Um Autor sem Livro: A Respeito do Ponto Final.

Quando coloquei o ponto final no meu romance “O Arquivo dos Mortos”, virei nau sem destino. É difícil interromper a rotina de escrever quatro horas por dia ao longo de três anos. Enfim, concluído o texto, decidi colocar um ponto final e compartilhar minhas impressões.

 O ponto final é um símbolo mínimo, quase imperceptível, que acentua dúvidas na mente do escritor. Em qual praia vai dar essa garrafa arrolhada e que contém um pergaminho, será ingerida por algum ser das profundezas, ou se espatifará em alguma rocha que a destruirá em um segundo, e com ela os anos de trabalho?

O sentimento do autor é dúbio. Terá o livro extrapolado o tamanho ideal? Qual o tamanho ideal? O ato da escrita é imprevisível por mais que planejado. Há autores que adotam uma visão cartesiana de planejamento sem concessões. No meu caso, o planejamento booleano é afetado pelo caos, pela imprevisibilidade anárquica que me indetermina. Prefiro assim, pois além de imprevisíveis os livros são entidades míticas, criadoras de problemas, são verdadeiros sacis-pererês. O ato de escrever me ajuda a ordenar o caos – viva Annie Ernaux e Vilém Flusser.

Autores são teimosos, insistem na escrita em um mundo desarrumado e cheio de imagens. Aos olhos do leitor, as letras alinhadas que formam palavras, sentenças, capítulos, perdem poder para as imagens. Como suspeitou Flusser, imagens são mais fortes do que palavras, representam uma volta ao uso dos ideogramas onde ideias cabem nos traços simbólicos não fonéticos. O leitor gasta menos energia para compreender a mensagem, o que torna a imagem difícil de ser vencida, ela vale por mil palavras, não é assim que se diz?

Então, por que e para quem escrevo? Não quero mergulhar nesse assunto, agora o momento é de depressão pós-parto, o novo livro clama por alguma alma que adquira um exemplar e lhe dedique o tempo da leitura. O preço dos livros, em geral, se compara ao valor de uma pizza. Ao preferir o livro a recompensa não virá pelo efeito dos aromas e sabores cujo potencial de gerar satisfação é imbatível. Pelo contrário, a leitura deve incomodar, tirar o leitor da zona de conforto, caso contrário ela terá sido inútil.

Se a pizza introduz energia no corpo do consumidor, a leitura faz o contrário: exige esforço, consome energia. Quando o livro incomoda, questiona o senso comum e levanta dúvidas, cumpre o seu papel. A leitura sugere questionamento de certezas, se escrever é perigoso, como diz o título do livro de ensaios de Olga Tokarczuk, ler pode ser mais perigoso ainda.

O livro precisa ser sexy, convencer o leitor a tirá-lo da estante, motivar a leitura desde a primeira página e manter o interesse até o ponto final. O livro poderá abalar os pilares que dão alguma tranquilidade à vida dos leitores. Uma vez publicado, ainda resta inconcluso, o leitor é quem preencherá os espaços propositalmente deixados pelo autor. No mundo acadêmico se ensina que o texto científico deve ser objetivo não comportando ambiguidades de tal modo que nada seja deixado ao leitor a não ser a leitura, no máximo eventual contestação de pressupostos ou de algum cálculo equivocado.

O contrário se passa com o texto literário, nele leitor preenche lacunas, completa ideias e imagina o que não foi dito. A provocação induz o leitor a buscar respostas, criar soluções, redirecionar a história. Eis Flusser mais uma vez a iluminar o momento. Enfim, o dilema está resolvido: o ponto final é um símbolo que não deveria existir na literatura com o sentido de conclusão definitiva, de maioridade do texto. Ao contrário, o texto segue o caminho de criação por meio do olhar do leitor que embarcou em nau alheia, aceitou viajar ao lado do autor e se sujeitou a morrer em um naufrágio fatal. É essa a relação que cria laços entre leitor e autor.

Dito isso, existe a opção de comprar O Arquivo dos Mortos – histórias de um obituarista, um convite para viajarmos rumo a um destino incerto, que terá menor teor de calorias e maior dosagem de provocações.

(Para adquirir o livro autografado contate zylberblog@zylber-books.blog)