Histórias do Edifício 1911: o aluno que cuspia fumo.

Quantas vezes julgamos pessoas a partir da aparência. Não raro evitamos contato com pessoas tomando por base o seu estereótipo. Resulta que cometemos erros e podemos perder a oportunidade de conhecer perfis interessantes. O relato a seguir conta uma dessas situações.

O edifício 1911 fica localizado no campus da Universidade do Estado da Carolina do Norte nos EUA, onde me graduei como PhD em Economia Agrícola. Foi construído para ser o dormitório dos alunos, posteriormente transformado em salas para alunos de pós-graduação. O nome dado ao prédio de estilo Vitoriano cuja elegância é marcada por colunas, janelas simétricas e tijolos aparentes, tem a ver com a rebeldia dos alunos que se posicionaram contra a tradição do trote a que eram submetidos os calouros. O prédio é de 1908 e a turma rebelde, de 1911, daí a homenagem pela coragem de se contrapor a tradições espúrias que serviam para delimitar o espaço de poder dentro do campus.

A minha sala ficava no centro do prédio – a janela está marcada na foto – por ser pequena eu a ocupava sozinho a não ser quando era necessário acomodar algum aluno por pouco tempo. Foi o que aconteceu no outono de 1981 quando um jovem, trajando chapéu e roupa de vaqueiro, dividiu o espaço comigo. Ao entrar na sala, eu o encontrei em uma escrivaninha colocada na minha frente, era impossível não olharmos um para o outro. Acenei com um cumprimento, mas não obtive resposta, pensei não ter sido notado, tentei novamente sem sucesso. Ao tomar o meu lugar notei que havia um recipiente no chão, ao lado da cadeira do meu novo companheiro de sala. Achei estranho, mas evitei perguntar do que se tratava.

Eu convivi no campus com os tipos de todo o mundo. Logo imaginei que tinha à minha frente um exemplar de aluno norte-americano do sul, marcado por atitudes preconceituosas contra pretos, e contra estrangeiros em geral. Enquanto eu tentava compreender o silêncio que se instalara entre nós, o meu colega – talvez eu possa chamá-lo assim – sacou um pacote do bolso do casaco e pegou algo que parecia uma massa homogênea que levou à boca inflando a bochecha do lado direito do seu rosto. Aquele volume permaneceu por certo tempo circulando na sua boca, ora inchando o lado direito, ora se alojando do lado esquerdo, até que aconteceu o inesperado. O jovem se debruçou sobre o recipiente ao seu lado e cuspiu um volume líquido de coloração escura que atingiu o fundo, ainda vazio, do spitoon, nome dado ao utensílio que conheci naquele dia. Uma cuspideira utilizada em bares e locais públicos frequentados por consumidores de tabaco de mascar.

A operação foi repetida algumas vezes ao longo do dia, exigindo repetidas manobras do jovem, que não errou o alvo uma vez sequer. Era impossível viver na Carolina do Norte sem saber do costume de mascar fumo que os colonizadores aprenderam com os índios que viviam no local. Convivi com o meu silencioso parceiro de sala por um mês. Soube que se tratava do filho de um produtor de tabaco, que participava em uma pesquisa sobre o produto. Em silêncio chegou, em silêncio permaneceu, e em silêncio desapareceu sem que eu tivesse conseguido romper a barreira de comunicação. Fiquei sem saber o seu nome, o que ele pensava de mim e perdi a oportunidade de conhecer um tipo diferente do perfil com o qual eu estava acostumado. Nunca saberei se foi melhor assim.

A experiência mais marcante dos quatro anos passados no campus da N.C. State foi a de conhecer variados tipos humanos. Aprendi que estereótipos resolvem o problema do observador que não deseja gastar energia para conhecer pessoas diferentes. Estereótipos são generalizações compartilhadas, associadas a uma raça, religião, nacionalidade, ou a um simples tipo como um morador de rua, ou um cowboy mascando fumo. Podem vir carregados de preconceitos e ignoram o mais relevante: as características complexas dos indivíduos.

