Marginalia: coautoria silenciosa

Marginalia: coautoria silenciosa

O termo marginália refere-se ao conjunto de anotações, comentários, desenhos ou marcas feitas nas margens de um texto.

A livraria da Universidade da Carolina do Norte, lá pelos idos dos anos 1980, era frequentada por tipos curiosos. Um deles, meu amigo Raffi, foi proibido de frequentar o local, pois costumava sentar-se ao chão com o livro escolhido nas mãos  e só deixava o posto quando concluía a leitura. Decididamente não era um bom cliente para a livraria.

Foi nessa época que uma senhora  visitou a sessão de livros usados para vender obras da biblioteca do seu falecido marido. Entre elas havia uma publicação de Erich Fromm intitulada: Man for Himself: an inquiry into the psychology of ethics. Nos anos 1980 eu estudei na Universidade da Carolina do Norte e visitava sebos, livrarias e lojas de discos da cidade. Hoje eu entendo que era um ato de sobrevivência para um jovem submetido às agruras de um programa de doutorado massacrante.

A livraria do campus era a minha preferida, lá eu gastava tempo na seção de “usados”, um sebo como chamamos no Brasil. Foi onde encontrei o livro de Erich Fromm publicado em 1947, aquele deixado pela velha senhora. A identidade do ex-proprietário está na primeira página: Professor Marra. Paguei USD$2,25 e levei o exemplar. Erich Fromm influenciou a minha formação quando passei da adolescência para o que chamamos de idade adulta.

Voltei para o Brasil, saí e voltei novamente, sempre cultivando a biblioteca que reflete a trajetória da minha vida e onde guardo poucas certezas e muitas dúvidas. De forma seletiva me desfiz de vários livros, decisão sempre difícil, pois como saber se no futuro não me farão falta? No início de 2026 eu mudei de casa e de cidade. A biblioteca mais uma vez me acompanhou. As caixas, classificadas de acordo com a minha preferência temática, foram abertas aos poucos e os livros puderam retomar o lugar que lhes cabe. Eis que o livro do Prof. Marra estava novamente nas minhas mãos. Eu passei os olhos pelo conteúdo das páginas amareladas e observei muitas delas assinaladas com grifos e comentários. Na mesma caixa encontrei outra obra de Fromm – Ter ou Ser cujo conteúdo me impressionou na adolescência. Lembrei do conceito de “humanismo radical”, que mereceria ser revisitado nos tempos bicudos que vivemos.

O Humanismo Radical é uma perspectiva filosófica que coloca a dignidade e a libertação humana no centro de tudo. Para Fromm, ser um “humanista radical” significa ir à raiz das coisas — e a raiz para o homem é o próprio homem.

Os livros, assinalados, grifados e comentados nas margens, sugerem que eu e o Professor Marra compartilhamos a tendência de reagir ao conteúdo da leitura, escrevendo nas margens, completando os espaços deixados pelo autor. Puro exercício da marginália.

O termo marginália refere-se ao conjunto de anotações, comentários, desenhos ou marcas feitas nas margens de um texto – especialmente em livros, manuscritos ou documentos.

Os livros rabiscados me fazem lembrar de um princípio fundamental da leitura: os leitores reescrevem a obra dos autores. Mesmo aqueles leitores que preferem não riscar as páginas do livro, farão contribuições que ficam retidas na sua memória. Uma lástima, sinal de avareza intelectual. Em alguns casos raros, os leitores compartilham com outros leitores e até mesmo com o autor do texto original, ampliando o impacto da recriação do leitor.  As anotações do Prof. Marra mostram outro impacto da marginalia: o livro pode viajar no tempo e as impressões anotadas nas páginas impressas soam como mensagens inseridas em uma cápsula do tempo que alguém poderá ler no futuro. Antes que a leitora ou leitor reaja, sei que a anotação poderá cair no abismo do desaparecimento. OUtra lástima. Ao reler trechos da obra de Fromm, eu reagi ao conteúdo do texto original e às impressões do falecido Prof. Marra, com quem eu nem sempre concordava. Descobri que não concordava até mesmo com algumas anotações feitas por mim há mais de 40 anos.

