Portas Abertas pela Educação: um relato pessoal

Portas Abertas pela Educação: um relato pessoal

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Atuo na área da educação superior e pesquisa científica faz 40 anos. A minha esposa – Rosmarie – aposentou-se como professora do segundo grau, depois de trinta anos de atividade ensinando matemática e ética. O debate sobre ensino e educação faz parte do nosso dia a dia. Com base nas nossas experiências com alunos de diferentes faixas etárias compreendemos a relevância da educação como agente de mudança e promotora de cidadania. Vivenciamos a deterioração da qualidade da educação, refletida nos alunos com os quais trabalhamos.

Eu conheci a minha esposa em uma escola estadual paulistana no bairro do Bom Retiro. Ainda hoje os ex-alunos do antigo Colégio Estadual e Escola Normal Dr. Alarico Silveira se reúnem periodicamente. É quando tenho a oportunidade de encontrar pessoas formadas no “ginásio” em 1968 ou no “científico” em 1971. Tenho o privilégio de rever amigos como o Homero, hoje escritor, que morava ao lado da antiga rodoviária no local hoje conhecido por cracolândia. Tenho contatos com o Roberto, Miquele e Alberto, todos médicos. Não tenho tido contato com o Baldi, também médico. Lembro do Breno e do Marcio, ambos médicos que “partiram antes do combinado”. Ambos foram pediatras com excelente reputação. Breno ensinava na Faculdade de Medicina da Santa Casa. Troco correspondências com o Alberto-Betão, hoje engenheiro, e com o Adolfo, que é advogado e sociólogo, recentemente por meio das redes sociais encontrei Cláudio e Maria da Graça, ambos casualmente morando na mesma cidade. O Ito, que também nos deixou, era poeta e músico. Era filho do zelador de um edifício na São João, onde costumávamos brincar a apreciar a vista do último andar, teve sucesso como homem de marketing. A Rosa é artista plástica com um atelier na Vila Madalena, a Sonia é advogada, professora e mestre em Direito, formada no Largo São Francisco e outra Rosa é psicóloga no Rio de Janeiro. Débora formou-se em línguas e hoje mora nos Estados Unidos, onde a Mari também vive, tendo seguido carreira de executiva em um banco internacional.

O leitor pode perguntar qual a razão de eu mencionar estes nomes tão pouco relevantes para quem não nos conhece. A resposta é que o grupo de pessoas citadas teve algo em comum. O acesso ao ensino público de boa qualidade. Fizemos o primário no Grupo Escolar Marechal Deodoro na Rua dos Italianos e o colegial e o científico no Alarico Silveira, que na época compartilhavam o mesmo endereço. Era um truque do governo militar, para dobrar o número de escolas. Os estabelecimentos funcionavam no mesmo endereço, em horários diferentes.

Tínhamos em comum a origem simples de filhos ou netos de imigrantes ou de gente que trabalhava no comércio e serviços na região central da cidade.  Conviviam no espaço público, os filhos de judeus, de italianos, de japoneses, de gregos, negros, brancos ou mulatos. Os coreanos ainda não tinham chegado ao bairro. No domingo pela manhã frequentávamos a escola, para treinar basquete, sob a batuta do professor de educação física. Tivemos em comum o uso de um espaço físico que se deteriorava a olhos vistos – os banheiros eram impossíveis de serem utilizados – O problema era compensado pela presença de Educadores de qualidade como Luiza Helena, que me ensinou geografia na escola primária, Raquel Geverts (Fisica), Chana (Matemática), e Violete Nagib Amary que nos ensinava Português apoiada na atividade de criação cênica. O trabalho de teatro e literatura foi dirigido por Evaristo de Oliveira, um apaixonado pelo teatro, que nos apresentou as técnicas do laboratório de Jerzy Grotowski e com quem acompanhamos o teatro de Augusto Boal e de Vianinha.

Guiados pelas amizades do Evaristo com profissionais das artes cênicas, assistíamos os espetáculos no dia da classe ou no enterro das peças em cartaz, o que nos poupava de pagar a entrada. Evaristo foi uma amizade sincera, até que soubemos da sua morte, não pela AIDS que o acometera, mas por atropelamento na Praça das Bandeiras. Não tenho como esquecer da montagem de O Alienista de Machado de Assis, ou de um espetáculo chamado “Falou e Disse” produzido pela Professora Violette e dirigido pelo Evaristo, apresentado no Teatro João Caetano pelo TEDRAS – Teatro Estudantil Dr. Alarico Silveira. Tudo isto acontecia na escola pública.

No antigo primário, o ensino de música utilizava o conceito lançado por Mario de Andrade, baseado na musicalização pelo canto orfeônico que utilizava um instrumento natural – as cordas vocais – para trabalhar o cancioneiro popular brasileiro que davam a base para o nosso estudo. A Professora Iolanda de Quadros Arruda nos ensinava música, vindo – se bem me recordo – de Santos todos os dias. Vi por acaso, o seu nome em um livro de música achado em um sebo em São Paulo. A escola pública tinha, então, um teatro, com palco e um piano, onde a Maria da Graça Martins – que se formou matemática – demonstrava a sua qualidade pianística. O espaço foi transformado em várias salas de aula apertadas, anunciando a mudança dos tempos.

