Talvez você conheça a canção “Com Açúcar, com Afeto”, em que Chico Buarque descreve, com sensibilidade, o cotidiano de uma mulher que espera o marido em casa. Ou quem sabe as árias de Porgy and Bess, de George Gershwin, que imortalizaram o protagonismo e as dores de mulheres negras, produzidas nos anos 30.
O que essas obras têm em comum, além do talento dos autores, o fato de terem sido criadas por homens que “atravessaram a fronteira” de suas próprias identidades. Gershwin era um judeu branco do Brooklyn; Chico é um homem da elite intelectual carioca. Nenhum deles viveu na pele o que seus personagens viveram, mas ambos foram capazes de capturar dramas humanos universais — perda, exclusão, amor e solidão — que não escolhem cor, gênero ou fé.
Essa capacidade de se colocar no lugar do outro para expressar uma dor que não é sua é a marca fundamental do humanismo. No entanto, hoje vivemos a popularidade do conceito de “lugar de fala”. Ele faz sentido quando serve para dar voz a quem sempre foi silenciado, mas perde o alvo em sua versão radical.
O problema surge quando o “lugar de fala” vira um monopólio do sentido. Se acreditarmos que apenas quem carrega determinada identidade pode falar sobre ela, destruímos a ponte da empatia. Eu, por exemplo, me permito sentir a dor do povo palestino em Gaza. Meu histórico familiar de perdas no Holocausto não me afasta desse sentimento; pelo contrário, ele me qualifica a compartilhar essa dor humana.
Como afirma o autor Amartya Sen, sempre teremos alguma identidade comum que nos permite conversar. Somos diferentes, mas compartilhamos humanidade. Sem essa troca, o mundo vira uma Torre de Babel onde todos gritam e ninguém se entende.
Gershwin e Chico assumiram vozes alheias com respeito e profundidade. Eles provaram que a sensibilidade é o que nos salva do isolamento. Afinal, a arte e o diálogo só sobrevivem quando temos a coragem de enxergar o outro como uma extensão de nós mesmos.
O termo marginália refere-se ao conjunto de anotações, comentários, desenhos ou marcas feitas nas margens de um texto.
A livraria da Universidade da Carolina do Norte, lá pelos idos dos anos 1980, era frequentada por tipos curiosos. Um deles, meu amigo Raffi, foi proibido de frequentar o local, pois costumava sentar-se ao chão com o livro escolhido nas mãos e só deixava o posto quando concluía a leitura. Decididamente não era um bom cliente para a livraria.
Foi nessa época que uma senhora visitou a sessão de livros usados para vender obras da biblioteca do seu falecido marido. Entre elas havia uma publicação de Erich Fromm intitulada: Man for Himself: an inquiry into the psychology of ethics. Nos anos 1980 eu estudei na Universidade da Carolina do Norte e visitava sebos, livrarias e lojas de discos da cidade. Hoje eu entendo que era um ato de sobrevivência para um jovem submetido às agruras de um programa de doutorado massacrante.
A livraria do campus era a minha preferida, lá eu gastava tempo na seção de “usados”, um sebo como chamamos no Brasil. Foi onde encontrei o livro de Erich Fromm publicado em 1947, aquele deixado pela velha senhora. A identidade do ex-proprietário está na primeira página: Professor Marra. Paguei USD$2,25 e levei o exemplar. Erich Fromm influenciou a minha formação quando passei da adolescência para o que chamamos de idade adulta.
Voltei para o Brasil, saí e voltei novamente, sempre cultivando a biblioteca que reflete a trajetória da minha vida e onde guardo poucas certezas e muitas dúvidas. De forma seletiva me desfiz de vários livros, decisão sempre difícil, pois como saber se no futuro não me farão falta? No início de 2026 eu mudei de casa e de cidade. A biblioteca mais uma vez me acompanhou. As caixas, classificadas de acordo com a minha preferência temática, foram abertas aos poucos e os livros puderam retomar o lugar que lhes cabe. Eis que o livro do Prof. Marra estava novamente nas minhas mãos. Eu passei os olhos pelo conteúdo das páginas amareladas e observei muitas delas assinaladas com grifos e comentários. Na mesma caixa encontrei outra obra de Fromm – Ter ou Ser cujo conteúdo me impressionou na adolescência. Lembrei do conceito de “humanismo radical”, que mereceria ser revisitado nos tempos bicudos que vivemos.