Ao relermos uma obra, mesmo que não anotada, nossas impressões mudam. De certo modo nós nunca relemos uma obra. A nossa interpretação muda ao longo do tempo, ao sabor das nossas experiências, vivências, leituras e observações. Assim foi a releitura de trechos da obra de Fromm que, a meu ver, se mostra ajustada aos tempos em que vivemos. Caso tivesse sobrevivido, o Prof. Marra seria motivado a grifar outras partes da obra diferentes das que fez nos anos 1970.

Como leitor, eu admiro a plasticidade da mente humana que nos permite recriar percepções. Erich Fromm morreu em 1980 na Suíça, enquanto nós, sobreviventes, podemos seguir completando a sua obra. Quanto ao Prof. Marra, eu decretei a sua partida no início desta narrativa. Talvez a sua esposa ainda frequente sebos, vendendo os livros da sua biblioteca. Ou terá sido ela a leitora detalhista que fez as anotações e que decidiu se livrar de alguns livros? Nunca saberemos responder. Enquanto isso eu sigo reorganizando a minha biblioteca e dando chance a encontros inesperados como as mensagens nas garrafas jogadas ao mar.

PS1: Encontrei um envelope sem identificação nas páginas do livro com uma mensagem da minha neta. Lembrei que as crianças nos ensinam as bases do humanismo radical. Preciosidades para acalentar a vida.

PS2: Eu frequentava duas livrarias no Rio de Janeiro a Leonardo da Vinci, maravilhosa bagunça onde eu encontrava obras na área de humanidades e a Livraria Interciências onde encontrava títulos de economia. Como tantas outras, elas não sobreviveram ao teste do tempo. Foi na Interciências que reencontrei o meu amigo Raffi, sentado no chão com um livro nas mãos. O funcionário olhava com ar contrariado. Eu já sabia o estava por acontecer.

E você, leitora ou leitor. Já se deparou com mensagens do passado nas páginas dos livros? Já mudou de opinião na sua vida? Conte a sua experiência.

A Leitura Criativa: uma provocação

A Leitura Criativa: uma provocação

Algo que pode ter acontecido: No passado paleolítico, cerca de 40.000 anos atrás, uma mulher observava os restos de uma fogueira que aquecia a caverna onde se abrigava. Com um pedaço de madeira carbonizada ela marcou as paredes desenhando um traço, a seguir, desenhou dois traços, pensando no homem com quem se acasalou. Ela o representou de forma simples. Foi o bastante para lembrar-lhe do momento que passaram juntos e lhe causou uma sensação que desejou perpetuar. Estava inaugurada a escrita.

Tempos depois outro habitante entrou na caverna e observou os traços na parede. Entendeu que eles representavam duas pessoas, um homem e uma mulher. Mesmo que o desenho não transmitisse a sensação de felicidade da mulher-escritora, uma mensagem foi recebida. Estava inaugurada a leitura.

A leitura é um processo de decodificação. Alguém transmite uma mensagem por meio de um código simbólico compartilhado. Algum fato ocorrido, uma cena observada, ou um sonho, algo que motivou o desejo de expressar uma mensagem. Quem lê interpreta símbolos. A intenção original da mensagem – a emoção do encontro de dois amantes na caverna – pode ficar obscura para o leitor. A escrita e leitura exigem diferente processamento mental.

Intenções da Escrita e da Leitura: A transmissão de mensagens tem propósitos específicos. A mulher na caverna expressou um sentimento de prazer efêmero, e intuiu que o desenho lhe permitiria rememorar a emoção sentida. Ela talvez desejasse compartilhar a sensação de felicidade que teve, tal como fazemos ao postar uma mensagem nas redes sociais.