Quando eu decidi estudar na Carolina do Norte fui alertado que encontraria um país conservador, racista e preconceituoso e que os estudantes norte-americanos nunca travariam contato comigo. Não posso endossar este preconceito, encontrei colegas norte-americanos que me ajudaram na minha pesquisa mais do que o meu orientador e se mostraram pessoas de raro caráter. Depois de quatro anos retornei ao Brasil, enriquecido pelos encontros que tive. Assim foi com os primeiros chineses que receberam permissão para estudar nos EUA, resultado do estabelecimento de laços diplomáticos com a China. Tive colegas coreanos, indianos, australianos, sudaneses, franceses, ingleses, gregos, e uma amiga, com quem mantenho contato até hoje, de origem taiwanesa, além de pencas de brasileiros, bolsistas como eu, que foram estudar ciências agrárias. Aprendi muito com aqueles que passaram pela minha pequena sala no 1911 Building.

Na Carolina do Norte presenciei, com medo e repulsa, uma passeata da Ku KLux Kan. Por outro lado, foi lá que eu vi nos anos 1980 uma celebração do dia do orgulho gay, que no Brasil só viria a ocorrer em 1997. Foi naquele país, dito conservador onde participei de uma reunião com um grupo que celebrava a Revolução Sandinista de 1979 que substituiu o ditador de direita, Somoza, pelo ditador de esquerda, Daniel Ortega, que ainda anda por lá. Pobres nicaraguenses, massacrados pelas ideologias. Nem a polícia, nem o exército apareceram para atrapalhar os manifestantes, como aconteceria no Brasil dos anos de chumbo.

Conheci conservadores e progressistas nos EUA. Tentei, mas tive dificuldade, me aproximar da comunidade preta norte-americana, cujo isolamento pode ser compreendido pelo histórico de violência vivida naquela região, onde nasceu Nina Simone, e em uma Universidade onde até os anos 1960 não era permitido o ingresso de pretos. Eram, e ainda são, discriminados, mas ovacionados quando faziam maravilhas nas quadras de basquetebol, onde vi Michael Jordan antes de ser famoso e seguir para o Chicago Bulls.

Aprendi a ter cuidado com estereótipos, o que não me ajudou a resolver o fracasso por não ter descoberto o significado do silêncio do meu colega de sala, aquele vestido de cowboy que cuspia fumo.

A Chama de uma Vela: interpretando a realidade

A Chama de uma Vela: sobre interpretações da realidade

No final dos anos 60 uma Professora pediu aos alunos que observassem a chama de uma vela acesa posicionada ao centro de uma mesa. – Descrevam o quê vocês observam. – Pediu aos alunos, eu entre eles.

A nossa experiência se limitava àquilo que 16 anos de vida permitem acumular. Nossos interesses eram mais imediatos, ígneos, tal como a chama da vela, e a nossa curiosidade, livre dos tapa-olhos que a vida viria a nos impor. Observávamos a chama da vela estimulados pela flama dos hormônios que atiçavam a nossa libido. Nas observações compartilhadas, revelamos pontos de vista diferentes a respeito da chama que, de forma insuspeita, permanecia a tremeluzir e apontar para o alto.

A intenção da mestra foi alcançada, compreendemos que olhares sobre um mesmo objeto podem ser diferentes. Aprendemos que o ato criativo nem sempre significa gerar algo novo, um olhar do óbvio por um ângulo inaudito pode bastar para causar impacto. Observar a realidade pelo avesso, ou ver o ângulo que ninguém observou, equivale a uma descoberta. Para a experiência limitada daqueles jovens que éramos, estava pavimentado o caminho para a busca da criatividade na vida.

A Educadora que nos posicionou ao redor da chama da vela chamava-se Raquel Gevertz e na minha tese de livre docência apresentada à Universidade de São Paulo, eu lhe prestei devida homenagem.

Realidade, qual realidade?

Incomoda admitir que dois observadores diante do mesmo fenômeno possam perceber realidades diferentes. Ou que o mesmo observador, em momentos diferentes, pode interpretar um fenômeno de maneira díspar. A observação não é um ato objetivo, dois médicos podem dar diagnósticos diferentes frente aos mesmos sintomas do paciente. Dois psicoterapeutas podem interpretar patologias psicológicas distintas no mesmo paciente, e cada um de nós precisa se reconciliar com o fato de que, ao longo do tempo mudamos as opiniões que defendemos com veemência.

