Impressões de um Leitor: O Homem que Amava Cachorros

O autor revela a armadilha das ideologias que desabilitam o sentido crítico, situação tão em voga na década de 2010.  Aos leitores, em tempo de radicalização ideológica, um alerta para que o senso crítico não se rompa.

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Leonardo Padura, Boitempo Editorial – Edição Brasileira

A narrativa literária construída por Leonardo Padura se assenta no relato histórico e conduz o leitor a penetrar na mente de personagens que marcaram a história do século XX. O livro do escritor e jornalista cubano publicado em 2009 expõe as entranhas do modelo comunista soviético, o amestramento das mentes daqueles que se propuseram a dar forma ao novo homem socialista. Da guerra civil espanhola, laboratório para o exército nazista, até os últimos momentos da União Soviética, o autor revela o desencanto daqueles que cederam corpo e alma pela causa stalinista. Se nada mais acrescentasse, o livro teria demonstrado a incongruência das ações pautadas pela ideologia plena de boas intenções, mas que cega, desconstrói personalidades e não tem limites para a violência, traço da desumanização dos regimes totalitários. O autor revela a falácia das ideologias que desabilitam o sentido crítico, situação tão em voga na década de 2010.

Os personagens Ivan Cardenas Maturell, jornalista cubano, Ramón Mercader, o assassino de Trotski e o próprio Liev Davidovitch Bronstein ou Leon Trotski, atuam em períodos distintos desde a Guerra Civil Espanhola, seguindo pelo trajeto do exílio de Trotski, até a morte de Mercader. A ficção reconstrói o período que antecede o crime e explora um encontro entre o jornalista e o assassino já no final da vida, na ilha de Cuba. Desenha o perfil de Trotski, líder e antagonista a Stalin, revolucionário desde o primeiro momento, que ganha afetos e desafetos, o principal deles do líder soviético que decide, em um primeiro momento, não eliminar Trotski tal como fez com milhares de opositores. Preferiu cerca-lo como a um animal, cerceando a sua liberdade onde quer que estivesse, mantendo-o um morto em vida. Aos poucos os seus próximos – amigos, seguidores, filhos –  foram executados, mas o alvo permaneceu morto-vivo no exilio, até o seu assassinato no México em 1940.

Em termos de criação literária, o personagem histórico Ramon Mercader, foi o elemento mais provocador do autor. Ao leitor é permitido, de forma inusitada, uma vez que aos livros de história não é permitido fazer, entrar na mente do homem que foi preparado anos após ano, para cometer um único e infalível ato: assassinar Trotski. A evolução deste personagem desde a sua origem catalã, sua atuação na Guerra Civil da Espanha, o treinamento que inclui a internação em um centro especializado em formação de espiões na Rússia, até o envolvimento amoroso ditado pelo partido, que lhe revirava o estômago, mas que deveria ser mantido – e foi – até o ato final. A sua companheira, atuante no partido comunista e que desconhecia a sua identidade, durante o julgamento cuspiu no homem que um dia amou e que lhe ocultou toda a trama. Padura nos convida a penetrar na mente de Mercader nos anos, meses, dias, horas e instantes, antes do ato assassino. Revela a condição de nervosismo que precedeu o ato final. Mostra detalhes como a preparação da picareta de alpinista cujo cabo foi encurtado para dar-lhe maior momento e melhor executar o ato final.

O livro de Padura ensina história por meio da literatura. Sobrepõe fatos – visão do jornalista – com os elementos históricos, enriquecidos com o que poderia ter sido – visão do escritor. O texto reflete o trabalho de revisão histórica realizado foi definido por Frei Beto como um triller histórico, com base na experiência do autor em romances policiais. Eu prefiro destacar o componente deliciosamente literário, do texto cuja estrutura desafia o leitor nas linhas narrativas paralelas que tratam de Trotski no exílio, de Ramón Mercader como um predestinado a tornar-se parte da história, e de um jovem jornalista cubano Ivan, que relata a história como um alter ego do autor na difícil sobrevivência em Cuba na era pós-soviética. O personagem jornalista sobrevivia de castrar porcos que viviam soltos na periferia de Havana decadente.

Ao mesclar história e literatura o texto expõe o caldeirão de ideias, as conturbações mentais e o desencanto ideológico que marcou o ocaso da União Soviética. Expõe o dilema daqueles que se mantiveram atados ao regime, enquanto as entranhas corruptas do estalinismo eram expostas. O autor viaja pelo período pós-soviético eivado pela corrupção, marcado pelo pequeno poder e pela economia socialmente injusta, a nos apontar para a derrota das duas ideologias que se digladiaram na guerra fria. Não houve vencedores.

Escrito originalmente em 2009, o autor presenciou o canto da sereia, daqueles que, em uma América Latina sempre tardia nos seus movimentos sociais, tentavam criar o socialismo bolivariano, predestinado a ter o mesmo destino daqueles que o precederam. Pior, pois Cuba pelo menos logrou atacar alguns aspectos fundamentais nas áreas da saúde e educação, que as repúblicas bolivarianas nem chegaram perto.

