O Futuro Incerto dos Elfos Islandeses

Sozinho e com frio, às 3 horas e 12 minutos da madrugada eu aguardava o transporte para o aeroporto de Reykjavik. O bilhete informava que um ônibus passaria às 3 horas e 15 minutos da madrugada, o que me daria tempo justo para embarcar no voo internacional. Eu, descrente, comecei a pensar no plano B que seria chamar um taxi que custaria quase o mesmo valor da passagem para Amsterdam. Relaxei quando, às três horas e 14 minutos, o ônibus apareceu na avenida à frente do Harpa, o teatro onde as orquestras se apresentam.

A Islândia é um país singular, fato que constatei nas três visitas que fiz àquela ilha. A minha impressão se baseia no clima hostil, na paisagem árida, e sobretudo na relação quase erótica que os islandeses têm com a literatura. O país conviveu com ameaças causadas por vulcões, frio, pestes, e pelas invasões e dominação estrangeira. O carácter dos islandeses foi forjado pelas ameaças que sofreram por séculos.

Na visita que fiz à ilha em abril de 2022 aprendi outra peculiaridade que tipifica os islandeses: a crença na existência dos elfos. Conhecidos pelos locais como os Huldfolk, o povo escondido, elfos são entidades mitológicas que, acredita-se, vivem na Islândia e nas Ilhas Faroe, outro país insular localizado a sudeste da Islândia no meio do Atlântico Norte. Eles são seres sobrenaturais que parecem e se comportam como humanos, entretanto vivem num mundo paralelo de onde emergem e interagem com os islandeses a seu bel prazer.

Eu visitei a Islândia para participar em um encontro internacional de escritores. As duas diretoras do evento se esmeravam todos os dias para organizar as salas, carregando mesas e cadeiras para o nosso melhor conforto. Durante a programação de eventos sociais onde conheci uma atriz local, Lilja Nótt Bóranrinsdóttir que atuou na série Trapped entre outros filmes. Ela foi convidada pelos organizadores para receber o grupo de escritores estrangeiros e falar sobre a cultura local. A sua palestra ocorreu em um local chamado Strond, uma vila de pescadores ligada por asfalto a Reykjavik, onde existe uma igreja datada do ano de 1200. Lilja nos contou que a pequena vila sobreviveu ao isolamento milenar, típico da cultura islandesa. Os habitantes erigiram a igreja para homenagear um mito feminino que na crença local baliza a chegada dos barcos pesqueiros em dias sombrios e batidos por tempestades quando o mar se agita com ondas imensas. Um vulto da mulher é avistado pelos barqueiros, a empunhar uma lanterna cuja luz serve de guia para que cheguem com segurança ao porto, assim evitando as rochas e o mar revolto.

Não faltam mitos na Islândia. Foi Lilja quem levantou o assunto dos elfos ao nos relatar o sentimento que os islandeses têm a respeito da mitologia. Perguntada se acreditava na existência dos Huldfolk, ela ponderou por instantes antes de responder e só o fez depois de sentir-se à vontade com o grupo de estrangeiros a ponto de contar a seguinte história:

“Se os elfos existem ou não? Prefiro não me comprometer com uma resposta, mas posso falar sobre o estudo realizado pela Universidade de Reikjavik.”

Ela passou a descrever os resultados de uma pesquisa que constatou que cerca de 20% dos islandeses acreditam nos elfos. Mais do que acreditar, eles consideraram desnecessário gastar dinheiro com uma pesquisa a respeito. Não há dúvidas, para eles os elfos existem.

– Elfos? Claro que existem. Convivemos com eles todos os dias.

Ou seja, uma quinta parte da população não apenas acredita nos seres das profundezas como afirma conviver com eles sem constrangimento. Não acham problema em compartilhar o espaço da ilha. Outros 10% da população de islandeses, afirmou que os elfos não são reais. Acreditam que existem tão somente na imaginação do povo. Um dos respondentes afirmou: – Mas sabe como é, os mitos sempre têm alguma base em fatos. – Ou seja, a negativa vem amparada por uma saída honrosa caso necessário. Os 70% restantes preferiram omitir a resposta, ou afirmaram que não queriam falar sobre o assunto, que era melhor esquecer os elfos e não mexer com eles. Alguns nem paravam para responder o questionário e a maioria preferiu o anonimato.

Depreendi da conversa, que na qualidade de visitante, seria melhor me situar entre os 70%, e não tocar mais nesse assunto. Foi o que fiz.

A Islândia me recebeu cheia de novidades. O guia turístico, Orn Arnason, é ator no teatro nacional da Islândia e membro de um conhecido grupo de comédia. Ele dirigiu o ônibus que nos levou ao tour: “Literary Golden Circle”. Ao longo do trajeto contou histórias, entre elas a de um poeta islandês do século XIX que afirmou que um dia a Islândia venderia seus glaciais e as paisagens fumegantes dos afloramentos de águas termais. Os poetas são levados a sério na Islândia, e o tempo mostrou que aquele autor tinha razão. Poetas e artistas são as antenas do futuro. Nos dias atuais, a Islândia comercializa a sua paisagem, as águas termais e os glaciais estão à venda, pelo menos enquanto o aquecimento global permitir. Para o bem e para o mal, o mercado do turismo de massa passou a fazer parte da rotina da ilha.