Eu tinha deixado os 16 anos de idade no passado quando me deparei com as observações de Gaston Bachelard (1884-1962). As obras deste filósofo tratam de temas cuja observação concreta é limitada, ou mesmo impossível. A Poética do Espaço, A Terra e os Devaneios da Vontade, A Poética do Devaneio, e o livro que tem por título: A Chama de Uma Vela, em cujo parágrafo inicial o autor afirma:

Neste pequeno livro, de pura fantasia, sem a sobrecarga de saber algum, sem nos aprisionarmos na unidade de um método de investigação, gostaríamos de dizer que a renovação da fantasia recebe um sonhador na contemplação de uma chama solitária. A chama, dentre os objetos que nos fazem sonhar, é um dos maiores operadores de imagens.

Assim, a chama de uma vela, além de incitar o exercício da pluralidade de observações, sugere uma viagem interior pelo mundo das fantasias que habitam a mente humana, sobre a qual nosso conhecimento ainda é limitado.

A Respeito das Interpretações da Realidade:

A escritora e ensaísta Siri Hustvedt explora o problema de “olhar e não ver”. Citando exemplos de cientistas que estudam a cognição humana, ela expõe o drama que decorre da nossa incapacidade de interpretarmos a realidade de maneira objetiva. É comum não percebermos um elefante sentado na nossa poltrona predileta.

No conjunto de ensaios que compõem o livro: Living, Thinking, Looking, ela afirma que interpretamos subjetivamente as nossas próprias histórias de vida, a memória é seletiva e muda ao longo do tempo e, acima de tudo, é criativa. De certa maneira a nossa memória é uma ficção e o significado dos fatos que recordamos muda conforme envelhecemos. Esta condição é conhecida pelos neurocientistas que a chamam de “consolidação da memória”. Outra dimensão é de como vemos uma obra de arte. Aquilo que se representa em linguagem artística vem carregado de experiências e significados particulares que emocionaram o autor. O processo se repete quando alguém que vê a obra, lê um livro, ou assiste um filme, interpreta a mensagem ali expressa utilizando o crivo particular das suas próprias experiências. A intenção original do autor ou autora deixa de ser relevante, muito menos a realidade que motivou a obra.

No mundo da ciência, os pesquisadores definem os problemas de pesquisa a partir da observação da realidade. O Professor Ronald Coase (1910-2013), prêmio Nobel em Economia, criou um mantra: “What is Going on Here?”, que utilizava para desafiar os alunos a observarem a realidade para identificar “problemas” merecedores do esforço de pesquisa. A imprecisão na identificação de um problema de pesquisa, ou seja, da interpretação da realidade, é um problema endêmico enfrentado pelos pesquisadores. Cientistas também estão expostos ao drama fundamental da interpretação subjetiva da realidade.

 Humberto Eco, no livro “Seis passeios pelos Bosques da Ficção”, discute o tema da interpretação dos leitores. Um autor nem sempre explicita sua intenção, e o leitor interpreta o texto com base no seu repertório de informações, que implica na quase impossibilidade de emparelhamento com a intenção do autor. A leitura interpretativa torna o leitor um parceiro criativo, um cúmplice do autor o que sobretudo valoriza o ato da leitura. Tal reconhecimento foi expresso por Borges ao dizer que a leitura é mais importante do que a escrita, é um ato anônimo, humilde, entretanto criativo por natureza.

O que nos resta fazer?

Enfim, o que somos capazes de observar? A interpretação da realidade é fruto das experiências, crenças e vieses acoplados às nossas emoções. A observação interpretativa – questionadora, oclusa, hostil, carinhosa, inclusiva, amorosa – refletirá as nossas sombras e emoções. Não existe realidade objetiva, portanto estamos, todos nós, sentados ao redor da mesa, observando a chama de uma vela que continua a flamular dirigida para o alto.

Ordenando o Caos: o papel da escrita

Ordenando o Caos: o papel da escrita

Gastei meses planejando uma viagem para o Marrocos, país que conheci lendo os livros de Paul Bowles, Elias Canetti e Tahar Ben Jelloun. Assim que comprei as passagens aéreas um terremoto incidiu sobre aquele país deixando áreas históricas em ruínas. Enquanto mudava os meus planos de viagem lembrei do ditado yidish que, se fosse traduzível, soaria como: Enquanto o homem planeja, Deus ri.

