Acerba Dor: Contos de Mudança e Ruptura na Literatura Brasileira

BIBLIOTOPIA

“O importante e bonito no mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando.” (Guimarães Rosa)

As mudanças incomodam, é natural que as pessoas se acomodem, se acostumem com as coisas como elas estão. Seja a mudança de um móvel dentro da casa, ou a mudança de casa, de país, de emprego, de companhia, as mudanças consomem energia e exigem adaptação, talvez essa a razão pela qual preferimos a estabilidade.

Ocorre que a estabilidade sugere estagnação, a falta de desafios associados ao enfrentamento do desconhecido acomoda as mentes o que acaba por limitar a sensibilidade das pessoas. As mudanças estão presentes de forma natural nas nossas vidas e o tema foi tratado ao longo do tempo. O I Ching, o livro das mutações, trata da impermanência e influenciou a obra de Jung de maneira decisiva. Diferentemente, outro elemento gerador de instabilidade é a busca, largamente explorada na literatura como atesta a obra de Cervantes, “El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha”.

Nas aulas de zoologia que assisti na universidade, eu fiquei fascinado pelo conceito de ecdise, um fenômeno biológico que caracteriza algumas espécies. O termo é definido no dicionário do Aurélio como: “Mudança periódica de pele de certas larvas de insetos e revestimento calcáreo de certos crustáceos.”  As espécies que trocam de pele compartilham uma característica, a pele antiga limita o seu crescimento, elas a abandonam, trocam-na por uma pele nova ajustada ao novo volume do corpo em crescimento. Durante a ecdise os animais ficam expostos aos predadores, pois o momento da troca da pele é delicado, expõe o interior desprotegido.

Eu não poderia encontrar metáfora mais adequada para o fenômeno de mudanças a que algumas pessoas se permitem submeter, o que me motivou a escrever o livro Acerba Dor, formado por contos cujos personagens passam por ecdises, se expõem ao risco, rompem convenções. Esta característica foi identificada pelo jornalista e escritor Joaquim Maria Botelho na apresentação do volume de contos “Acerba dor”: “Exacerbar é o verbo-síntese dessa espessa amálgama de sentimentos que a escrita habilidosa de Decio Zylbersztajn nos desvela. Homens e mulheres prisioneiros de hábitos e amarras sociais, ávidos da consciência de si mesmos, experimentam um mergulho alma adentro, resgatando similares rancores, desejos e incompletudes. E atingem profundezas abissais, porque ‘um abismo chama outro abismo'”.

Imagem: Quadro de J.F. Almeida Junior: Saudade – acerba dor de 1899. Óleo sobre tela, Pinacoteca do Estado de São Paulo

“Acerba dor” mostra seres humanos na encruzilhada de suas vidas. O que fazer? Para onde ir? A partir de um inventário que remete às escolhas no passado, novos caminhos despontam e anunciam mudanças e rupturas. A começar pelo conto que dá título ao livro, no qual duas mulheres, Luz e Edith, se encontram em um museu de arte e questionam as suas escolhas pessoais. Em “Mineira de Cordisburgo”, um casal se conhece na Big Apple – ela brasileira, ele financista norte-americano – e decidem morar em Cordisburgo, interior de Minas, vivendo na pele todas as consequências dessa escolha radical. Em “O chinês Dong”, a amizade – quase amor – entre uma diarista e um chinês que mal fala Português – é alinhavada pelo interesse no livro de Guimarães Rosa cuja leitura muda o modo de viver de Dong. Em Tributo a Caymmi, o pianista João rompe com a rotina estabelecida há anos, de se apresentar em um piano-bar sempre no mesmo dia, no mesmo horário, tocando o mesmo repertório. Até o dia em que decide ficar em casa, no seu quarto sem atender aos chamados dos amigos, sequer da sua mulher.

Esses e outros contos de “Acerba dor”, refletem o poder que tem a literatura, de mover águas paradas e incomodar o leitor. Não fosse assim, não cumpriria um dos papéis da arte, que é o de questionar as nossas certezas.

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