A Educadora Raquel Gevertz, nos levou a conhecer as faculdades de medicina e engenharia. Com ela fomos visitar a Escola de Agricultura da USP em Piracicaba, onde fiquei impressionado com o Centro de Estudos Nucleares na Agricultura – o CENA – que tinha recebido a bomba de cobalto para irradiar alimentos e conduzir pesquisas com marcadores e radioisótopos. Assim eu fui capturado pela faculdade de agronomia da USP, a “gloriosa” ESALQ, onde eu viria a estudar e completar a minha educação. Virei Economista Agrícola.

Foi no ensino público de boa qualidade onde eu me formei e aprendi a conviver com a mescla cultural brasileira. Fiz doutoramento nos Estados Unidos apoiado por uma bolsa de estudos do governo e também foi uma bolsa da FAPESP que me permitiu seguir para o pós-doutorado em Berkeley. À educação básica e superior de boa qualidade, custeada pelo Estado brasileiro, eu devo a minha carreira e muito dos meus valores.

Nenhum dos amigos citados precisou de cotas para entrar na faculdade. Tivemos o acesso ao ensino superior, lastreados pelo ensino básico de qualidade. Se os edifícios se deterioravam, os Professores ainda eram de excelente qualidade. Constatei que o capital humano demora mais a decair do que o capital físico.

Ao relatar estas experiências, fico em dúvida se são muito particulares e pessoais. Se forem, peço desculpas ao leitor. Se o faço é por estar convencido que devo compartilhá-las em um momento onde se debate um modelo educacional com base em valores invertidos e desfigurados. Estamos a discutir as soluções para o ensino superior, que demonstram o nosso desmazelo pelo papel formador do cidadão, que é forjado no ensino básico e fundamental. Preocupamo-nos mais em prover bolsas para que alunos despreparados entrem em universidades privadas, quase sempre de baixa qualidade, do que em prover uma educação fundamental de real qualidade, que encaminhe o futuro cidadão. Ou ainda, oferecemos soluções institucionais de quotas que prometem resgatar a nossa dívida social, ampliando o acesso de jovens ao ensino superior público, sem que se apresente solução para o problema verdadeiro, que está no ensino básico e fundamental.

Nem tudo funcionou perfeitamente com os meus colegas de escola pública. Ao longo dos anos 60 e 70, alunos como o Josmelino Quintino Silva, desapareceram tragados pela realidade da miséria. Josmelino morava em uma favela do Bom Retiro, próximo à várzea do Tietê. Era o melhor entre todos nós. Brilhante e de pouca fala, nos deixava cheios de inveja nas aulas da D. Romana, que ministrava um curso preparatório para o exame de admissão ao ginásio, em uma pequena quitinete do nono andar de um prédio do Largo General Osório. Cruzávamos diariamente com os tanques da ditadura postados defronte ao antigo DEOPS. Josmelino, que não pagava pelas aulas de reforço, desapareceu tragado pelas necessidades de sobrevivência.

Eu hoje sou professor titular sênior da Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis da Universidade de São Paulo, onde exerci várias funções e formei dezenas de mestres e doutores. Não posso deixar de apontar para a real solução educacional que deveria focalizar a retomada do bom ensino fundamental de qualidade. O núcleo familiar – qualquer que seja o sentido atual deste conceito – e a escola pública, são os locais onde se deveria forjar valores e competências para o aprendizado continuado. A Universidade não forma bons tratoristas, escritores, artistas, operadores de máquinas, técnicos agrícolas, técnicos de enfermagem, de que precisamos tanto quanto de engenheiros e médicos e enfermeiros.

Na década de 2010-2020 o Brasil vive o momento histórico de estabilização do crescimento populacional, avanços e recuos na distribuição da renda e – esperamos – de possível retomada do crescimento da economia. É um bom momento para repensarmos o ensino pré-universitário, onde se forjam valores e se fornece a base de conhecimento a ser depois utilizada.  Qualquer solução educacional focalizada exclusivamente no ensino superior, será temporária, de alcance limitado, ainda que o discurso político diga o contrário. Não podemos mais perder Josmelinos.

Decio Zylbersztajn

Dez 2012 /Jan 2013

7 comentários sobre “Portas Abertas pela Educação: um relato pessoal

  1. Olá Décio.
    Muito interessante ler seu relato pessoal, e relembrar sobre a Profa. Chana, que considero a mentora de minha carreira até hoje. Me identifiquei bastante com ela.Gostaria de ter contato com os ex-alunos. Como posso participar das reuniões? Gina (formada em dez.1978). Turma do Luiz Antonio Barbante Tavares (filho da Profa. Aracy Barbante).

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    1. Carissima Gina.

      Ainda que tardiamente, li e agradeço pelo seu comentário.
      Eu me formei na turma de 71. Temos encontros quase-anuais.
      Existe um site do Alarico Silveira. Procure por Carmem Dolores Monteiro no facebook.
      Ela organiza encontros abertos periódicos.

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  2. Bom dia, Decio. Fomos contemporâneos no Alarico, terminei o ginásio em 67 e o científico em 70. Mas fui lendo seu texto e lembrando de cada nome mencionado por você. Muita história! Um grande abraço!
    Sergio Wajman

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  3. Decio, frequentei o Alarico na época de ginásio, no período citado de 60 a 66, uma época muito agradável. Fui da primeira turma de meninos que foram permitidos na escola (pelo menos no ginásio). Davi, Henrique, Flávio, Fábio e outros que agora não me recordo o nome, mas lembro que éramos 11 meninos e o restante da classe eram meninas. Época boa. Pena que nos perdemos nesse emaranhado da vida.

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