A incerteza incomoda, preferimos a segurança que nos permite planejar. O risco se distingue da incerteza, no primeiro conhecemos o padrão de variabilidade de determinado fenômeno. No caso da incerteza tateamos na escuridão da ignorância, torna-se impossível planejar. Basta um olhar para o mundo para que se perceba que os eventos não antecipados são a norma e não a exceção. Este tema preocupou autores de diferentes especialidades, da psicanálise à economia, da filosofia à geologia, da meteorologia à literatura. Dois autores cativaram a minha leitura: Douglass North e Villém Flusser.

North elaborou sobre o papel das instituições para gerar previsibilidade. Instituições são regras formais e informais que criamos, na sua ausência resta a barbárie. Crítico da economia ortodoxa, por não enfatizar o papel das instituições, North, como historiador econômico, demonstrou que instituições que não protegem os direitos dos indivíduos resultam em sociedades estagnadas. Instituições fracas, capturadas, criadas com disfuncionalidades, geram resultados catastróficos, em último caso descambam em conflitos e violência. North recebeu o prêmio Nobel em Economia em 1993 pelo seu trabalho sobre a origem, a evolução e as patologias das Instituições, que ele definiu como: As regras do jogo em uma sociedade, que pautam o comportamento humano. As instituições por vezes falham no seu intento de gerar previsibilidade, se mostram tão imperfeitas quanto os seus idealizadores. Em alguns casos elas falham intencionalmente, quando são criadas para não funcionar. Oliver Williamson criou o termo: “ineficient by design” para designar instituições que nascem para cumprir propósitos velados. O Congresso Nacional está pleno de exemplos.

A obra de North espanta pela atualidade. No livro, Violence and Social Orders de 2009, ele explora como instituções imperfeitas degeneram o tecido social. Em um artigo de 1999 o autor se preocupou com o aquecimento global e propôs a necessidade de criarmos um mercado de créditos de carbono. No mesmo artigo ele elaborou sobre a imprevisibilidade, afirmou que vivemos em um “non ergodic world”. Ou seja, no mundo não ergódico o passado não explica o presente e tem pouca utilidade para explicar o futuro. A imprevisibilidade é a regra e as instituições devem ser resilientes e maleáveis para cumprirem o seu papel. Para criarmos um mercado de créditos de carbono precisamos de instituições flexíveis.

Douglass North e DeZylber

O segundo autor que citei é Villém Flusser. Perseguido pelo nazismo, deixou Praga quando tinha 21 anos e se estabeleceu em São Paulo. Abandonou os estudos de filosofia e prosseguiu como autodidata, interagiu com pensadores nas áreas da filosofia e da comunicação, para as quais contribuiu de forma decisiva. Acolhido por diferentes universidades brasileiras, deu aulas e produziu uma obra que se tornou reconhecida internacionalmente. Nos anos 1970, retornou para a Europa com a agenda cheia de convites para aulas e palestras. A caminho para uma destas palestras, um acidente fatal interrompeu a sua trajetória.

Se North focalizou a sociedade, Flusser mergulhou no papel da simbologia, da construção e uso dos códigos de linguagem e de comunicação, que transformam a mente humana. Tratou da abstração, competência única da nossa espécie, que é capaz de observar um objeto inútil, sem serventia para alimentação nem para a cópula, e criar um conceito abstrato sobre ele. Em um ato de fundamental transformação, o ser humano foi capaz de elaborar conceitos e representar o objeto inútil por meio de diferentes expressões. Ele gerou utilidade ao representar o objeto por meio do desenho, elaborou códigos escritos com os quais descreveu o objeto. Desenvolveu ideogramas que representam o conceito sobre o objeto. Desenvolveu a linguagem fonética, criou símbolos que alinhados formaram palavras, que alinhadas formaram frases, e exprimiram o conceito. Flusser se despreendeu da análise da imagem estática – a fotografia – e a colocou em movimento ao discorrer sobre o cinema. No seu livro “A Escrita: Há futuro para a escrita?”, elaborou sobre a superioridade da imagem e explorou os limites da escrita. Oh, pobres de nós, escritores.

Flusser sugeriu que ao criarmos a escrita inauguramos um processo de transformação da mente humana. O receptor da mensagem escrita a decodifica e reorganiza segundo critérios próprios que podem não ser os mesmos do emissor que elaborou a mensagem original. No livro “Seis passeios no bosque da ficção”, Umberto Eco elabora sobre o mesmo tema: o autor que é surpreendido pelo leitor que interpreta o texto de modo criativo, diferente da intenção original do autor. Eis o ato de recriação, razão pela qual a leitura gera prazer estético. O leitor não é um agente passivo, ele interpreta, reinventa e reescreve a mensagem conforme a sua própria métrica.

