Com o lançamento do livro de Han Kang no Brasil em 2018 pela Editora Todavia, traduzido por Mauricio S. Dias, resolvi reblogar o meu texto. Eu conheci Han em um encontro literário na Europa. Ela falou para um público pequeno, falou em Coreano.
Han Kang é uma escritora Sul Coreana cuja obra chegou ao ocidente com a tradução do livro “The Vegetarian”. Originalmente publicado em 2007 no seu país, a obra lhe rendeu o Man Booker Prize em 2016. A autora tem estilo pessoal que transcende o que se pode esperar da escrita contemporânea. Ela nos instiga e conduz aos limites do comportamento humano.
O livro aborda o direito de escolha e chega ao extremo da escolha pela vida. Como indaga Yeong-hye, a personagem central da novela, “por que assumir que morrer é ruim?” A personagem trata do direito sobre o seu ser integral, primeiro sobre o corpo e sexualidade…
Um autor não deve atrapalhar a vida dos leitores ao tratar da própria obra, entretanto falar a respeito da motivação para a escrita pode não ser um ato egoísta. O que me levou a escrever um livro de contos que focaliza mudanças nas vidas de personagens comuns foram duas descobertas. (Acerba Dor, 2017)
A primeira, a descoberta literária da obra de Ernesto Sábato, cientista argentino que atuou como pesquisador na França antes de tornar-se um dos maiores escritores da América Latina. Sábato preferiu a desordem da literatura à ordem da ciência tal como relata na obra Nós e o Universo:
“ A ciência foi como um companheiro de viagem, durante um trecho, mas já ficou para trás. No entanto, quando nostalgicamente volto a cabeça, posso ver algumas das altas torres que divisei em minha adolescência e que me atraíram com sua beleza alheia aos vícios carnais. Logo desaparecerão do meu horizonte e só restará a lembrança. Muitos pensarão que isto é uma traição à amizade, quando é, na verdade, fidelidade à minha condição humana. De todas as formas, reivindico o mérito de abandonar esta cidade de torres – onde reina a segurança e a ordem – em busca de um continente cheio de perigos, onde domina a conjetura. “
A segunda foi a descoberta do fenômeno biológico que ocorre na vida de insetos que em certo momento da vida trocam de pele, que é representada pelo exoesqueleto, a carapaça que contém e protege o corpo do inseto. Quando o corpo cresce, mas não a carapaça, os insetos abandonam a proteção antiga enquanto uma nova carapaça amadurece. Sinais do fenômeno podem ser observados quando encontramos a casca vazia de uma cigarra agarrada ao tronco de uma árvore. A cigarra abandonou as amarras da pele antiga para poder crescer.
Sabem os entomologistas que a ecdise – nome dado ao fenômeno – é um período crítico para a vida do inseto uma vez que a sua nova proteção ainda não existe e a antiga não lhe serve mais. Neste período o inseto fica desprotegido, sujeito aos ataques dos predadores.
Não são os fenômenos entomológicos que me interessam, mas as ecdises do homem refletidas nas obras literárias, mudanças dos personagens em um romance, novela ou conto. Ecdises, nas obras literárias, capturam a atenção do leitor. Senão vejamos. Kafka começa assim a primeira frase do livro Metamorfose.
“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. …. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos. – O que aconteceu comigo? – pensou”.
Ou em Guimarães Rosa quando Riobaldo narra:
“O senhor, mire, veja. O mais importante e bonito do mundo é isto: Que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. ”
Aparentemente não existe literatura que não trate de mudanças sem o que, o texto seria enfadonho. Podem ser mudanças que não se concretizam, ou ainda aquelas que o critério de verossimilhança sugeriria como infactíveis, mas que se realizam. A obra literária captura o leitor que, na viagem da leitura, muda com o personagem que o encantou, e encantou porque mudou, trocou de pele em seu lugar.
