É assustador observar uma boiada correndo em disparada, os animais pacíficos se enfurecem e sem que se perceba o motivo, se revoltam. Para quem está próximo do tumulto pouco resta fazer. Correr é uma alternativa, sair do caminho da manada em disparada, mas qual direção tomar? Como saber o rumo que ela seguirá? É impossível identificar quem lidera o grupo que se comporta como se fosse um único indivíduo.
O pavor que se sente advém da nossa repulsa pelo imprevisto, pelo inexplicável, pelo incontrolável. A sobrevivência da espécie humana foi fruto das reações impressas no nosso DNA como a repulsa ao sabor amargo, a insegurança que sentimos na escuridão – que sugere que a noite foi feita para o recolhimento – e, talvez a reação que melhor explique a nossa sobrevivência: o medo do desconhecido.

O tema do controle da violência me faz lembrar o economista Douglass North, ele elaborou a teoria sobre a origem e evolução das instituições definidas por ele como: as regras desenvolvidas pela sociedade para controlar os seus próprios impulsos, para criar ordem, para mitigar o caos, a violência, o imprevisível. North, a quem eu tive o privilégio de conhecer e trazer ao Brasil, ganhou o prêmio Nobel de Economia em 1993.

Outro prêmio Nobel que admiro é Elias Canetti (1905-1994), laureado em 1981 com o prêmio em literatura. Canetti vivia entre Londres e Zurique, eu lembro que, de passagem por Londres, tentei fazer um contato pessoal com ele. O meu telefonema foi atendido por uma voz feminina, talvez fosse Veza Canetti sua esposa também escritora, que limitou-se a dizer que ele não poderia me receber. A notícia da sua morte foi anunciada pouco tempo depois.

Canetti transitou pela ficção, com destaque para Auto-de-Fé (1931), passou pelo ensaio, pelo memorialismo, como em A Língua Absolvida, e pelo comportamento coletivo como atesta a obra Crowds and Power (1960), um verdadeiro tratado antropológico centrado no tema que o apaixonava: o comportamento das massas. Canetti demonstrou rara erudição, descreveu rituais funerais que compara a uma “festa dos sobreviventes”, analisou o comportamento humano individual em contraste com o comportamento coletivo. É marcante o caso do soldado que mata o inimigo à distância, mas que não consegue dar o tiro de misericórdia quando olha os olhos do mesmo inimigo – a identidade importa. O autor comparou o comportamento coletivo aos cardumes que nadam em harmonia sob o mando de uma liderança por vezes oculta.
O ponto de maior densidade em sua análise se dá quando identifica o momento da transição do comportamento individual, pautado por regras morais, para o comportamento de massa, quando as referências individuais deixam de existir e o indivíduo passa a se comportar como massa amorfa, como cardume, sem as peias da moralidade e outras regras – instituições diria North – que normalmente controlam a sua ação. Uma vez atingido este limiar, nada há a ser feito, a boiada estourada passará por sobre cercas, derrubará muros, invadirá o Capitólio e a Praça dos Três Poderes. Ao ler esta obra de Canetti eu percebi o quanto ela é relevante para quem lida com a manutenção da ordem pública. A estes cabe perceber que o tal ponto de virada, o non plus ultra, o momento de transformação e despersonalização do indivíduo que pode ser reconhecido e gerenciado para evitar o uso da violência.
A fragilidade humana é imensa e o enfrentamento das incertezas que nos cercam podem explicar o desaparecimento de sociedades inteiras. O comportamento coletivo deixou marcas na história que demonstram o poder destruidor de quem manipula as massas. O nazismo na Alemanha de Hitler, o grande salto à frente de Mao Tse Dong, são exemplos que não podem ser esquecidos. Custaram milhões de vidas. Os casos do Capitólio e de Brasília ficam para a história pelo nítido caráter de consentimento que o poder público adotou ao tentar transferir a responsabilidade da violência para a multidão amorfa e sem identidade definida.
As instituições, as regras do jogo social, formais e informais, nos ajudam a criar estabilidade, previsibilidade, e assim diminuir a dispersão de energia e de recursos. Aquelas sociedades que conseguem criar estabilidade se destacam, progridem, sobrevivem. As incertezas fazem parte do ambiente que nos envolve, entretanto somos capazes de interpretar fenômenos, e ao fazê-lo podemos criar mecanismos para reduzir as incertezas e assim garantir que podemos continuar vivos por mais algum tempo. Os ensaios observados nas invasões do Capitólio e da Esplanada dos Três Poderes em Brasília sugerem a oportunidade da leitura de North e Canetti.
Maravilhoso e esclarecedor artigo, Zylber! Abração
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Obrigado Ivan.
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Decio, o estudo da psicologia das massas, por Wilhelm Reich e S. Freud, somam- se, enriquecem e levam a uma compreesão, ainda mais profunda, de North e Canetti.
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Complemento ao primeiro
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Não li Canetti, mas seu texto me instigou, pois passei os últimos quatro anos tentando entender esse fenômeno do “lobo solitário” que conseguiu agregar e tanger uma massa de seguidores em direção ao caos social. Isso nos paralisou e nos fez ver o quanto somos suscetíveis às influências modificadoras do comportamento, de quaisquer origem.
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Olá Telma. Sim, vale a leitura da obra do búlgaro cujo idioma materno foi o alemão.
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Sim Telma. Somos, em alguma medida, suscetíveis.
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