Viva Scholem Aleichem (1859-1916) – No ano do centenário da morte do escritor – revisado em 2023
Qual o alcance da pena de um escritor? Qual a sua função na sociedade? O olhar do escritor nos ajuda a compreender o passado? Os escritores seriam profetas que lançam luzes sobre o futuro? A obra de Scholem Aleichem sugere respostas a estas questões.
O dia 31 de maio de 2016 marca o centenário da morte do autor cuja obra retratou o cotidiano dos judeus da Europa oriental até o início do século XX. O escritor nasceu em Pereieslav, cidade que fica na província Poltava, na Ucrânia e cidades como Kiev, Baranovitch, Kasrilevke, Paris, Viena, Vilna, Odessa, Lodz, são citadas em sua obra. Viveu na região onde havia considerável presença judaica que desapareceu com o holocausto. Diferente da maioria dos jovens judeus, Scholem Rabinovitch – seu nome oficial – estudou na escola comum, o que era raro pois aos judeus só era reservada uma restrita quota de acesso. Em um dos seus contos chamado Gymnasia, o autor explorou o drama de um menino que desejava estudar mas foi barrado pelo limite de alunos judeus que podiam frequentar a escola na Rússia czarista. Na época os judeus desfrutavam de quotas, porém `as avessas. Na escola aprendeu o russo, idioma que utilizou no início da sua atividade literária, na sinagoga aprendeu o hebraico que renascia como idioma laico, mas foi o ídiche que adotou como seu idioma literário. Na sua infância frequentou a Casa de Estudos, o heder, aonde conheceu métodos didáticos arcaicos associados ao ensino das escrituras, explorados na sua obra.
O ambiente hostil dos pogroms e a onda de antissemitismo crescia na região. Em Kiev, descobriu que não teria direito de se estabelecer como cidadão. A crescente instabilidade social afetou sobremaneira a sua obra, a mesma motivação o levou a focalizar, na sua escrita, não as grandes cidades mas sim a shtetl, a pequena vila onde os judeus levavam seu cotidiano marcado ao mesmo tempo pela miséria material e pela riqueza de tipos humanos. Os nomes dos locais que frequentam a sua obra, como Kasrilevke ou Zlodievke podem significar qualquer uma das vilas de onde emigraram os judeus em busca de refúgio, deixando no solo europeu e o pouco-quase-nada que tinham de bens. O idioma iídiche permitia retratar, com riqueza de detalhes, a pobreza e a alegria, a miséria e o humor, o drama e o sofrimento, característicos do período. Como afirma Inwing Howe, o autor conhecia intuitivamente que a fronteira entre a comédia e a tragédia é uma linha tênue, por vezes inexistente. Tendo na sua raiz elementos do alemão, eslavo e hebraico, o ídiche era a falado no ambiente polilinguístico onde os judeus dividiam o espaço, mas não as instituições, com as populações cristãs. O idioma, um reflexo da realidade social, funcionava como a língua popular que se distinguia do hebraico, falado nas casas de estudo e de oração. O ídiche era apropriado para lidar com os tipos comuns como; o shleper (maltrapilho), o entregador de água, o shames (bedel da sinagoga), o mohel (que cumpre o ritual da circuncisão), o gabai (administrador da sinagoga), o shlim-mazel (azarado), o alfaiate, o daian (juiz), o schohet (faz o abate ritual dos animais), o hazan (cantor da sinagoga), o schnorrer (miserável) a casamenteira e o rabino.
O crítico Borukh Rivkin afirma que Scholem Aleihem construiu um universo ficcional sólido e realista, para compensar a crescente insegurança, a hostilidade, a intolerância e a falta de um território e uma nação próprios. Se uma língua reflete o momento do grupo social que a utiliza, o século XX vivenciou o fim do idioma ídiche, reflexo do fim da cultura enraizada na Europa cuja população seguiu três caminhos. Alguns foram para Israel, a exemplo de intelectuais como Gershom Sholem e Martin Buber, e adotaram o hebraico atraídos pelo movimento sionista cujo inicio ocorreu no século anterior. Outros seguiram para as Américas e adotaram os idiomas locais, seja o inglês, o espanhol e o português, a exemplo de Isaac Bashevis Singer e Scholem Aleihem, nos EUA. No Brasil cabe citar nomes como; Stefan Zweig, Jacó Guinsburg, Anatol Rosenfeld e Boris Schnaiderman. Os que permaneceram em solo europeu encontraram o seu destino nos campos de concentração e nos guetos, como Janusz Korczak, e outros escolheram outra saída, como Walter Benjamin e Primo Levi.
A Obra Reflete a Vida: A obra de Scholem Aleichem, ainda que prenunciasse os tempos difíceis que viriam, é obra que celebra a vida. O convívio com as rotinas da schtetl lhe deu suficiente munição para o seu trabalho literário. Os imigrantes seguiram a vida a seu modo, no Bronx, no Once, no Bom Retiro, no Bomfim, ou na Praça 11. De algum modo, a motivação presente na obra de Scholem Aleichem influenciou os escritores judeus estabelecidos nas Américas. A narrativa em primeira pessoa marca o seu estilo literário que se aproxima da tradição da narrativa oral. O narrador conta o fato ocorrido quase sempre centrado no drama humano presente nos eventos simples do cotidiano. Mesmo quando o personagem é um animal, o drama humano aparece por contraste. A criança que rouba um canivete, objeto do seu desejo, a mulher que quer uma cabra e tortura o marido até que a consiga comprar, o relógio que bate treze vezes, o cavalo velho chamado Matusalém, ou Robtchik, o cachorro perdido expulso pelos cães locais que não querem dividir o osso, o roubo do dinheiro no Yom Kipur, são narrativas que envolvem fatos e personagens com os quais nos identificamos em qualquer tempo e lugar. Recorro ao lugar comum para reafirmar que o caráter universal dos seus personagens é a marca da sua obra. A mãe que se preocupa com a entrega do filho para a casa de estudos, a figura do leiteiro, do bedel da sinagoga, do entregador de água, todos são imagens que, por um lado marcam um modo de vida que não sobreviveu ao tempo, por outro encontram paralelo na nossa vida metropolitana do século XXI.
