Jardins Urbanos Ameaçados

Jardins Urbanos Ameaçados

Os jardins são a resposta a um desejo atávico de nos percebermos como parte da natureza.

Cidades são construídas para facilitar a vida coletiva. Pelo menos assim deveria ser. São um espaço de relações que multiplicam as oportunidades para os seus habitantes, embora de maneira desigual. Como toda obra humana, as cidades são imperfeitas. Algumas crescem sem planejamento, criando problemas para a maioria que trabalha em áreas distantes das moradias. A qualidade de vida se deteriora com o crescimento da malha urbana. A população, afastada do contato com ambientes naturais, mantém referências presentes apenas no imaginário e nas histórias transmitidas pelas gerações.

Uma constatação deprimente é que as paisagens naturais estão distantes do nosso alcance diário. Parques e jardins públicos são imitações de ambientes naturais, necessários para os habitantes de centros urbanos. Suponho que a sua criação seja uma tentativa de recuperar o convívio com ambientes naturais, um anseio antigo de nos percebermos como parte da natureza.

A nossa espécie habita o planeta há pouco tempo. A maior parte da história do homo sapiens (título cada vez menos merecido) se deu em ambientes pouco antropizados. A natureza generosa permitiu a nossa sobrevivência como coletores. Com o crescimento das populações, nos fixamos no território e nos adaptamos aos períodos de plantio e colheita, o que gerou alguma previsibilidade. Nós sapiens (sic), apreciamos a previsibilidade e agradecemos aos deuses por meio de rituais em que celebramos a colheita farta. Era preciso deixar os deuses felizes, mas os deuses poderiam se rebelar impondo castigos, gerando a incerteza que repudiamos. A espécie precisou criar condições de abrigo e de segurança para lidar com a incerteza. As cidades são uma resposta de defesa e proteção do grupo.

Viver em cidades significa romper o convívio com o ambiente natural. Como reação, criamos lugares onde podemos usufruir alguns dos seus elementos, ainda que de forma limitada. Os parques e jardins urbanos, como o Central Park em Nova York, o Jardim da Luz e o Parque Ibirapuera em São Paulo, o Bois de Boulogne em Paris, o Máxima Park em Utrecht, o Horsh al-Sanawbar em Beirute, a Floresta da Tijuca no Rio de Janeiro, inter alia, são exemplos do engenho humano que busca recuperar o convívio necessário com a natureza.

Na formação agronômica que tive na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP nos anos 1970, tive aulas de paisagismo com o Professor Jairo Ribeiro de Matos. O mestre falava a respeito da importância dos parques e jardins vistos como espaços que permitem o exercício dos sentidos em ambientes protegidos, espaços contemplativos e de interação social criativa. O Professor nos apresentou os diferentes tipos de jardins e ensinou alguns truques que os agrônomos deveriam saber para projetá-los, como considerar o porte das plantas adultas, que devem obedecer determinada hierarquia — as mais altas não devem esconder as de menor porte —, e a escolha de espécies com épocas de floração distribuídas ao longo do ano para que sempre existam flores no ambiente.

As funções dos jardins variam, desde jardins de estar, jardins para observação, jardins para o exercício dos sentidos, jardins com recantos que convidam à interação dos frequentadores, até outros que sugerem a introspecção, o silêncio e o isolamento. Os carmens são os jardins de estar que podem ser vistos nas ladeiras da cidade de Granada, na Espanha. São pérolas da civilização moura. Há parques e jardins que abrigam coleções de espécies, estufas com plantas exóticas ou reservas de material genético para pesquisa. Os estilos dos jardins também são muitos. Existem os europeus, com linhas sóbrias, monótonas, organizados sem acidentes. Em contraste, existem os jardins tropicais, que preservam as curvas e contornos que simulam acidentes naturais, com linhas quase sensuais. Os jardins mouros do complexo do Alhambra utilizam delicada simetria associada ao uso da água que traz o frescor e o som convidativos à contemplação.

Do grupo de ex-alunos da ESALQ, destacou-se o colega Jorge Sakai, que ganhou o Prêmio Joaquim Eugênio de Lima como destaque na área do paisagismo e arborização urbana e que trabalhou no escritório de Burle Marx, um mestre do jardim tropical. Destacou-se também o pesquisador científico do Instituto Florestal Waldir Joel de Andrade, que fez os estudos para a criação do Monumento Natural Estadual da Pedra do Baú na Serra da Mantiqueira paulista. O seu trabalho de demarcação de trilhas facilita e organiza o convívio entre visitantes e a natureza.

