A Cidade Violada:

Concha Acústica: O meu pai me mostrou o Estádio do Pacaembu, era o ano de 1962. – Vem aqui, eu vou te levantar que é para você ver. – O meu olhar foi atraído pela forma acolhedora da Concha Acústica. Eu costumava ouvir os jogos de futebol pela rádio. Achava graça quando o locutor anunciava o time que jogaria no lado do Portão Monumental e o outro, que se postaria no lado da Concha Acústica. Portão Monumental, Concha Acústica… eram nomes que soavam familiares.

Aquelas referências davam vida ao Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, batizado pelo povo como Estádio do Pacaembú. A Concha Acústica, construída no fundo de um vale, em harmonia com a topografia, bem serviria hoje como palco para os espetáculos artísticos que circulam por São Paulo. A estrutura fazia jus ao nome, erguida onde outrora existia um grotão úmido onde os povos primitivos caçavam, era um amplificador natural do som.

A cidade cresceu na vertical, os povos primitivos foram deslocados, e o solo impermeabilizado fez as águas enxurrarem para o córrego do Pacaembú escondido e emparedado sob a avenida. É comum que lugares significantes sejam ocultos aos olhos e, aos poucos, apagados da memória coletiva.

O Simbolismos do Lugares: As cidades que desejamos promovem o convívio entre seus habitantes que, em troca, criam relações de afeto por ela. A nossa memória é o que lhes dá significado. Sentimos conforto ao ouvir o canto dos sabiás a cada primavera, aves resilientes que se adaptaram às mudanças urbanas. Nós nem sempre conseguimos. O nosso olhar é atraído pelo traçado imperfeito das ruas, pelas calçadas por onde caminhamos e pelos prédios ao longo do trajeto. Nos lembramos onde encontramos ou perdemos alguém e dos lugares onde tomamos decisões importantes. As emoções fazem com que a nossa memória grave imagens, pessoas e acontecimentos. São os simbolismos, próprios da natureza humana, que tornam a vida possível. Lugares de passagem ou permanência, de abrigo ou escondimento, lugares para o exercício – em desuso – da solidão e introspecção ou para acolher amizades. A cidade é feita por pessoas, lugares e memórias, mas são sujeitos às mudanças podendo ser alterados e ressignificados.

A Quem Pertence a Cidade? As metrópoles são compostas por várias cidades imbrincadas. Daí a sensação de perda quando os lugares são violados afetando a nossa memória individual e coletiva. Quem vive na periferia frequenta a região central, paga o custo do deslocamento aos locais de lazer. Obstáculos arquitetônicos que dificultam a circulação pelo locais públicos persistem em países que não desejam romper com a desigualdade. Surgem formas criativas de segregação que, camufladas, não tiram o sono das famílias de bem. Como resultado as populações se isolam, ficam impermeáveis, se estranham e criam códigos de comunicação particulares. O estranhamemto representa a contradição da vida urbana, criada para promover interações e o encontro dos diferentes. Perde-se o vigor do híbrido.

Toponímias Roubadas: Até os nomes são violados. No livro “O Tempo Vivo da Memória” Eclea Bosi afirma: “Do vínculo com o passado se extrai a força para formação da identidade”. Os nomes dos lugares são referências compartilhadas que nos dão segurança e nos orientam. Na cidade de São Paulo transitar pelo Minhocão, ir ao teatro na Praça Roosevelt ou ao Cultura Artística, assistir ao jogo no Pacaembú, visitar a Pinacoteca, são referências que identificam quem frequenta tais espaços.

Em tempo de impermanência os nomes dos lugares também estão sujeitos a mudanças. Vivemos ao sabor da mercantilização, quando uma empresa compra o direito de utilizar um nome a referência se perde. Assim, os teatros ganham nomes de patrocinadores temporários, as pontes são rebatizadas para homenagear alguém que os moradores desconhecem, e os nomes de locais públicos são trocados ao sabor do interesse político. Embora vivamos em tempos líquidos, como dizia Zygmunt Bauman, existem nomes que resistem, ficam apegados ao lugar e se negam a abandoná-lo. Um sinal de esperança.

Mudar de Forma Humanizada: Se as mudanças são inevitáveis, haverá como mudar sem perder referências? Talvez sim, controlando a velocidade e o imediatismo das mudanças, evitando que decisões tomadas à revelia da sociedade sejam comunicadas sem tempo para argumentações. As mudanças urbanas, incluem um devastador processo de verticalização que obedece a cronologia do mercado e dos algoritmos que diferem do tempo humano. Controlar o tempo da mudança é elemento chave para salvaguardar o equilíbrio da sociedade. Aprendi com Douglass North (Prêmio Nobel de Economia de 1993) que as sociedades precisam de instituições fortes para equilibrar os interesses.

E a Concha Acústica?  Ela foi desmontada em 1969 dando lugar ao Tobogã, uma arquibancada sem estilo, em desarmonia com o conjunto arquitetônico, que adicionou milhares de lugares para as torcidas aumentando o faturamento dos jogos. Não durou muito tempo, nos anos 2020 o complexo foi rebatizado como Mercado Livre Arena Pacaembú, liberdade que será explorada pela iniciativa privada por 30 anos. Onde havia um centro esportivo e a Concha Acústica, um shopping center abrigará massas de consumidores insaciáveis.

E onde fica o nosso equilíbrio mental? Precisamos de referências para acalmar as nossas mentes fazendo alguma conexão entre futuro-presente e passado. Até pouco tempo eu acreditava que os locais sagrados correriam menor risco de descaracterização, os cemitérios por exemplo. Ledo engano, eles foram concedidos à exploração privada. Para quem quiser um pouco de paz é bom que se apressem, visitem os cemitérios do Araçá, Consolação, Chora Menino. A cidade não será totalmente violada enquanto os mortos nos protegerem. Mas andem rápido.

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