Se o livro impresso desaparecer como se cogita, ficarei órfão da minha biblioteca. Eu a estruturei em duas partes, uma delas são os livros lidos merecedores de releitura futura, a outra parte é composta por livros virgens de leitura. Reconheço que eu não terei tempo de vida sequer para ler os livros do segundo bloco que, devo dizer, cresce a olhos vistos. Como dizia, se o livro impresso desaparecer, ficarei órfão da minha biblioteca, talvez um ou outro leitor compartilhe semelhante sentimento de orfandade. Se o avanço da digitalização for inevitável, as futuras gerações não mais poderão limpar livros, mudá-los de lugar, cheirar os aromas do tempo guardados entre as folhas ainda virgens, uma atividade digna de um Sísifo. Futuras gerações de leitores não se surpreenderão como eu que, entre uma espanada[1] e outra a remover o pó das estantes, encontrei os livros da coleção Claro Enigma editados pela Livraria e Editora Duas Cidades nos anos 80, cada volume protegido por uma sobrecapa de plástico com acabamento esmerado e dedicatória dos autores e autoras. Como me alegrei ao ler as mensagens recebidas de José Paulo Paes, Orides Fontela, Alcides Villaça, João Moura Jr. entre outros. Lembrei-me da Rua Bento Freitas 158 em São Paulo, outrora endereço da Livraria Duas Cidades que eu visitava com regularidade nas paulistanas manhãs de sábado.

A livraria tinha três elementos que me atraiam. Primeiro, o acervo com livros de qualidade que refletiam a preferência humanista do fundador e dos frequentadores. Segundo, a mesa ao redor da qual se acomodavam pessoas que nem sempre se conheciam e tinham uma identidade comum. Terceiro, a presença de Maria Antonia que, sempre delicada, indicava livros, encomendava aquele que eu desejava, ou separava um livro infantil para o meu filho. A Duas Cidades era formada pelos três pilares – uma mesa democrática, bons livros e Maria Antonia – elementos humanos que me faziam feliz.
A livraria, fundada por José Petronilo Benevenuto de Santa Cruz no início dos anos 50, trazia uma intenção no seu nome. As duas cidades estavam significadas no logo escolhido, duas torres sobrepostas a indicar a cidade celestial e a terrestre. A Duas Cidades editou livros, abriu espaços para a poesia, como exemplifica a coleção Claro Enigma. Editar poesia denota um ato de coragem que não faltou ao Frei Benevenuto e nem a Maria Antonia, que nos anos de chumbo acolheram muitos que sonhavam com a liberdade perdida nos anos 60 e 70, como Frei Fernando e outros intelectuais que pediam por um país livre, educado e cheio de livros. Talvez um sonho parecido com aquele que a cadelinha Baleia teve no livro Vidas Secas de Graciliano Ramos que, esfomeada, sonhou com preás gordas ao seu redor. Quanta felicidade haveria em um mundo cheio de preás e de livros. Nasceu a Duas Cidades como uma livraria que tornou-se uma instituição, um polo cultural, um ponto de encontro irradiador de ideias. Ao longo de décadas frequentei os espaços daquela livraria. As noites de autógrafos da coleção Claro Enigma nos anos 80 reforçaram o meu gosto pela poesia, lá conheci Orides Fontela, a refinada escritora maldita cuja luta poética, segundo Antonio Candido, “resulta na possibilidade de transformar a vida em palavra”. Na década de 2000 eu visitava a Duas Cidades acompanhado pelo meu filho, que anos depois – já adulto – me confidenciou ter guardado na sua memória as visitas feitas `a livraria de onde seguíamos para a loja da Aerobrás para namorar os aeromodelos ou para a loja Aquários Brasil para admirar os peixes coloridos nos aquários borbulhantes.
Não foram a ditadura nem o sofrível mercado brasileiro de livros, reflexo do país com educação precária, que feriram de morte a livraria. O tiro fatal veio em 2006 e foi fruto da decadência, da desocupação do centro da cidade e do pouco caso com o espaço urbano. No lugar das ruas cheias de vida urbana, cresceram os espaços fechados dos shopping centers, os lugares dando lugar aos “não-lugares”. A cada visita à livraria eu ouvia queixas de Maria Antonia sem ter como dar-lhe algum alento. Certa feita ela se debatia com a prefeitura pelo direito de plantar árvores na calçada para melhorar o ambiente árido da Rua Bento Freitas. Por fim a decisão pelo encerramento das atividades foi inevitável, decisão que veio a público com o anúncio de uma liquidação do acervo de livros. Covarde, eu preferi não assistir a esta cena.
Li crônicas sobre o episódio do encerramento das atividades da livraria, escritas por pessoas que experimentaram as mesmas sensações que eu. A sensação de estranhamento com o lugar perdido está contida na poesia de José Paulo Paes chamada Taquaritinga, sua cidade natal, quando visitada em algum momento da sua vida. No livro da coleção Claro Enigma que tem por título: A poesia está morta, mas juro que não fui eu, o poeta escreve.
cidade:
nas ruas em pé
eternas namoradas me espreitam
eu é que não posso vê-las
cidade:
no jardim a fonte
insiste em jorrar
suas águas luminosas
só que me falta a sede
cidade:
agora nem as pedras
me conhecem
As cidades mudam e nós mudamos junto com elas. Eu me acostumei `a falta do espaço da Duas Cidades, a mesa ao fundo da livraria passou a ocupar um local na minha mente, eu já compro livros pela internet e leio textos via e-book, a vida segue o seu curso o que não impede que surpresas aconteçam.
Certo dia ao desembarcar do Metrô da Praça da Sé a caminho da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, avistei a livraria da UNESP e resolvi entrar. Rodei pelas prateleiras à procura de um livro, fui até o balcão para pedir informação sobre a obra. Chamei por uma senhora que, de costas para mim, atendia ao telefone. Ela virou-se e eu reconheci Maria Antonia, estava feliz em meio aos livros que representam a sua vida. Trocamos palavras de afeto e ela perguntou pelo meu filho.
Tempos depois eu voltei `a livraria da UNESP para agradecer Maria Antonia presenteando um exemplar do meu livro de contos, “Como são Cativantes os Jardins de Berlim”. Uma pequena homenagem a alguém que incorpora o papel de uma casa de livros, o papel de salvar almas, de dar sabor à vida, de formar leitores, e quem sabe, escritores.
[1] Espanador é um objeto formado por um cabo ao qual se prendem penas de aves, que serve para remover o pó dos objetos. Acho que caiu um desuso.