As transformações da sociedade contemporânea sugerem que os jardins públicos deveriam preservar as funções que os inspiraram. O Central Park, em Nova York, nasceu do projeto de Frederick Law Olmsted e Calvert Vaux, vencedor do concurso de 1858, cujo propósito foi criar uma paisagem que aproximasse os habitantes da cidade de elementos naturais. O projeto criou um espaço democrático, planejado para oferecer descanso psicológico e convivência acessível a diferentes classes sociais.

O parque da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo, na cidade de Piracicaba, foi concebido pelo arquiteto-paisagista belga Arsène Puttemans em 1905 e implantado pelo Prof. Luiz Teixeira Mendes, especialista em fruticultura e silvicultura. O projeto rompeu com a simetria dos jardins europeus, criando uma paisagem acolhedora, utilizada pela população da cidade.

O Parque Trianon, concebido pelo agrônomo Joaquim Eugênio de Lima, preserva espécies da Mata Atlântica que predominava na área onde se implantou o projeto urbanístico da Avenida Paulista. Oferece um refúgio de descanso na região de intensa movimentação de pessoas.

A criação de parques e jardins em grandes cidades é uma necessidade social. Existem argumentos em favor de uma política estruturada de oferta de jardins urbanos. Primeiro, o crescimento não planejado das metrópoles gera a ocupação com escassa cobertura arbórea e raros jardins ou parques públicos. Segundo, a redução do tamanho dos imóveis residenciais cria a necessidade de espaços públicos para lazer. Terceiro, o aumento da expectativa de vida da população demanda a ampliação de parques e jardins públicos e espaços para convívio para a crescente população idosa. Tais espaços podem oferecer oportunidades para contato intergeracional, socialização e a organização de práticas coletivas nas áreas da arte, do esporte e da educação continuada.

Um jardim ou parque urbano é o oposto do que o antropólogo francês Marc Augé chamou de “não lugar”, no livro Não Lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade (1992). No “não lugar” não há interação entre as pessoas; são locais de passagem, em que o indivíduo é um anônimo que assume a função de consumidor, cliente, hóspede. Esses ambientes estéreis se contrapõem aos espaços de permanência, de interação e de construção de significado. Os parques e jardins podem ser lugares de estar e de ser que representam um contraponto ao modus vivendi hiperurbano. São um complemento necessário aos espaços diminutos das vivendas — em última análise, espaços de recuperação da pessoalidade, de memória, de descanso, um espaço onde não se monetizam as trocas.

Ao gestor urbano cabe preservar tais espaços e trabalhar para ampliar a sua oferta nas regiões carentes das metrópoles. O que se observa na cidade de São Paulo na década de 2020 é um movimento de privatização dos espaços públicos e de descaracterização da sua história, ignorando a intenção da sua criação. Assim ocorre com o Parque da Aclimação, o Parque Trianon, o Parque Ibirapuera, o Parque da Água Branca — este último incorpora um elemento cultural da vida rural paulista, origem de parte dos habitantes atuais. A sanha de micro-privatizações concede os espaços para finalidades comerciais excludentes e vai contra a existência dos espaços de “ser”. Vemos jardins e parques invadidos, descaracterizados pelas concessões de exploração de espaços criados para outra finalidade. Tal tipo de privatização, além de desnecessária, reflete o despreparo ou a conivência do gestor público.

Os jardins e parques são espaços de ser, de convívio, espaços de introspecção, espaços para nada fazer a não ser observar, de forma contemplativa, a sombra das folhagens (komorebi), como Wim Wenders retratou no filme Dias Perfeitos (2023) filmado em Tóquio. O observador das sombras apenas permanece, sensível ao momento que vivencia. Como agrônomo e como cidadão, defendo políticas públicas que recuperem as funções dos parques urbanos. Os jardins são respostas a um desejo atávico de nos percebermos como parte da natureza. Cabe aos gestores públicos preservar essa função dos parques e jardins. Simples assim!