Alguns dos perfis que desfilam na sua obra refletem a sua experiência, como o pai doente, o professor cruel, a mãe dominadora. Talvez o perfil de Tevye, o leiteiro, seja o mais conhecido por ter inspirado a obra O Violinista no Telhado. A explicação do sucesso dos tipos criados por Scholem Aleichem traz mensagem que extrapola o drama do judeu da diáspora. Na verdade representa o drama de todas as culturas premidas pelo exílio e consequente convívio extra muros que põe em risco a preservação do seu modo de vida. Seja um cigano vivendo nos Estados Unidos, um japonês no Brasil ou no Peru, um índio brasileiro do Xingú, todos compreenderão o drama de Tevye cujos filhos seguiram caminhos não programados. Uma filha foi para a Sibéria, outra se casou com um goi (não judeu), uma terceira ficou viúva, outra se suicidou e outra se casou por interesse e seguiu para a América.
Os seus contos trazem elementos de contemporaneidade. O furto do dinheiro da comunidade durante cerimônia no Yom Kipur tinha um suspeito, o visitante recém chegado e desconhecido que seguiu as orações com fervor. Toda a comunidade, ao negar o roubo, não deixou outra saída para o Rabino a não ser revistar cada um dos presentes. Foi quando um deles chorou e esperneou, não querendo ser revistado, e todos entenderam que haviam encontrado o ladrão do dinheiro. A surpresa, que caracteriza o conto enquanto estilo narrativo, veio ao abrirem suas vestes onde encontraram não o valor furtado, mas os ossos de um frango recém devorado. A transgressão deixou de ser o roubo mas sim a não observâncias do jejum. O autor do roubo passou a ter papel secundário, a verdade nunca se revelou mas sim a da transgressão religiosa.
No conto “Os dois antissemitas”, dois homens inequivocamente judeus a partir da sua aparência, tudo fazem para negar a sua identidade durante uma viagem de trem. No restaurante pedem comida impura (não kasher). Ambos, sem se conhecer, compram o conhecido jornal antissemita e com ele cobrem os seus rostos durante a viagem de trem. Ao acordarem, ambos se olham e desconfiam das identidades. Um deles tem a ideia de assobiar conhecida canção judaica, Ao fazê-lo eles se identificam, desistem de dissimular a identidade e passam a dançar e cantar em público. Ou seja, no momento em que eles se aceitam como judeus, o olhar dos outros deixa de ser o mais relevante. O pior antissemita é aquele que não assume a sua própria identidade.
Tendo perdido parte da herança recebida do seu sogro e desfrutando de reconhecimento como escritor, Scholem Aleichem seguiu para os Estados Unidos, primeiro para ministrar palestras e depois em caráter definitivo. Depois dos pogroms ocorridos ao redor de 1905, Sholem Aleichem viajou para Nova Iorque, retornou para a Europa em 1906 e para Nova Iorque pouco antes de falecer em 31 de Maio de 1916. Viu surgirem e colaborou com diversos jornais escritos em iídiche. Conheceu uma fase rica do teatro ídiche. Os seus textos foram traduzidos para o inglês, como “Holiday Tales of Sholom Aleichem” que conta histórias para crianças, obra organizada e traduzida por Aliza Shevrin (Alladin Books, 1979), ou a coletânea “The Best of Sholom Aleichem” editado por Irwing Howe e Ruth Wisse (New Republic Books, 1979). Esta coletânea traz, a título de introdução, uma longa troca de correspondências entre os organizadores que viviam, um no Canadá e outro nos Estados Unidos. Os organizadores tecem, pela via epistolar, uma análise da vida e obra do autor.
No Brasil temos a coletânea que leva o título “A Paz seja Convosco”, organizada por Jacó Ginsburg, com notas e textos de Otto Maria Carpeaux, Tatiana Belinki entre outros. Esta obra, parte da coleção “Judaica” editada pela Editora Perspectiva, surgiu para celebrar 50 anos da morte do autor. Nos dias atuais, ao lembrarmos da obra deste autor, cabe uma reflexão. Qual o alcance da pena de um escritor? Qual a sua função na sociedade? O olhar do escritor pode ajudar a compreender o passado? Ou quem sabe, profetizar, lançar luzes sobre o futuro?
A resposta é “sim”, literatura exerce estas funções e mais. Ao observar o mundo contemporâneo, Scholem Aleichem não se surpreenderia ao ver os refugiados deslocados dos seus países a vagar em busca de um porto seguro, tampouco se surpreenderia ao ver o pensamento radical extremista, a intolerância religiosa e étnica. A obra de Scholem Aleichem é atual pois o drama humano não mudou, nem o papel da literatura.
Sholem aleichem (a paz seja convosco).
Decio Zylbersztajn
Abril 2016 – Revisado em Janeiro de 2023.
Interessante a explicativa abordagem sobre a obra de Sholem Aleichem, escrita por Decio Zylbersztajn nos dá uma visão do passado e util no presente, trazendo a lembrança desse grande escritor que foi Rabinovitz.
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