O Humanismo Radical é uma perspectiva filosófica que coloca a dignidade e a libertação humana no centro de tudo. Para Fromm, ser um “humanista radical” significa ir à raiz das coisas — e a raiz para o homem é o próprio homem.
Os livros, assinalados, grifados e comentados nas margens, sugerem que eu e o Professor Marra compartilhamos a tendência de reagir ao conteúdo da leitura, escrevendo nas margens, completando os espaços deixados pelo autor. Puro exercício da marginália.
O termo marginália refere-se ao conjunto de anotações, comentários, desenhos ou marcas feitas nas margens de um texto – especialmente em livros, manuscritos ou documentos.
Os livros rabiscados me fazem lembrar de um princípio fundamental da leitura: os leitores reescrevem a obra dos autores. Mesmo aqueles leitores que preferem não riscar as páginas do livro, farão contribuições que ficam retidas na sua memória. Uma lástima, sinal de avareza intelectual. Em alguns casos raros, os leitores compartilham com outros leitores e até mesmo com o autor do texto original, ampliando o impacto da recriação do leitor. As anotações do Prof. Marra mostram outro impacto da marginalia: o livro pode viajar no tempo e as impressões anotadas nas páginas impressas soam como mensagens inseridas em uma cápsula do tempo que alguém poderá ler no futuro. Antes que a leitora ou leitor reaja, sei que a anotação poderá cair no abismo do desaparecimento. OUtra lástima. Ao reler trechos da obra de Fromm, eu reagi ao conteúdo do texto original e às impressões do falecido Prof. Marra, com quem eu nem sempre concordava. Descobri que não concordava até mesmo com algumas anotações feitas por mim há mais de 40 anos.
Ao relermos uma obra, mesmo que não anotada, nossas impressões mudam. De certo modo nós nunca relemos uma obra. A nossa interpretação muda ao longo do tempo, ao sabor das nossas experiências, vivências, leituras e observações. Assim foi a releitura de trechos da obra de Fromm que, a meu ver, se mostra ajustada aos tempos em que vivemos. Caso tivesse sobrevivido, o Prof. Marra seria motivado a grifar outras partes da obra diferentes das que fez nos anos 1970.
Como leitor, eu admiro a plasticidade da mente humana que nos permite recriar percepções. Erich Fromm morreu em 1980 na Suíça, enquanto nós, sobreviventes, podemos seguir completando a sua obra. Quanto ao Prof. Marra, eu decretei a sua partida no início desta narrativa. Talvez a sua esposa ainda frequente sebos, vendendo os livros da sua biblioteca. Ou terá sido ela a leitora detalhista que fez as anotações e que decidiu se livrar de alguns livros? Nunca saberemos responder. Enquanto isso eu sigo reorganizando a minha biblioteca e dando chance a encontros inesperados como as mensagens nas garrafas jogadas ao mar.
PS1: Encontrei um envelope sem identificação nas páginas do livro com uma mensagem da minha neta. Lembrei que as crianças nos ensinam as bases do humanismo radical. Preciosidades para acalentar a vida.
PS2: Eu frequentava duas livrarias no Rio de Janeiro a Leonardo da Vinci, maravilhosa bagunça onde eu encontrava obras na área de humanidades e a Livraria Interciências onde encontrava títulos de economia. Como tantas outras, elas não sobreviveram ao teste do tempo. Foi na Interciências que reencontrei o meu amigo Raffi, sentado no chão com um livro nas mãos. O funcionário olhava com ar contrariado. Eu já sabia o estava por acontecer.
E você, leitora ou leitor. Já se deparou com mensagens do passado nas páginas dos livros? Já mudou de opinião na sua vida? Conte a sua experiência.
