O que acontece quando lemos um texto? Seja ele uma notícia, um romance, um artigo de jornal, um artigo científico ou um poema, a nossa mente associa os símbolos que compõem o código escrito e os traduz segundo um critério definido, uma convenção.

A convenção da linguagem é composta por regras compartilhadas que orientam a escrita e a leitura de modo a oferecer uma diretriz baseada na ortografia, na sintaxe, que servem de guia e facilitam a comunicação. Convenções sobre o significado das palavras permitem que compartilhemos textos. Quando lemos, a interpretação dos conteúdos varia amplamente conforme o olhar de cada leitor. Ou seja, temos um código comum que fundamenta a comunicação, e ao mesmo tempo existem processamentos mentais que são característicos de cada leitor. A percepção da realidade, aquela que chamamos de objetiva, é flexível, varia entre observadores.

Existem diferentes formas de leitura. Uma que qualifico como burocrática, que prima pela exatidão e reflete a intenção do autor de reduzir o ruído interpretativo. Aparecem nos contratos comerciais, receitas de cozinha, ou em protocolos médicos que orientam a realização de uma cirurgia. Diferentemente outra existem textos que causam estranhamento deixando elementos inconclusos que provocam o leitor, convidam-no a concluir preencher vazios, provocam dúvida e motivam a escolha entre possibilidades de interpretação. Essa inexatidão faz da arte em geral, e da ficção literária em particular, uma experiências vivencial, ainda que não necessariamente experimentada no mundo real, mas vivida no plano das emoções. Afinal, o que é o mundo real?

Sobre a Leitura e Leitores

Vivemos num tempo em que os textos são cada vez menores, e o repertório de palavras se reduz entre gerações. Corremos o risco de perder as experiências vivenciais, no sentido amplo, que a leitura nos permite. As imagens são meios que oferecem significados de fácil digestão e transmitem mensagens com muita facilidade. Como somos preguiçosos, aceitamos as mensagens encurtadas, aceitamos imagens nem sempre verdadeiras, que nos indicam qual o produto que devemos comprar, quais os lugares que devemos frequentar, quais as pessoas que devemos admirar.

Os influenciadores, portadores de intenções nem sempre transparentes, orientam o cardume social que segue aqueles que fazem a promessa de mais fácil digestão. A leitura exige um tempo humano, que a sociedade vem perdendo, e cuja recuperação está na raiz do nosso equilíbrio mental.

Os livros são objetos perigosos que nos fazem parar as atividades mecânicas a que somos induzidos, nos permitem respirar de modo lento, recuperar o sentido crítico, e sentir emoções. Para todos os efeitos, metem medo. Escrever e ler são atos arriscados e, de alguma forma, atos de resistência. É sobre este tema que quero conversar e explorar diferentes perspectivas associadas ao ato da leitura. Para tanto, publicarei uma série de textos que chamei de: Leitura Criativa-Bibliotopia. Vou apreciar a sua presença no blog : www.zylberblog.wordpress.com e em @dezylber. Os seus comentários enriquecerão a nossa conversa, portanto inscrevam-se no zylberblog.wordpress.com e participem. As postagens serão curtas e provocativas. Alguns dos temas que tratarei são:

Leitura Criativa: o que vem a ser?

Sobre leituras e leitores

Leitura e Escrita

O Mundo Codificado de Vilém Flusser

Uma tipologia dos Leitores em Umberto Eco

O leitor que vai além da obra

Observação e interpretação em Siri Hustvedt

Perdidos no bosque da leitura

Juntando autores (que não se conhecem)

Estes são alguns dos temas que pautarão as primeiras conversas. Espero a sua companhia. Os seus comentários me permitirão aprimorar os textos.

Decio Zylbersztajn

Escritor e Professor Titular Sênior – USP

2 comentários sobre “Bibliotopia: A Leitura Criativa

  1. Obrigada por compartilhar esse texto que nos remete a muitas reflexões sobre os exercícios da escrita e da leitura, nos dias de hoje, de IA, de pipocar de pequenos textos que pretendem – e fingem – cobrir nosso universo encolhente (um neologismo, quiçá, para indicar o encolhimento dos nossos repertórios). Renata Barco Leme

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