
Ao olhar estrangeiro, a região dos Balcãs é um local politicamente estável com paisagem atraente e povo cordato. Talvez escape ao olhar estrangeiro a história de violência recorrente ao longo dos séculos marcada por massacres como o de Visegrad ocorrido em 1992. A violência representa a regularidade na história local cujas causas permanecem latentes.
Nesta região viveu o escritor Ivo Andric (1892 – 1975), Prêmio Nobel de literatura em 1961. O autor viveu um período crítico da história dos Balcãs, região que é um ponto de contato entre o oriente e ocidente, entre o cristianismo e o islamismo entre duas Europas separadas pela história. Nascido na Bosnia, o escritor cresceu na cidade de Visegrad não longe de Sarajevo, próximo da fronteira com a Sérvia. Foi lá que o Grão Vizir Mehmed Paxa Sokolovic gastou cinco anos e muitas moedas para construir uma ponte sobre o Rio Drina, obra concluída em 1571. Istambul era a capital do império turco-otomano que se estendia pelos Balcãs até a vizinhança de Viena. Era comum que crianças cristãs fossem capturadas e levadas para a capital do império para serem islamizadas. Um destes episódios ocorreu em 1516 quando um grupo de crianças foi levada de Visegrad para Istambul, entre os meninos estava aquele que viria a ser o Grão Vizir que ordenou a construção da ponte que hoje leva o seu nome. A obra foi feita com pedras retiradas das montanhas próximas e concebida com onze arcos que convivem com o Rio Drina até os dias atuais. Serena, a ponte atravessou cinco séculos, sobreviveu a guerras, tragédias, foi cenário de celebrações. Marca a vida da cidade até hoje quando ônibus cheios de turistas visitavam o local nos dias pré-pandemia. A ponte sobre o Rio Drina tornou-se uma metáfora a sugerir uma conexão entre culturas e um túnel do tempo que é explorado pelo escritor.
A obra de Ivo Andric, “Ponte Sobre o Drina” narra fatos ocorridos ao longo de quatro séculos, período no qual o império turco-otomano cedeu ao império austro-húngaro. O enredo prenuncia a primeira guerra mundial cujo gatilho foi o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em 1914, por um nacionalista sérvio em Saravejo, capital da Bósnia. Passadas a primeira e a segunda guerras, o conflito entre a Sérvia e a Bósnia-Herzegovina nos anos 80 e 90 repetiu a história. Nenhuma violência é estranha aos habitantes da região. Os períodos de estabilidade sob manu-militari ocorreram durante o domínio Otomano, no império Austro-Húngaro e após a segunda guerra mundial na Jugoslávia cuja coesão foi mantida com similar receita por Josip Broz Tito, o Marechal de Ferro de origem Croata. A Iugoslávia era uma aglutinação de diferentes nações, alinhou-se à ex União Soviética e manteve a habilidade de dialogar com o ocidente, o que reforça o caráter de elemento de ligação entre culturas.
Ivo Andric não foi historiador, foi autor de ficção e diplomata cuja obra reflete o olhar de personagens que criou e que viveram as transformações históricas. Um deleite para o leitor pois a literatura permite uma perspectiva estranha ao historiador, a do olhar dos personagens de ficção. Assim o apogeu de Istambul é retratado pela perspectiva das famílias cristãs ameaçadas pelos otomanos cujo declínio se dá com a chegada dos Suábios que massacram os turcos. Os judeus aparecem na pele de personagens sem voz política que sofrem como minoria entre as culturas dominantes. Os primeiros judeus que habitaram a região foram sefaraditas expulsos da península ibérica no século XV, depois vieram os askenazitas do leste europeu. O autor narra a cena do comerciante judeu que conta as moedas utilizando o idioma ladino. Apresenta a mulher judia de beleza rústica, sotaque alemão e atitudes duras, que gerencia o hotel, ponto de encontro dos homens ao final do dia. O seu negócio declina com o aparecimento do primeiro bordel na cidade, que oferece algo mais atrativo para os clientes.
Geração após geração, a narrativa penetra no íntimo das famílias, explora os elementos das diferentes culturas a partir de casamentos arranjados, de hierarquias assentadas pelo poder da religião e interesses econômicos. As diferentes culturas não se mesclaram, aprenderam a conviver em um ambiente varrido por ondas de ódio ora de um lado, ora de outro. As relações interculturais se estabeleciam no comércio e o isolamento era quebrado nos encontros simbólicos sobre a ponte, local de contatos e de impiedosas demonstrações de poder, como no caso descrito em detalhes do empalamento executado com esmero pelo algoz de modo que a vítima demorasse a desfalecer, ou no caso do turco que tem a orelha pregada ao pilar de madeira da ponte enquanto a população fugia com a chegada do exército austríaco.
O local tem a marca de singelas e cruéis manifestações do gênio humano que resiste, como no caso da jovem prometida em casamento como parte da solução de uma dívida. A ela não cabe negar-se à entrega decidida pelos pais, credor e devedor. A jovem decide sobre a ponte e mergulha no Drina no trajeto que a levaria ao altar. Quando da evacuação da cidade aterrorizada com a chegada das tropas invasoras, um homem, dono do principal comércio da cidade decide permanecer no cubículo onde por gerações a sua família viveu a rotina do comércio. Não podendo mais contabilizar o ganho no dia, o velho se enfurna no escritório ao fundo do armazém e ouve o tronar dos canhões que destroem a cidade. O leitor e o personagem são soterrados quando as paredes centenárias desabam. O ponto de vista do vencido aparece mais uma vez.
A ponte foi desafiada pela chegada da estrada de ferro que possibilitou aos locais deslocarem-se até Sarajevo regressando no mesmo dia. Com a intensificação das relações sociais regionais os jovens passaram a estudar em Viena, em Ljubljana de onde retornavam no verão com novas ideias, maneiras de falar e de trajar, alguns influenciados pelos ideais socialistas que ganhavam corpo na Europa. Nas férias encontravam aqueles que não puderam sair e voltavam a conversar nas noites de verão, sentados sobre a ponte. A ponte, sempre a ponte.
Como as águas do Rio Drina, nada mudou e tudo mudou nos Balcãs ao longo dos séculos. De permanente restou a alma humana com suas fragilidades, angústias e anseios, tal como a ponte construída pelo grão-vizir.
Ponte Sobre o Rio Drina.Autor Ivo Andric – traduzido do Sérvio por Alexandar Jovanovic. Editora Grua. O leitor brasileiro conta com a tradução direta do idioma original feita pelo Professor Alexandar Jovanovic da Universidade de São Paulo.
Fascinante. Devo procurar o livro, sem falta.
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Aldo, não há de se arrepender. A tradução direta para o português foi feita por um especialista. Boa leitura.
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Boa noite. Um livro maravilhosamente escrito sobre pessoas e pedras, sobre a história dos tumultos dos homens frente à impassibilidade das rochas e de como as coisas as vezes precisam mudar para permanecerem como sempre foram.
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Marcia, sim…o livro nos apresenta uma metáfora da ponte como observadora da história. Obrigado pelo seu comentário.
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