Islândia, Futebol e Literatura :

Islândia, Futebol e Literatura :

O time nacional da Islândia enfrentou a seleção da França nas quartas de final da copa da UEFA de 2016. Perdeu o jogo, mas gostei de torcer pelo time semiprofissional da ilha do ártico formado por atletas de pequenos times da Europa cujo técnico é dentista por profissão. A minha preferência tem a mesma razão da escolha que fiz pelo Juventus da Mooca como o meu time do coração. Mas como? Eu não sou descendente de italianos e nasci no Bom Retiro e não na Mooca! Explico, o time da Islândia demonstrou que o homem comum representa o verdadeiro espetáculo da vida. Os atletas não sucumbiram, ao menos por enquanto, ao canto da sereia que desencaminhou os ronaldos, os patos e os neymares que se vestiram de brilhos e passaram a viver uma vida esterilizada, descasada do mundo real. São algo que se convencionou chamar de celebridades. Ao visitar a Islândia compreendi o espírito simples do povo islandês. A fragilidade dos seus habitantes expostos aos desígnios da natureza os obriga a construir estradas e pontes sem luxo, pois a cada 50 ou 60 anos uma erupção varrê-las-á do mapa. As casas são simples como simples é a vida dos habitantes da ilha. Sem idealizar, são pessoas que como qualquer um de nós tem as suas fragilidades, desvios e preconceitos. Me recordo de um episódio quando um grupo de jovens islandeses cuspiu na nossa direção quando caminhávamos pela praça principal da cidade de Reykjavík. Reagem ao estrangeiro como vemos acontecer em outros locais da Europa. Foi ao final da segunda guerra que o país ganhou independência, mas a presença das forças da OTAN, as novas indústrias, a urbanização acentuada e o crescente contato com outros países, romperam o isolamento da sociedade islandesa. Reykjavík abrigou o jogo de xadrez entre Fisher e Spassky em 1972 e foi lá que Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev se encontraram em outubro de 1986 traçando a rota para o final da guerra fria. As artes refletiram a ruptura com os conceitos tradicionais, na pintura, escultura e na arquitetura, basta observar a catedral de Reykjavík. A literatura chama a atenção pelo seu enraizamento social que levou a UNESCO a considerar Reykjavík uma das capitais mundiais da literatura. Um país cujo símbolo são as “Sagas”, um conjunto de textos que relatam a história do povo islandês, só poderia amar a literatura. Uma lista de nomes de autores aparece no pós guerra como Snorri Hjartarson, Jón Jónsson, Einar Bragi Sigurdsson, Elias Mar, Gudbergur Bergsson, Frida Sigrdardóttir e Alldór Laxness (na fotografia acima), o mais conhecido dos autores islandeses. O tamanho da lista contrasta com o tamanho do país, com poucos habitantes que são leitores dedicados e cultuam os seus escritores, tal como vi no museu dedicado a Thorbergur Thordarson (website: thorbergur.is). Outro museu que abriga a memória de Laxness, foi montado na sua antiga morada, que transpira vida tal qual fosse habitada pelo escritor. A equipe de futebol da Islândia não serve para quem deseja falsos ídolos, mas é importante para quem busca valores. A vida simples é a lição que a Islândia nos dá, sem brilhos, sem celebridades efêmeras, cultivando a literatura do dia a dia e a vida do homem comum. Ah, o Juventus da Mooca também.

Em junho de 2018 a seleção da Islândia, sob o comando do mesmo técnico-dentista, empatou com a seleção da Argentina. Nos últimos anos o turismo cresceu no pequeno país que passou a sofrer transformações consideráveis. Se, por um lado, ainda não perdeu o caráter de intimidade conferido pela pequena dimensão, por outro lado o isolamento foi rompido, com todos os efeitos que tal fato poderá gerar. Alguns dos jogadores da seleção agora jogam no rico futebol da liga europeia. Uma coisa não mudou, o país continua sendo um país de escritores, os vulcões e os glaciais continuam a sua presença altiva, silenciosa, permanente.

Scholem Aleichem (1859-1916)

Viva Scholem Aleichem (1859-1916)  – No ano do centenário da morte do escritor – revisado em 2023

Qual o alcance da pena de um escritor? Qual a sua função na sociedade? O olhar do escritor nos ajuda a compreender o passado? Os escritores seriam profetas que lançam luzes sobre o futuro? A obra de Scholem Aleichem sugere respostas a estas questões.

O dia 31 de maio de 2016 marca o centenário da morte do autor cuja obra retratou o cotidiano dos judeus da Europa oriental até o início do século XX. O escritor nasceu em Pereieslav, cidade que fica na província Poltava, na Ucrânia e cidades como Kiev, Baranovitch, Kasrilevke, Paris, Viena, Vilna, Odessa, Lodz, são citadas em sua obra. Viveu na região onde havia considerável presença judaica que desapareceu com o holocausto. Diferente da maioria dos jovens judeus, Scholem Rabinovitch – seu nome oficial – estudou na escola comum, o que era raro pois aos judeus só era reservada uma restrita quota de acesso. Em um dos seus contos chamado Gymnasia, o autor explorou o drama de um menino que desejava estudar mas foi barrado pelo limite de alunos judeus que podiam frequentar a escola na Rússia czarista. Na época os judeus desfrutavam de quotas, porém `as avessas. Na escola aprendeu o russo, idioma que utilizou no início da sua atividade literária, na sinagoga aprendeu o hebraico que renascia como idioma laico, mas foi o ídiche que adotou como seu idioma literário. Na sua infância frequentou a Casa de Estudos, o heder, aonde conheceu métodos didáticos arcaicos associados ao ensino das escrituras, explorados na sua obra.