O uso utilitário da escrita, de outro modo, deseja transmitir mensagens objetivas, sem a intenção de interpretações. A escrita utilitária, burocrática por natureza, se presta a transmitir regras de convivência social como nos códigos legais,  ou instruções nos manuais fabris. Podem ser receitas culinárias, bulas de medicamentos, manuais de uso de automóveis. Nada que tenha a intenção de transmitir emoções. Claro que este tipo de escrita, por mais detalhista que seja, não elimina a interpretação. É comum que as receitas culinárias recomendem o uso de um punhado de sal, ou de pimenta a gosto. Caberá à cozinheira interpretar o quanto de condimento deve utilizar.

Já a escrita ideológica deseja transmitir certezas dogmáticas que, longe de motivar a criatividade do leitor, utiliza jargões sem espaço para o debate, a não ser que seja travado dentro de margens definidas pelo comando do grupo. Sem o intuito de contestar ou interpretar, a escrita ideológica se presta a defender ortodoxias.

A escrita científica é outra modalidade, utilizada em estudos acadêmicos com a pretensão de evocar a objetividade proposta pelo pensamento positivista. Evita o uso de frases dúbias, pronomes na primeira e segunda pessoas, deseja transmitir mensagens inequívocas a respeito de uma hipótese testada com base em determinada teoria. O texto científico deve coerência aos pressupostos teóricos adotados, e as conclusões serão válidas se obedecerem a uma lógica interna. Embora o leitor possa discordar dos preceitos teóricos, o que se espera é coerência. O fazer científico se consolidou de forma segmentada e parcial. Não captura a complexidade dos temas mais simples, conforme defende Edgar Morin[1], mas é o que temos como base do conhecimento. Que sejamos capazes de perceber as suas limitações.

As Bases da Leitura Criativa: O escritor argentino Ernesto Sábato – que foi cientista renomado – afirmou que a ciência revela a verdade até certo ponto, mas só a arte tem a capacidade de ir além. Diferente da leitura burocrática, ideológica ou científica, a leitura criativa tem natureza subversiva e desafiadora. Nessa modalidade um leitor transita livremente dentro do texto e dele se apropria. A sua interpretação não raro desafia e surpreende o autor, ultrapassa a intenção original. O leitor navega nas lacunas deixadas pelo autor. As imprecisões no texto motivam o espírito do leitor. A leitura criativa incomoda. Diferentes modalidades de ficção, bem como a literatura ensaística levam o leitor a pensar, desvendar, rever as suas certezas.

A escritora Siri Hustvedt, sugere que o leitor é possuído pelo texto.  Ao ter a mente capturada, ele vive uma experiência que pode mudar para sempre a sua vida. Ela elabora sobre a ampliação da competência cognitiva que resulta da leitura de autores com perfis diferentes do seu, seja em gênero, nacionalidade, ideologia, raça, renda, ou cultura. A captura da mente amplia a compreensão da realidade. Eis a viagem que a leitura proporciona.

Repito, a leitura é decodificação de mensagens simbólicas. Ler nos convida a preencher as lacunas deixadas pelo autor, sejam elas intencionais ou não. Por serem códigos construídos em bases diferentes, a leitura abre espaço na mente dos leitores, desafia certezas e preconceitos. A obra Dom Casmurro de Machado de Assis exemplifica o uso da lacuna intencional que deixa em aberto um elemento do enredo, e de modo simultâneo elabora sobre um preconceito machista a respeito do comportamento feminino. Capitu pode ter traído Bentinho, porquoi pas?

Interpretação Criativa do Texto: Interpretar códigos simbólicos implica no uso da bagagem de informações acumuladas, portanto a memória exerce papel importante. A escritora e ensaista Siri Hustvedt estudou neurociências para discutir a interpretação da realidade[2] . No Brasil os trabalhos do médico e neurocientista Ivan Izquierdo[3] abriram perspectivas para o público não especializado. Ambos escrevem sobre a memória seletiva e a reconsolidação da memória. Segundo os autores, as nossas mentes se desfazem de parte das informações inúteis ou que são insustentáveis.  Não apenas se desfazem, mas reconsolidam as informações que permanecem. As nossas lembranças são retrabalhadas de modo a se tornarem palatáveis. Somos capazes de criar memórias a respeito de fatos que não ocorreram, mas que se tornaram reais. Narradores que somos, inventamos histórias para tornar as nossas vidas possíveis.

