Nós os Contadores de Histórias

Nascemos para contar histórias, a espécie humana é narradora por excelência e os símbolos são a nossa ferramenta. Não existe narrativa objetiva, limitar a narrativa à objetividade não só é impossível como nos igualaria ao comportamento instintivo dos animais. Em que pese o esforço de um narrador – um cientista ou um jornalista – pela busca da objetividade e imparcialidade, no momento de relatar ocorre a troca da objetividade pela linguagem codificada. As palavras formam frases, nada mais do que símbolos encadeados que carregam significados particulares de quem escreve e de quem lê.

A linguagem deu luz ao homem narrador, primeiro por meio da oralidade – que nos acompanha até hoje – depois pela imagem pictórica nas cavernas, pelo ideograma, pela escrita fonética, pela magia da imagem seja na fotografia no cinema na televisão ou na tela do computador, as imagens são imbatíveis como forma de expressão segundo Vilém Flusser. A narrativa por meio da imagem transmite mensagens com inigualável eficiência, o receptor gasta pouca energia para decodificar.

A propaganda utiliza a imagem para capturar e criar desejos e o bolso do público. A autora Siri Hustvedt no livro “Living, Thinking, Looking” nos alerta que o desejo difere da necessidade, o primeiro se caracteriza pela insaciabilidade após o ato de apropriação. Fato é que vivemos o momento da volta ao uso da imagem – tal como fez o homem primitivo – e da oralidade com a popularização do podcast. Parece que ambas, a imagem e a oralidade, subjugam a escrita, como afirma Flusser no livro que tem por subtítulo: há futuro para a escrita?”. Se o autor tinha razão ao profetizar o fim da escrita isto não significa o fim do homem narrador. Se Fernando Pessoa afirmou que navegar é preciso, viver não é preciso, Flusser teceu um paralelo, scribere necesse est vivere non est que talvez melhor se ajustasse à sua intenção se afirmasse que narrar é preciso, viver não é preciso.

Seja qual for o meio escolhido, o texto, a imagem ou a voz, quando narramos transmitimos mensagens simbólicas e o receptor decodifica os símbolos à sua maneira. Ambos, emissor e receptor, têm códigos próprios, únicos, que habitam o seu córtex cerebral, eis a beleza da leitura que a faz tão criativa quanto a escrita. Eu – e certamente qualquer escritor – já fui surpreendido por interpretações inesperadas dos meus textos. O leitor decodifica, reconstrói, interpreta, e pode fazê-lo de forma criativa superando o autor.

O prazer da narrativa resulta do ordenamento das ideias que o autor se obriga a fazer ao narrar. Flusser afirmou que escrever significa organizar o pensamento, colocar ordem no caos da mente. Talvez possamos afirmar que o ordenamento do caos resulta da transmissão dos sentimentos por meio dos símbolos, das letras enfileiradas na escrita fonética, das ideias encapsuladas pelos ideogramas, pelos sentimentos embutidos no traço do desenho, pela textura da tela, pela sequência de imagens e sons no cinema, pela harmonia na música, pela forma da escultura ou pela plasticidade dos corpos em uma coreografia. Impregnado no meio escolhido para expressão encontraremos o sentimento e a intenção do autor.

A leitura, tal como a observação da imagem, a contemplação da escultura e da dança, sugerem que em alguma medida o observador, leitor no caso do livro, se torna coautor da obra. O ato da leitura é um ato de reconstrução, de reinvenção. A arte existe para nos ajudar a reordenar o caos das nossas mentes, seja para o autor – emissor da mensagem – seja para o leitor/observador – receptor da mensagem. Os lugares comuns aqui são permitidos, a arte existe porque a vida não basta, o livro e o cinema nos transportam a lugares desconhecidos, e no limite a arte existe porque desejamos a vida.

O debate a respeito do impacto da inteligência artificial sobre a criação artística me permite afirmar que os algoritmos são pouco habilitados para lidar com a linguagem simbólica que se reconstrói a cada geração ou a cada momento. Algoritmos poderão até tentar incorporar arquétipos universais ou imitar as reações humanas que possam ser vislumbradas por um meta-programador e assim tentar imitar a criação, entretanto o sentimento humano tem inabalável profundidade, se transfigura, tem plasticidade. O prazer da criação artística é insubstituível, narrar é ato humano, o olhar de uma criança ao ouvir uma história reconhece isto. Nascemos para contar histórias, a espécie humana é narradora por excelência e os símbolos são a nossa ferramenta.

6 comentários sobre “Nós os Contadores de Histórias

  1. Décio meu caro, que olhar mais sensível sobre nosso ofício, a arte da palavra como metáfora para uma escrita tão profunda em significados, assertiva em nossas acestralidades e por demais humanizadora para as linguagens
    do coração.
    Muito bela sua narrativa meu querido amigo Contadores de Histórias! 😘

    Curtido por 1 pessoa

  2. .aravilhosa explanação. A Arte, o ato de contar histórias, tremendamente propósitos, necessários, benéficas/os para o sentimento e a saúde humanas!

    Curtir

  3. Por mais que o mundo tecnológico evolua nada substituirá a grandeza de ser humano, de amar… Procriar… criar… crer… ser… Morrer.

    Curtir

Deixar mensagem para Eneida Ferraz Panzoldo Cancelar resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.