Sobre o livro: On Tyranny

Caras amigas e amigos leitores. Decidi republicar este texto de 2018. Cabe de forma justa no momento que o Brasil vive, desgovernado e capturado por um candidato a déspota.

Tirania: usurpação do poder por um indivíduo ou grupo que captura o aparato legal em seu próprio benefício.

Foto com o Sr. Johannesson, Presidente da Islândia

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Ao conhecer a programação do Festival Internacional de Literatura em Reykjavik decidi participar da sessão solene em memória a Jón Sigurosson (Estadista islandês, 1811-1879) que ocorreria no campus da Universidade. Eu desconhecia Timothy Snyder, o autor convidado, mas um detalhe me motivou a participar; o moderador da sessão seria Guoni Th. Johannesson, o Presidente da Islândia. Eu queria ver uma cena impossível de ocorrer no meu país, um escritor debatendo sobre literatura com um líder político.

A escolha que fiz mostrou-se correta. O autor convidado, Professor da Universidade de Yale e especialista em história europeia, discorreu sobre o livro “On Tyranny”, cujas páginas são um convite para o leitor pensar no desengajamento do homem contemporâneo e nos riscos que correm as democracias.   O premiado autor e acadêmico (Prêmios: Hannah Arendt, Leipzig pelo Entendimento Europeu, Ralph Waldo Emerson da Academia Americana de Artes e Letas) foi capaz de produzir um livro dirigido ao público geral que traz um subtítulo; vinte lições do século vinte. A leitura revela o risco ao qual a sociedade contemporânea se expõe ao sucumbir a discursos populistas, politicamente corretos e ideologicamente restritos.

O autor nos alerta que a desigualdade social é mãe do populismo oportunista, fértil em propor soluções inalcançáveis. Assim instala-se a tirania, definida por Snyder como a usurpação do poder por um indivíduo ou grupo que captura o aparato institucional em seu próprio benefício ou por uma ideologia opressora. O historiador alerta para o surgimento, nos séculos XX e XXI, de lideranças ou de partidos que se autodenominam representantes únicos do povo, cujo método é menosprezar o debate e ridicularizar argumentos antagônicos, ignorar o conhecimento científico e desinformar.

Antes de relatar as vinte lições do século XX, o autor faz um alerta. Sociedades podem se desintegrar, democracias podem falir e a ética pode entrar em colapso, abrindo caminho para a apropriação do poder. As democracias, por sólidas que possam parecer, são suscetíveis aos ideários falaciosos que retomam argumentos vindos dos extremos do espectro político, argumentos potencializados pela desigualdade, pela ignorância e ausência de debate. O isolamento dos indivíduos somado à rapidez da conectividade, podem promover um caos perfeito explodindo falsas ideias pelas redes sociais. O comportamento da massa beligerante, que mata antes de julgar, que perde o senso crítico antes de dialogar e que que ignora as múltiplas identidades dos indivíduos, dá lugar às ações irracionais que marcaram o século XX e que se repetem na primeira metade do século XXI.

Snyder explora o efeito da falta do debate que permitiria contrastar ideários. A censura coletiva gera o desprezo pelo antagônico que é uma primeira aproximação para o uso da violência. O discurso politicamente correto e o desprezo ao antagonismo conduzem ao isolamento confortável do debate dentro da mesma tribo, debate que já nasce prejudicado pela falta da referência do outro modo de ver.

Snyder discorre sobre temas como a obediência social marcada pela perda do senso crítico, e a reverência ao poder, seja por interesse, medo ou covardia. Ressalta a importância das instituições, o perigo de um Estado capturado por uma ideologia, a necessidade do engajamento cidadão, o surgimento de ações paramilitares protegidas pelo Estado tirano, a necessidade de manter laços sociais, de garantir a privacidade, de observar experiências de outros países, de acreditar no poder das ideias e de manter a calma quando o impensável acontece.

Snyder baseia as ideias do livro nos estudos da história recente, que demonstra como sociedades podem entrar em colapso. Os líderes fascistas e comunistas rejeitaram a realidade em nome do combate a ameaças externas, apresentadas como conspirações tramadas contra a nação cujo verdadeiro representante só pode ser o tirano.  O monopólio da razão não se mostrou eficiente levando ao caos social e colapso dos regimes. A herança democrática representa um valor que deve ser cuidado, salvaguardado dos tiranos. A experiência vivida pelos regimes totalitários e formas outras de absolutismo, demonstram a importância de cuidarmos da democracia, o que exige o debate desarmado das ideias, que a priori não desqualifique o oponente e que permita refinar os próprios argumentos ao invés de mirar-se a si mesmo, como Narciso, belo e solitário.

Ao final do debate eu cumprimentei ambos, o Professor Snyder e o Presidente da Islândia. Falei de como aquele evento seria de difícil replicação no meu país, ao que o Presidente respondeu: “ Entendo, não precisa explicar. ”

(On Tyranny: twenty lessons from the twentieth century –  The Bodley Head – Peguin, 2017, publicado no Brasil pela Companhia das Letras com o título, Sobre a Tirania)

3 comentários sobre “Sobre o livro: On Tyranny

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