Lucio Cardoso: 60 anos da Crônica da Casa Assassinada

O legado literário de Lucio Cardoso merece ser redescoberto. O autor produziu contos, um livro de memórias e romances, entre os quais se destaca a Crônica da Casa Assassinada de 1959. Faleceu em 1968 com 56 anos. Quando um acidente vascular cerebral afetou sua capacidade de falar e escrever passou a pintar usando a mão esquerda.

Ao ler a Crônica da Casa Assassinada na edição comemorativa dos 40 anos da sua publicação – a obra completou 60 anos em 2019 – tive a sensação de ler um roteiro pronto para ser levado à tela. Quando fiz este comentário para o amigo, cineasta e escritor, João Batista de Andrade, dele ouvi resposta de quem domina o tema. “A obra foi filmada por Paulo Cesar Saraceni com Norma Bengell no papel de Nina e com música de Tom Jobim.”

Lucio Cardoso, nascido em Curvelo nas Gerais, faz parte da estirpe de escritores que migraram para o Rio de Janeiro onde passam a exercer sua mineiridade, no caso de Lúcio, arredia. A obra de Lúcio expõe o espírito humano. O livro Contos da Ilha e do Continente, uma coletânea organizada por Valéria Lamego, tem prefácio que trata da vida e obra do autor. No livro Diários, Lucio trava luta com a religiosidade, talvez um traço do seu caráter mineiro.

Lucio expõe um conflito irresoluto com Minas ao afirmar: “Meu movimento de luta, aquilo que busco destruir e incendiar pela visão de uma paisagem apocalíptica e sem remissão, é Minas Gerais. Meu inimigo é Minas Gerais….Que me entendam bem: contra a família mineira. Contra a literatura mineira. Contra a concepção de vida mineira. Contra a fábula mineira.“

Um elemento fundamental na vida do autor é sua relação com Clarice Lispector a quem conheceu quando ela tinha 20 anos e ele, um lustro mais velho. Tudo sugere a existência de duas almas irmãs, grandes demais para caberem no mundo. Clarice escreveu em crônica publicada no Jornal do Brasil quando da morte de Lucio:

“Lucio e eu sempre nos admitimos: ele com sua vida misteriosa e secreta, eu com o que ele chamava de vida apaixonante. Em tantas coisas éramos tão fantásticos que, se não houvesse a impossibilidade, quem sabe teríamos nos casado.” 

Talvez tal impossibilidade tenha feito de Clarice uma escritora, a mesma impossibilidade que revela uma escolha pessoal do autor cuja vida atormentada fica desnuda nos Diários onde ele escreve: Que casa é esta, onde será a minha casa? Existirá, eu a verei um dia?

Na Crônica da Casa Assassinada o autor retrata transgressões em todas as letras. Descreve a Chácara dos Meneses, um local decadente como a família que nele habita. Desenha a planta da casa e da chácara, que permite ao leitor identificar a estrada de Vila Velha por onde entrará Nina, a personagem central, mulher que se casa com o dono da fazenda para depois o trair e abandonar. Nina deixa Chácara dos Meneses para retornar duas décadas depois e encontrar o seu filho. Lucio descreve a Serra do Baú, presente no horizonte como um local inacessível que fica para os lados da Fazenda Antiga. A família decadente admira um Coronel, vizinho, poderosa figura que lhes promete uma visita nunca concretizada. A espera infindável obriga que a família esteja sempre preparada para o encontro. Demétrio, personagem rejeitado pela família, fica confinado em um quarto e veste roupas femininas herdadas da mãe. É a metáfora do homossexualismo do autor que explica a impossibilidade explicitada por Clarice. Timóteo, repleto de humanidade, é quem Nina escolhe como confidente se tornando conhecedor da verdade sobre o crime ocorrido naquele jardim escondido onde o jardineiro é assassinado. Nina trai o esposo, seu filho retorna para casa e emerge entre ambos uma relação intensa, por assim dizer. Emoldurando a obra, o tabu do incesto incomoda o leitor em todo o percurso da leitura. A tensão cresce e a aproximação da morte de Nina, anunciada no início da narrativa, traz uma quebra de expectativas, uma revelação, um amor escuso, dignos do melhor que a literatura pode proporcionar.

Lucio Cardoso escreveu com competência. A caracterização do espaço onde o enredo se desenvolve, os personagens, o decaimento de Nina, trazem elementos que dão visualidade ao texto. Os personagens são delineados com esmero escultórico. A provocação do leitor fica por conta de cenas de elevada tensão como o velório de Nina e, acima de tudo, por elementos psicológicos da transgressão.

A obra de Lucio Cardoso não perdeu o vigor e a atualidade. Lucio faleceu sem se reconciliar com a alma mineira, mas transformou a vida de Clarice Lispector que escreveu:

“Foi Lucio que me transformou em mineira: ganhei diploma e conheço os maneirismos que amo nos mineiros.”

E nós também.

2 comentários sobre “Lucio Cardoso: 60 anos da Crônica da Casa Assassinada

  1. Ótimo artigo. Só um reparo: é Timóteo o nome do irmão que vive confinado no quarto e se veste com as roupas da falecida mãe. Demétrio é outro irmão, casado com Ana.

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