O ambiente hostil dos pogroms e a onda de antissemitismo crescia na região. Em Kiev, descobriu que não teria direito de se estabelecer como cidadão. A crescente instabilidade social afetou sobremaneira a sua obra, a mesma motivação o levou a focalizar, na sua escrita, não as grandes cidades mas sim a shtetl, a pequena vila onde os judeus levavam seu cotidiano marcado ao mesmo tempo pela miséria material e pela riqueza de tipos humanos. Os nomes dos locais que frequentam a sua obra, como Kasrilevke ou Zlodievke podem significar qualquer uma das vilas de onde emigraram os judeus em busca de refúgio, deixando no solo europeu e o pouco-quase-nada que tinham de bens. O idioma iídiche permitia retratar, com riqueza de detalhes, a pobreza e a alegria, a miséria e o humor, o drama e o sofrimento, característicos do período. Como afirma Inwing Howe, o autor conhecia intuitivamente que a fronteira entre a comédia e a tragédia é uma linha tênue, por vezes inexistente. Tendo na sua raiz elementos do alemão, eslavo e hebraico, o ídiche era a falado no ambiente polilinguístico onde os judeus dividiam o espaço, mas não as instituições, com as populações cristãs. O idioma, um reflexo da realidade social, funcionava como a língua popular que se distinguia do hebraico, falado nas casas de estudo e de oração. O ídiche era apropriado para lidar com os tipos comuns como; o shleper (maltrapilho), o entregador de água, o shames (bedel da sinagoga), o mohel (que cumpre o ritual da circuncisão), o gabai (administrador da sinagoga), o shlim-mazel (azarado), o alfaiate, o daian (juiz), o schohet (faz o abate ritual dos animais), o hazan (cantor da sinagoga), o schnorrer (miserável) a casamenteira e o rabino.

O crítico Borukh Rivkin afirma que Scholem Aleihem construiu um universo ficcional sólido e realista, para compensar a crescente insegurança, a hostilidade, a intolerância e a falta de um território e uma nação próprios. Se uma língua reflete o momento do grupo social que a utiliza, o século XX vivenciou o fim do idioma ídiche, reflexo do fim da cultura enraizada na Europa cuja população seguiu três caminhos. Alguns foram para Israel, a exemplo de intelectuais como Gershom Sholem e Martin Buber, e adotaram o hebraico atraídos pelo movimento sionista cujo inicio ocorreu no século anterior. Outros seguiram para as Américas e adotaram os idiomas locais, seja o inglês, o espanhol e o português, a exemplo de Isaac Bashevis Singer e Scholem Aleihem, nos EUA. No Brasil cabe citar nomes como; Stefan Zweig, Jacó Guinsburg, Anatol Rosenfeld e Boris Schnaiderman. Os que permaneceram em solo europeu encontraram o seu destino nos campos de concentração e nos guetos, como Janusz Korczak, e outros escolheram outra saída, como Walter Benjamin e Primo Levi.

A Obra Reflete a Vida: A obra de Scholem Aleichem, ainda que prenunciasse os tempos difíceis que viriam, é obra que celebra a vida. O convívio com as rotinas da schtetl lhe deu suficiente munição para o seu trabalho literário. Os imigrantes seguiram a vida a seu modo, no Bronx, no Once, no Bom Retiro, no Bomfim, ou na Praça 11. De algum modo, a motivação presente na obra de Scholem Aleichem influenciou os escritores judeus estabelecidos nas Américas. A narrativa em primeira pessoa marca o seu estilo literário que se aproxima da tradição da narrativa oral. O narrador conta o fato ocorrido quase sempre centrado no drama humano presente nos eventos simples do cotidiano. Mesmo quando o personagem é um animal, o drama humano aparece por contraste. A criança que rouba um canivete, objeto do seu desejo, a mulher que quer uma cabra e tortura o marido até que a consiga comprar, o relógio que bate treze vezes, o cavalo velho chamado Matusalém, ou Robtchik, o cachorro perdido expulso pelos cães locais que não querem dividir o osso, o roubo do dinheiro no Yom Kipur, são narrativas que envolvem fatos e personagens com os quais nos identificamos em qualquer tempo e lugar. Recorro ao lugar comum para reafirmar que o caráter universal dos seus personagens é a marca da sua obra. A mãe que se preocupa com a entrega do filho para a casa de estudos, a figura do leiteiro, do bedel da sinagoga, do entregador de água, todos são imagens que, por um lado marcam um modo de vida que não sobreviveu ao tempo, por outro encontram paralelo na nossa vida metropolitana do século XXI.

Alguns dos perfis que desfilam na sua obra refletem a sua experiência, como o pai doente, o professor cruel, a mãe dominadora. Talvez o perfil de Tevye, o leiteiro, seja o mais conhecido por ter inspirado a obra O Violinista no Telhado. A explicação do sucesso dos tipos criados por Scholem Aleichem traz mensagem que extrapola o drama do judeu da diáspora. Na verdade representa o drama de todas as culturas premidas pelo exílio e consequente convívio extra muros que põe em risco a preservação do seu modo de vida. Seja um cigano vivendo nos Estados Unidos, um japonês no Brasil ou no Peru, um índio brasileiro do Xingú, todos compreenderão o drama de Tevye cujos filhos seguiram caminhos não programados. Uma filha foi para a Sibéria, outra se casou com um goi (não judeu), uma terceira ficou viúva, outra se suicidou e outra se casou por interesse e seguiu para a América.

