O termo marginália refere-se ao conjunto de anotações, comentários, desenhos ou marcas feitas nas margens de um texto.
A livraria da Universidade da Carolina do Norte, lá pelos idos dos anos 1980, era frequentada por tipos curiosos. Um deles, meu amigo Raffi, foi proibido de frequentar o local, pois costumava sentar-se ao chão com o livro escolhido nas mãos e só deixava o posto quando concluía a leitura. Decididamente não era um bom cliente para a livraria.
Foi nessa época que uma senhora visitou a sessão de livros usados para vender obras da biblioteca do seu falecido marido. Entre elas havia uma publicação de Erich Fromm intitulada: Man for Himself: an inquiry into the psychology of ethics. Nos anos 1980 eu estudei na Universidade da Carolina do Norte e visitava sebos, livrarias e lojas de discos da cidade. Hoje eu entendo que era um ato de sobrevivência para um jovem submetido às agruras de um programa de doutorado massacrante.
A livraria do campus era a minha preferida, lá eu gastava tempo na seção de “usados”, um sebo como chamamos no Brasil. Foi onde encontrei o livro de Erich Fromm publicado em 1947, aquele deixado pela velha senhora. A identidade do ex-proprietário está na primeira página: Professor Marra. Paguei USD$2,25 e levei o exemplar. Erich Fromm influenciou a minha formação quando passei da adolescência para o que chamamos de idade adulta.

Voltei para o Brasil, saí e voltei novamente, sempre cultivando a biblioteca que reflete a trajetória da minha vida e onde guardo poucas certezas e muitas dúvidas. De forma seletiva me desfiz de vários livros, decisão sempre difícil, pois como saber se no futuro não me farão falta? No início de 2026 eu mudei de casa e de cidade. A biblioteca mais uma vez me acompanhou. As caixas, classificadas de acordo com a minha preferência temática, foram abertas aos poucos e os livros puderam retomar o lugar que lhes cabe. Eis que o livro do Prof. Marra estava novamente nas minhas mãos. Eu passei os olhos pelo conteúdo das páginas amareladas e observei muitas delas assinaladas com grifos e comentários. Na mesma caixa encontrei outra obra de Fromm – Ter ou Ser cujo conteúdo me impressionou na adolescência. Lembrei do conceito de “humanismo radical”, que mereceria ser revisitado nos tempos bicudos que vivemos.
O Humanismo Radical é uma perspectiva filosófica que coloca a dignidade e a libertação humana no centro de tudo. Para Fromm, ser um “humanista radical” significa ir à raiz das coisas — e a raiz para o homem é o próprio homem.
Os livros, assinalados, grifados e comentados nas margens, sugerem que eu e o Professor Marra compartilhamos a tendência de reagir ao conteúdo da leitura, escrevendo nas margens, completando os espaços deixados pelo autor. Puro exercício da marginália.

O termo marginália refere-se ao conjunto de anotações, comentários, desenhos ou marcas feitas nas margens de um texto – especialmente em livros, manuscritos ou documentos.
Os livros rabiscados me fazem lembrar de um princípio fundamental da leitura: os leitores reescrevem a obra dos autores. Mesmo aqueles leitores que preferem não riscar as páginas do livro, farão contribuições que ficam retidas na sua memória. Uma lástima, sinal de avareza intelectual. Em alguns casos raros, os leitores compartilham com outros leitores e até mesmo com o autor do texto original, ampliando o impacto da recriação do leitor. As anotações do Prof. Marra mostram outro impacto da marginalia: o livro pode viajar no tempo e as impressões anotadas nas páginas impressas soam como mensagens inseridas em uma cápsula do tempo que alguém poderá ler no futuro. Antes que a leitora ou leitor reaja, sei que a anotação poderá cair no abismo do desaparecimento. OUtra lástima. Ao reler trechos da obra de Fromm, eu reagi ao conteúdo do texto original e às impressões do falecido Prof. Marra, com quem eu nem sempre concordava. Descobri que não concordava até mesmo com algumas anotações feitas por mim há mais de 40 anos.
Ao relermos uma obra, mesmo que não anotada, nossas impressões mudam. De certo modo nós nunca relemos uma obra. A nossa interpretação muda ao longo do tempo, ao sabor das nossas experiências, vivências, leituras e observações. Assim foi a releitura de trechos da obra de Fromm que, a meu ver, se mostra ajustada aos tempos em que vivemos. Caso tivesse sobrevivido, o Prof. Marra seria motivado a grifar outras partes da obra diferentes das que fez nos anos 1970.
Como leitor, eu admiro a plasticidade da mente humana que nos permite recriar percepções. Erich Fromm morreu em 1980 na Suíça, enquanto nós, sobreviventes, podemos seguir completando a sua obra. Quanto ao Prof. Marra, eu decretei a sua partida no início desta narrativa. Talvez a sua esposa ainda frequente sebos, vendendo os livros da sua biblioteca. Ou terá sido ela a leitora detalhista que fez as anotações e que decidiu se livrar de alguns livros? Nunca saberemos responder. Enquanto isso eu sigo reorganizando a minha biblioteca e dando chance a encontros inesperados como as mensagens nas garrafas jogadas ao mar.
PS1: Encontrei um envelope sem identificação nas páginas do livro com uma mensagem da minha neta. Lembrei que as crianças nos ensinam as bases do humanismo radical. Preciosidades para acalentar a vida.
PS2: Eu frequentava duas livrarias no Rio de Janeiro a Leonardo da Vinci, maravilhosa bagunça onde eu encontrava obras na área de humanidades e a Livraria Interciências onde encontrava títulos de economia. Como tantas outras, elas não sobreviveram ao teste do tempo. Foi na Interciências que reencontrei o meu amigo Raffi, sentado no chão com um livro nas mãos. O funcionário olhava com ar contrariado. Eu já sabia o estava por acontecer.
E você, leitora ou leitor. Já se deparou com mensagens do passado nas páginas dos livros? Já mudou de opinião na sua vida? Conte a sua experiência.







