Bibliotopia: A Leitura Criativa: uma provocação

Bibliotopia: A Leitura Criativa: uma provocação

Algo que pode ter acontecido: No passado paleolítico, cerca de 40.000 anos atrás, uma mulher observava os restos de uma fogueira que aquecia a caverna onde se abrigava. Com um pedaço de madeira semicarbonizada ela marcou as paredes rochosas desenhando um traço, depois dois traços, pensando no homem com quem se acasalou. Ela o representou de forma simples. Foi o bastante para lembrar-lhe do momento que passaram juntos e lhe causou uma sensação que desejou perpetuar. Estava inaugurada a escrita.

Tempos depois outro habitante entrou na caverna e observou os traços na parede. Entendeu que eles representavam duas pessoas, um homem e uma mulher. Mesmo que o desenho não transmitisse a sensação de felicidade da mulher-escritora, uma mensagem foi recebida. Estava inaugurada a leitura.

A leitura é um processo de decodificação. Alguém transmite uma mensagem por meio de um código simbólico compartilhado. Algum fato ocorrido, uma cena observada, ou um sonho, algo que motivou o desejo de expressar uma mensagem. Quem lê interpreta símbolos. A intenção original da mensagem – a emoção do encontro de dois amantes na caverna – pode ficar obscura para o leitor. A escrita e leitura exigem diferente processamento mental.

Intenções da Escrita e da Leitura: A transmissão de mensagens tem propósitos específicos. A mulher na caverna expressou um sentimento de prazer efêmero, e intuiu que o desenho lhe permitiria rememorar a emoção sentida. Ela talvez desejasse compartilhar a sensação de felicidade que teve, tal como fazemos ao postar uma mensagem nas redes sociais.

O uso utilitário da escrita, de outro modo, deseja transmitir mensagens objetivas, sem a intenção de interpretações. A escrita utilitária, burocrática por natureza, se presta a transmitir regras de convivência social como nos códigos legais,  ou instruções nos manuais fabris. Podem ser receitas culinárias, bulas de medicamentos, manuais de uso de automóveis. Nada que tenha a intenção de transmitir emoções. Claro que este tipo de escrita, por mais detalhista que seja, não elimina a interpretação. É comum que as receitas culinárias recomendem o uso de um punhado de sal, ou de pimenta a gosto. Caberá à cozinheira interpretar o quanto de condimento deve utilizar.

Já a escrita ideológica deseja transmitir certezas dogmáticas que, longe de motivar a criatividade do leitor, utiliza jargões sem espaço para o debate, a não ser que seja travado dentro de margens definidas pelo comando do grupo. Sem o intuito de contestar ou interpretar, a escrita ideológica se presta a defender ortodoxias.

A escrita científica é outra modalidade, utilizada em estudos acadêmicos com a pretensão de evocar a objetividade proposta pelo pensamento positivista. Evita o uso de frases dúbias, pronomes na primeira e segunda pessoas, deseja transmitir mensagens inequívocas a respeito de uma hipótese testada com base em determinada teoria. O texto científico deve coerência aos pressupostos teóricos adotados, e as conclusões serão válidas se obedecerem a uma lógica interna. Embora o leitor possa discordar dos preceitos teóricos, o que se espera é coerência. O fazer científico se consolidou de forma segmentada e parcial. Não captura a complexidade dos temas mais simples, conforme defende Edgar Morin[1], mas é o que temos como base do conhecimento. Que sejamos capazes de perceber as suas limitações.

As Bases da Leitura Criativa: O escritor argentino Ernesto Sábato – que foi cientista renomado – afirmou que a ciência revela a verdade até certo ponto, mas só a arte tem a capacidade de ir além. Diferente da leitura burocrática, ideológica ou científica, a leitura criativa tem natureza subversiva e desafiadora. Nessa modalidade um leitor transita livremente dentro do texto e dele se apropria. A sua interpretação não raro desafia e surpreende o autor, ultrapassa a intenção original. O leitor navega nas lacunas deixadas pelo autor. As imprecisões no texto motivam o espírito do leitor. A leitura criativa incomoda. Diferentes modalidades de ficção, bem como a literatura ensaística levam o leitor a pensar, desvendar, rever as suas certezas.

A escritora Siri Hustvedt, sugere que o leitor é possuído pelo texto.  Ao ter a mente capturada, ele vive uma experiência que pode mudar para sempre a sua vida. Ela elabora sobre a ampliação da competência cognitiva que resulta da leitura de autores com perfis diferentes do seu, seja em gênero, nacionalidade, ideologia, raça, renda, ou cultura. A captura da mente amplia a compreensão da realidade. Eis a viagem que a leitura proporciona.

