Um Olhar para Carmen

Um Olhar para Carmen

Caminhos em Albacín

Nas ladeiras de Albaicín, bairro que circunda o Alhambra, existem vielas que conectam, a outrora morada de nobres famílias mouras, ao centro de Granada. Para quem faz o trajeto do topo ao pé da colina, é preciso ter cuidado com o chão irregular e inclinado. Para qualquer direção que se olhe, se avista o vale que abriga a cidade. A cada passo, o ambiente pacífico esconde as pelejas havidas naquela paragem.

As marcas dos romanos, árabes, judeus e ibéricos estão visíveis, o local foi habitado pelos pelos mouros até a sua expulsão final pelos católicos reis de Castela e Aragão em 1492. Granada foi o último reduto árabe a cair. Uma revolta popular ocorreu em 1568 contra as limitações de culto impostas pelos reis católicos. Foi o estopim para o esvaziamento e decadência do lugar que ganhou o nome de Realejo onde se instalou um acampamento militar. Dos 30 mil habitantes contados em 1560, 5 mil restavam no censo de 1620. Sobre as mesquitas foram construídas igrejas com aspecto pesado, inequívoco sinal de poder e força.

Abandonado, o local foi ocupado por grupos sem lei, o mesmo ocorreu com o Alhambra, pérola da arquitetura, remanescente de uma época na qual judeus e árabes conviviam em paz e Granada era conhecida como Garnata al-Yahud, ou Granada dos Judeus. O Alhambra e o Albaicín restaram vazios da vida que antes era abundante, dos jardins, dos espelhos d’água e das alamedas, apenas as ladeiras sobreviveram como uma ponte ligando ao passado.

Carmen de Zhamar

O Albaicín atual é pontilhado por lugares recônditos. Nas suas vielas, aqui e ali, avista-se muros caiados e portões em madeira elaborada que protegem os ambientes dos olhares de quem passa pelo local. Eu ali, me perguntava o seria tão importante para ser protegido de maneira quase hermética? Uma grade de ferro que substituiu o portão de madeira permitiu que o meu olhar desvendasse o segredo mouro guardado desde os tempos. Eu pude ver Carmen, desnuda!

Carmen, um encontro consigo mesmo

Carmen da Espanha árabe. Carmen granadino. O nome Carmen tem origem hebraica que significa: vinha de Deus, um lugar sagrado onde cresce um jardim. Hoje, um carmen designa uma habitação urbana, granadina por excelência, enfeitada por jardins e hortas, um espaço protegido do exterior como os que existem nos bairros de Albaicín e Realejo. O aspecto urbano de um carmem surgiu depois da decadência que sucedeu a expulsão. No século XVII surgiu a configuração atual, um bairro com propriedades amplas, e jardins protegidos que originaram o carmen moderno cujas paredes, flores e pergolados guardam a história da intolerância.

O carmen atual convida à introspecção, a busca do recôndito proibido é a metáfora representada pelos muros caiados quase intransponíveis. Ao ver um carmem com jardins vinhas e hortas, me lembrei das aulas de paisagismo do Professor Jairo Ribeiro de Matos que cursei na Escola de Agronomia da Universidade de São Paulo que nos ensinou sobre os diferentes tipos de jardins. Uns desenhados para serem vistos, admirados, comportando apenas a presença do olhar observador. Outros, desenhados como locais de estar, lugares onde a presença humana é essencial, onde sombras e sons convidam a apurar os sentidos, ambientes onde se pode exercer a magia de parar o tempo e aplainar os solavancos da vida.

Carmen de Bellavista

Um carmen, como lugar de estar, existe para quem deseja usufruir da própria intimidade e permanecer isolado em contemplação e observação interna, atitude rara em tempos de hiper conectividade.  Há quem adote origem latina de carmen para designar uma composição poética ou musical. O nome ganhou conotação religiosa como um local sagrado, um Carmelo onde irmãs religiosas passam a vida a orar. Uso alternativo, profano, se associou a personagens femininos dotados de espírito forte, como a cigana sedutora e sensual da ópera de Bizet de 1875. Um local para o exercício da contemplação só poderia ter um nome cujo significado pendular permitisse transitar entre o pecado e a pureza, entre a volúpia e a ascese.