O tempo demonstrou como a estratégia estalinista de desconstrução de conceitos, manipulação de informações, assassinatos virtuais e assassinatos reais, sejam lentos por envenenamento, violentos por meio de uma picareta de alpinista adaptada, ou morais por meio da desconstrução de personalidade, sobreviveram como método nesta primeira década do milênio.  Nada rescende mais ao tema das fake news, capazes de afetar o destino de eleições e de nações. O tema abordado no livro, se histórico por um lado, tem a realidade e contemporaneidade evidentes.

Um romance histórico escrito com esmero, explorou caminhos que não atropelaram a verossimilhança. Assim poderia ter sido: Mercader estava nervoso, quase descontrolado, nos dias que antecederam o ato para o qual se preparara por toda a vida. Se ele, nunca perdeu o controle pessoal nem a fé no partido e na revolução como forma de criar o novo homem socialista, titubeou quando recebido na Rússia como um herói da pátria que tinha a nobre prerrogativa de furar a fila dos mercados para comprar salsichas polonesas. Um bando de maltrapilhos, malcheirosos heróis da revolução, colhendo os louros da dedicação de toda uma vida.

Aos leitores contemporâneos em tempo de radicalizações ideológicas, um alerta para que o senso crítico não se rompa. O tempo traz à tona, ainda que pela pena de um escritor, as verdades que poderiam ter sido. E elas não são nada agradáveis para os radicais de todos os matizes.

DeZylber

Sinclair: O Poder da Literatura ou O Escândalo das Salsichas

Upton Sinclair

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Sobre Alimentos, Jornalistas e Escritores

Upton Sinclair tinha 26 anos quando cobriu a situação dos frigoríficos da região de Chicago para o jornal Appeal to Reason. No ano de 1904, a indústria de carnes ganhava escala e as denúncias sobre as condições degradantes de trabalho se repetiam. O jornalista visitou indústrias, conversou com trabalhadores e obteve detalhes sobre o processamento da carne. Ao mirar um alvo, atingiu outro, ao revelar as condições de higiene que prevaleciam na indústria.  A iniciativa resultou no livro The Jungle, um best seller que gerou o debate conhecido como, o escândalo das salsichas.

Sinclair retratou o efeito do crescimento da indústria de alimentos. Antes consumidos próximos aos locais de produção, os alimentos passaram a ser industrializados em larga escala o que resultou na redução dos custos, ampliação dos mercados e distanciamento entre o consumo e a produção. A industrialização foi benéfica por ampliar os produtos à disposição dos consumidores, mas gerou a necessidade da adoção de padrões de segurança do alimento, certificações independentes e mecanismos de rastreabilidade. Problemas sanitários persistem, expondo falhas nos controles como exemplificam os episódios da carne fraca no Brasil em 2017, do leite na China em 2008 e na Europa em 2018, indicando a necessidade do aprimoramento na coordenação das cadeias produtivas.

 Os consumidores reagiram com o movimento do consumo local que prioriza produtos regionais na cesta de alimentos. A indústria de alimentos, de modo geral, adotou medidas de controle e os governos criaram mecanismos de inspeção sanitária. Sabendo que as medidas adotadas podem falhar, cabe questionar como a indústria vem reagindo quando ocorrem desconformidades. Negar fatos não parece ser a estratégia adequada, pois os consumidores devem ser informados sobre eventuais contaminações que podem ocorrer ao longo da cadeia produtiva. Os consumidores têm o direito à informação sobre os riscos inerentes aos alimentos.

Espera-se a adoção de sistemas efetivos de fiscalização por parte dos governos e de estratégias privadas realistas. Boas práticas e boas intenções caminham juntas, entretanto exigem o monitoramento das empresas que operam fora dos padrões. O mercado de alimentos não prescinde de controles compatíveis com a sua importância. Empresas responsáveis adotam medidas de prevenção e definem planos de contingência, uma estratégia que visa proteger a sua reputação, ganhar a confiança do público e aderir às regras de conformidade ditadas por lei.

Upton Sinclair ofereceu um exemplo do papel transformador da literatura. O debate causado pelo livro The Jungle levou o Presidente republicano Theodore Roosevelt a convidar o socialista Sinclair para um encontro na Casa Branca. Era um tempo em que a direita e a esquerda conversavam. O encontro motivou a adoção de legislação específica, o “Pure Food and Drug Act”e o “Meat Inspection Act”, e levou à criação do Food and Drug Administration, agência cujo objetivo é monitorar a sanidade dos alimentos.