Eu me encanto com os palhaços e os artistas do circo. É comum que crianças aceitem a narrativa circense cheia de magia e encantamento. A minha criança me visita quando me lembro da lona e do picadeiro. E foi assim que, ao saber que um circo se instalou no bairro onde eu nasci, convenci meu pai a me levar a ver o espetáculo. Vibrei com os equilibristas, os malabaristas e ginastas. Os artistas eram encantadores e logo me convenceram que eu seria um deles no futuro. Uma faquiresa sorriu para mim deitada sobre uma cama de pregos, e os mágicos – uma especiaria vinda de terras longínquas – me encantaram de modo particular.
O palhaço aparecia maquiado com cores fortes, o seu nariz piscava, usava calças largas penduradas pelo suspensório, sapatos coloridos e enormes que atrapalhavam o seu caminhar. Era um ser vindo de um planeta mágico que, com voz estridente, chorava quando sentia alegria, dor ou tristeza. As suas lágrimas jorravam na minha direção. Eu virei do avesso, fiquei em dúvida se seria malabarista, faquir ou palhaço.
Ao final do espetáculo seguimos para a saída. Foi quando esbarrei nele, o palhaço estava perto o suficiente para eu tocar na sua roupa dançante. Ele fez uma careta e correu para o camarim. Eu finquei pé, quis esperar a saída daquele ser encantado. Meu pai me puxava para um lado, e eu fincava o pé na direção do palhaço. Queria, porque queria, conversar com ele. Esperamos na porta do camarim onde em poucos minutos um homem apareceu com olhar preocupado, não sorria, estava preso a um paletó surrado e arrastava os pés com um andar lento. Era o palhaço que eu quis conhecer. Eu interrompi a minha carreira antes mesmo de iniciá-la. Guardei o abraço e o beijo. Quem estava ali não era a personagem que encontrei minutos antes. Fui embora decepcionado, compreendi que sonhos existem dentro da realidade.
Narradores Somos: Somos seres narradores, contar histórias é uma característica humana. Por meio das narrativas representamos o mundo – complexo – e elaboramos, ordenamos, simplificamos a realidade, transformando-a em uma sequência lógica de fatos interligados. Assim fazendo criamos ordem, reduzimos a complexidade ininteligível e criamos uma representação que podemos compreender. As narrativas nos permitem sobrevier, funcionam como interfaces entre nós e a realidade. É assim que organizamos as experiências. Ainda que inventemos narrativas falsas a respeito da realidade ou de nós mesmos, elas carregam informações que nos ajudam a definir a nossa persona, a identidade por meio da qual desejamos nos expressar. Narrar é também escolher a identidade a ser utilizada.
A Perspectiva do Narrador: A narrativa ordena a nossa relação com o mundo. Sejam os narradores do cotidiano – jornalistas por exemplo – sejam os escritores de ficção, ou cientistas restritos às regras da escrita acadêmica, todos precisam pautar as narrativas produzidas. Aquilo que chamamos de PERSPECTIVA é o conjunto de experiências, de crenças e valores que condicionam nossas narrativas.
A perspectiva influencia a escrita e a leitura, uma vez que o leitor é o autor-último da obra. O leitor preenche as lacunas do texto quando o interpreta com base na sua perspectiva. Os cientistas tentam isolar as perspectivas do autor do resultado da obra, o que nem sempre é possível. Os jornalistas se propõem a fazer o mesmo quando narram uma notícia. Missão impossível. Somos dependentes das nossas perspectivas. Ao mesmo tempo que não se deve confundir autor com a obra, também não é possível isolar um do outro. A perspectiva do autor – seja da obra pictórica, escrita ou dramática – estará em alguma medida refletida na obra, ainda que pelo avesso, pela ironia fina que discorda ao concordar, que critica ao elogiar. A escrita, a leitura e a interpretação do texto, dependem da perspectiva do leitor-autor.
O que nos salva da fossilização é a plasticidade das nossas perspectivas que mudam com o tempo, com as experiências vividas, com as leituras que fazemos, com as pessoas que conhecemos, com os acidentes de percurso. Somos seres mutantes conforme aponta Guimarães Rosa no romance Grande Sertão: veredas: “O importante e bonito no mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando.”
