Impressões sobre a Islândia

 

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A Escassez que nos Falta: impressões sobre a Islândia

Bemvindo a Thingvellir. Fica na Islândia às margens do rio Oxara. O local tem significado central na vida dos islandeses até os dias de hoje. Encontros, cerimônias cívicas e datas importantes lá são celebrados atraindo milhares dos 300 mil habitantes do país. Evidente sentido de civismo e orgulho nacional marcam o local e a maneira pela qual os islandeses o distinguem.

No ano de 930 a Althingi, a assembléia geral, foi instalada e funcionou ininterruptamente até 1264 com plena atividade legislativa e cumprindo o papel de suprema corte de justiça. Thingvellir está estrategicamente localizada fora da capital, Reykjavik, o que visava facilitar o acesso das comunidades mais distantes, em um país que manteve vilas isoladas até recentemente. Em várias partes do país as geleiras e a falta de portos na costa, fizeram com que a sobrevivência dos habitantes dependesse da cooperação e do trabalho para, literalmente, colher no verão o feno a ser utilizado no inverno para alimentar as criações. Qualquer falha significaria a fome. O período de junho-julho é marcado pelas pastagens pontilhadas de grandes fardos de feno cobertos por um plástico branco. É a necessária poupança para o inverno de escuridão plena que virá em breve.

Até o final da primeira fase da organização política da Islândia, Thingvellir era o centro das grandes decisões. Não havia um rei, pois os “clans” que se estabeleceram nas quatro áreas da ilha não conseguiam definir uma única liderança. As disputas eram decididas em Thingvellir onde atuava um juiz, o “Law Speaker”, que conhecia e recitava as leis. Não havia então um código formalmente escrito. Toda a população tinha acesso ao local e ao encontro anual.

A Islândia ficou sob o domínio da Dinamarca a partir de 1662. O local perdeu a relevância legislativa, mas manteve o funcionamento da corte suprema até 1798. Nos séculos XIX, XX até os dias de hoje manteve o valor simbólico para os seus habitantes. A moderna história de independência do país começou em 1944, em plena segunda guerra mundial, quando a República da Islândia foi fundada ganhando autonomia da Dinamarca com base em um regime presidencialista parlamentar. Thingvellir foi o local escolhido para realizar a cerimônia embora a casa legislativa hoje funcione na capital.

O histórico local é hoje um Monumento da Humanidade, assim definido pela UNESCO. Fica em meio a um parque nacional. Chegando ao sítio procurado eu segui as indicações e cheguei a uma encosta escarpada de onde se pode avistar uma área plana cortada por um rio e seus meandros. Ao longe achei aquilo que procurava. O antigo parlamento lá está, com uma construção caracterizada por quatro pequenas casas adjacentes, quatro telhados pontiagudos, ladeados por uma pequena igreja. Para um visitante episódico como eu, senti a plena força das instituições e da organização da sociedade.

A sobriedade da Islândia é marcada pela luta contra as ameaças da natureza. Quem coopera sobrevive, quem se isola perece. Em circunstâncias difíceis, só instituições fortes e bem implantadas podem permitir a sobrevivência de uma sociedade. A escassez de recursos no país exige uma vida caracterizada por regramentos rígidos que por sua vez premia a população local com o mais elevado índice de desenvolvimento humano do mundo. A renda de 46 mil dólares per capita em 2005 era a quinta maior do mundo. A indústria é baseada na pesca, alguma lã, e uma indústria de alumínio para lá atraída pela energia geotérmica abundante.

Sem obras faraônicas e contando cada tostão gasto, assim vive o país que tangencia o círculo polar ártico. Grandes pontes que ligam o sul, onde fica a capital do país, ao norte, foram varridas do mapa quando uma erupção vulcânica ocorreu na área da maior geleira, que cobre 10 % do país. O derretimento do gelo causou uma inundação de proporções catastróficas, devidamente registrada em filmes exibidos continuamente para os visitantes do parque nacional de Skaftafell. O fato ocorrido em 1976 deixou um rastro de desolação e morte.

Novas pontes foram feitas. São simples, de uma única pista e de estrutura metálica, um pouco a nos dizer que se nova erupção ocorrer, será mais fácil permitir que a natureza faça o seu trabalho. A fragilidade humana fica evidenciada no local.

Não pude deixar de pensar em Brasilia, também escolhida pela UNESCO como um patrimônio da humanidade. Comparada com Thingvellir, Brasília é suntuosa. Enquanto o primeiro é apenas um lugar de encontro entre cidadãos, Brasília é uma estrutura física privilegiada pelas formas modernas que chamam a atenção em especial quando vistas a alguma distância. Tentei traçar outros paralelos, mas não consegui. Como o contraste pela negação também nos permite entender a nossa própria sociedade, ficou claro que a abundância dos recursos no Brasil sempre foi de tal ordem que pouco regramento foi necessário para a sua utilização. A escassez nos faz falta.

Os dois patrimônios da humanidade, Brasília e Thingvellir são ética e esteticamente diferentes. Os sentimentos cívicos dos cidadãos dos dois países que resultam das diferenças éticas, sinalizam que crédito, orgulho nacional, respeito pelas instituições, normas de convívio e respeito social são as marcas necessárias para o desenvolvimento econômico.

Guardo a esperança de visitar, um dia, a esplanada dos ministérios em BRasilia e sentir a mesma sensação que experimentei ao chegar à escarpada encosta de Thingvellir. Certamente deverei esperar que os atuais habitantes do planalto central mudem os seus hábitos.

Não posso deixar de comentar que para melhor conhecer a alma da Islândia, sugiro a leitura da obra de Alldór Laxness. Em especial Gente Independente (traduzida), The Fish Can Sing e Paradise Reclaimed. O autor ganhou o Nobel de Literatura em 1955. A capital Reykjavik é uma das Cidades da Literatura da UNESCO.

Zylber Sztajn

 

 

 

 

2 comentários sobre “Impressões sobre a Islândia

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