As duas primeiras visitas que fiz, me motivaram a escrever relatos que podem ser acessados em http://www.zylberblog.wordpress.com. A primeira viagem teve motivação acadêmica, quando participei de um encontro na Universidade de Reykjavik sobre a Nova Economia Institucional organizado pelo gentil e refinado economista islandês Thrrain Eggerstrom. O encontro terminou no primeiro dia do verão ártico e eu aproveitei para conhecer parte da ilha. Acompanhado pela minha esposa, visitamos os glaciais, o parlamento, a casa de Aldorr Laxness, um dos autores islandeses mais reconhecidos, que recebeu o Nobel de literatura de 1955. Caminhamos pelas ruas de Reykjavik ao sol da meia noite.

A segunda visita foi motivada pela participação no Festival Literário da Islândia que ocorre a cada dois anos em Reykjavik. Um festival diferente daqueles que conhecemos no Brasil. Não tem eventos paralelos, não tem shows artísticos, não tem barraquinhas de cachorro-quente e nem telões com o escritor da moda. Apenas leitores, livros e escritores que se encontram em um pequeno auditório em debates memoráveis sobre temas da atualidade.

Se eu resumir as impressões das duas primeiras visitas, diria que conheci um povo que aprendeu a superar as agruras da natureza, e que construiu um senso de nacionalidade forte. A literatura teve e tem um papel na origem da identidade do país que tem na simplicidade a marca da sociedade islandesa. Claro que a minha percepção foi em parte afetada por elementos que conheci na obra de Laxness e de Sjon, outro autor islandês contemporâneo que aprendi a apreciar. Em uma palestra, Sjon afirmou que embora a Islândia tivesse sido colônia da Dinamarca, e que só em 1944 a independência do país tenha sido formalizada, o sentido de nação nunca sucumbiu. O idioma e a literatura serviram de esteio para a sobrevivência da identidade islandesa. As duas primeiras estadas na ilha reforçaram a minha concepção sobre o bravo povo islandês.

Já a terceira visita colocou em risco a visão, algo romantizada, que eu idealizei. Aquela Reykjavik que eu conheci nos anos de 2003 e 2017, não existe mais. O casario simples que circunda o centro da cidade, a catedral e o porto, foram ocupados por airbnb´s. Grupos de turistas que circulam pela cidade desafiando o isolamento milenar da sociedade islandesa, talvez sejam mais letais do que foram as invasões vikings ocorridas ao longo da história. Novas construções pipocam pela cidade criando espaços sem identidade como o hotel cinco estrelas construído ao lado do porto.

A minha impressão sobre as mudanças se acentuou quando, com o grupo de escritores, retornei à casa de Aldorr Laxness, hoje um museu que homenageia a literatura, local que conheci na primeira visita. A construção e o mobiliário do local onde o autor viveu foram mantidos intactos. Fomos recebidos por uma funcionária que não escondeu a pressa em nos acomodar na sala de visitas para uma conversa com o escritor Armann Jakobsson, irmão da primeira-ministra do país. A funcionária nos expulsou do local assim que a palestra terminou, ela olhava para o relógio e arrumava as cadeiras demonstrando que o evento tinha terminado e nós deveríamos ir embora.

Eu perguntei se a loja com os livros de Laxness ainda funcionava. A contragosto, ela respondeu que sim, sem dar alguma indicação sobre como acessar o local. O custo do tempo aumentou na Islândia, os moradores obedecem aos critérios do mercado e as pessoas têm afazeres que não devem ser alterados a não ser que se pague por isso. Definitivamente a Islândia perdeu a pureza, pelo menos aquela que os meus olhos observaram nas visitas anteriores.

Há visitas guiadas disponíveis para as piscinas com águas termais, tours para avistar baleias, e glaciais. O gelo diminuiu com o efeito do aquecimento global, mas o sol da primavera ainda se assemelha às lâmpadas que acendem ao abrir a porta da geladeira. Cruel constatação: a casa de Laxness não é a mesma ou o meu olhar ficou mais crítico. Talvez um pouco de tudo.

Ainda estávamos no ônibus voltando da visita ao museu Laxness, quando uma chamada telefônica informou que o jantar na residência oficial do Presidente seria cancelado pois o mandatário havia testado positivo para COVID. Um tanto desanimados seguíamos para o hotel quando outro telefonema informou que a primeira-dama havia testado negativo e ela nos receberia na casa presidencial. Ao chegarmos compreendi que a primeira-dama era a diretora do encontro de escritores, a mesma que arrumava as cadeiras e mesas na sala de debates. Coisas da Islândia.

Já no ônibus, às 3:16 da madrugada, eu seguia em direção ao aeroporto pensando na experiência que tive com escritores de várias partes do mundo. Lembrei da primeira-dama que carregava cadeiras, pensei nos glaciais e gêiseres, e lembrei dos elfos. Onde estavam? Creio que eles fugiram para o fundo dos glaciais, assustados com os turistas e talvez com receio de que o aquecimento global revele os seus segredos. Ainda resta uma esperança, quem sabe a literatura salve mais uma vez a identidade islandesa, como fez ao longo da história.

6 comentários sobre “O Futuro Incerto dos Elfos Islandeses

  1. Amei!! Você tem o dom de prender o leitor por meio do seu estilo leve e prazeroso em que compartilha experiência e conhecimento despertando curiosidade e o “gostinho de quero mais”

    Curtido por 1 pessoa

  2. Tenho lido e curtido demais (literalmente) sempre que posso, Décio ( ou Débora?).

    É um prazer ” viajar” com você pelo.mundo e poder ter um vislumbre das suas impressões sempre tão pessoais e meditadas sob um viés quase poético…

    Grata por partilhá-las conosco e possibilitar o acesso a elas !

    Um abraço !!!

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