EU DEVERIA TER VOLTADO: QUATRO CENAS

Encontros

Cena 1: No final da década de 80, levado pela mão de José Pelúcio Ferreira (1928-2002), fui ao encontro do governador Miguel Arraes no Palácio das Princesas no Recife, próximo ao ponto de confluência dos rios Beberibe e Capibaribe. Pelúcio era um aglutinador que agia acima das ideologias partidárias, cultivava a visão de um Brasil moderno, com educação pública de qualidade e uma universidade que acompanhasse a fronteira do conhecimento. Ele fundou e presidiu a Financiadora de Estudos e Projetos, vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia com a atenção voltada para as mudanças tecnológicas que o Brasil deveria acompanhar. A biotecnologia prometia impactar a agricultura e a saúde e havia um misto de euforia e receio a respeito do novo paradigma.

Miguel Arraes

O Dr. Arraes foi anistiado em 1979, havia retornado ao Brasil após 15 anos de exílio na Argélia e foi eleito em 1986 para o segundo dos três mandatos que exerceu como governador do Estado de Pernambuco. Eu fui recebido em uma sala com as janelas voltadas para o Capibaribe. Me lembro do rosto do Dr. Arraes, de esfinge, forte e tranquilo no olhar e na fala. Um rosto de quem tinha histórias para contar, mas se mostrou econômico nas palavras. Ouvir é mais importante do que falar, aprendeu aquele homem que viveu momentos intranquilos, como quando foi levado daquele mesmo palácio com as mãos algemadas pela ditadura. A esfinge deu lugar à delicadeza e à gentileza. Assim, o ambiente em que pudemos conversar sobre biotecnologia agrícola, tema que eu estudava. Arraes e Pelúcio sabiam que o Brasil precisava investir em educação inclusiva e em pesquisa para se tornar uma sociedade mais justa. Novas tecnologias emergiam e a biotecnologia era a bola da vez. Em algum momento uma senhora entrou no salão e nos serviu café. O Dr. Arraes me apresentou a D. Maria Magdalena, sua esposa. Quanta honra.

Josaé Pelúcio Ferreira

Quando nos despedimos, ele balbuciou um convite: “Espero que você volte para continuarmos essa conversa”. Eu anuí e tomei o rumo do Aeroporto de Guararapes, retornei a São Paulo e nunca mais encontrei o Dr. Miguel Arraes.

Cena 2: Eu estava em um voo que me levaria ao aeroporto de Fiumicino em Roma. Não era uma viagem comum, eu compartilhava a cabine dos passageiros com Antônio Paes de Carvalho, médico e pioneiro na biotecnologia aplicada à agricultura. Foi pelas suas mãos que recebi o convite para participar do encontro da Academia de Ciências do Vaticano, uma entidade composta por cientistas de várias partes do mundo, em particular dos países menos desenvolvidos.

A Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, presidida pelo Professor Carlos Chagas Filho, promovia debates que exploravam as relações entre ética, ciência e relações humanas. Eu trabalhava em um projeto de biotecnologia agrícola liderado por Antônio Paes de Carvalho, ex-aluno do Professor Chagas Filho. Essas conexões motivaram o convite para que eu falasse sobre biotecnologia agrícola em Roma. No palácio da Academia, localizado nos Jardins do Vaticano, conversei com cientistas de países em desenvolvimento. Viajei para Roma ao lado da Dra. Johanna Dobereiner (1924-2000), mulher que contribuiu para o conhecimento da microbiologia dos solos, particularmente na área da fixação de nitrogênio por plantas gramíneas. Ela formou gerações de pesquisadores no Brasil, país que a recebeu e a protegeu dos conflitos na Europa do pós-guerra. Os alemães étnicos foram perseguidos na antiga Tchecoslováquia, o que causou a morte de sua mãe em um campo de detenção. A Dra. Dobereiner criou as bases para uma agricultura menos dependente de fertilizantes químicos, que se mostra tão importante no presente momento (2026). Aquela mulher, econômica no verbo e raros sorrisos, falou da natureza da sua pesquisa, tema sobre o qual discursou em plenário. Ela me convidou para prosseguirmos com a conversa quando voltássemos para o Brasil. Eu nunca mais a encontrei.

