Um palhaço no picadeiro

Eu me encanto com os palhaços e os artistas do circo. É comum que crianças aceitem a narrativa circense cheia de magia e encantamento. A minha criança me visita quando me lembro da lona e do picadeiro. E foi assim que, ao saber que um circo se instalou no bairro onde eu nasci, convenci meu pai a me levar a ver o espetáculo. Vibrei com os equilibristas, os malabaristas e ginastas. Os artistas eram encantadores e logo me convenceram que eu seria um deles no futuro. Uma faquiresa sorriu para mim deitada sobre uma cama de pregos, e os mágicos – uma especiaria vinda de terras longínquas – me encantaram de modo particular.

O palhaço aparecia maquiado com cores fortes, o seu nariz piscava, usava calças largas penduradas pelo suspensório, sapatos coloridos e enormes que atrapalhavam o seu caminhar. Era um ser vindo de um planeta mágico que, com voz estridente, chorava quando sentia alegria, dor ou tristeza. As suas lágrimas jorravam na minha direção.  Eu virei do avesso, fiquei em dúvida se seria malabarista, faquir ou palhaço.

Ao final do espetáculo seguimos para a saída. Foi quando esbarrei nele, o palhaço estava perto o suficiente para eu tocar na sua roupa dançante. Ele fez uma careta e correu para o camarim. Eu finquei pé, quis esperar a saída daquele ser encantado. Meu pai me puxava para um lado, e eu fincava o pé na direção do palhaço. Queria, porque queria, conversar com ele. Esperamos na porta do camarim onde em poucos minutos um homem apareceu com olhar preocupado, não sorria, estava preso a um paletó surrado e arrastava os pés com um andar lento. Era o palhaço que eu quis conhecer. Eu interrompi a minha carreira antes mesmo de iniciá-la. Guardei o abraço e o beijo. Quem estava ali não era a personagem que encontrei minutos antes. Fui embora decepcionado, compreendi que sonhos existem dentro da realidade.

Narradores Somos: Somos seres narradores, contar histórias é uma característica humana.  Por meio das narrativas representamos o mundo – complexo – e elaboramos, ordenamos, simplificamos a realidade, transformando-a em uma sequência lógica de fatos interligados. Assim fazendo criamos ordem, reduzimos a complexidade ininteligível e criamos uma representação que podemos compreender. As narrativas nos permitem sobrevier, funcionam como interfaces entre nós e a realidade. É assim que organizamos as experiências. Ainda que inventemos narrativas falsas a respeito da realidade ou de nós mesmos, elas carregam informações que nos ajudam a definir a nossa persona, a identidade por meio da qual desejamos nos expressar. Narrar é também escolher a identidade a ser utilizada.

A Perspectiva do Narrador: A narrativa ordena a nossa relação com o mundo. Sejam os narradores do cotidiano – jornalistas por exemplo – sejam os escritores de ficção, ou cientistas restritos às regras da escrita acadêmica, todos precisam pautar as narrativas produzidas. Aquilo que chamamos de PERSPECTIVA é o conjunto de experiências, de crenças e valores que condicionam nossas narrativas.

A perspectiva influencia a escrita e a leitura, uma vez que o leitor é o autor-último da obra. O leitor preenche as lacunas do texto quando o interpreta com base na sua perspectiva. Os cientistas tentam isolar as perspectivas do autor do resultado da obra, o que nem sempre é possível. Os jornalistas se propõem a fazer o mesmo quando narram uma notícia. Missão impossível. Somos dependentes das nossas perspectivas. Ao mesmo tempo que não se deve confundir autor com a obra, também não é possível isolar um do outro. A perspectiva do autor – seja da obra pictórica, escrita ou dramática – estará em alguma medida refletida na obra, ainda que pelo avesso, pela ironia fina que discorda ao concordar, que critica ao elogiar. A escrita, a leitura e a interpretação do texto, dependem da perspectiva do leitor-autor.

O que nos salva da fossilização é a plasticidade das nossas perspectivas que mudam com o tempo, com as experiências vividas, com as leituras que fazemos, com as pessoas que conhecemos, com os acidentes de percurso. Somos seres mutantes conforme aponta Guimarães Rosa no romance Grande Sertão: veredas: “O importante e bonito no mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando.”

Essa condição mutante nos permite discordar das nossas próprias ideias. A plasticidade das perspectivas permite que mudemos de opinião sem que caiba julgamento. Simplesmente as perspectivas mudam, e com elas muda a nossa narrativa. O percurso das mudanças da perspectiva nos informa a respeito de nós mesmos.

Identidade do Narrador: Hoje, quando penso na capacidade humana de narrar, de representar emoções que podem ser contidas em textos, imagens, ou no corpo de atores que encenam um drama, compreendo que o palhaço e o homem que o carrega dentro de si são identidades diferentes da mesma pessoa.

O Prêmio Nobel Amartya Sen[1] discorreu sobre as múltiplas identidades que portamos. Reconhecê-las e utilizá-las de modo adequado pode evitar conflitos e permitir o convívio entre pessoas com diferentes perspectivas. Ponderar que a cada identidade se associa uma perspectiva, nos ajuda a compreender a transformação do palhaço, no homem que saiu do camarim.

A narrativa tem papel central no nosso equilíbrio, possibilita ordenar o mundo complexo que habitamos com base na perspectiva formada pelas nossas crenças e valores. Os papéis sociais que desempenhamos – profissional, familiar, social, político – estão associados às perspectivas e identidades que adotamos. A cada papel se associa uma identidade e uma narrativa, que se espera, estejam em harmonia. A plasticidade da mente é fenômeno humano associado à evolução da espécie. Somos capazes de consolidar, criar memórias de fatos nunca ocorridos, eliminar memórias indesejadas. Mudanças nas perspectivas que balizam o nosso comportamento foi o que Guimarães Rosa apontou quando afirmou que não estamos acabados.

O palhaço que saiu do camarim tem identidade diferente do homem que a criança encontrou ao final do espetáculo. E eu, adulto, revisitando os elementos que formam a minha perspectiva, posso compreender melhor a complexidade da mente humana. Posso escolher as identidades que desejo manter vivas em minha memória.


[1] Amartya Sen. Identity & Violence: The Illusion of Destiny. Penguin Books, 2006, 215 pp.

4 comentários sobre “Perspectiva, Narrativa e Identidade

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