Sobre Identidades

Amartya Sen

Sobre identidades

Aquele livro me convidou a retirá-lo da estante na livraria do aeroporto. Destoava dos demais que eram de autoajuda ou obras dos gurus da administração corporativa. Estava ali por engano, talvez uma troca de caixas na hora de carregar o furgão.  O autor era o Prêmio Nobel Amartya Sen e o título, “Identidade e Violência.”

O livro inicia com a narrativa do desembarque do autor no aeroporto de Heathrow onde o agente de imigração resolveu crivá-lo de perguntas. A tez escura e traços indianos do Professor Sen denunciavam ser um estrangeiro. Mais um hindu entrando no Reino Unido, deve ter pensado o agente da imigração desconhecendo as outras identidades do Prêmio Nobel, Professor da Universidade de Cambridge e cidadão britânico. Uma pergunta foi o gatilho para o tema do livro, “Quem é o senhor?” , a partir dela o autor discorreu sobre o tema da identidade e da violência.

A espécie humana sempre se deslocou. O mundo pré-colonial experimentou fluxos migratórios que se intensificaram no período colonialista. Nó século XVI a escravidão dos povos negros movimentou milhões de africanos de diversas etnias em direção ao continente americano, muitos pereceram no caminho. No século XX os fluxos migratórios se intensificaram expondo a fragilidade dos desterrados. A migração em massa foi impulsionada pelo colonialismo, perseguições políticas, religiosas, ou simplesmente pela miséria. As diásporas, seja a africana, a hebreia, a oriental, e tantas outras, geraram mudanças permanentes na configuração da sociedade.

Nas cidades modernas como São Paulo, Nova Iorque, Londres ou Amsterdam, a diversidade étnica é marcante bem como a tendência de aglutinação dos imigrantes nos bairros periféricos ou na região central decadente de algumas cidades. Existem bairros nigerianos, bolivianos, coreanos e haitianos na cidade de São Paulo. A aglutinação é uma resposta natural às ameaças.

Fato é que a sociedade moderna alterou o quadro de estabilidade tradicional. Os grupos de imigrantes convivem socialmente com os habitantes locais, seja nos vagões dos metropolitanos, nas escolas e hospitais públicos, ou no ambiente de trabalho. A mão de obra do imigrante é necessária nos países de maior renda.

O estado de homogeneidade de outrora reduzia o custo da realização de trocas, no sentido mais amplo deste termo. As regras estabelecidas, eram baseadas no estado de conformidade. As sociedades homogêneas eram estáveis, todos compartilhavam os mesmos códigos, idioma e valores. Eventuais divisões internas dos grupos eram definidas e aceitas, como nas castas entre os hindus. Na presença de conflitos, juízes tradicionais determinavam soluções, em outros casos a solução surgia do convívio estruturado ao redor de interesses comuns a exemplo do que ocorreu entre judeus e muçulmanos na península ibérica do século XIV.

A condição que vivemos no século XXI se baseia no convívio intercultural. As regras sociais que garantiam harmonia e facilitavam as trocas e a solução de crises, perderam eficácia e foram substituídas por por normas formais. Os sacerdotes e sábios deram lugar aos juízes que interpretam os códigos legais.

As diferenças geram discriminação e violência como observada na Índia, em diversos períodos desde a independência até os dias atuais. O conflito Israelense-Palestino tem razões ainda mais complexas para a desarmonia entre semitas. A violência é previsível sendo o campo onde Amartya Sen desenvolve seus argumentos que apontam, primeiro para a necessidade do desenvolvimento de instituições sólidas que permitam o acesso igualitário a oportunidades econômicas e, segundo, enfatiza o uso das múltiplas identidades que carregamos, como forma de estabelecer pontes facilitadoras para a  interação.

 As pontes podem ser encontradas na resposta à indagação feita pelo agente da imigração do aeroporto de Heathrow. Quem é você? Cada um de nós, somos muitos. A nossa essência é multifacetada, e nossas identidades podem ser associadas à religião, cor da pele, o time de futebol, a profissão, o estilo musical preferido. Eis a chave apontada por Sen, a diversidade das identidades que carregamos sugere a existência de alguma que facilitará o diálogo. O exemplo do movimento pela paz organizados pelas mulheres israelenses de origem árabe e judaica exemplifica o mote desta utopia, com base na identidade feminina. O sentido de pertencimento local e universal pode atuar sobre as singularidades que nos separam e as identidades que nos unem.

No mundo distópico onde o fosso entre padrões de renda e acesso a serviços de educação e saúde desafiam o equilíbrio social, não podemos esperar que as lideranças que não disfarçam a ignorância e os propósitos menores, possam ser os agentes de transformação. Tais lideranças destruíram as instituições construídas no pós guerra, cuja meta era evitar que as barbáries se repetissem.

Restam as utopias que nos movem. Utopias de regenerar instituições que visem distribuir oportunidades e as utopias do encontro de identidades comuns que permitam o convívio humano decente, criativo e fértil.

2 comentários sobre “Sobre Identidades

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.