Johanna Dobereiner

Cena 3: Ainda nas alamedas dos Jardins do Vaticano encontrei o argentino, então exilado no México, o Professor Rolando Garcia (1919-2021), físico, epistemólogo, especialista em sistemas complexos e interdisciplinaridade. Foi um precursor do estudo das mudanças climáticas. Por ter repudiado o golpe militar na Argentina, foi agredido fisicamente na Universidade de Buenos Aires e exilou-se no México. Dele eu ganhei um livro sobre meio ambiente que emprestei para um aluno. O aluno progrediu, mas o livro nunca mais encontrou o caminho de volta. A conversa com o Professor Garcia foi agradável, assim como a presença de sua esposa, sempre ao seu lado, cujo nome não constava no programa das palestras. Ela trajava saia comprida de algodão, usava tranças formadas pelos seus brancos cabelos e tinha o rosto tão sereno quanto a sua fala. No pouco que conversamos, ela se mostrou uma pessoa acolhedora. Em agosto de 2023, uma notícia publicou a foto que me revelou a sua identidade. O jornal anunciava a morte de Emília Ferreiro aos 86 anos, ex-aluna de Piaget, que contribuiu para o estudo da psicologia da educação. O seu livro mais conhecido – Psicogênese da Língua Escrita – é considerado um clássico. Eu nunca mais encontrei o casal ilustre.

Emilia Ferreiro

Rolando Garcia

Cena 4: Em julho de 1979 eu me despedi do Brasil para cursar um programa de Ph.D. em Economia nos EUA que duraria 4 ou 5 anos. Antes de deixar o país, eu fui visitar Ubatuba mesmo sabendo que uma frente fria entraria pelo litoral. Correndo pela praia, sob uma garoa invernal, passei por um senhor sentado em um banco cuja fisionomia me pareceu familiar. Na volta da corrida, diminui o passo e me certifiquei de que o senhor de feição triste, e com o olhar voltado para o mar era Amácio Mazzaropi. Imediatamente pensei: vou cumprimentar esse gênio do cinema brasileiro, mas a minha timidez me venceu e eu não parei. Pouco tempo depois, já instalado na universidade norte-americana, recebi a notícia do falecimento do Mazzaropi. Em que estaria ele absorto naquele dia? Talvez a notícia do mal que lhe roubaria a vida? Nunca saberei responder.

Amácio Mazzaropi

Existem pessoas raras que merecem toda a atenção possível. Se eu tivesse parado, se eu tivesse voltado, se eu tivesse aceitado os convites. A realidade me levou por caminhos que roubaram o tempo que eu deveria ter dedicado ao cultivo dessas pessoas. As oportunidades que eu perdi não voltariam e o meu mundo ficou mais pobre. Hoje procuro recuperar esses perfis na minha memória. Poderia citar outros tantos encontros com pessoas desconhecidas que também me emocionaram.

Quem me salvou do dilema causado pelas minhas decisões imaturas foi a escritora Siri Hustvedt, romancista, ensaísta e estudiosa da mente humana. Segundo ela, o que permanece nas nossas mentes é aquilo que nos causa emoção e, de tempos em tempos, nós reconstruímos a nossa memória. Então tenho a liberdade de revisitar Miguel Arraes, Johanna Dobereiner, Amácio Mazzaropi, Emília Ferreiro, Rolando Garcia e outros tantos seres que já não se encontram por aqui, mas que me emocionaram. De algum modo, continuamos a nossa conversa.

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Reflexões Sobre Lugar de Fala

Reflexões Sobre Lugar de Fala
Multicolored overlapping human silhouettes in different walking and running poses on a textured background
Somos Muitos

Talvez você conheça a canção “Com Açúcar, com Afeto”, em que Chico Buarque descreve, com sensibilidade, o cotidiano de uma mulher que espera o marido em casa. Ou quem sabe as árias de Porgy and Bess, de George Gershwin, que imortalizaram o protagonismo e as dores de mulheres negras, produzidas nos anos 30.

O que essas obras têm em comum, além do talento dos autores, o fato de terem sido criadas por homens que “atravessaram a fronteira” de suas próprias identidades. Gershwin era um judeu branco do Brooklyn; Chico é um homem da elite intelectual carioca. Nenhum deles viveu na pele o que seus personagens viveram, mas ambos foram capazes de capturar dramas humanos universais — perda, exclusão, amor e solidão — que não escolhem cor, gênero ou fé.

Essa capacidade de se colocar no lugar do outro para expressar uma dor que não é sua é a marca fundamental do humanismo. No entanto, hoje vivemos a popularidade do conceito de “lugar de fala”. Ele faz sentido quando serve para dar voz a quem sempre foi silenciado, mas perde o alvo em sua versão radical.

O problema surge quando o “lugar de fala” vira um monopólio do sentido. Se acreditarmos que apenas quem carrega determinada identidade pode falar sobre ela, destruímos a ponte da empatia. Eu, por exemplo, me permito sentir a dor do povo palestino em Gaza. Meu histórico familiar de perdas no Holocausto não me afasta desse sentimento; pelo contrário, ele me qualifica a compartilhar essa dor humana.