Os seus contos trazem elementos de contemporaneidade. O furto do dinheiro da comunidade durante cerimônia no Yom Kipur tinha um suspeito, o visitante recém chegado e desconhecido que seguiu as orações com fervor. Toda a comunidade, ao negar o roubo, não deixou outra saída para o Rabino a não ser revistar cada um dos presentes. Foi quando um deles chorou e esperneou, não querendo ser revistado, e todos entenderam que haviam encontrado o ladrão do dinheiro. A surpresa, que caracteriza o conto enquanto estilo narrativo, veio ao abrirem suas vestes onde encontraram não o valor furtado, mas os ossos de um frango recém devorado. A transgressão deixou de ser o roubo mas sim a não observâncias do jejum. O autor do roubo passou a ter papel secundário, a verdade nunca se revelou mas sim a da transgressão religiosa.

No conto “Os dois antissemitas”, dois homens inequivocamente judeus a partir da sua aparência, tudo fazem para negar a sua identidade durante uma viagem de trem. No restaurante pedem comida impura (não kasher). Ambos, sem se conhecer, compram o conhecido jornal antissemita e com ele cobrem os seus rostos durante a viagem de trem. Ao acordarem, ambos se olham e desconfiam das identidades. Um deles tem a ideia de assobiar conhecida canção judaica, Ao fazê-lo eles se identificam, desistem de dissimular a identidade e passam a dançar e cantar em público. Ou seja, no momento em que eles se aceitam como judeus, o olhar dos outros deixa de ser o mais relevante. O pior antissemita é aquele que não assume a sua própria identidade.

Tendo perdido parte da herança recebida do seu sogro e desfrutando de reconhecimento como escritor, Scholem Aleichem seguiu para os Estados Unidos, primeiro para ministrar palestras e depois em caráter definitivo. Depois dos pogroms ocorridos ao redor de 1905, Sholem Aleichem viajou para Nova Iorque, retornou para a Europa em 1906 e para Nova Iorque pouco antes de falecer em 31 de Maio de 1916. Viu surgirem e colaborou com diversos jornais escritos em iídiche. Conheceu uma fase rica do teatro ídiche. Os seus textos foram traduzidos para o inglês, como “Holiday Tales of Sholom Aleichem” que conta histórias para crianças, obra organizada e traduzida por Aliza Shevrin (Alladin Books, 1979), ou a coletânea “The Best of Sholom Aleichem” editado por Irwing Howe e Ruth Wisse (New Republic Books, 1979). Esta coletânea traz, a título de introdução, uma longa troca de correspondências entre os organizadores que viviam, um no Canadá e outro nos Estados Unidos. Os organizadores tecem, pela via epistolar, uma análise da vida e obra do autor.

No Brasil temos a coletânea que leva o título “A Paz seja Convosco”, organizada por Jacó Ginsburg, com notas e textos de Otto Maria Carpeaux, Tatiana Belinki entre outros. Esta obra, parte da coleção “Judaica” editada pela Editora Perspectiva, surgiu para celebrar 50 anos da morte do autor. Nos dias atuais, ao lembrarmos da obra deste autor, cabe uma reflexão. Qual o alcance da pena de um escritor? Qual a sua função na sociedade? O olhar do escritor pode ajudar a compreender o passado? Ou quem sabe, profetizar, lançar luzes sobre o futuro?

A resposta é “sim”, literatura exerce estas funções e mais. Ao observar o mundo contemporâneo, Scholem Aleichem não se surpreenderia ao ver os refugiados deslocados dos seus países a vagar em busca de um porto seguro, tampouco se surpreenderia ao ver o pensamento radical extremista, a intolerância religiosa e étnica. A obra de Scholem Aleichem é atual pois o drama humano não mudou, nem o papel da literatura.

Sholem aleichem (a paz seja convosco).

Decio Zylbersztajn

Abril 2016 – Revisado em Janeiro de 2023.

Impressões sobre a Islândia

 

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A Escassez que nos Falta: impressões sobre a Islândia

Bemvindo a Thingvellir. Fica na Islândia às margens do rio Oxara. O local tem significado central na vida dos islandeses até os dias de hoje. Encontros, cerimônias cívicas e datas importantes lá são celebrados atraindo milhares dos 300 mil habitantes do país. Evidente sentido de civismo e orgulho nacional marcam o local e a maneira pela qual os islandeses o distinguem.

No ano de 930 a Althingi, a assembléia geral, foi instalada e funcionou ininterruptamente até 1264 com plena atividade legislativa e cumprindo o papel de suprema corte de justiça. Thingvellir está estrategicamente localizada fora da capital, Reykjavik, o que visava facilitar o acesso das comunidades mais distantes, em um país que manteve vilas isoladas até recentemente. Em várias partes do país as geleiras e a falta de portos na costa, fizeram com que a sobrevivência dos habitantes dependesse da cooperação e do trabalho para, literalmente, colher no verão o feno a ser utilizado no inverno para alimentar as criações. Qualquer falha significaria a fome. O período de junho-julho é marcado pelas pastagens pontilhadas de grandes fardos de feno cobertos por um plástico branco. É a necessária poupança para o inverno de escuridão plena que virá em breve.

Até o final da primeira fase da organização política da Islândia, Thingvellir era o centro das grandes decisões. Não havia um rei, pois os “clans” que se estabeleceram nas quatro áreas da ilha não conseguiam definir uma única liderança. As disputas eram decididas em Thingvellir onde atuava um juiz, o “Law Speaker”, que conhecia e recitava as leis. Não havia então um código formalmente escrito. Toda a população tinha acesso ao local e ao encontro anual.