Flusser afirmou que escrever nos ajuda a colocar ordem no caos das nossas mentes. Ele não está só nesta observação, Clarice Lispector afirmou: “Escrevo por estar desesperada, se não fosse a escrita eu morreria simbolicamente todos os dias”. Do mesmo modo em Elias Canetti lê-se: “Tranquilizar-me, talvez seja a principal razão por que escrevo. É quase inacreditável o quanto a frase escrita pode acalmar e domar o ser humano”. Esta ação terapêutica da escrita foi elaborada por Siri Hustvedt no livro de ensaios: Living, Thinking, Looking. Escrever e ler, por exigirem ordenamento, são ações geradoras de estabilidade.

Eis o drama humano; desejamos ordem em um mundo caótico, não ergótico. Se para Flusser escrever e ler ajudam a ordenar o caos das nossas mentes, para North as instituições ordenam o caos da sociedade. A escrita e as instituições são criações humanas, sujeitas a limitações, imperfeitas e mutantes, tal como as sociedades que as originam. North e Flusser nasceram no ano de 1920 e, até onde eu saiba, nunca se encontraram. Se tal encontro tivesse ocorrido, creio que eles gastariam horas a elaborar, com humor, sobre o drama da incerteza humana. Quanto a minha viagem, não farei planos, decidirei na véspera, aprendi que enquanto o homem planeja, Deus ri.

Leituras e Releituras

Conversando com meus livros.

Quando dei por mim a tarefa estava concluída, reorganizei o espaço da minha biblioteca. Durante a pintura do meu apartamento removi os livros das estantes e os guardei em caixas. Retomei contato com velhos amigos que ficam a me espreitar quando estou a trabalhar, sei que os livros me observam e tentam se comunicar comigo quando os deixo à toa por muito tempo.

Caso considerem loucura posso concordar, mas o que declaro é a mais pura verdade: eu ouço vozes dos livros que se apresentam com sotaques, idiomas e entonações diferentes e me convidam para – digamos assim – uma conversa. Há dias em que ouço verdadeira balbúrdia quando eles – os livros – me acusam:

– Você me deixou pela metade! – Eu contra-argumento.

– Fique calmo, se não te doei é porque devo ter alguma intenção oculta.

A minha biblioteca – que não é grande e eu nunca me dei ao trabalho de enumerar os volumes – é formada por autores que me deram um norte e me ajudaram a ser quem eu sou. Ao remover os livros das estantes descobri várias duplicatas, constatei que sou um consumidor insensato que compra o mesmo título repetidas vezes movido por um ímpeto incontrolável. Dou guarita aos autores que admiro, os levo para casa, dou-lhes alimento, calor e paz, sabe-se lá onde iriam parar se eu não os recolhesse, entendam como uma atitude de proteção.

Embora não enumere os livros, eu os agrupo segundo um critério tribal. É uma questão de segurança, os semelhantes se unem para se defenderem de predadores. Se os elefantes agem assim por que não os livros? E assim tenho feito, criei regiões nas estantes onde habitam tribos como: Filosofia e Ensaios, Literatura Brasileira e Internacional (Japão tem uma área própria), Poesia, Judaica, Agricultura, e os meus brinquedos: Mineralogia e Lapidação, Folclore Brasileiro e Viola Caipira, Orquídeas. A tribo da Teoria Literária reflete a minha opção pela escrita, e a minha vida acadêmica pregressa tem algumas tribos que preservei pois persistem a influenciar o meu modo de pensar com destaque para a Economia das Organizações e a Economia Institucional.

De vez em quando encontro Ortega y Gasset e debato com ele sobre a sua visão elitista de cultura da qual eu discordo, mas concordo com tantas das suas posições que ele me escuta e ignora as provocações. Ai de mim se eu ignorar Jorge Amado, Thomas Mann, Haldorr Laxness, que reclamam pelo meu olhar.

Tal como ocorre entre os humanos, há livros inquietos que gostam de explorar territórios alheios, se metem entre diferentes tribos, ora residindo em um local ora se mudando para outras paragens. Tenho particular apreço por estes livros meio soltos que não sabem direito a sua personalidade. Autores como Edgard Morin, Siri Hustvedt, Villém Flusser, Rolando Garcia, transitam livremente pelos espaços, curiosos e atraídos por sotaques diferentes. Gosto deste modo de ser.