Essa condição mutante nos permite discordar das nossas próprias ideias. A plasticidade das perspectivas permite que mudemos de opinião sem que caiba julgamento. Simplesmente as perspectivas mudam, e com elas muda a nossa narrativa. O percurso das mudanças da perspectiva nos informa a respeito de nós mesmos.
Identidade do Narrador: Hoje, quando penso na capacidade humana de narrar, de representar emoções que podem ser contidas em textos, imagens, ou no corpo de atores que encenam um drama, compreendo que o palhaço e o homem que o carrega dentro de si são identidades diferentes da mesma pessoa.
O Prêmio Nobel Amartya Sen[1] discorreu sobre as múltiplas identidades que portamos. Reconhecê-las e utilizá-las de modo adequado pode evitar conflitos e permitir o convívio entre pessoas com diferentes perspectivas. Ponderar que a cada identidade se associa uma perspectiva, nos ajuda a compreender a transformação do palhaço, no homem que saiu do camarim.
A narrativa tem papel central no nosso equilíbrio, possibilita ordenar o mundo complexo que habitamos com base na perspectiva formada pelas nossas crenças e valores. Os papéis sociais que desempenhamos – profissional, familiar, social, político – estão associados às perspectivas e identidades que adotamos. A cada papel se associa uma identidade e uma narrativa, que se espera, estejam em harmonia. A plasticidade da mente é fenômeno humano associado à evolução da espécie. Somos capazes de consolidar, criar memórias de fatos nunca ocorridos, eliminar memórias indesejadas. Mudanças nas perspectivas que balizam o nosso comportamento foi o que Guimarães Rosa apontou quando afirmou que não estamos acabados.
O palhaço que saiu do camarim tem identidade diferente do homem que a criança encontrou ao final do espetáculo. E eu, adulto, revisitando os elementos que formam a minha perspectiva, posso compreender melhor a complexidade da mente humana. Posso escolher as identidades que desejo manter vivas em minha memória.
[1] Amartya Sen. Identity & Violence: The Illusion of Destiny. Penguin Books, 2006, 215 pp.
Yoshi Oida, no livro “O Ator Invisível” discute a importância da “repetição dos movimentos” para o aperfeiçoamento do ator. Ele rompeu com a rigidez do teatro Nô e Kabuki e apresentou para o público ocidental conceitos sobre o uso do corpo, da voz, da mente que são úteis para funções que vão além do teatro. Oida discute o efeito dos movimentos repetitivos que nos permitem compreender algo que, segundo ele, não pode ser explicado em termos lógicos. Afirma: “Talvez, pela repetição, possamos compreender o que somos como simples seres humanos”.
Os atos repetitivos estão presentes em diferentes culturas. Nos rituais religiosos, na vocalização de mantras, no passo repetitivo das peregrinações. São exemplos de funções que nos ajudam a melhor conhecer o nosso entorno e a nós mesmos. Os atores são treinados a repetir as cenas inúmeras vezes nos ensaios. Os lutadores de artes marciais repetem as sequências até a exaustão. Os atletas repetem os movimentos buscando atingir a perfeição. Os escritores sabem que a repetição da escrita do texto os leva a compreender o que desejam transmitir. Escrever é reescrever.
A repetição cria um senso de bem estar que alguns relacionam com a busca da perfeição, sentimento de completude. Outros, como Oida, preferem associar a sensação com o conhecimento de si e com a ampliação dos sentidos. Quem escreve percebe os dois efeitos, da expressão profunda dos sentimentos e do ordenamento da mente. Ao repetirmos os movimentos, passamos a agir na esfera da emoção que significa mais do que a perfeição estilística. Quem observa um ator ou um praticante de artes marciais que executou o mesmo movimento incontáveis vezes ou quem lê um texto que passou pelo refinamento da reescrita, percebe a presença ampliada dos sentidos.