A Islândia ficou sob o domínio da Dinamarca a partir de 1662. O local perdeu a relevância legislativa, mas manteve o funcionamento da corte suprema até 1798. Nos séculos XIX, XX até os dias de hoje manteve o valor simbólico para os seus habitantes. A moderna história de independência do país começou em 1944, em plena segunda guerra mundial, quando a República da Islândia foi fundada ganhando autonomia da Dinamarca com base em um regime presidencialista parlamentar. Thingvellir foi o local escolhido para realizar a cerimônia embora a casa legislativa hoje funcione na capital.

O histórico local é hoje um Monumento da Humanidade, assim definido pela UNESCO. Fica em meio a um parque nacional. Chegando ao sítio procurado eu segui as indicações e cheguei a uma encosta escarpada de onde se pode avistar uma área plana cortada por um rio e seus meandros. Ao longe achei aquilo que procurava. O antigo parlamento lá está, com uma construção caracterizada por quatro pequenas casas adjacentes, quatro telhados pontiagudos, ladeados por uma pequena igreja. Para um visitante episódico como eu, senti a plena força das instituições e da organização da sociedade.

A sobriedade da Islândia é marcada pela luta contra as ameaças da natureza. Quem coopera sobrevive, quem se isola perece. Em circunstâncias difíceis, só instituições fortes e bem implantadas podem permitir a sobrevivência de uma sociedade. A escassez de recursos no país exige uma vida caracterizada por regramentos rígidos que por sua vez premia a população local com o mais elevado índice de desenvolvimento humano do mundo. A renda de 46 mil dólares per capita em 2005 era a quinta maior do mundo. A indústria é baseada na pesca, alguma lã, e uma indústria de alumínio para lá atraída pela energia geotérmica abundante.

Sem obras faraônicas e contando cada tostão gasto, assim vive o país que tangencia o círculo polar ártico. Grandes pontes que ligam o sul, onde fica a capital do país, ao norte, foram varridas do mapa quando uma erupção vulcânica ocorreu na área da maior geleira, que cobre 10 % do país. O derretimento do gelo causou uma inundação de proporções catastróficas, devidamente registrada em filmes exibidos continuamente para os visitantes do parque nacional de Skaftafell. O fato ocorrido em 1976 deixou um rastro de desolação e morte.

Novas pontes foram feitas. São simples, de uma única pista e de estrutura metálica, um pouco a nos dizer que se nova erupção ocorrer, será mais fácil permitir que a natureza faça o seu trabalho. A fragilidade humana fica evidenciada no local.

Não pude deixar de pensar em Brasilia, também escolhida pela UNESCO como um patrimônio da humanidade. Comparada com Thingvellir, Brasília é suntuosa. Enquanto o primeiro é apenas um lugar de encontro entre cidadãos, Brasília é uma estrutura física privilegiada pelas formas modernas que chamam a atenção em especial quando vistas a alguma distância. Tentei traçar outros paralelos, mas não consegui. Como o contraste pela negação também nos permite entender a nossa própria sociedade, ficou claro que a abundância dos recursos no Brasil sempre foi de tal ordem que pouco regramento foi necessário para a sua utilização. A escassez nos faz falta.

Os dois patrimônios da humanidade, Brasília e Thingvellir são ética e esteticamente diferentes. Os sentimentos cívicos dos cidadãos dos dois países que resultam das diferenças éticas, sinalizam que crédito, orgulho nacional, respeito pelas instituições, normas de convívio e respeito social são as marcas necessárias para o desenvolvimento econômico.

Guardo a esperança de visitar, um dia, a esplanada dos ministérios em BRasilia e sentir a mesma sensação que experimentei ao chegar à escarpada encosta de Thingvellir. Certamente deverei esperar que os atuais habitantes do planalto central mudem os seus hábitos.

Não posso deixar de comentar que para melhor conhecer a alma da Islândia, sugiro a leitura da obra de Alldór Laxness. Em especial Gente Independente (traduzida), The Fish Can Sing e Paradise Reclaimed. O autor ganhou o Nobel de Literatura em 1955. A capital Reykjavik é uma das Cidades da Literatura da UNESCO.

Zylber Sztajn

 

 

 

 

