Um Sonho Amazônico

Qual a chance de se encontrar alguém de Laranjal do Jari (Amapá) ou de Monte Dourado (Pará) no círculo polar ártico? Pois foi o que aconteceu em 2017 na Islândia onde conheci Rose e Sebastian no saguão da Prefeitura de Reikjavik durante um evento literário. Ouvi frases em português e identifiquei o casal de pesquisadores que deixou o Brasil para seguir uma carreira universitária na Islândia. Sebastian é alemão e viveu em Belém onde fez doutorado, conseguiu uma posição na Universidade de Reikjavik. Se bem me lembro, línguas em risco de desaparecimento era o seu interesse, tema que seria abordado no evento literário por uma escritora e pesquisadora inglesa.

No Círculo Polar Ártico

Um idioma que morre representa perda cultural inestimável, com ele se perde a memória coletiva das gerações que contribuíram para a sua formação. Os rastros dos idiomas que sobrevivem na história oral ou nos textos escritos revelam os sonhos dos povos, sua extinção tem paralelo com a perda da biodiversidade de uma floresta devastada. Conheço bem esta história pois a minha família viveu o drama do desaparecimento do yidishe, língua que cresci ouvindo os meus pais falarem e que foi quase extinta pela mão insana do holocausto. O advérbio “quase” revela que o idioma e a cultura que ele representa, sobreviveram à violência, o yidishe tornou-se língua de resistência.

O encontro com o casal de brasileiros foi um episódio furtivo e eu não os encontrei depois. Rose nasceu em de Monte Dourado, cidade criada pelo milionário norte-americano Daniel Ludwig – dono de frotas para transporte de Petróleo – que desejava criar um império econômico na Amazônia brasileira, o projeto Jari nos anos 60. Antes de Ludwig os coronéis José Júlio de Andrade (1889) e Manoel Carlos Ferreira Martins (1902) exploraram e tomaram posse das terras às margens do Rio Jari de onde expulsaram – ou aniquilaram – os índios que lá habitavam. Exploraram a castanha do pará, a seringueira e as madeiras nobres, deixando as espécies pobres, de madeira e de gente ribeirinha. Depois vieram os mineradores industriais com as bênçãos dos militares brasileiros que não apreciavam a presença de Ludwig cujas atividades incluíam a produção de minério, madeira e o projeto de uma fábrica de celulose. A fábrica, montada sobre um navio, deixou o Japão, foi rebocada pelo mar da Índia, contornou a Cidade do Cabo – o Cabo das Tormentas – atravessou o Atlântico, subiu a costa brasileira e entrou na água-mãe do Amazonas. Dali derivou para o Rio Jari, um dos afluentes da margem esquerda, a fábrica-barco ancorou na trincheira aberta sobre pilares de massaranduba que lá permanecem depois de décadas.

Do Japão até o Rio Jari

As atividades que desenvolvi na Universidade de São Paulo me levaram àquelas paragens onde conheci o projeto Jari já nas mãos do empresário brasileiro Sergio Amoroso. Em um leilão ele assumiu uma dívida impagável junto a vários bancos públicos e privados, pagou dois dólares pelo pacote. Para os credores era melhor ter um sonhador à frente do projeto a vê-lo naufragar nas águas amazônicas. Definiu-se uma complexa fórmula para pagamento da dívida que nunca foi efetivada.

Ludwig, no melhor estilo Casa Grande e Senzala, construiu uma cidade para os engenheiros – Monte Dourado – com escola, hospital, aeroporto, água tratada e utilizou a massa de trabalhadores disponíveis do outro lado do Rio Jari, na cidade de Laranjal do Jari, onde viviam em ruas sem calçamento ou saneamento. Veio gente de Macapá, Mazagão, Belém, chegaram nordestinos que, trazendo a sabedoria adquirida na lide com a seca, povoaram a região, aprenderam a lidar com as cheias e com a falta de tudo, menos de esperança.

Havia dois aeroportos nas cidades ribeirinhas, um era oficial e funcionava em Monte Dourado, nas boas épocas da fábrica de celulose um voo diário conectava com Belém. Do outro lado, em Laranjal do Jari, um aeroporto sem registro formal tinha movimento intenso de aviões do garimpo. Lá um monomotor pousou sem a porta do passageiro, pelo buraco desembarcou um sujeito bamburrado – cheio de pulseiras e colares de ouro – que tirou de dentro da cabine…. um bezerro. 

Pelo Rio Jari subi até a cachoeira de Santo Antônio, uma imagem deslumbrante vista a partir do barco que se aproximou até o ponto de segurança. Na volta, o piloto parou na margem e me mostrou um túmulo com uma suástica que indica o local onde está enterrado Joseph Greiner do exército alemão. Parece que Hitler tinha intenções expansionistas na Amazônia e organizou viagens de reconhecimento. A malária abateu o chefe do grupo e dispersou os demais, e a história abateu o führer.