A repetição atenta, aquela que aprofunda o conhecimento da ação realizada, demanda tempo. Talvez este seja o obstáculo que a sociedade moderna encontra. O tempo necessário para a repetição não está mais disponível. Conforme destaca Domenico de Masi, o tempo é artigo de luxo que não pode ser comprado no mercado, somos nós que precisamos recuperar o tempo humano de fazer as coisas. Se negligenciarmos o tempo da repetição, da introspecção, e da não atividade, pagaremos um preço pela nossa negligência.
Algo que pode ter acontecido: No passado paleolítico, cerca de 40.000 anos atrás, uma mulher observava os restos de uma fogueira que aquecia a caverna onde se abrigava. Com um pedaço de madeira carbonizada ela marcou as paredes desenhando um traço, a seguir, desenhou dois traços, pensando no homem com quem se acasalou. Ela o representou de forma simples. Foi o bastante para lembrar-lhe do momento que passaram juntos e lhe causou uma sensação que desejou perpetuar. Estava inaugurada a escrita.
Tempos depois outro habitante entrou na caverna e observou os traços na parede. Entendeu que eles representavam duas pessoas, um homem e uma mulher. Mesmo que o desenho não transmitisse a sensação de felicidade da mulher-escritora, uma mensagem foi recebida. Estava inaugurada a leitura.
A leitura é um processo de decodificação. Alguém transmite uma mensagem por meio de um código simbólico compartilhado. Algum fato ocorrido, uma cena observada, ou um sonho, algo que motivou o desejo de expressar uma mensagem. Quem lê interpreta símbolos. A intenção original da mensagem – a emoção do encontro de dois amantes na caverna – pode ficar obscura para o leitor. A escrita e leitura exigem diferente processamento mental.
Intenções da Escrita e da Leitura: A transmissão de mensagens tem propósitos específicos. A mulher na caverna expressou um sentimento de prazer efêmero, e intuiu que o desenho lhe permitiria rememorar a emoção sentida. Ela talvez desejasse compartilhar a sensação de felicidade que teve, tal como fazemos ao postar uma mensagem nas redes sociais.
O uso utilitário da escrita, de outro modo, deseja transmitir mensagens objetivas, sem a intenção de interpretações. A escrita utilitária, burocrática por natureza, se presta a transmitir regras de convivência social como nos códigos legais, ou instruções nos manuais fabris. Podem ser receitas culinárias, bulas de medicamentos, manuais de uso de automóveis. Nada que tenha a intenção de transmitir emoções. Claro que este tipo de escrita, por mais detalhista que seja, não elimina a interpretação. É comum que as receitas culinárias recomendem o uso de um punhado de sal, ou de pimenta a gosto. Caberá à cozinheira interpretar o quanto de condimento deve utilizar.
Já a escrita ideológica deseja transmitir certezas dogmáticas que, longe de motivar a criatividade do leitor, utiliza jargões sem espaço para o debate, a não ser que seja travado dentro de margens definidas pelo comando do grupo. Sem o intuito de contestar ou interpretar, a escrita ideológica se presta a defender ortodoxias.
A escrita científica é outra modalidade, utilizada em estudos acadêmicos com a pretensão de evocar a objetividade proposta pelo pensamento positivista. Evita o uso de frases dúbias, pronomes na primeira e segunda pessoas, deseja transmitir mensagens inequívocas a respeito de uma hipótese testada com base em determinada teoria. O texto científico deve coerência aos pressupostos teóricos adotados, e as conclusões serão válidas se obedecerem a uma lógica interna. Embora o leitor possa discordar dos preceitos teóricos, o que se espera é coerência. O fazer científico se consolidou de forma segmentada e parcial. Não captura a complexidade dos temas mais simples, conforme defende Edgar Morin[1], mas é o que temos como base do conhecimento. Que sejamos capazes de perceber as suas limitações.