Toponímias e outros nomes

Toponímias e outros nomes.
Existem nomes que chamam a atenção, mas nenhum me causou maior prazer estético do que Póvoa do Varzim, cidade entre o Minho e o Douro, onde nasceu o meu amigo Américo Craveiro. Fico a imaginar a sensação de ser questionado, “onde você nasceu?”, e ouvir uma altiva e bem acabada resposta. “Nasci em Póvoa do Varzim”, e ponto final. Há nomes que encantam pelo inusitado do possível significado, como São Sebastião das Três Orelhas, onde vivem minhas amigas Denise e Cecilia, outros nomes encantam pela sonoridade, é o caso de Toque Toque Grande, ou por informar alguma característica do local, que é o caso de Butantã, toponímia Tupi-Guarani que significa; lugar onde venta muito. Existem nomes que encantam pela sonoridade como, Freguesa do Ó – cantada por Gilberto Gil – outros que relatam a sua história, como a Estrada da Boiada, e outros que sugerem alguma característica, como a Praça do Por do Sol, o Beco do Batman, a Ladeira da Memória, o Largo do Piques. São muitos nomes ao nosso redor, e cada qual nos instiga a imaginar a sua origem. Em Piracicaba – e outras cidades do interior – existe a Rua da Boa Morte, que certamente vai morrer no cemitério. Ruas com nomes de flores abundam na Vila Madalena em São Paulo, como Margarida e Girassol, e a Rua Três Rios existe no Bom Retiro, o bairro central de São Paulo, onde eu nasci, local de confluência da graciosa rua da Graça e da Ribeiro de Lima. Se três rios ali existiram, devem estar enterrados sob o asfalto do bairro. Aliás, Bom Retiro é revelador da função que o local já exerceu, um local de sítios de recreio antes de tornar-se local das olarias situadas `a margem do Rio Tietê, e depois virar o bairro industrial, e hoje um local de comércio desmedido.
Além das toponímias, os nomes dos edifícios paulistanos também são reveladores. Na cidade de São Paulo percebe-se um modismo na escolha dos nomes, que revelam o possível ordenamento cronológico. Assim são os edifícios com o nome das matriarcas, que são comuns em Higienópolis, e em Santa Cecilia. É o caso dos edifícios Dona Carolina, Dona Veridiana cujos nomes informam que ali existiu uma mansão que não sobreviveu `a derrocada da bolsa em 1929 e do café. As famílias venderam as suas fazendas e puseram abaixo as mansões para saldar as dívidas. Ficou o nome da falecida. Nomes tupi guaranis representam outro período, como Indaiá, Paraty e Itaúna. Outros são atemporais, como Edifício Olimpo, uma construção da década de 60 no bairro de Santa Cecilia e o edifício Pirâmides bem no início da Alameda Santos. Em tempo mais recente, premidos pela exigência do mercado, os edifícios passaram a receber nomes em inglês, sugerindo a criatividade pífia dos marqueteiros das incorporadoras. Alguém acreditou que chamar um edifício de Open View, como é o caso da minha morada, é mais bonito do que Bela Vista, ou Vista Ampla. Pobreza de espírito das mentes colonizadas, que cultivam os lugares sem significado. Assim são os nomes como Market Place, Pinheiros Office, e Office Space. São nomes que não nos dizem nada. Um ou outro caso anômalo sugere que existe salvação para o mundo, como o Edifício Stan Gets em Pinheiros. Passo por lá a até ouço o sax bem tocado.
Acho que os nomes surgiram para facilitar a comunicação, mas as transformações impostas pelo mercado passam como um trator pelos significados íntimos que os nomes poderiam sugerir. Existem reações isoladas, como a de uma empresa de produção florestal, que contratou um historiador para redescobrir os nomes dos locais nas propriedades agrícolas por ela administrada. Saber que a curva do rio se chama toca da onça, podia evitar problemas para os frequentadores eventuais. Na maior parte das vezes, em clara ação de desobediência coletiva, os moradores preferem manter os nomes antigos em desalinho com os registros formais. Se visitarmos a cidade de Sapucaí Mirim, é bom que se saiba que ela é chamada carinhosamente pelos locais pelo nome de Aparecidinha e que Luiz Eduardo Magalhães, na Bahia, hoje município produtor de algodão e soja, já foi Mimoso do Oeste, aliás, muito melhor, mais sonoro e prenhe de significados. É bom saber que e Chapada Gaúcha fica no norte de Minas Gerais, ao lado do Parque Grande Sertão Veredas, onde foram parar os gaúchos vindo do município de Espumoso, em busca de vida melhor.
Nomes podem ser belos. Conheci uma moça em um arraial no interior de Minas Gerais que atende pelo nome de Última. O seu pai explicou tudo ao escolher o nome. Respiro fundo quando passo pelo Largo do Café e me encho de alegria quando caminho pelo Jardim da Luz, local onde eu brinquei boa parte da minha infância, e onde resiste um coreto dos mais bonitos que conheço. Os locais são depositários de história vivida por muitos, que anônimos ou não, ali deixaram as suas marcas. Apagá-las é como limpar a memória afetiva e coletiva, dando lugar a um mundo mais árido.
Por falar em memória afetiva, ainda vou conhecer Póvoa do Varzim. O sitio oficial da cidade informa sobre a origem do nome. Diz assim: no início era Terra de Varzim, ignoto senhor que a possuiu, em tempo não menos ignoto. Muito esclarecedor.

Interdisciplinaridade: um debate (in)disciplinado

Interdisciplinaridade: um debate (in)disciplinado

Interdisciplinaridade: o que é?

O pesquisador que explora os limites entre áreas do conhecimento se arrisca a receber críticas. O especialista terá ferramentas para destruir um argumento de largo espectro, ou mesmo desafiar um conceito ou um jargão, cujo “real” significado tem domínio definido e não aceita que estranhos ousem dele lançar mão. É como se houvesse certo direito de propriedade definindo quem pode utilizar a teoria. A lógica especialista é parte do animus que motiva – de modo inconsciente – a produção acadêmica, com base na aceitação tácita de que não se pode gerar conhecimento senão dentro dos limites de um campo especializado. Qualquer passo perpetrado fora da delimitação conhecida e aceita, tende a expor o incauto pesquisador ao ridículo ou a uma crítica mortal que soará familiar aos ouvidos dos pares. Ao explorador restará o cadafalso ou o retorno à circunscrição da sua área de domínio.

