidades sugerem que os jardins públicos devessem preservar as funções que os inspiraram. O Central Park, em Nova York, nasceu do projeto de Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux, vencedor do concurso de 1858. O projeto criou um espaço democrático, planejado para oferecer descanso psicológico e convivência acessível a diferentes classes sociais.
O parque da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo, na cidade de Piracicaba, foi concebido pelo arquiteto-paisagista belga Arsène Puttemans em 1905 e implantado pelo Prof. Luiz Teixeira Mendes. O projeto rompeu com a simetria dos jardins europeus, criando uma paisagem acolhedora, utilizada pela população da cidade.

O Parque Trianon, concebido pelo agrônomo Joaquim Eugênio de Lima, preservou as espécies da Mata Atlântica que predominavam na área onde se implantou o projeto urbanístico da Avenida Paulista. Oferece um refúgio de descanso na região de intensa movimentação de pessoas.
A criação de parques e jardins em grandes cidades é uma necessidade social cuja importância é reforçada por fatores como: O crescimento não planejado das metrópoles. A redução do tamanho dos imóveis residenciais. O aumento da expectativa de vida da população demanda a ampliação de parques para a população idosa.
Um jardim ou parque urbano é o oposto do que o antropólogo francês Marc Augé chamou de “não lugar”, no livro Não Lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade (1992). No “não lugar” não há interação entre as pessoas; são locais de passagem. Esses ambientes estéreis se contrapõem aos espaços de permanência, de interação e de construção de significado. Os parques e jardins representam um contraponto ao modus vivendi hiperurbano. São espaços de recuperação da pessoalidade, da memória, locais de descanso onde não se monetizam as trocas.
Ao gestor urbano cabe preservar tais espaços e trabalhar para ampliar a sua oferta nas regiões carentes das metrópoles. O que se observa na cidade de São Paulo na década de 2020 é o movimento contrário, de privatização dos espaços públicos, de descaracterização da sua história e da intenção da sua criação. Assim ocorre com o Parque da Aclimação, o Parque Trianon, o Parque Ibirapuera, o Parque da Água Branca — este último que incorpora um elemento cultural da vida rural paulista. A sanha de micro-privatizações concede os espaços para finalidades comerciais desalinhadas das funções originais. Tal tipo de privatização, além de desnecessária, reflete o despreparo ou a conivência do gestor público.
Os jardins e parques podem ser ilhas de convívio, espaços de introspecção, espaços para nada fazer a não ser observar, de forma contemplativa, a sombra das folhagens (komorebi), como Wim Wenders retratou no filme Dias Perfeitos (2023) filmado em Tóquio. O personagem central é um observador das sombras sensível ao momento que vivencia.
Como agrônomo e como cidadão, defendo políticas públicas que recuperem as funções dos parques urbanos. Se os jardins são respostas a um desejo social de nos percebermos como parte da natureza, cabe aos gestores públicos preservar essa função. Simples assim!













