
O caminho que nos levou à Chapada Gaúcha é longo. Aceitei o convite para dar uma palestra na cooperativa de agricultores e fui com minha esposa conhecer a região entre Minas Gerais, Goiás e Bahia.
Contrariando o que o topônimo sugere, Chapada Gaúcha fica no Estado de Minas Gerais. Ali perto, na vila da Serra das Araras, ocorre uma festa popular denominada Encontro dos Povos do Sertão. Aproveitei o trabalho acadêmico para conhecer a terra e a gente daquele canto das Minas Gerais.
Fomos por caminho de terra via Montes Claros, a alternativa seria pegar o asfalto a partir de Brasília. A rota foi escolhida com a intenção de cruzar o Velho Chico na cidade de São Francisco. O caminho corta o cerrado e oferece um cenário que espanta ao primeiro olhar e encanta a partir do segundo. Tudo ali é raro, o rastro da onça, o pequizeiro a atrair o desavisado, as veredas a indicar água à flor do chão e a gente que se confunde com o pó do sertão. Habitantes de pele curtida e alma mansa, desconfiam por natureza e espelham o que o meio físico lhes ensina.
De Montes Claros passamos por Brasília de Minas e chegamos à cidade de São Francisco onde atravessamos o rio. Lembrei-me das citações de Guimarães Rosa que descreve aquele lugar, outrora habitado por jagunços, como palco de refregas a risco de facas. A viagem começava ali, evitamos Januária e fomos na direção de Urucuia e Arinos, e dali para o norte até Chapada Gaúcha.
Levamos oito horas para cumprir 425 km de estrada de chão, cruzamos o sertão que revelou alguns dos seus segredos. Vimos rastros de animais, uma escola rural cheia de vida, de cores e de crianças a correr. De onde vieram tantos miguilins? Paramos em uma casa, pequenina e ladeada por uma roça, para conferir se o caminho era o correto. Palmas na porteira e nenhuma resposta, avistei um homem que correu mato adentro, e uma mulher que nos recebeu com uma caneca. A água fresca tinha sabor que não sei explicar, mas guardei na memória onde são guardadas as coisas do coração. Um pouco sem jeito ela explicou para minha esposa que planejava construir um banheiro, mas a cisterna teve prioridade.
O sorriso da mãe revelou a chegada da filha, uma menina de 12 anos que trajava uniforme escolar e mochila. Aquela criança poderia estar em Copacabana, em Pinheiros ou na Asa Norte em Brasília. Tinha um ar alegre, talvez por viver naquele lugar de lendas e histórias. No meu sonho desejei-lhe um futuro feliz.
Rodamos mais uma centena de quilômetros, passamos pela Serra das Araras sem parar. O compromisso na cooperativa nos obrigou a seguir até Chapada Gaúcha que revelou ser uma cidade sem belezas, com ruas planas, tratores e caminhões indicando uma economia em movimento. Um CTG na entrada da cidade e a cooperativa refletiam a tradição das ações coletivas das famílias que lá chegaram nos anos 70, vindas do município de Espumoso no Rio Grande do Sul. Venderam as suas herdades de 30, 40, 50 hectares e compraram mil, dois mil de terras férteis. O solo da chapada somado ao trabalho das famílias resultou em um padrão de vida invejável. Eu quis saber mais a respeito do local, da sua história, do seu povo. Quem habitava ali antes dos gaúchos?
Ouvi duas histórias. A primeira revelou que as famílias compraram terras ociosas de um projeto de colonização privado. Havia recursos de Brasília e apoio internacional para trazer os gaúchos, ávidos pela terra que lhes faltava no sul. De boa fé eles vieram, receberam a documentação, fincaram pé no local e trabalharam.
A segunda história revelou outra face. Havia famílias no local como sempre houve nas chapadas férteis do interior do país. Lá viviam por gerações, tinham o sangue dos índios, dos negros e dos brancos, da gente que aprendeu a conviver com o cerrado. Sabiam do regime de chuvas, tinham uma cultura rica, produziam para viver e faziam pequenas trocas. Só não tinham documentos que lhes dessem algum direito sobre as propriedades onde viveram por gerações. Sem amparo, foram empurrados para as beiras da chapada fértil, foram para a parte baixa, para a Serra das Araras onde vivem até hoje e onde celebram a festa dos povos do sertão.
Fiz o meu trabalho e tomamos o caminho da volta, descemos a encosta da chapada e paramos no povoado. A festa tinha acabado só restando as bandeirolas a vibrar ao vento, marcando a história de um povo justo, humano, rico e desprotegido. As duas histórias que ouvi eram verdadeiras, conhecidas, brasileiras.