Tulio Seppilli: o resgate do acadêmico

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Tulio Seppilli: o resgate do Acadêmico (in memoriam)

Sinto falta de dois tipos humanos, os estadistas e os acadêmicos. O acaso me levou a conhecer a Fundação Angelo Celli localizada no Mosteiro de Santa Catarina Velha em Perugia onde Tulio Seppilli me aguardava. Uma voz pelo interfone me orientou a abrir o portão de ferro que dava para o jardim. Entrei em um antigo mosteiro Beneditino transformado nas dependências da Fundação dirigida por Tulio Seppilli dedicada a estudos em Antropologia da alimentação e saúde humana. A equipe era formada por quatro Antropólogos, Anita, uma gata negra e, nos bastidores, Ana, a esposa chinesa de Tulio me aguardavam.

A atual sala de trabalho já serviu como área de refeições do mosteiro. Tem o piso e as paredes de pedra e o teto ostenta a forma de arcos com tijolos emparelhados de modo a conferir equilíbrio estrutural. A arquitetura sólida e equilibrada faz perfeita harmonia com o perfil de Tulio Seppilli. 

Tulio nasceu em 1928, filho da antropóloga Anita Schwartzkopf e de Alessandro Seppilli, médico sanitarista. A mãe foi autora de livros como Poesia e Magia e A exploração da Amazônia. O pai foi criador da cadeira de medicina social da Universidade de Perugia e da Fundação de Estudos em Medicina Social. A importância do trabalho científico e intelectual de ambos não foi suficiente para dar-lhes algum alento durante o governo fascista de Mussolini, que lhes roubou a cidadania. Eram comunistas de origem judaica, qualquer das duas identidades bastaria para tornar intolerável a permanência na Itália em 1935. Seguiram para o Brasil, onde foram acolhidos por famílias italianas. Os Seppilli se instalaram em segurança durante a guerra, o pai conseguiu um emprego na indústria farmacêutica em São Paulo, não podendo praticar a medicina.

O jovem Tulio foi estudar no colégio Dante Alighieri e depois na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, onde teve contato com os acadêmicos formadores das Ciências Sociais no Brasil. Estudou ou recebeu influência de nomes como Bastide, Levi Strauss e Hugon. A mesma matriz que formou Antonio Candido, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Diva Benevides Pinho, formou também Tulio Seppilli. Findo o conflito a família retornou para a Itália em 1946 e Seppilli pai retomou o posto na universidade de Perugia. O filho concluiu os estudos no Brasil e retornou ao seu país onde desenvolveu estudos na área da Antropologia voltada à saúde e alimentação.

Eu conheci Tulio em Perugia no ano de 2010, em uma reunião com pesquisadores na área da Economia aplicada à Agricultura. Tentávamos estruturar um projeto de pesquisa que trataria do tema dos alimentos aglutinando as óticas da Antropologia, da Economia e do Direito. Após um dia de trabalho, Tulio – sentado ao meu lado – me perguntou em português claro e límpido se eu aceitaria um convite para jantar. Eu, surpreso com o domínio da língua portuguesa pelo Antropólogo com quem havia debatido durante todo o dia sem saber da sua ligação com o Brasil, aceitei o convite. Durante o jantar ouvi os detalhes da experiência acadêmica, da história de vida e do interesse pelo Brasil expressos por Tulio. Soube da sua contribuição para as políticas públicas de saúde mental, principalmente a desinternação de doentes mentais adotadas na Itália e do interesse pelas populações indígenas brasileiras, cujo desenraizamento cultural provocava problemas de suicídio entre os jovens.

Retornei a Perugia em 2012 para continuar o trabalho de cooperação com a Universidade de São Paulo. Fui recebido por Gaetano Martino, Economista Agrícola como eu, com quem compartilho interesses que vão além da academia. Debatemos literatura, arte e discutimos temas da organização da sociedade. Gaetano me passou textos antropológicos e outros que tratam da relação entre Economia, Agricultura e as outras ciências sociais. Ao me despedir do amigo ele me informou que mantinha encontros quinzenais com Tulio para debater temas de interesse comum. Eu lhe disse. – Que sorte a sua ter tal privilégio. – Gaetano não me respondeu, apenas concordou.

Ao me despedir de Tulio, no mesmo portão de ferro do Mosteiro de Santa Catarina – que segundo Tulio foi uma Santa que nunca existiu – ele me disse que viria ao Brasil dentro de duas semanas para uma série de conferências na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Eu o reencontrei em Junho de 2013. Na manhã marcada pelo clima chuvoso do início do inverno, enquanto as ruas ferviam com as reações de insatisfação da sociedade brasileira com o perfil da classe política. Tulio estava à mesa da sala de conferências da “Casa de Arnaldo”, na Faculdade de Medicina da USP, uma sala tradicional com a mesa do palestrante no nível inferior e as cadeiras do auditório postadas de tal forma que os presentes olham para baixo na direção do palestrante. Mesmo com a experiência acumulada de muitas décadas, Tulio parecia nervoso.