Conectando a plasticidade da memória com a interpretação de textos, compreendemos por que dois leitores percebem de modo diferente os códigos do mesmo texto. Compreendemos as interpretações desiguais de um mesmo texto lido em épocas diferentes da nossa vida. A neurociência tateia a superfície do fenômeno cognitivo do cérebro humano.  Os mecanismos associados à cognição são complexos, gravamos cenas e fatos que nos causaram emoção. Nos livramos das memórias indesejáveis e reconstruímos as nossas próprias histórias. Somos a nossa memória, como afirmou Ivan Izquierdo. E pouco sabemos dela.

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Leitura Criativa, enfim: Quando aceitamos entrar no texto com a intenção de explorar todas as suas possibilidades. Quando entendemos que a decodificação das mensagens pode extrapolar a intenção de quem as gerou. Quando aceitamos viajar ao lado do autor sem receio de nos descolarmos dele. Quando preenchemos as lacunas do texto desafiando o autor, encontramos o caminho da leitura criativa que nos permite entrar na mente de pessoas, com gêneros, ideologias, cultura, e raças diferentes das nossas. Pode nos causar algum incômodo inicial, mas passaremos a ver o mundo com diferentes perspectivas e com a certeza de sermos mais humanos.

Em tempo: Talvez a pessoa que viu a mensagem desenhada na caverna, tenha interpretado e sonhado com o prazer daquele encontro. Talvez tenha deixado a sua mente viajar e repensou a sua própria história. Talvez tenha sido a primeira leitura criativa. Talvez. Porquoi pas?

[1] Morin, E. Introdução ao pensamento complexo, 2005. Ed. Sulina.120 pp.

[2] Hustvedt, S. 2012. Living, Thinking, Looking. Ed. Sceptre. 400 pp.

[3] Izquierdo, Ivan. 2018. Memória. Ed. Artmed. 124pp.

Bibliotopia: A Leitura Criativa

Bibliotopia: A Leitura Criativa

O que acontece quando lemos um texto? Seja ele uma notícia, um romance, um artigo de jornal, um artigo científico ou um poema, a nossa mente associa os símbolos que compõem o código escrito e os traduz segundo um critério definido, uma convenção.

A convenção da linguagem é composta por regras compartilhadas que orientam a escrita e a leitura de modo a oferecer uma diretriz baseada na ortografia, na sintaxe, que servem de guia e facilitam a comunicação. Convenções sobre o significado das palavras permitem que compartilhemos textos. Quando lemos, a interpretação dos conteúdos varia amplamente conforme o olhar de cada leitor. Ou seja, temos um código comum que fundamenta a comunicação, e ao mesmo tempo existem processamentos mentais que são característicos de cada leitor. A percepção da realidade, aquela que chamamos de objetiva, é flexível, varia entre observadores.

Existem diferentes formas de leitura. Uma que qualifico como burocrática, que prima pela exatidão e reflete a intenção do autor de reduzir o ruído interpretativo. Aparecem nos contratos comerciais, receitas de cozinha, ou em protocolos médicos que orientam a realização de uma cirurgia. Diferentemente outra existem textos que causam estranhamento deixando elementos inconclusos que provocam o leitor, convidam-no a concluir preencher vazios, provocam dúvida e motivam a escolha entre possibilidades de interpretação. Essa inexatidão faz da arte em geral, e da ficção literária em particular, uma experiências vivencial, ainda que não necessariamente experimentada no mundo real, mas vivida no plano das emoções. Afinal, o que é o mundo real?