O sucesso na carreira do escritor permitiu-lhe utilizar os direitos editoriais em projetos sociais. Fundou uma cooperativa em Nova Jersey, na Califórnia criou o escritório do movimento pelas liberdades civis e uma associação pelo fim da pobreza durante o período da depressão. Foi candidato derrotado pelo Partido Democrata ao governo da Califórnia com significativa votação. Recebeu o Prêmio Pulitzer em 1943 um ano depois de publicar “ O Dente do Dragão” criticando o nazismo na Alemanha. Sinclair faleceu em 1968 com 90 anos, tendo escrito mais de 90 livros, peças de teatro, e trabalhos jornalísticos.

Decio Zylbersztajn

(publicado no jornal O Estado de São Paulo – 14 de março de 2018)

Tulio Seppilli: o resgate do acadêmico

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Tulio_Seppilli

Tulio Seppilli: o resgate do Acadêmico (in memoriam)

Sinto falta de dois tipos humanos, os estadistas e os acadêmicos. O acaso me levou a conhecer a Fundação Angelo Celli localizada no Mosteiro de Santa Catarina Velha em Perugia onde Tulio Seppilli me aguardava. Uma voz pelo interfone me orientou a abrir o portão de ferro que dava para o pequeno jardim. Entrei em um antigo mosteiro Beneditino transformado nas dependências da Fundação dirigida por Tulio Seppilli dedicada a estudos em Antropologia da alimentação e saúde humana. A equipe era formada por quatro Doutores e Doutoras em Antropologia, Anita, uma gata com pelagem negra e, nos bastidores, Ana, a esposa chinesa de Tulio.

A sala, em tempo pretérito, foi a área de refeições do mosteiro. Tem o piso e as paredes de pedra e o teto ostenta a forma de arcos com tijolos emparelhados de modo a conferir um equilíbrio estrutural…

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The Vegetarian ou A Transgressora

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AGORA PRÊMIO NOBEL

Com o lançamento do livro de Han Kang no Brasil em 2018 pela Editora Todavia, traduzido por Mauricio S. Dias, e sendo escolhida para o Nobel de literatura em 2024, resolvi reblogar o texto.

Eu conheci Han em um encontro literário na Europa. Ela falou para um público pequeno, falou em Coreano. 

Han Kang é uma escritora Sul Coreana cuja obra chegou ao ocidente com a tradução do livro “The Vegetarian”.  Originalmente publicado em 2007 no seu país, a obra lhe rendeu o Man Booker Prize em 2016.  A autora tem estilo pessoal que transcende o que se pode esperar da escrita contemporânea. Ela nos instiga e conduz aos limites do comportamento humano.

O livro aborda o direito de escolha e chega ao extremo da escolha pela vida. Como indaga Yeong-hye, a personagem central da novela, “por que assumir que morrer é ruim?”  A personagem trata do direito sobre o seu ser integral, primeiro sobre o corpo e sexualidade, depois a metáfora da recusa de comer carne ou mesmo de ingerir qualquer alimento, terceiro o direito sobre a mente que abandona qualquer laço com a realidade ao redor preferindo transitar pelo mundo do sonho. A personagem transgride seja na vida cotidiana com o marido, seja no estúdio onde se deixa fotografar nua e com o corpo decorado por pinturas feitas pelo cunhado, seja no relacionamento com a irmã e com o pai que irão força-la a se alimentar.

O ponto de partida é a vida ordinária de mulher submissa ao marido, funcionário exemplar de uma empresa tradicional. Ela transgride o relacionamento quando repentinamente decide não mais alimentar-se de carne. Perguntada pela razão, vem a resposta, que se repetirá ao longo da trajetória, “eu tive um sonho.” A transgressão social chega ao limite quando Yeong  fere a etiqueta no jantar com os diretores da empresa e respectivas esposas. Vestia uma blusa que permitia transparecer os seus seios, que se fazem presentes ao longo de toda a narrativa. Não está trajada conforme esperado e recusa os alimentos à base de carne. Um escândalo!  A voz do esposo compõe a primeira parte do relato transgressor. A voz do cunhado, artista obcecado pelo corpo de Yeong- hye, compõe a segunda parte da narrativa, e a voz da irmã acompanha a fase crítica de afastamento da personagem da realidade, primeiro em um asilo de loucos e depois no hospital geral de Seul.

Yeong-hye é violada sexualmente, violada ao obrigarem-na a ingerir carne, violada pelas agulhas dos médicos nos hospitais, violada pelo cotidiano de mulher submissa à carreira do marido, violada quando a sua vontade não é respeitada por ser incompreensível. A metáfora da dieta vegetariana radical é consistente com a retomada do ser integral, de tal modo que o paulatino afastamento da vida passa pela desobediência ao pai e ao marido e pela supressão da libido e de qualquer conexão com a vida. Ela deseja transformar-se em um vegetal. Yeong-hye é pura transgressão.

 A narrativa é perfurante como o instrumento pontiagudo com o qual ela tenta o suicídio em resposta à imposição da vontade paterna. Um livro que nos faz pensar nas amarras às quais somos submetidos e no nosso comportamento moldado àquilo que de nós se espera.