A interdisciplinaridade pode ser definida como uma abordagem não especialista de um problema. Distingue-se da multidisciplinaridade que representa a justaposição – não integrada portanto – de áreas do conhecimento. Pode ser definida pela utilização de elementos teóricos oriundos de disciplinas disjuntas que se baseiam em construtos e adotam métodos independentes. J.Moran define interdisciplinaridade como qualquer forma de diálogo ou interação de duas ou mais disciplinas. Complementa dizendo que o nível, o tipo, o propósito e o efeito da interação, são temas a serem tratados ad hoc.

Cabe indagar o quanto se ganha ou se perde em termos de geração de conhecimento, com o reducionismo e a acomodação à disciplina especialista. Cabe indagar quantas respostas aos problemas da sociedade, interdisciplinares na sua raiz, permanecem oclusas, escondidas e protegidas sob o véu do saber especializado, fora do trajeto da lógica da pesquisa interdisciplinar que deixamos de trilhar. Esta a motivação do presente texto.

 

Interdisciplinaridade é a contramão da prática científica?

O significado de “disciplina” é o sentido de ordem imposta ou livremente assumida, que convém ao funcionamento de uma organização. A mesma raiz latina designa um conjunto de conhecimentos ou uma matéria de ensino. A hierarquização do conhecimento tem a ver com o surgimento das disciplinas, ordenadas portanto, a partir de elementos que constroem o conhecimento. A lógica aristotélica sugere o fracionamento do conhecimento em campos especialistas e este ordenamento define uma prática especialista e uma hierarquia, presente no debate contemporâneo entre ciências sociais e exatas, como ocorre na Economia, com reflexo na organização da Universidade governada a partir de departamentos especializados. Em contraposição ao reducionismo disciplinar, se coloca o saber filosófico, cuja raiz é integradora do conhecimento.   

O reducionismo científico levou ao paradoxo do saber mais, sobre um campo restrito, em detrimento de um conhecimento amplo, que caracterizou o homem enciclopédico até o século XIX. Entre os especialistas soa como puro diletantismo ter conhecimento fora do restrito campo especializado. Causa surpresa saber da amplitude dos interesses de personalidades como Da Vinci, Galileu, Einstein. Causa espanto saber que Richard Feynman, Professor da Universidade da Califórnia, Nobel em Física em 1965, dominou o seu campo do conhecimento mas que também estudou a interpretação dos hieróglifos dos Maias, foi músico e agitador cultural. É dele a frase:

 “Os poetas reclamam que a ciência retira a beleza das estrelas. Mas eu posso vê-las de noite no deserto e senti-las. Vejo menos ou mais?” Na palestra “Ode to a Flower” (que pode ser acessada no sitio http://www.feynman.com) Feynman explora a capacidade de ver o mundo real ao seu redor, afirmando que o cientista costuma ver pouco desta realidade e das possibilidades de explorar o Universo. Feyman, que está interessado em saber mais sobre o mundo e não em descobrir mais uma lei da física, nos convida a perceber e aceitar o estado de ignorância e não abominá-lo. Ou seja, vai além da questão da interdisciplinaridade científica. Propõe algo ainda mais desafiante que é um olhar sobre a nossa invencível ignorância, que talvez os poetas saibam explorar com maior competência.

A Universidade, como a conhecemos nos dias de hoje, aprofundou a segmentação do conhecimento de tal forma, que atingiu até mesmo a sua arquitetura. Um exemplo é a ocupação espacial do campus da Universidade de São Paulo e outros campi universitários, indutor do isolamento entre as áreas do conhecimento[1]. As diferentes tribos, para utilizar um conceito antropológico, se visitam em reuniões bem estruturadas e cuidadosamente conduzidas, de modo a não ferir a sensibilidade delicada de cada etnia que se encontra nos colegiados. No âmbito institucional, a disciplinaridade se instalou e serve de base para as negociações de contratações de docentes, para a construção de laboratórios e para a estabilidade da Universidade. Parece um caso de sucesso no qual as tribos crescem e se multiplicam, não entram em conflito aberto, aprofundando os laços culturais enquanto produzem. É a pax científica, que reina.

A fragmentação acadêmica se fortalece com o desenvolvimento de identidades particulares para cada grupo especialista.No livro “Identity and Violence: the illusion of destiny”, Amartya Sen explora o tema da identidade, de modo especial da pluralidade que nos caracteriza enquanto seres sociais. No prólogo do livro citado, o autor, Prêmio Nobel em Economia, descreve um episódio no qual o agente da imigração no aeroporto de Heathrow em Londres, examinando o seu passaporte lhe faz perguntas sobre a sua identidade. Ele tinha então o título de “Master of the Trinity College em Cambridge” e o seu endereço era “Master´s Lodge”, no campus daquela Universidade. O agente, ao examinar o passaporte daquele hindu, queria saber se o endereço indicado significava que ele era amigo do “Master do Trinity College”. Ou seja, uma pessoa com a tez escura, com toda a aparência de um hindu só poderia ser um hóspede na casa do Master. Escreve Sen, que se viu premido pela pergunta se ele era ele mesmo.

Amartya Sen utilizou o episódio, para explorar o tema da identidade dos diferentes grupos na sociedade, presente na raiz da maioria dos conflitos sociais, uma vez que a identidade influencia o nosso pensamento, crenças e ações. O mesmo autor segue o seu argumento e demonstra que, temos identidades múltiplas. Afirma: “..we do belong to many different groups, in one way or another, and each of these collectivities can give a person a potentially important identity.”  A cada momento elegemos quais os grupos sociais aos quais desejamos pertencer e definimos a sua importância relativa.  Seria insensato escolher um e apenas um grupo social.