Como afirma o autor Amartya Sen, sempre teremos alguma identidade comum que nos permite conversar. Somos diferentes, mas compartilhamos humanidade. Sem essa troca, o mundo vira uma Torre de Babel onde todos gritam e ninguém se entende.

Gershwin e Chico assumiram vozes alheias com respeito e profundidade. Eles provaram que a sensibilidade é o que nos salva do isolamento. Afinal, a arte e o diálogo só sobrevivem quando temos a coragem de enxergar o outro como uma extensão de nós mesmos.

Marginalia: coautoria silenciosa

Marginalia: coautoria silenciosa

O termo marginália refere-se ao conjunto de anotações, comentários, desenhos ou marcas feitas nas margens de um texto.

A livraria da Universidade da Carolina do Norte, lá pelos idos dos anos 1980, era frequentada por tipos curiosos. Um deles, meu amigo Raffi, foi proibido de frequentar o local, pois costumava sentar-se ao chão com o livro escolhido nas mãos  e só deixava o posto quando concluía a leitura. Decididamente não era um bom cliente para a livraria.

Foi nessa época que uma senhora  visitou a sessão de livros usados para vender obras da biblioteca do seu falecido marido. Entre elas havia uma publicação de Erich Fromm intitulada: Man for Himself: an inquiry into the psychology of ethics. Nos anos 1980 eu estudei na Universidade da Carolina do Norte e visitava sebos, livrarias e lojas de discos da cidade. Hoje eu entendo que era um ato de sobrevivência para um jovem submetido às agruras de um programa de doutorado massacrante.

A livraria do campus era a minha preferida, lá eu gastava tempo na seção de “usados”, um sebo como chamamos no Brasil. Foi onde encontrei o livro de Erich Fromm publicado em 1947, aquele deixado pela velha senhora. A identidade do ex-proprietário está na primeira página: Professor Marra. Paguei USD$2,25 e levei o exemplar. Erich Fromm influenciou a minha formação quando passei da adolescência para o que chamamos de idade adulta.

Voltei para o Brasil, saí e voltei novamente, sempre cultivando a biblioteca que reflete a trajetória da minha vida e onde guardo poucas certezas e muitas dúvidas. De forma seletiva me desfiz de vários livros, decisão sempre difícil, pois como saber se no futuro não me farão falta? No início de 2026 eu mudei de casa e de cidade. A biblioteca mais uma vez me acompanhou. As caixas, classificadas de acordo com a minha preferência temática, foram abertas aos poucos e os livros puderam retomar o lugar que lhes cabe. Eis que o livro do Prof. Marra estava novamente nas minhas mãos. Eu passei os olhos pelo conteúdo das páginas amareladas e observei muitas delas assinaladas com grifos e comentários. Na mesma caixa encontrei outra obra de Fromm – Ter ou Ser cujo conteúdo me impressionou na adolescência. Lembrei do conceito de “humanismo radical”, que mereceria ser revisitado nos tempos bicudos que vivemos.

O Humanismo Radical é uma perspectiva filosófica que coloca a dignidade e a libertação humana no centro de tudo. Para Fromm, ser um “humanista radical” significa ir à raiz das coisas — e a raiz para o homem é o próprio homem.

Os livros, assinalados, grifados e comentados nas margens, sugerem que eu e o Professor Marra compartilhamos a tendência de reagir ao conteúdo da leitura, escrevendo nas margens, completando os espaços deixados pelo autor. Puro exercício da marginália.

O termo marginália refere-se ao conjunto de anotações, comentários, desenhos ou marcas feitas nas margens de um texto – especialmente em livros, manuscritos ou documentos.

Os livros rabiscados me fazem lembrar de um princípio fundamental da leitura: os leitores reescrevem a obra dos autores. Mesmo aqueles leitores que preferem não riscar as páginas do livro, farão contribuições que ficam retidas na sua memória. Uma lástima, sinal de avareza intelectual. Em alguns casos raros, os leitores compartilham com outros leitores e até mesmo com o autor do texto original, ampliando o impacto da recriação do leitor.  As anotações do Prof. Marra mostram outro impacto da marginalia: o livro pode viajar no tempo e as impressões anotadas nas páginas impressas soam como mensagens inseridas em uma cápsula do tempo que alguém poderá ler no futuro. Antes que a leitora ou leitor reaja, sei que a anotação poderá cair no abismo do desaparecimento. OUtra lástima. Ao reler trechos da obra de Fromm, eu reagi ao conteúdo do texto original e às impressões do falecido Prof. Marra, com quem eu nem sempre concordava. Descobri que não concordava até mesmo com algumas anotações feitas por mim há mais de 40 anos.