Quando me sinto acuado e preciso ordenar o caos da minha mente, eu me ponho a ler e reler os donos das vozes. Ler ou reler? Ora, quem relê não é mais quem leu da primeira vez, portanto não existe releitura, o que existe é o tempo presente. Há livros que eu ainda não li, outros que não li na íntegra, outros que sei que vou reler. Aqueles que não se enquadram em nenhuma categoria costumam passar uma temporada e depois são destinados a outros olhares. Não desenvolvi um critério para as doações, talvez seja baseado em algo que eu chamo de biblio-empatia, sei que doei centenas de livros e talvez tenha cometido enganos dos quais me arrependeria se tivesse dado atenção à segunda página, ou tivesse feito uma releitura. As resenhas ajudam a decidir por um autor desconhecido bem como as opiniões dos amigos que me apresentam autores contemporâneos, jovens talentos da literatura, quando gosto eu torço para que sobrevivam em meio ao moinho editorial que destrói bons autores no berço.

Aldorr Laxness conversando com um livro.

Com o passar do tempo eu aderi aos ebooks, e nos dias de hoje tenho lido a respeito do impacto da inteligência artificial. Será que os sistemas inteligentes substituirão o fazer humano? Será que terão espaço nas bibliotecas do futuro? Umberto Eco e Siri Hustvedt me ajudaram a responder. Nada substitui a alma humana e a emoção, sem estes ingredientes os livros gerados pela inteligência artificial ficarão calados nas estantes.

Fico intranquilo ao perceber que não terei tempo de para reler tudo o que tenho ao meu redor. Descubro que a vida é miseravelmente pequena para tantas leituras que pretendo fazer. É quando as vozes voltaram a falar: Tenha calma, nós estamos aqui para permitir as suas viagens, para que leitura e releitura nunca não sejam iguais, para que você perceba a sua mediocridade frente ao pensamento humano. Respiro aliviado ao compreender a minha insignificância. Quando consigo ordenar o caos da minha mente as vozes param de falar, talvez querendo me poupar. Mas elas continuam presentes, sei que ficarão caladas por um tempo e persistirão à espreita do meu próximo movimento.

Repentinamente a balbúrdia se reinstala: Por favor, é a minha vez, me leia!

Um Sonho Amazônico

Qual a chance de se encontrar alguém de Laranjal do Jari (Amapá) ou de Monte Dourado (Pará) no círculo polar ártico? Pois foi o que aconteceu em 2017 na Islândia onde conheci Rose e Sebastian no saguão da Prefeitura de Reikjavik durante um evento literário. Ouvi frases em português e identifiquei o casal de pesquisadores que deixou o Brasil para seguir uma carreira universitária na Islândia. Sebastian é alemão e viveu em Belém onde fez doutorado, conseguiu uma posição na Universidade de Reikjavik. Se bem me lembro, línguas em risco de desaparecimento era o seu interesse, tema que seria abordado no evento literário por uma escritora e pesquisadora inglesa.

No Círculo Polar Ártico

Um idioma que morre representa perda cultural inestimável, com ele se perde a memória coletiva das gerações que contribuíram para a sua formação. Os rastros dos idiomas que sobrevivem na história oral ou nos textos escritos revelam os sonhos dos povos, sua extinção tem paralelo com a perda da biodiversidade de uma floresta devastada. Conheço bem esta história pois a minha família viveu o drama do desaparecimento do yidishe, língua que cresci ouvindo os meus pais falarem e que foi quase extinta pela mão insana do holocausto. O advérbio “quase” revela que o idioma e a cultura que ele representa, sobreviveram à violência, o yidishe tornou-se língua de resistência.