Em ciência não é diferente. Cada identidade se caracteriza por uma linguagem própria, que é simbólica e se expressa pelo uso de jargões linguísticos particulares. O jargão é muito importante para facilitar a comunicação dentro do grupo e ao mesmo tempo cria dificuldades para a comunicação entre grupos. Observa-se que a identidade se materializa também no gestual, em alguns casos na indumentária e até mesmo no território onde o cientista habita. Os estereótipos são falhos mas nos utilizamos deles, simbolicamente, para trocar informações.

A identidade na produção científica é facilitador de relações. Um redutor de custos de transação que facilita o trânsito de ideias dentro do grupo e dificulta a interação com o outro grupo. O esforço da interdisciplinaridade não escapa da sina da exploração do desconhecido, devendo ser entendido como aquele esforço associado a riscos de um diálogo mais lento, cuidadoso e que pode ser facilitado se percebermos identidades comuns, compartilhadas portanto pelos membros dos diversos grupos. Tal identidade comum só pode ser calcada sobre valores sociais mais amplos e pelo conhecimento dos elementos fundadores da sociedade.

 

Casos, Exemplos e Exageros:

A Economia, como campo teórico, pode ser vista como um exemplo do fracionamento especialista. Diferentes abordagens dentro das ciências econômicas fragmentaram a comunicação nesta área do conhecimento com efeitos sobre o discurso, sobre o método, sobre as instituições e sobre a arquitetura dos centros de conhecimento.

Com uma abordagem bem humorada, Axel Leijonhufvud (1973) descreve a antropologia dos diferentes grupos de economistas. No artigo “Life Among the Econ.”, o autor explora a vida entre uma tribo de índios, a tribo dos Econ. Eles vivem em um vasto território do norte. A sua região é muito hostil aos estrangeiros, de modo especial às tribos dos Polscis e dos Sociogs. A despeito da herança comum, a relação entre as tribos é de desconfiança e pautadas cerimônias específicas e por tabus. A vida entre os Econ dificulta e torna perigoso o convívio com os estrangeiros. O autor conclui que “… a tribo do Econ não foi ainda devidamente estudada. A informação existente sobre a sua vida social é fragmentada, o que sugere a necessidade urgente de se estudar mais profundamente esta interessante tribo.”

Outro economista, Harold Demsetz, lança mão do conhecimento antropológico, desta vez sem o uso de ironia. Desenvolve um artigo sobre a origem dos direitos de propriedade, com base na atitude de duas categorias de tribos indígenas na América do Norte. Demonstra ou propõe uma teoria sobre o surgimento dos direitos de propriedade da terra, definidos como uma resposta eficiente para o uso de recursos naturais. Ou seja, a propriedade privada já era do interesse dos antropólogos, antes de interessar os economistas e de tornar-se uma das áreas relevantes de conhecimento interdisciplinar para a Análise Econômica do Direito.

Demsetz cita o trabalho de Eleanor Leacock, “The Montagnes Hunting Territory and the Fur Trade”, que se baseou no trabalho de Frank G. Speck sobre os índios da península do Labrador. O último autor revelou a relação destes índios com a propriedade privada do território, em contraposição aos índios do sudoeste norte americano, cuja tradição era de campos abertos ao uso comum, portanto prescindiam da definição de direitos de propriedade.  Leacock relacionou o surgimento dos diferentes regimes de direito de propriedade à prática da caça de animais para a exploração da pele. Sem os direitos definidos, haveria a sobre exploração dos recursos na região de campo aberto, motivada pela facilidade de realizar a caça. Possivelmente tribos que não desenvolveram mecanismos especializados de definição e proteção de direitos de propriedade, teriam se extinguido ou empobrecido.

A partir do estudo antropológico, Demsetz desenvolveu uma teoria de surgimento dos direitos de propriedade, por alguns autores considerada “naive”. Entretanto, Demsetz foi seguido por outra Economista, Elinor Ostrom, que veio a tornar-se a primeira mulher a receber o Nobel em Economia em 2009. A pesquisadora dedicou a carreira ao estudo dos arranjos sociais informais que explicam o uso sustentável de recursos naturais, com base no comportamento de diferentes grupos sociais. Estudou casos que indicam a relevância das regras sociais associadas à exploração sustentável dos recursos.

Tanto o trabalho de Demsetz, como de Ostrom, mostraram que o controle das externalidades pode ser o motor do surgimento de regras sociais eficientes. O resultado do trabalho é um exemplo da reaproximação entre a Economia e a Sociologia, que também caracteriza a literatura da Nova Economia Institucional, que consagrou nomes como Ronald Coase, Douglass North e Oliver Williamson, todos ganhadores de Prêmios Nobel, que compartilham a visão da importância do estudo das instituições – formais e informais – para a Economia.

Tentativas de explorar as interfaces disciplinares ocorrem em outros campos. A área da “Análise Econômica do Direito” é um exemplo que representa a razão de ser da série de iniciativas interdisciplinares.[2] Artigos e revistas especializadas surgiram nesta área, como o livro, “Análise Econômica do Direito e das Organizações” (Zylbersztajn e Sztajn,2005). A existência de uma base comum nas ciências sociais não impediu que as áreas da Economia e do Direito se afastassem a não ser quando o dilema de eficiência e equidade é tratado. Existem poucos Economistas dando aulas nas faculdades de Direito no Brasil e são raros os departamentos de Economia com juristas nos seus quadros. Em alguns casos a relação entre as áreas ficou restrita ao estudo da concorrência, coroada pelo convívio cordial entre os Economistas e Juristas nos órgãos de defesa da concorrência. Entretanto este convívio é tímido e não explora o potencial de pesquisa latente nos tópicos de interesse comum.