Ao relermos uma obra, mesmo que não anotada, nossas impressões mudam. De certo modo nós nunca relemos uma obra. A nossa interpretação muda ao longo do tempo, ao sabor das nossas experiências, vivências, leituras e observações. Assim foi a releitura de trechos da obra de Fromm que, a meu ver, se mostra ajustada aos tempos em que vivemos. Caso tivesse sobrevivido, o Prof. Marra seria motivado a grifar outras partes da obra diferentes das que fez nos anos 1970.

Como leitor, eu admiro a plasticidade da mente humana que nos permite recriar percepções. Erich Fromm morreu em 1980 na Suíça, enquanto nós, sobreviventes, podemos seguir completando a sua obra. Quanto ao Prof. Marra, eu decretei a sua partida no início desta narrativa. Talvez a sua esposa ainda frequente sebos, vendendo os livros da sua biblioteca. Ou terá sido ela a leitora detalhista que fez as anotações e que decidiu se livrar de alguns livros? Nunca saberemos responder. Enquanto isso eu sigo reorganizando a minha biblioteca e dando chance a encontros inesperados como as mensagens nas garrafas jogadas ao mar.

PS1: Encontrei um envelope sem identificação nas páginas do livro com uma mensagem da minha neta. Lembrei que as crianças nos ensinam as bases do humanismo radical. Preciosidades para acalentar a vida.

PS2: Eu frequentava duas livrarias no Rio de Janeiro a Leonardo da Vinci, maravilhosa bagunça onde eu encontrava obras na área de humanidades e a Livraria Interciências onde encontrava títulos de economia. Como tantas outras, elas não sobreviveram ao teste do tempo. Foi na Interciências que reencontrei o meu amigo Raffi, sentado no chão com um livro nas mãos. O funcionário olhava com ar contrariado. Eu já sabia o estava por acontecer.

E você, leitora ou leitor. Já se deparou com mensagens do passado nas páginas dos livros? Já mudou de opinião na sua vida? Conte a sua experiência.

Perspectiva, Narrativa e Identidade

Um palhaço no picadeiro

Eu me encanto com os palhaços e os artistas do circo. É comum que crianças aceitem a narrativa circense cheia de magia e encantamento. A minha criança me visita quando me lembro da lona e do picadeiro. E foi assim que, ao saber que um circo se instalou no bairro onde eu nasci, convenci meu pai a me levar a ver o espetáculo. Vibrei com os equilibristas, os malabaristas e ginastas. Os artistas eram encantadores e logo me convenceram que eu seria um deles no futuro. Uma faquiresa sorriu para mim deitada sobre uma cama de pregos, e os mágicos – uma especiaria vinda de terras longínquas – me encantaram de modo particular.

O palhaço aparecia maquiado com cores fortes, o seu nariz piscava, usava calças largas penduradas pelo suspensório, sapatos coloridos e enormes que atrapalhavam o seu caminhar. Era um ser vindo de um planeta mágico que, com voz estridente, chorava quando sentia alegria, dor ou tristeza. As suas lágrimas jorravam na minha direção.  Eu virei do avesso, fiquei em dúvida se seria malabarista, faquir ou palhaço.

Ao final do espetáculo seguimos para a saída. Foi quando esbarrei nele, o palhaço estava perto o suficiente para eu tocar na sua roupa dançante. Ele fez uma careta e correu para o camarim. Eu finquei pé, quis esperar a saída daquele ser encantado. Meu pai me puxava para um lado, e eu fincava o pé na direção do palhaço. Queria, porque queria, conversar com ele. Esperamos na porta do camarim onde em poucos minutos um homem apareceu com olhar preocupado, não sorria, estava preso a um paletó surrado e arrastava os pés com um andar lento. Era o palhaço que eu quis conhecer. Eu interrompi a minha carreira antes mesmo de iniciá-la. Guardei o abraço e o beijo. Quem estava ali não era a personagem que encontrei minutos antes. Fui embora decepcionado, compreendi que sonhos existem dentro da realidade.