Eu, um professor de Economia das Organizações Agrícolas era um ser estranho no ninho, em meio a estudantes e professores de medicina. Sendo o palestrante quem era eu me senti à vontade, muito pela atitude inclusiva de Maria de Lourdes Beldi de Alcântara, a Lurdinha – uma Antropóloga dedicada ao estudo das comunidades indígenas brasileiras – colaboradora e amiga de Tulio Seppilli.

Tulio falou longamente e o tempo passou rápido. Tratou das relações entre saúde mental e saúde orgânica. Explorou as funções dos rituais no processo de cura. Discutiu a função do alimento e do ato ritual que acompanha a refeição. Debateu a importância da relação médico-paciente com exemplos claros aos ouvidos leigos de um economista. Discorreu sobre os obstáculos do modelo vigente da medicina de massa. Tratou da relação médico-paciente vista como parte de um ritual no qual o contato físico e a identidade fazem parte do processo de cura. Ao tratar do tema do alimento, me lembrou das aulas que tive na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP e dos trabalhos de Walter Radamés Accorsi, dedicado aos estudos de ervas medicinais cuja eficácia tinha muito a ver com os conceitos explorados por Tulio.

Seppilli trouxe à tona a desvalorização dos estudos sociais e antropológicos no atual cenário da pesquisa médica. Eu pensei no declínio da relação entre a Sociologia e a Economia, exatamente quando os Economistas e os Sociólogos mais deveriam realizar pesquisas conjuntas. Lembrei das aulas de Sociologia Rural que tive com José Molina Filho e Maria Ignez Molina na ESALQ, importantes para mim ainda hoje.

Tulio explorou temas marginalizados pela ciência, considerados exotéricos, lembrando que a ciência deveria estudar os fenômenos ao invés de ignorá-los. Segundo Tulio, temas como a possessão e os diferentes estados de consciência deveriam ser estudados pela medicina. Seppilli, lembrou que em uma cidade como Salvador, onde larga porcentagem da população frequenta os terreiros de Umbanda, o efeito da crença sobre a saúde pública deveria ser estudado. O enraizamento cultural importa para o equilíbrio. Túlio lembrou que existem dificuldades inerentes para o estudo de fenômenos sociais não replicáveis e não controlados. Certamente esta mesma dificuldade existe em todas as áreas das ciências sociais incluindo a Economia. Tulio me fez lembrar do trabalho de Simone Weil sobre enraizamento cultural como fonte de equilíbrio social, que devo ao amigo Ivan Vilela.

Não tive tempo para debater sobre a relevância dos estudos de caso, que são comuns na Medicina, no Direito e na Administração embora menos aceitos pela área da Economia, e não tive tempo para conversar mais com aquele homem notável.

Ao me despedir de Tulio Seppilli, por telefone, agradeci pela experiência que me proporcionou. O pensamento de Tulio tumultua as nossas certezas causa desconforto nas mentes dos ouvintes. Tulio me fez compreender que existe potencial para a pesquisa interdisciplinar, de modo especial para o diálogo entre a Sociologia, Antropologia e Economia, no meu caso, aplicados à agricultura. Em determinado momento Tulio me revelou que Gaetano, o meu colega em Perugia, está fazendo um – novo – doutorado em Antropologia, sob a sua orientação. Eu compreendi a razão das reuniões quinzenais e do seu interesse pelas ciências sociais.

O Brasil em determinado momento da sua história acolheu a família Seppilli, assim como acolheu Claude Levi Strauss e outros cientistas refugiados. Tal fato, além de ter gerado um resultado positivo para a ciência me faz pensar na importância e na responsabilidade que o Brasil tem, como um país capaz de acolher refugiados dos mais diferentes perfis. A Universidade de São Paulo, pode se orgulhar de ter tido em seus quadros discentes um jovem italiano que aqui estudou ciências sociais e que seguiu brilhante carreira, representando uma geração de Acadêmicos da melhor estirpe que se pode produzir. No plano pessoal, Tulio semeou idéias que ficaram reverberando na minha mente.  No dia 23 de Agosto de 2017, aos 89 anos, Tulio Seppilli faleceu na cidade de Perugia, Italia. 

3 comentários sobre “Tulio Seppilli: o resgate do acadêmico

  1. Um relato apaixonante, Décio. Fez a memória viajar para meus tempos de “Maria Antonia”, na USP. Intrigante a ideia de aproximação da Antropologia, Sociologia e Economia em pesquisas… nunca havia parado para pensar isso. Ab.

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