Sobre a Leitura e Leitores

Vivemos num tempo em que os textos são cada vez menores, e o repertório de palavras se reduz entre gerações. Corremos o risco de perder as experiências vivenciais, no sentido amplo, que a leitura nos permite. As imagens são meios que oferecem significados de fácil digestão e transmitem mensagens com muita facilidade. Como somos preguiçosos, aceitamos as mensagens encurtadas, aceitamos imagens nem sempre verdadeiras, que nos indicam qual o produto que devemos comprar, quais os lugares que devemos frequentar, quais as pessoas que devemos admirar.

Os influenciadores, portadores de intenções nem sempre transparentes, orientam o cardume social que segue aqueles que fazem a promessa de mais fácil digestão. A leitura exige um tempo humano, que a sociedade vem perdendo, e cuja recuperação está na raiz do nosso equilíbrio mental.

Os livros são objetos perigosos que nos fazem parar as atividades mecânicas a que somos induzidos, nos permitem respirar de modo lento, recuperar o sentido crítico, e sentir emoções. Para todos os efeitos, metem medo. Escrever e ler são atos arriscados e, de alguma forma, atos de resistência. É sobre este tema que quero conversar e explorar diferentes perspectivas associadas ao ato da leitura. Para tanto, publicarei uma série de textos que chamei de: Leitura Criativa-Bibliotopia. Vou apreciar a sua presença no blog : www.zylberblog.wordpress.com e em @dezylber. Os seus comentários enriquecerão a nossa conversa, portanto inscrevam-se no zylberblog.wordpress.com e participem. As postagens serão curtas e provocativas. Alguns dos temas que tratarei são:

Leitura Criativa: o que vem a ser?

Sobre leituras e leitores

Leitura e Escrita

O Mundo Codificado de Vilém Flusser

Uma tipologia dos Leitores em Umberto Eco

O leitor que vai além da obra

Observação e interpretação em Siri Hustvedt

Perdidos no bosque da leitura

Juntando autores (que não se conhecem)

Estes são alguns dos temas que pautarão as primeiras conversas. Espero a sua companhia. Os seus comentários me permitirão aprimorar os textos.

Decio Zylbersztajn

Escritor e Professor Titular Sênior – USP

Acerba Dor: Contos de Mudança e Ruptura na Literatura Brasileira

BIBLIOTOPIA

“O importante e bonito no mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando.” (Guimarães Rosa)

As mudanças incomodam, é natural que as pessoas se acomodem, se acostumem com as coisas como elas estão. Seja a mudança de um móvel dentro da casa, ou a mudança de casa, de país, de emprego, de companhia, as mudanças consomem energia e exigem adaptação, talvez essa a razão pela qual preferimos a estabilidade.

Ocorre que a estabilidade sugere estagnação, a falta de desafios associados ao enfrentamento do desconhecido acomoda as mentes o que acaba por limitar a sensibilidade das pessoas. As mudanças estão presentes de forma natural nas nossas vidas e o tema foi tratado ao longo do tempo. O I Ching, o livro das mutações, trata da impermanência e influenciou a obra de Jung de maneira decisiva. Diferentemente, outro elemento gerador de instabilidade é a busca, largamente explorada na literatura como atesta a obra de Cervantes, “El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha”.

Nas aulas de zoologia que assisti na universidade, eu fiquei fascinado pelo conceito de ecdise, um fenômeno biológico que caracteriza algumas espécies. O termo é definido no dicionário do Aurélio como: “Mudança periódica de pele de certas larvas de insetos e revestimento calcáreo de certos crustáceos.”  As espécies que trocam de pele compartilham uma característica, a pele antiga limita o seu crescimento, elas a abandonam, trocam-na por uma pele nova ajustada ao novo volume do corpo em crescimento. Durante a ecdise os animais ficam expostos aos predadores, pois o momento da troca da pele é delicado, expõe o interior desprotegido.