Narradores Somos: Somos seres narradores, contar histórias é uma característica humana.  Por meio das narrativas representamos o mundo – complexo – e elaboramos, ordenamos, simplificamos a realidade, transformando-a em uma sequência lógica de fatos interligados. Assim fazendo criamos ordem, reduzimos a complexidade ininteligível e criamos uma representação que podemos compreender. As narrativas nos permitem sobrevier, funcionam como interfaces entre nós e a realidade. É assim que organizamos as experiências. Ainda que inventemos narrativas falsas a respeito da realidade ou de nós mesmos, elas carregam informações que nos ajudam a definir a nossa persona, a identidade por meio da qual desejamos nos expressar. Narrar é também escolher a identidade a ser utilizada.

A Perspectiva do Narrador: A narrativa ordena a nossa relação com o mundo. Sejam os narradores do cotidiano – jornalistas por exemplo – sejam os escritores de ficção, ou cientistas restritos às regras da escrita acadêmica, todos precisam pautar as narrativas produzidas. Aquilo que chamamos de PERSPECTIVA é o conjunto de experiências, de crenças e valores que condicionam nossas narrativas.

A perspectiva influencia a escrita e a leitura, uma vez que o leitor é o autor-último da obra. O leitor preenche as lacunas do texto quando o interpreta com base na sua perspectiva. Os cientistas tentam isolar as perspectivas do autor do resultado da obra, o que nem sempre é possível. Os jornalistas se propõem a fazer o mesmo quando narram uma notícia. Missão impossível. Somos dependentes das nossas perspectivas. Ao mesmo tempo que não se deve confundir autor com a obra, também não é possível isolar um do outro. A perspectiva do autor – seja da obra pictórica, escrita ou dramática – estará em alguma medida refletida na obra, ainda que pelo avesso, pela ironia fina que discorda ao concordar, que critica ao elogiar. A escrita, a leitura e a interpretação do texto, dependem da perspectiva do leitor-autor.

O que nos salva da fossilização é a plasticidade das nossas perspectivas que mudam com o tempo, com as experiências vividas, com as leituras que fazemos, com as pessoas que conhecemos, com os acidentes de percurso. Somos seres mutantes conforme aponta Guimarães Rosa no romance Grande Sertão: veredas: “O importante e bonito no mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando.”

Essa condição mutante nos permite discordar das nossas próprias ideias. A plasticidade das perspectivas permite que mudemos de opinião sem que caiba julgamento. Simplesmente as perspectivas mudam, e com elas muda a nossa narrativa. O percurso das mudanças da perspectiva nos informa a respeito de nós mesmos.

Identidade do Narrador: Hoje, quando penso na capacidade humana de narrar, de representar emoções que podem ser contidas em textos, imagens, ou no corpo de atores que encenam um drama, compreendo que o palhaço e o homem que o carrega dentro de si são identidades diferentes da mesma pessoa.

O Prêmio Nobel Amartya Sen[1] discorreu sobre as múltiplas identidades que portamos. Reconhecê-las e utilizá-las de modo adequado pode evitar conflitos e permitir o convívio entre pessoas com diferentes perspectivas. Ponderar que a cada identidade se associa uma perspectiva, nos ajuda a compreender a transformação do palhaço, no homem que saiu do camarim.

A narrativa tem papel central no nosso equilíbrio, possibilita ordenar o mundo complexo que habitamos com base na perspectiva formada pelas nossas crenças e valores. Os papéis sociais que desempenhamos – profissional, familiar, social, político – estão associados às perspectivas e identidades que adotamos. A cada papel se associa uma identidade e uma narrativa, que se espera, estejam em harmonia. A plasticidade da mente é fenômeno humano associado à evolução da espécie. Somos capazes de consolidar, criar memórias de fatos nunca ocorridos, eliminar memórias indesejadas. Mudanças nas perspectivas que balizam o nosso comportamento foi o que Guimarães Rosa apontou quando afirmou que não estamos acabados.

O palhaço que saiu do camarim tem identidade diferente do homem que a criança encontrou ao final do espetáculo. E eu, adulto, revisitando os elementos que formam a minha perspectiva, posso compreender melhor a complexidade da mente humana. Posso escolher as identidades que desejo manter vivas em minha memória.


[1] Amartya Sen. Identity & Violence: The Illusion of Destiny. Penguin Books, 2006, 215 pp.