Repito, a leitura é decodificação de mensagens simbólicas. Ler nos convida a preencher as lacunas deixadas pelo autor, sejam elas intencionais ou não. Por serem códigos construídos em bases diferentes, a leitura abre espaço na mente dos leitores, desafia certezas e preconceitos. A obra Dom Casmurro de Machado de Assis exemplifica o uso da lacuna intencional que deixa em aberto um elemento do enredo, e de modo simultâneo elabora sobre um preconceito machista a respeito do comportamento feminino. Capitu pode ter traído Bentinho, porquoi pas?

Interpretação Criativa do Texto: Interpretar códigos simbólicos implica no uso da bagagem de informações acumuladas, portanto a memória exerce papel importante. A escritora e ensaista Siri Hustvedt estudou neurociências para discutir a interpretação da realidade[2] . No Brasil os trabalhos do médico e neurocientista Ivan Izquierdo[3] abriram perspectivas para o público não especializado. Ambos escrevem sobre a memória seletiva e a reconsolidação da memória. Segundo os autores, as nossas mentes se desfazem de parte das informações inúteis ou que são insustentáveis.  Não apenas se desfazem, mas reconsolidam as informações que permanecem. As nossas lembranças são retrabalhadas de modo a se tornarem palatáveis. Somos capazes de criar memórias a respeito de fatos que não ocorreram, mas que se tornaram reais. Narradores que somos, inventamos histórias para tornar as nossas vidas possíveis.

Conectando a plasticidade da memória com a interpretação de textos, compreendemos por que dois leitores percebem de modo diferente os códigos do mesmo texto. Compreendemos as interpretações desiguais de um mesmo texto lido em épocas diferentes da nossa vida. A neurociência tateia a superfície do fenômeno cognitivo do cérebro humano.  Os mecanismos associados à cognição são complexos, gravamos cenas e fatos que nos causaram emoção. Nos livramos das memórias indesejáveis e reconstruímos as nossas próprias histórias. Somos a nossa memória, como afirmou Ivan Izquierdo. E pouco sabemos dela.

img_5919-1

Leitura Criativa, enfim: Quando aceitamos entrar no texto com a intenção de explorar todas as suas possibilidades. Quando entendemos que a decodificação das mensagens pode extrapolar a intenção de quem as gerou. Quando aceitamos viajar ao lado do autor sem receio de nos descolarmos dele. Quando preenchemos as lacunas do texto desafiando o autor, encontramos o caminho da leitura criativa que nos permite entrar na mente de pessoas, com gêneros, ideologias, cultura, e raças diferentes das nossas. Pode nos causar algum incômodo inicial, mas passaremos a ver o mundo com diferentes perspectivas e com a certeza de sermos mais humanos.

Em tempo: Talvez a pessoa que viu a mensagem desenhada na caverna, tenha interpretado e sonhado com o prazer daquele encontro. Talvez tenha deixado a sua mente viajar e repensou a sua própria história. Talvez tenha sido a primeira leitura criativa. Talvez. Porquoi pas?

[1] Morin, E. Introdução ao pensamento complexo, 2005. Ed. Sulina.120 pp.

[2] Hustvedt, S. 2012. Living, Thinking, Looking. Ed. Sceptre. 400 pp.

[3] Izquierdo, Ivan. 2018. Memória. Ed. Artmed. 124pp.

Ordenando o Caos: o papel da escrita

Ordenando o Caos: o papel da escrita

Gastei meses planejando uma viagem para o Marrocos, país que conheci lendo os livros de Paul Bowles, Elias Canetti e Tahar Ben Jelloun. Assim que comprei as passagens aéreas um terremoto incidiu sobre aquele país deixando áreas históricas em ruínas. Enquanto mudava os meus planos de viagem lembrei do ditado yidish que, se fosse traduzível, soaria como: Enquanto o homem planeja, Deus ri.

A incerteza incomoda, preferimos a segurança que nos permite planejar. O risco se distingue da incerteza, no primeiro conhecemos o padrão de variabilidade de determinado fenômeno. No caso da incerteza tateamos na escuridão da ignorância, torna-se impossível planejar. Basta um olhar para o mundo para que se perceba que os eventos não antecipados são a norma e não a exceção. Este tema preocupou autores de diferentes especialidades, da psicanálise à economia, da filosofia à geologia, da meteorologia à literatura. Dois autores cativaram a minha leitura: Douglass North e Villém Flusser.

North elaborou sobre o papel das instituições para gerar previsibilidade. Instituições são regras formais e informais que criamos, na sua ausência resta a barbárie. Crítico da economia ortodoxa, por não enfatizar o papel das instituições, North, como historiador econômico, demonstrou que instituições que não protegem os direitos dos indivíduos resultam em sociedades estagnadas. Instituições fracas, capturadas, criadas com disfuncionalidades, geram resultados catastróficos, em último caso descambam em conflitos e violência. North recebeu o prêmio Nobel em Economia em 1993 pelo seu trabalho sobre a origem, a evolução e as patologias das Instituições, que ele definiu como: As regras do jogo em uma sociedade, que pautam o comportamento humano. As instituições por vezes falham no seu intento de gerar previsibilidade, se mostram tão imperfeitas quanto os seus idealizadores. Em alguns casos elas falham intencionalmente, quando são criadas para não funcionar. Oliver Williamson criou o termo: “ineficient by design” para designar instituições que nascem para cumprir propósitos velados. O Congresso Nacional está pleno de exemplos.