Eu não poderia encontrar metáfora mais adequada para o fenômeno de mudanças a que algumas pessoas se permitem submeter, o que me motivou a escrever o livro Acerba Dor, formado por contos cujos personagens passam por ecdises, se expõem ao risco, rompem convenções. Esta característica foi identificada pelo jornalista e escritor Joaquim Maria Botelho na apresentação do volume de contos “Acerba dor”: “Exacerbar é o verbo-síntese dessa espessa amálgama de sentimentos que a escrita habilidosa de Decio Zylbersztajn nos desvela. Homens e mulheres prisioneiros de hábitos e amarras sociais, ávidos da consciência de si mesmos, experimentam um mergulho alma adentro, resgatando similares rancores, desejos e incompletudes. E atingem profundezas abissais, porque ‘um abismo chama outro abismo'”.

Imagem: Quadro de J.F. Almeida Junior: Saudade – acerba dor de 1899. Óleo sobre tela, Pinacoteca do Estado de São Paulo

“Acerba dor” mostra seres humanos na encruzilhada de suas vidas. O que fazer? Para onde ir? A partir de um inventário que remete às escolhas no passado, novos caminhos despontam e anunciam mudanças e rupturas. A começar pelo conto que dá título ao livro, no qual duas mulheres, Luz e Edith, se encontram em um museu de arte e questionam as suas escolhas pessoais. Em “Mineira de Cordisburgo”, um casal se conhece na Big Apple – ela brasileira, ele financista norte-americano – e decidem morar em Cordisburgo, interior de Minas, vivendo na pele todas as consequências dessa escolha radical. Em “O chinês Dong”, a amizade – quase amor – entre uma diarista e um chinês que mal fala Português – é alinhavada pelo interesse no livro de Guimarães Rosa cuja leitura muda o modo de viver de Dong. Em Tributo a Caymmi, o pianista João rompe com a rotina estabelecida há anos, de se apresentar em um piano-bar sempre no mesmo dia, no mesmo horário, tocando o mesmo repertório. Até o dia em que decide ficar em casa, no seu quarto sem atender aos chamados dos amigos, sequer da sua mulher.

Esses e outros contos de “Acerba dor”, refletem o poder que tem a literatura, de mover águas paradas e incomodar o leitor. Não fosse assim, não cumpriria um dos papéis da arte, que é o de questionar as nossas certezas.

Contato para adquirir o livro autografado: zylberblog@zylber-books.blog

A Chama de uma Vela: interpretando a realidade

A Chama de uma Vela: sobre interpretações da realidade

No final dos anos 60 uma Professora pediu aos alunos que observassem a chama de uma vela acesa posicionada ao centro de uma mesa. – Descrevam o quê vocês observam. – Pediu aos alunos, eu entre eles.

A nossa experiência se limitava àquilo que 16 anos de vida permitem acumular. Nossos interesses eram mais imediatos, ígneos, tal como a chama da vela, e a nossa curiosidade, livre dos tapa-olhos que a vida viria a nos impor. Observávamos a chama da vela estimulados pela flama dos hormônios que atiçavam a nossa libido. Nas observações compartilhadas, revelamos pontos de vista diferentes a respeito da chama que, de forma insuspeita, permanecia a tremeluzir e apontar para o alto.

A intenção da mestra foi alcançada, compreendemos que olhares sobre um mesmo objeto podem ser diferentes. Aprendemos que o ato criativo nem sempre significa gerar algo novo, um olhar do óbvio por um ângulo inaudito pode bastar para causar impacto. Observar a realidade pelo avesso, ou ver o ângulo que ninguém observou, equivale a uma descoberta. Para a experiência limitada daqueles jovens que éramos, estava pavimentado o caminho para a busca da criatividade na vida.

A Educadora que nos posicionou ao redor da chama da vela chamava-se Raquel Gevertz e na minha tese de livre docência apresentada à Universidade de São Paulo, eu lhe prestei devida homenagem.

Realidade, qual realidade?

Incomoda admitir que dois observadores diante do mesmo fenômeno possam perceber realidades diferentes. Ou que o mesmo observador, em momentos diferentes, pode interpretar um fenômeno de maneira díspar. A observação não é um ato objetivo, dois médicos podem dar diagnósticos diferentes frente aos mesmos sintomas do paciente. Dois psicoterapeutas podem interpretar patologias psicológicas distintas no mesmo paciente, e cada um de nós precisa se reconciliar com o fato de que, ao longo do tempo mudamos as opiniões que defendemos com veemência.

