Apesar de Você

Um Ogro à Solta

Em 1977 eu era um jovem pesquisador a viver o tempo da ditadura. Cursava o programa de mestrado em economia agrícola na USP quando recebi um convite para participar do encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que teria lugar em Fortaleza. Seria bom respirar um pouco pois os tempos eram difíceis, o debate acadêmico reprimido, as lideranças políticas e culturais perseguidas. Foi quando eu recebi um ofício do ministério que me provia uma bolsa de estudos, o texto era claro. Eu estava proibido de participar do encontro, era a ordem da organização que provia a minha bolsa de estudos. Compreendi que para as ditaduras pensar é perigoso e o debate, ameaçador.

Passadas quatro décadas, senti repulsa pela postura do governo federal que puniu docentes da Universidade Federal de Pelotas por terem criticado a incompetência que emana a partir de Brasília no trato com a pandemia. Assim, seguindo sua cartilha, o governo ameaça o livre pensar, captura e tolhe as instituições entre as quais a Universidade. A história se repete e reforça os sinais de medo com o debate de ideias.

O ato do governo não foi solitário nem inocente. Ao contrário, ele se coaduna com a postura refratária à crítica que faz parte da cultura e da razão de ser da academia, das artes e da imprensa.  A imprensa é acusada de informar, as artes acusadas de viés ideológico e as Universidades acusadas de pensar, ou seja, são acusadas por cumprirem o seu papel. Para um presidente que padece de incontinência verbal, mais fácil é punir, ameaçar, e tergiversar das suas responsabilidades. Assim fazendo descumpre o seu papel e desrespeita os cidadãos por atos e pelo verbo.

A insanidade do planalto gera repulsa nacional e internacional. A inabilidade demonstrada no trato com a saúde pública trará reflexos no desequilíbrio fiscal cujos efeitos amargaremos nos anos vindouros. Práticas populistas prometem efeitos eleitoralmente interessante para os militares no poder. O governo adota estratégias genocidas forjadas com o olhar voltado para as eleições que se aproximam e para o plano de tornar o país um imenso quartel sob a guarda divina. Assim fazendo promete garantir os interesses pecuniários de um contingente de militares alocados em postos para os quais não estão preparados. 

Para o governo mais vale buscar o voto do miserável do que ouvir a crítica dos cientistas e da imprensa. Mais vale organizar missão internacional que expõe ao mundo a insanidade mental do ministro das relações exteriores, fiel observante da doutrina ultradireitista. Seria cômico, não fosse trágico. Pagaremos a conta dos atos inconsequentes que servem como cortina de fumaça para garantir o voto ingênuo de seguidores apalermados em busca de um salvador da pátria. Punir cientistas e desinformar são ações que ludibriam a boa fé pública e jogam o país no fosso do debate ideológico irresponsável.

O governo atua como um ogro dos contos de fadas, capturou o legislativo, fez uso de métodos que classificava como abomináveis, aparelhou os órgãos da administração direta com fardados que não se envergonham de exporem a instituição das forças armadas. Os atos deste governo serão julgados, não pelo supremo, não por alguma comissão de ética no congresso, não por algum tribunal internacional. Serão julgados pela história.

O encontro da SBPC em Fortaleza em 1977 foi cancelado e eu segui carreira científica. Vivi para ver o país trilhar o caminho da democracia, percorri uma carreira na Universidade da qual me orgulho e que não se coaduna com a cultura militar de obediência servil e avessa à crítica. O mesmo afirmo sobre a minha atuação como escritor, as artes vivem da liberdade de criar. Compreendo a lógica da hierarquia militar, mas ela não serve para a sociedade extra caserna. As ordens inconsistentes emanadas de Brasília, induzem os lambe botas colaboracionistas a cumprirem-nas sem pudor ou senso crítico. Afinal, na caserna há quem mande e quem obedeça.

Pensar continuará a ser um ato livre a incomodar ditadores. Pensar ameaça o maniqueísmo tosco que rege o discurso do mandatário que descumpre o seu papel com discursos que ofendem a nação. A ciência segue afirmando o óbvio, que a terra é redonda, que a Amazônia vem sendo destruída, que as vacinas salvam, que o distanciamento social é necessário, que o aquecimento global existe e persiste.

Apesar das palavras do senhor presidente.

Decio Zylbersztajn

Escritor e Professor Titular Sênior da Universidade de São Paulo

12 comentários sobre “Apesar de Você

  1. Mais uma vez um excelente texto, recheado de uma postura sem medo, indignada e que seria de esperar de pessoas que têm um mínimo de senso crítico. Abraços

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  2. It is sad to see Brasil moving towards the door of the hell. The hell where the rule of law is non-existent, where the faith in the good has lost its meaning and the mouth of truth has been silenced. But deep down the spirit of the Brasilian soul will show the light, will energize the good people to stand up to choose the right path to prosperity and justice. So, Decio keep faith Abracos

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  3. Parabéns, Professor Décio! Senti-me contemplado na sua manifestação, enérgica, oportuna, contundente e necessária no momento atual. Continuemos por este caminho, espinhoso como trilha, mas muito fértil pelo que pode inspirar!

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  4. Décio, estou emocionada com teu ensaio. Na tua voz, a lúcida indignação e perplexidade de milhões de braseiros.
    Teu texto é primoroso, prende-nos esse relato tão fiel da história sua, e do nosso assustado e anestesiado Brasil. Lamento só ter conhecido teu blog agora. Será uma das minhas preciosas companhias. PARABÉNS! Beijo.

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