O encontro com o casal de brasileiros foi um episódio furtivo e eu não os encontrei depois. Rose nasceu em de Monte Dourado, cidade criada pelo milionário norte-americano Daniel Ludwig – dono de frotas para transporte de Petróleo – que desejava criar um império econômico na Amazônia brasileira, o projeto Jari nos anos 60. Antes de Ludwig os coronéis José Júlio de Andrade (1889) e Manoel Carlos Ferreira Martins (1902) exploraram e tomaram posse das terras às margens do Rio Jari de onde expulsaram – ou aniquilaram – os índios que lá habitavam. Exploraram a castanha do pará, a seringueira e as madeiras nobres, deixando as espécies pobres, de madeira e de gente ribeirinha. Depois vieram os mineradores industriais com as bênçãos dos militares brasileiros que não apreciavam a presença de Ludwig cujas atividades incluíam a produção de minério, madeira e o projeto de uma fábrica de celulose. A fábrica, montada sobre um navio, deixou o Japão, foi rebocada pelo mar da Índia, contornou a Cidade do Cabo – o Cabo das Tormentas – atravessou o Atlântico, subiu a costa brasileira e entrou na água-mãe do Amazonas. Dali derivou para o Rio Jari, um dos afluentes da margem esquerda, a fábrica-barco ancorou na trincheira aberta sobre pilares de massaranduba que lá permanecem depois de décadas.

Do Japão até o Rio Jari

As atividades que desenvolvi na Universidade de São Paulo me levaram àquelas paragens onde conheci o projeto Jari já nas mãos do empresário brasileiro Sergio Amoroso. Em um leilão ele assumiu uma dívida impagável junto a vários bancos públicos e privados, pagou dois dólares pelo pacote. Para os credores era melhor ter um sonhador à frente do projeto a vê-lo naufragar nas águas amazônicas. Definiu-se uma complexa fórmula para pagamento da dívida que nunca foi efetivada.

Ludwig, no melhor estilo Casa Grande e Senzala, construiu uma cidade para os engenheiros – Monte Dourado – com escola, hospital, aeroporto, água tratada e utilizou a massa de trabalhadores disponíveis do outro lado do Rio Jari, na cidade de Laranjal do Jari, onde viviam em ruas sem calçamento ou saneamento. Veio gente de Macapá, Mazagão, Belém, chegaram nordestinos que, trazendo a sabedoria adquirida na lide com a seca, povoaram a região, aprenderam a lidar com as cheias e com a falta de tudo, menos de esperança.

Havia dois aeroportos nas cidades ribeirinhas, um era oficial e funcionava em Monte Dourado, nas boas épocas da fábrica de celulose um voo diário conectava com Belém. Do outro lado, em Laranjal do Jari, um aeroporto sem registro formal tinha movimento intenso de aviões do garimpo. Lá um monomotor pousou sem a porta do passageiro, pelo buraco desembarcou um sujeito bamburrado – cheio de pulseiras e colares de ouro – que tirou de dentro da cabine…. um bezerro. 

Pelo Rio Jari subi até a cachoeira de Santo Antônio, uma imagem deslumbrante vista a partir do barco que se aproximou até o ponto de segurança. Na volta, o piloto parou na margem e me mostrou um túmulo com uma suástica que indica o local onde está enterrado Joseph Greiner do exército alemão. Parece que Hitler tinha intenções expansionistas na Amazônia e organizou viagens de reconhecimento. A malária abateu o chefe do grupo e dispersou os demais, e a história abateu o führer.

Eu mantive contato com a região por alguns anos, vários estudos foram conduzidos pelos meus alunos. A situação financeira da empresa piorou a partir da decisão de construir nova planta de celulose em substituição à primeira importada do Japão. A empresa deixou de operar na década de 2020. A ideia de conduzir projetos na região desafia empresários e governos, sabemos que a Amazônia não é para principiantes e que a floresta pede abordagem diferente dos modelos produtivistas tradicionais.

A Amazônia está cheia de histórias de perdedores, explorados, sem voz, dos que foram escorraçados e seguiram para a serra do Tumucumaque na fronteira com a Guiana Francesa, quase não há rastros dos povos originais, da sua cultura ou do seu idioma. Eu cruzei pelas áreas de florestas públicas, depredadas por invasores que exploraram tudo o que puderam. A reserva que pertencia à empresa demandava considerável soma de recursos para ser protegida, quanto a floresta pública, esta não sobreviveu.

Qual será o destino da Amazônia se o Estado não cumprir o papel? Qual o destino dos povos originários que seguem sendo alvos predatórios dos interesses imediatistas? Como proteger as gerações futuras do risco de viverem em uma sociedade sem florestas, sem história, sem gente? Eu nunca mais soube do casal Rose e Sebastián, espero que o destino tenha sido bondoso com eles.