
A vitrine suja não impedia que eu observasse o trabalho do artesão dentro da loja de artigos de cerâmica. Eu andava pela Liberdade, o bairro oriental de São Paulo, diante de uma vitrine vi um homem com traços orientais cuja idade não consegui identificar. Era imberbe e tinha cabelos grisalhos, com movimentos lentos espalhava, sobre uma mesa, fragmentos de um objeto de cerâmica. Utilizava pinças tentando juntá-los com devoção quase religiosa. Comparava, media, encaixava as partes do objeto em busca do encontro perfeito, do ideal das almas gêmeas. O homem mantinha a respiração sob controle e o olhar focalizado no trabalho. Parecia ser uma tarefa difícil, com um lenço ele enxugava o suor que lhe escorria pela fronte enquanto examinava as peças do quebra-cabeças tridimensional. Quando a tentativa não tinha êxito o seu semblante acusava o insucesso, o que era revelado por meio de contorções labiais, suspiros profundos e ar desolado. Algumas vezes encheu as bochechas que inflaram antes de expelirem o ar acumulado, como um Louis Armstrong oriental. Algumas vezes colocava as partes de cerâmica sobre a mesa e se afastava rolando a cadeira giratória. Assim fazia para melhor observar a cena da luta que ele travava em busca da perfeição, depois voltava à carga.
A certa altura pareceu exausto, colocou as pinças sobre a mesa, apagou lâmpada que o auxiliava, deu um suspiro de desesperança e saiu do meu campo de visão. Quando retornou eu ainda observava o local de trabalho vazio sem perceber o quanto era invasivo, eu era um intruso a testemunhar um momento do insucesso, e ninguém gosta de ser observado em meio a uma batalha perdida. Ele olhou para o lado e ao me ver na rua fez sinal com as mãos para que eu entrasse. O seu olhar sincero me fez aceitar o convite, abri a porta de vidro emoldurada em madeira e ao fazê-lo ouvi o som de um sino. Entrei acompanhado pelo som agudo que anunciava a chegada dos clientes, a loja estava entulhada com objetos de cerâmica sem padrão definido, alguns pretendiam ser decorativos, outros utilitários, todos estavam empoeirados. O homem não perguntou o que eu queria, apenas disse – fique à vontade – acendeu a lâmpada e retomou o trabalho.
Eu fingi escolher um objeto enquanto mantinha a atenção nos gestos do artesão. Percebi quando ele tomou fôlego de Sisifo e voltou a reconstruir as partes espalhadas pela mesa. Ao encontrar duas peças que se casaram perfeitamente, um ar de felicidade transpareceu não apenas do seu rosto mas de todo o corpo.

– Conseguiu? – Eu perguntei.
– Sim, um bom começo, mas terei um longo caminho pela frente.
– É uma peça valiosa?
– Depende como você a olhar. A peça compõe um jogo de chá que a minha avó trouxe do Japão, é um conjunto comum produzido por um ceramista anônimo da aldeia da minha família. Esta é a única herança que eu tenho, o único objeto que minha avó deixou. Foi estilhaçado em um acidente.
– Você vai conseguir recuperá-lo como o original?
O homem me apontou o olhar sugerindo que eu não havia compreendido o que ele fazia.
– Seria impossível, não honraria a história do objeto. A beleza desta cerâmica está na imperfeição e se esconde nos fragmentos sobreviventes. O objeto antigo foi perdido quando se quebrou no acidente, o que me resta é aceitar a perda e recompô-lo na medida do possível. Se eu tiver sucesso, outra beleza surgirá da recomposição das partes. Este é o conceito da arte do kintsugi que recompõe fragmentos de cerâmica quebrada juntados com uma mistura de goma e pó de ouro.
– Kintsugi, pó de ouro! – Eu repeti as palavras tal como as ouvi e ele explicou.
– Kin, significa ouro e tsugi significa conectar, portanto kintsugi é conectar com ouro, uma arte que tem 500 anos.
O homem girou a cadeira que o acomodava, levantou-se e mostrou um objeto recuperado, era uma chávena feita de fragmentos conectados com pó de ouro. Ela revelava certa harmonia nos veios dourados marcados em ouro na superfície.
– Esta cerâmica foi reconstruída, não é aquela que lhe deu origem. Se eu fui feliz na sua reconstrução, os veios dourados visíveis nas faces conectadas devem exprimir a beleza das imperfeições. Sugerem que a perda é um passo para revelar outra beleza, diferente daquela que ficou na memória. Novo ou velho, são adjetivos que não capturam a essência dos trajetos percorridos.
O homem levantou-se e caminhou com dificuldade, precisou apoiar-se na parede. Ao aproximar-se da lâmpada eu vi que ele tinha o rosto, o pescoço e os braços marcados por cicatrizes. Talvez um acidente, talvez ele mesmo tenha sido reconstituído. O artesão retomou o trabalho de busca das peças que seriam as próximas a compor o jogo de chá da sua avó. Compreendi que ele recompunha a sua própria história, colava com ouro as peças que que se encaixavam e recriava as partes desencontradas. O rosto do homem, marcado por cicatrizes, tinha certa beleza.