Eu tinha deixado os 16 anos de idade no passado quando me deparei com as observações de Gaston Bachelard (1884-1962). As obras deste filósofo tratam de temas cuja observação concreta é limitada, ou mesmo impossível. A Poética do Espaço, A Terra e os Devaneios da Vontade, A Poética do Devaneio, e o livro que tem por título: A Chama de Uma Vela, em cujo parágrafo inicial o autor afirma:

Neste pequeno livro, de pura fantasia, sem a sobrecarga de saber algum, sem nos aprisionarmos na unidade de um método de investigação, gostaríamos de dizer que a renovação da fantasia recebe um sonhador na contemplação de uma chama solitária. A chama, dentre os objetos que nos fazem sonhar, é um dos maiores operadores de imagens.

Assim, a chama de uma vela, além de incitar o exercício da pluralidade de observações, sugere uma viagem interior pelo mundo das fantasias que habitam a mente humana, sobre a qual nosso conhecimento ainda é limitado.

A Respeito das Interpretações da Realidade:

A escritora e ensaísta Siri Hustvedt explora o problema de “olhar e não ver”. Citando exemplos de cientistas que estudam a cognição humana, ela expõe o drama que decorre da nossa incapacidade de interpretarmos a realidade de maneira objetiva. É comum não percebermos um elefante sentado na nossa poltrona predileta.

No conjunto de ensaios que compõem o livro: Living, Thinking, Looking, ela afirma que interpretamos subjetivamente as nossas próprias histórias de vida, a memória é seletiva e muda ao longo do tempo e, acima de tudo, é criativa. De certa maneira a nossa memória é uma ficção e o significado dos fatos que recordamos muda conforme envelhecemos. Esta condição é conhecida pelos neurocientistas que a chamam de “consolidação da memória”. Outra dimensão é de como vemos uma obra de arte. Aquilo que se representa em linguagem artística vem carregado de experiências e significados particulares que emocionaram o autor. O processo se repete quando alguém que vê a obra, lê um livro, ou assiste um filme, interpreta a mensagem ali expressa utilizando o crivo particular das suas próprias experiências. A intenção original do autor ou autora deixa de ser relevante, muito menos a realidade que motivou a obra.

No mundo da ciência, os pesquisadores definem os problemas de pesquisa a partir da observação da realidade. O Professor Ronald Coase (1910-2013), prêmio Nobel em Economia, criou um mantra: “What is Going on Here?”, que utilizava para desafiar os alunos a observarem a realidade para identificar “problemas” merecedores do esforço de pesquisa. A imprecisão na identificação de um problema de pesquisa, ou seja, da interpretação da realidade, é um problema endêmico enfrentado pelos pesquisadores. Cientistas também estão expostos ao drama fundamental da interpretação subjetiva da realidade.

 Humberto Eco, no livro “Seis passeios pelos Bosques da Ficção”, discute o tema da interpretação dos leitores. Um autor nem sempre explicita sua intenção, e o leitor interpreta o texto com base no seu repertório de informações, que implica na quase impossibilidade de emparelhamento com a intenção do autor. A leitura interpretativa torna o leitor um parceiro criativo, um cúmplice do autor o que sobretudo valoriza o ato da leitura. Tal reconhecimento foi expresso por Borges ao dizer que a leitura é mais importante do que a escrita, é um ato anônimo, humilde, entretanto criativo por natureza.

O que nos resta fazer?

Enfim, o que somos capazes de observar? A interpretação da realidade é fruto das experiências, crenças e vieses acoplados às nossas emoções. A observação interpretativa – questionadora, oclusa, hostil, carinhosa, inclusiva, amorosa – refletirá as nossas sombras e emoções. Não existe realidade objetiva, portanto estamos, todos nós, sentados ao redor da mesa, observando a chama de uma vela que continua a flamular dirigida para o alto.