Um Café com o Professor Ronald Coase

Reencontrar velhos amigos é bom, foi o que aconteceu ao reorganizar os livros da minha biblioteca onde eu acomodo aqueles que contribuíram para a formação das minhas dúvidas e incertezas, lá estão os autores que deram forma ao meu modo de ver o mundo, alguns me influenciaram por empatia, outros por antagonismo. Procurei identificar a lógica na escolha dos autores que elegi para habitarem a minha biblioteca – que não é imensa, mas é seleta – a maioria se enquadra no perfil humanístico, desafia as ortodoxias e em algum momento de suas vidas foram incompreendidos. Há aqueles que foram criticados pela, assim chamada, direita e esquerda, por esses últimos eu tenho especial atração.

Um dos escolhidos influenciou a minha fase acadêmica, o seu nome é Ronald Coase (1910-2013) foi um gerador de conceitos que renderam o prêmio Nobel em economia em 1991. Eu o encontrei em diversos momentos ao longo da minha trajetória acadêmica quando ele tinha mais de 85 anos. De personalidade crítica e bem-humorada, andava cercado por jovens estudantes e de futuros cientistas desejosos de absorver algo do seu espírito criativo. Não usava cartões de crédito, desconhecia os métodos quantitativos o que ainda é visto como pecado pelos economistas ortodoxos, apreciava um bom debate, um estudo de caso conhecido como Fisher Body contribuiu para o conhecimento do crescimento das firmas e gerou troca de artigos críticos com Benjamin Klein que só foi interrompida quando o editor da revista interrompeu o entrevero acadêmico.

Para o padrão de exigências do mundo acadêmico atual Coase publicou pouco, ele não receberia apoio das agências de fomento pela baixa produtividade. A diferença estava na qualidade, no impacto das ideias e na observação do inusitado. No artigo “The Problem of Social Cost”, ele apresentou argumentos contraintuitivos para a solução dos problemas de externalidades, fundamental para lidar com as questões ambientais e que deu o fundamento para a criação dos mercados de créditos de carbono. Incomodou os economistas ortodoxos ao criticar a falta de realismo da teoria econômica dominante que chamava de “blackboard economics”. Insistia em manter a atenção na solução problemas do mundo real e motivava os seus alunos a observarem a realidade, para tanto criou o bordão: what is going on here?  para sugerir a necessidade de lidar com problemas reais. Ao longo do tempo descobri que a maior parte dos meus alunos e mesmo cientistas maduros, partem para a batalha sem saber qual o seu alvo.

Coase tratou de temas tão diversos como a existência e os limites do crescimento das firmas, as múltiplas formas de organização na sociedade, as soluções para os problemas das externalidades, e o crescimento da China. É considerado o fundador da Nova Economia Institucional e alavancou o estudo da Economia das Organizações, abordagens que adotei para o estudar das organizações agrícolas. A provocação coasiana se mostrou útil para refletir a respeito dos fenômenos sociais da forma como entendemos o mundo. Se partirmos de realidades distorcidas, nossas interpretações estarão fadadas à inconsistência e geraremos soluções inúteis.

Certa feita fui convidado a ser o porta voz da comunidade acadêmica em homenagem ao Professor Coase pela Faculdade de Direito da Universidade de Chicago onde ele trabalhou na maior parte da sua vida. Na oportunidade lembrei que aquele jovem nascido na Inglaterra e que fora rejeitado pela London School of Economics, foi autor de um artigo icônico escrito em 1937 denominado “A Natureza da Firma” que questionou o conceito de firma utilizado pela teoria econômica. É considerado um dos artigos mais citados na história das ciências sociais que revolucionou a forma pela qual compreendemos as organizações da sociedade. No discurso que fez ao receber o Prêmio Nobel de Economia ele mencionou o artigo dizendo que foi escrito quando ele tinha apenas 21 anos, idade na qual – segundo suas palavras – o sol nunca deixa de brilhar.

Sou grato ao Professor Coase por iluminar o caminho para o estudo das organizações na sociedade e questionar a função da pesquisa acadêmica. Eu não imaginava que o bordão “what is going on here” seria importante na vida de escritor que sucedeu a minha atuação na universidade. Encontrei paralelos com citações de Walter Benjamin sobre a importância de observarmos o mundo real para elaborar a escrita. Eis uma boa oportunidade, vou convidar Ronald Coase e Walter Benjamin para um café na minha biblioteca onde serei um observador privilegiado e atento à conversa que vai rolar.

11 comentários sobre “Um Café com o Professor Ronald Coase

  1. Muito especial esse encontro Decio! Que benção poder dar mais um laço nas fitas que entrelaçam a nossa vida♥️ Trocaram ideias sobre a sociedade de hoje? ♥️

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  2. Parabéns meu amigo por mais uma iniciativa, dentre tantas de sempre semear conhecimento e humanidade com suas experiências e sua arte!

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  3. Querido Décio, lindo texto. Obrigado por compartilhar suas experiências. Em nossa convivência vou descobrindo um Décio cada vez mais inspirador. Sempre um professor.

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  4. Décio, meu caro.
    Vc sempre ativo e abordando as questões mais atuais. Em tempos de “green swan”, onde o mundo navega sob falsos indicadores, incapazes de refletir as reais externalidades de nossas escolhas, vc mais uma vez nos oferece luz com os ensinamentos do Prof. Ronald Coase. Obrigado amigo.

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  5. Décio, mil aplausos, porque a palavra Parabéns é insuficiente para falar do seu belissimo artigo/conto em homenagem a esse grande homem e intelectual. Quando leio teus textos, aprendo muito, desde o contato com o primor de sua escrita, quanto com suas memórias ricas e alegres. Convide sim esses dois gênios, gostaria de ler depois seu relato. Um beijo

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  6. Copiando em parte do seu texto: Sou lhe grato Professor Zylberstajn “por iluminar nosso caminho para o estudo das organizações na sociedade e questionar a função da pesquisa acadêmica. Eu não imaginava que o bordão “what is going on here” seria importante na vida de escritor que precedeu a minha atuação “literária”.

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