O convívio experimentado pelo Centro de Estudos de Direito Economia e Organizações, iniciativa de um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo em 2001, levou não apenas ao debate sobre a interdisciplina que conduziu ao aprendizado mútuo sobre os jargões e tabus existentes em cada área. O convívio revelou que a interface vai muito além do debate da concorrência, permitindo um olhar inovador sobre direitos de propriedade, estratégia das organizações, direitos de decisão, contratos e acordos, que extrapolam em muito o campo das relações de produção. Dirão os Juristas que esta é a essência da teoria jurídica. Dirão os Economistas que o estudo da sociedade é a essência da teoria econômica. Entretanto se observa que tais essências se nublaram com o correr do tempo, fruto da especialização simplificadora e do enclausuramento do conhecimento.

A área da “Análise Econômica do Direito” evoluiu e, em alguns países, gerou uma nova tribo, com tabus e idioma próprio, em outros ela foi capturada por uma das duas tribos originárias. Ainda sabemos pouco a respeito da evolução desta área do conhecimento, se é que assim pode ser chamada. Como abordagem, tem proporcionado perspectivas inovadoras para o estudo da sociedade. Não duvido que alguns dos que se aventuraram na exploração do território proibido, pagaram alguma penalidade por tê-lo feito. Entretanto também reconheço que colheram resultados promissores da ousadia exploratória.

Crítica ao Reducionismo: a título de conclusão.

Considerando que a Filosofia tem o papel de ser o campo integrador do conhecimento, recorro a Ortega Y Gasset, para apoiar a conclusão deste ensaio. No seu livro “La Rebelión de las Masas”, Gasset(1992) escreve um capítulo que chama de “La Barbarie Del Especialismo”. O filósofo espanhol mostra que o avanço da sociedade ocidental teve base em dois pilares. A democracia e o desenvolvimento tecnológico. Ao mesmo tempo, critica o que denomina de “homem massa”, caracterizado pelo isolamento, impessoalidade e mecanização. O cientista, que deveria ser o perfil do homem de conhecimento, se amesquinha e passa a ser o protótipo do homem massa, como resultado do processo de fragmentação e especialização científica. Diz Gasset que o cientista passa a ser um primitivo, um bárbaro moderno.

O processo descrito pelo autor é o da especialização que levou à construção de campos intelectuais estreitos e à perda do contato com as demais partes da ciência. O apogeu do processo gerou um personagem discreto, conhecedor de um único campo do conhecimento, que proclama a virtude de ignorar tudo o que não tenha a ver com o seu campo de interesse. O especialista sabe muito do seu pequeno pedaço do universo, e ignora todo o resto. Se no passado, podíamos classificar os homens como sábios e ignorantes, o especialista não cabe nestas categorias. Gasset o chama de um sábio-ignorante. Comporta-se como um ignorante, e mantém a petulância de um sábio.

Gasset bate duro. Afirma (op. cit. p. 147) “ La advertência no es vaga. Quien quiera puede observar la estupidez com que piensam, juzgan y actuan hoy em política, em arte, em religión, y en los problemas generales de la vida y el mundo los “hombres de ciência”.

O alerta de Gasset é importante para a Universidade contemporânea, quando vemos surgirem modelos inovadores de geração do conhecimento nas empresas, nas organizações não governamentais. Em um tempo de hiperfluxo de informações, cabe indagar se o conhecimento profundo e especialista não pode conviver com o conhecimento enciclopédico, que por natureza se derrama fora do continente científico. Tomo o risco de afirmar que o conhecimento básico de filosofia, literatura, história, podem ser os candidatos para atuar como linguagem comum, facilitadora da comunicação entre os grupos especializados.  

Ao juntar as partes das leituras que me motivaram para escrever o presente ensaio não posso ignorar algo que foi comum ao pensamento de Feynman, Gasset e de outros cientistas, como Ernesto Sábato. Este último, um argentino que foi Ph.D. em física, trabalhou no Institute Curie em Paris, antes de tornar-se um dos maiores escritores da América Latina. Onde estão as coincidências?

Com base na experiência de Feynman, as óticas do cientista e do poeta são complementares para observar e compreender o universo. Com base Ortega y Gasset, no livro citado “A Rebelião das Massas):  “Da tragédia da ciência nasce a arte. Quando os métodos científicos nos abandonam, começam os métodos artísticos. Com base em Ernesto Sábato (2009), que abandonou a física pela literatura: ”… a menos que neguemos a realidade a um amor ou uma loucura, devemos concluir que o conhecimento de vastos territórios da realidade está reservado para a arte e somente para ela.

Nossas instituições estão profundamente desequilibradas na direção da ciência especialista. As entidades de fomento científico têm tímida ação para classificar revistas científicas em área multidisciplinar. A Universidade é segmentada e pouco faz para promover a interdisciplinaridade. O acesso dos alunos aos programas de pós-graduação, é feito com base no conhecimento codificado, específico de cada área.

Cabe indagar quantas respostas aos problemas da sociedade, interdisciplinares na sua raiz, permanecem oclusas, escondidas e protegidas sob o véu do saber especializado, fora do trajeto da lógica da pesquisa interdisciplinar que deixamos de trilhar, por esta ou aquela razão. Talvez Feynman, Gasset e Sábato tenham razão. Pode ser que fora da ciência como a conhecemos, nas artes, reside a revelação de regiões inexploradas pela mente humana.