Eu mantive contato com a região por alguns anos, vários estudos foram conduzidos pelos meus alunos. A situação financeira da empresa piorou a partir da decisão de construir nova planta de celulose em substituição à primeira importada do Japão. A empresa deixou de operar na década de 2020. A ideia de conduzir projetos na região desafia empresários e governos, sabemos que a Amazônia não é para principiantes e que a floresta pede abordagem diferente dos modelos produtivistas tradicionais.

A Amazônia está cheia de histórias de perdedores, explorados, sem voz, dos que foram escorraçados e seguiram para a serra do Tumucumaque na fronteira com a Guiana Francesa, quase não há rastros dos povos originais, da sua cultura ou do seu idioma. Eu cruzei pelas áreas de florestas públicas, depredadas por invasores que exploraram tudo o que puderam. A reserva que pertencia à empresa demandava considerável soma de recursos para ser protegida, quanto a floresta pública, esta não sobreviveu.

Qual será o destino da Amazônia se o Estado não cumprir o papel? Qual o destino dos povos originários que seguem sendo alvos predatórios dos interesses imediatistas? Como proteger as gerações futuras do risco de viverem em uma sociedade sem florestas, sem história, sem gente? Eu nunca mais soube do casal Rose e Sebastián, espero que o destino tenha sido bondoso com eles.

24 comentários sobre “Um Sonho Amazônico

  1. Sim, qual será o destino da Amazônia? Admiro a sua forma literária! A sua maneira de conduzir o leitor a saborear com atenção e sem pressa, cada palavra em busca da informação não tem definição! Amei saber que pessoas como Sebastián e Rose dedicam-se a tão nobre causa. Foi interessante para mim, saber mais sobre o Projeto Jari do qual quase participei como professora na época em que me formei em Letras. Eu fui contratada para um período de três anos mas justamente semanas antes da partida, conheci meu marido e mudei para os Estados Unidos. Enfim, vamos continuar seguindo e tentando colaborar para que a Amazônia seja protegida de tanta ganância.🧐

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  2. Meu querido amigo, meu xará, Poderia ler horas mas gostaria mesmo é de passar dias ouvindo suas historias, ao vivo, com água, vinho, café, muito café e bolinho, claro. Tenho isto como um sonho. Reunir vc, Rose loira e alguns amigos para uma jornada. Você é um poço de cultura e me fascina tudo que vc escreve. Este texto por ex vc começa falando de um casal, passa por sua viagem, chega à Amazônia. Relata sua experiencia profissional (fantástica) e dá uma aula de economia, geo política e cultural, etc Que mais hein???? Que mais um leitor precisa.? Nada, nadinha. Perfeito. Parabens. Continue sempre mandando sua prosa mas eu ainda um dia a terei ao vivo e em cores, se Deus quiser. Bjs a vc e Rose amiguinha

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  3. Que linda crônica!! Um relato envolvente em estilo narrativo que nos conduz àquelas paragens que nos fascina, que nos enriquece e que deixa um gostinho de “quero mais”. Parabéns!!!!

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    1. Que linda crônica!! Um relato envolvente em estilo narrativo que nos conduz àquelas paragens que nos fascina, que nos enriquece e que deixa um gostinho de “quero mais”. Parabéns!!!!

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  4. Querido amigo, seus textos sempre nos tocando. Que experiência mais linda e enriquecedora para todos que tem o privilégio de saborear. Para mim lembrar do projeto Jari, me fez lembrar da mocidade quando na PUC são Paulo nas aulas do professor Paul Singer nos apresentou sobre o título de problemas brasileiro essa faixa da Amazônia explorada. Mais uma vez obrigado por compartilhar e nos fazer relembrar..

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  5. Teyerer Bruder Decio,
    Foi com “ gusto” que li sua crônica ligando de forma literária o Equador ao Polo Norte . Ainda mais valorizando , nestas jornadas da vida, as línguas desaparecidas ou quase . Você sempre me lembra o que ensinou Ortega y Gasset: “O homem é o homem e a sua circunstância”. Impossível considerar o ser humano como sujeito ativo sem levar em conta simultaneamente tudo o que o circunda, a começar pelo próprio corpo e chegando até o contexto histórico em que se insere.
    Com a amizade de sempre mando meu fraterno abbraccio…..

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  6. Isso mesmo, Professor Décio. “Qual será o destino da Amazônia se o Estado não cumprir o papel” e nós não fizermos a nossa parte? “Argentinos, a las cosas”, como diria Ortega y Gasset…

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  7. Caro amigo, sua escrita é tão viva que consigo sentir sua presença em meio a pão de queijo e café. Você consegue nos emocionar com esta triste realidade, sabedoria em poesia, linda e providencial para todas as idades. Gratidão por este presente! Evoé!

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