As Bases da Leitura Criativa: O escritor argentino Ernesto Sábato – que foi cientista renomado – afirmou que a ciência revela a verdade até certo ponto, mas só a arte tem a capacidade de ir além. Diferente da leitura burocrática, ideológica ou científica, a leitura criativa tem natureza subversiva e desafiadora. Nessa modalidade um leitor transita livremente dentro do texto e dele se apropria. A sua interpretação não raro desafia e surpreende o autor, ultrapassa a intenção original. O leitor navega nas lacunas deixadas pelo autor. As imprecisões no texto motivam o espírito do leitor. A leitura criativa incomoda. Diferentes modalidades de ficção, bem como a literatura ensaística levam o leitor a pensar, desvendar, rever as suas certezas.
A escritora Siri Hustvedt, sugere que o leitor é possuído pelo texto. Ao ter a mente capturada, ele vive uma experiência que pode mudar para sempre a sua vida. Ela elabora sobre a ampliação da competência cognitiva que resulta da leitura de autores com perfis diferentes do seu, seja em gênero, nacionalidade, ideologia, raça, renda, ou cultura. A captura da mente amplia a compreensão da realidade. Eis a viagem que a leitura proporciona.
Repito, a leitura é decodificação de mensagens simbólicas. Ler nos convida a preencher as lacunas deixadas pelo autor, sejam elas intencionais ou não. Por serem códigos construídos em bases diferentes, a leitura abre espaço na mente dos leitores, desafia certezas e preconceitos. A obra Dom Casmurro de Machado de Assis exemplifica o uso da lacuna intencional que deixa em aberto um elemento do enredo, e de modo simultâneo elabora sobre um preconceito machista a respeito do comportamento feminino. Capitu pode ter traído Bentinho, porquoi pas?
Interpretação Criativa do Texto: Interpretar códigos simbólicos implica no uso da bagagem de informações acumuladas, portanto a memória exerce papel importante. A escritora e ensaista Siri Hustvedt estudou neurociências para discutir a interpretação da realidade[2] . No Brasil os trabalhos do médico e neurocientista Ivan Izquierdo[3] abriram perspectivas para o público não especializado. Ambos escrevem sobre a memória seletiva e a reconsolidação da memória. Segundo os autores, as nossas mentes se desfazem de parte das informações inúteis ou que são insustentáveis. Não apenas se desfazem, mas reconsolidam as informações que permanecem. As nossas lembranças são retrabalhadas de modo a se tornarem palatáveis. Somos capazes de criar memórias a respeito de fatos que não ocorreram, mas que se tornaram reais. Narradores que somos, inventamos histórias para tornar as nossas vidas possíveis.
Conectando a plasticidade da memória com a interpretação de textos, compreendemos por que dois leitores percebem de modo diferente os códigos do mesmo texto. Compreendemos as interpretações desiguais de um mesmo texto lido em épocas diferentes da nossa vida. A neurociência tateia a superfície do fenômeno cognitivo do cérebro humano. Os mecanismos associados à cognição são complexos, gravamos cenas e fatos que nos causaram emoção. Nos livramos das memórias indesejáveis e reconstruímos as nossas próprias histórias. Somos a nossa memória, como afirmou Ivan Izquierdo. E pouco sabemos dela.
Leitura Criativa, enfim: Quando aceitamos entrar no texto com a intenção de explorar todas as suas possibilidades. Quando entendemos que a decodificação das mensagens pode extrapolar a intenção de quem as gerou. Quando aceitamos viajar ao lado do autor sem receio de nos descolarmos dele. Quando preenchemos as lacunas do texto desafiando o autor, encontramos o caminho da leitura criativa que nos permite entrar na mente de pessoas, com gêneros, ideologias, cultura, e raças diferentes das nossas. Pode nos causar algum incômodo inicial, mas passaremos a ver o mundo com diferentes perspectivas e com a certeza de sermos mais humanos.
Em tempo: Talvez a pessoa que viu a mensagem desenhada na caverna, tenha interpretado e sonhado com o prazer daquele encontro. Talvez tenha deixado a sua mente viajar e repensou a sua própria história. Talvez tenha sido a primeira leitura criativa. Talvez. Porquoi pas?
[1] Morin, E. Introdução ao pensamento complexo, 2005. Ed. Sulina.120 pp.
[2] Hustvedt, S. 2012. Living, Thinking, Looking. Ed. Sceptre. 400 pp.