A obra de North espanta pela atualidade. No livro, Violence and Social Orders de 2009, ele explora como instituções imperfeitas degeneram o tecido social. Em um artigo de 1999 o autor se preocupou com o aquecimento global e propôs a necessidade de criarmos um mercado de créditos de carbono. No mesmo artigo ele elaborou sobre a imprevisibilidade, afirmou que vivemos em um “non ergodic world”. Ou seja, no mundo não ergódico o passado não explica o presente e tem pouca utilidade para explicar o futuro. A imprevisibilidade é a regra e as instituições devem ser resilientes e maleáveis para cumprirem o seu papel. Para criarmos um mercado de créditos de carbono precisamos de instituições flexíveis.

Douglass North e DeZylber

O segundo autor que citei é Villém Flusser. Perseguido pelo nazismo, deixou Praga quando tinha 21 anos e se estabeleceu em São Paulo. Abandonou os estudos de filosofia e prosseguiu como autodidata, interagiu com pensadores nas áreas da filosofia e da comunicação, para as quais contribuiu de forma decisiva. Acolhido por diferentes universidades brasileiras, deu aulas e produziu uma obra que se tornou reconhecida internacionalmente. Nos anos 1970, retornou para a Europa com a agenda cheia de convites para aulas e palestras. A caminho para uma destas palestras, um acidente fatal interrompeu a sua trajetória.

Se North focalizou a sociedade, Flusser mergulhou no papel da simbologia, da construção e uso dos códigos de linguagem e de comunicação, que transformam a mente humana. Tratou da abstração, competência única da nossa espécie, que é capaz de observar um objeto inútil, sem serventia para alimentação nem para a cópula, e criar um conceito abstrato sobre ele. Em um ato de fundamental transformação, o ser humano foi capaz de elaborar conceitos e representar o objeto inútil por meio de diferentes expressões. Ele gerou utilidade ao representar o objeto por meio do desenho, elaborou códigos escritos com os quais descreveu o objeto. Desenvolveu ideogramas que representam o conceito sobre o objeto. Desenvolveu a linguagem fonética, criou símbolos que alinhados formaram palavras, que alinhadas formaram frases, e exprimiram o conceito. Flusser se despreendeu da análise da imagem estática – a fotografia – e a colocou em movimento ao discorrer sobre o cinema. No seu livro “A Escrita: Há futuro para a escrita?”, elaborou sobre a superioridade da imagem e explorou os limites da escrita. Oh, pobres de nós, escritores.

Flusser sugeriu que ao criarmos a escrita inauguramos um processo de transformação da mente humana. O receptor da mensagem escrita a decodifica e reorganiza segundo critérios próprios que podem não ser os mesmos do emissor que elaborou a mensagem original. No livro “Seis passeios no bosque da ficção”, Umberto Eco elabora sobre o mesmo tema: o autor que é surpreendido pelo leitor que interpreta o texto de modo criativo, diferente da intenção original do autor. Eis o ato de recriação, razão pela qual a leitura gera prazer estético. O leitor não é um agente passivo, ele interpreta, reinventa e reescreve a mensagem conforme a sua própria métrica.

Flusser afirmou que escrever nos ajuda a colocar ordem no caos das nossas mentes. Ele não está só nesta observação, Clarice Lispector afirmou: “Escrevo por estar desesperada, se não fosse a escrita eu morreria simbolicamente todos os dias”. Do mesmo modo em Elias Canetti lê-se: “Tranquilizar-me, talvez seja a principal razão por que escrevo. É quase inacreditável o quanto a frase escrita pode acalmar e domar o ser humano”. Esta ação terapêutica da escrita foi elaborada por Siri Hustvedt no livro de ensaios: Living, Thinking, Looking. Escrever e ler, por exigirem ordenamento, são ações geradoras de estabilidade.

Eis o drama humano; desejamos ordem em um mundo caótico, não ergótico. Se para Flusser escrever e ler ajudam a ordenar o caos das nossas mentes, para North as instituições ordenam o caos da sociedade. A escrita e as instituições são criações humanas, sujeitas a limitações, imperfeitas e mutantes, tal como as sociedades que as originam. North e Flusser nasceram no ano de 1920 e, até onde eu saiba, nunca se encontraram. Se tal encontro tivesse ocorrido, creio que eles gastariam horas a elaborar, com humor, sobre o drama da incerteza humana. Quanto a minha viagem, não farei planos, decidirei na véspera, aprendi que enquanto o homem planeja, Deus ri.