Ainda que não exista nada de novo sob o sol, ideias antigas ganham fôlego quando ressuscitadas pelos, assim chamados, formadores de opinião. É o que ocorre quando se apresenta como novo os conceitos de cohousing e coworking, definidos como o uso de espaços para viver ou trabalhar compartilhando equipamentos e áreas de uso comum. É interminável a capacidade humana para adotar nomes novos – de preferência em Inglês – para velhos conceitos. Tratada como fenômeno inovador, a prática de dividir espaços para viver e trabalhar diluindo custos por meio do compartilhamento, nada tem de inovadora.
O compartilhamento pode ser encontrado nos índios brasileiros que habitam imensas ocas onde a vida coletiva promove segurança, acolhimento, cuidado compartilhado das crianças e idosos, além do uso coletivo dos ativos onde todos investiram o tempo dedicado ao trabalho de construção. Lembrei-me dos cortiços que existem na cidade de São Paulo e que adquirem cores específicas em diferentes períodos de tempo. Assim, o bairro do Bixiga e o Bom Retiro da minha infância tiveram – e ainda têm – espaços compartilhados por levas de imigrantes movidos pelo incentivo de conjugar pequenos ambientes para viver, compartilhar custos, obedecendo regras para garantir o convívio, nem sempre harmônico, diga-se de passagem.
Cohousing me fez recordar outras formas românticas de convívio como as pensões e as repúblicas. As primeiras foram comuns na organização da sociedade brasileira. Relata Pedro Nava no seu “Baú de Ossos”:
Quando meu pai deixou Juiz de Fora e mudou-se para o Rio veio morar com suas irmãs …. com Alice e Antonio Salles, em uma pensão à Rua das Marrecas 24.
Foi o tempo em que Nava reconhecia a cidade que o acolheria e onde se formaria como médico e escritor. A mesma cidade onde morreu de forma trágica.
Ao abrir outro escaninho de recordações encontrei um local que foi especial para a minha formação como indivíduo. A Zonzeira, uma república de estudantes que habitei na cidade de Piracicaba. Comuns nas comunidades universitárias, as repúblicas são exemplos do compartilhamento de ativos sob regras de convívio. Foi onde eu passei quatro anos da minha vida como estudante de ciências agrárias, convivendo com cerca de nove jovens com os humores juvenis explodindo, que dividiam quarto, banheiro, cozinha, sala, telefone, campinho para a pelada diária e a mesa para jogar truco posta na calçada da Rua João Sampaio. Quem colocava ordem na casa era o Valdir, um jovem que se ofereceu para trabalhar nos cuidados da casa. Rejeitado no mercado de trabalho pela sua opção sexual, Valdir foi um excelente apoio com quem muito aprendemos sobre o convívio humano. Como estudantes, nós dividimos mais do que o espaço, dividiamos experiências. Nossas histórias de vida seguiram caminhos diferentes, entretanto o compartilhamento vivenciado nos permitiu criar uma identidade que dá base ao convívio que mantemos até hoje. A socialização que experimentei como um jovem urbano, paulistano, me permitiu aprender com as experiências dos colegas vindos de outros cantos do Brasil. As regras de convívio eram definidas e muitas vezes ultrapassadas, o que por óbvio, causava conflitos. Nós ainda ignorávamos que tais conflitos fariam parte do aprendizado para a vida que teríamos pela frente.
Cohousing, coliving, regras de convívio, compartilhamento de despesas, uso comum de equipamentos, formas de vida de baixo custo. Nada de novo debaixo do sol, como dito no Eclesiastes, apenas novos nomes para bodes velhos.
Caras amigas e amigos leitores. Decidi republicar este texto de 2018. Cabe de forma justa no momento que o Brasil vive, desgovernado e capturado por um candidato a déspota.
Tirania: usurpação do poder por um indivíduo ou grupo que captura o aparato legal em seu próprio benefício.
Foto com o Sr. Johannesson, Presidente da Islândia
Ao conhecer a programação do Festival Internacional de Literatura em Reykjavik decidi participar da sessão solene em memória a Jón Sigurosson (Estadista islandês, 1811-1879) que ocorreria no campus da Universidade. Eu desconhecia Timothy Snyder, o autor convidado, mas um detalhe me motivou a participar; o moderador da sessão seria Guoni Th. Johannesson, o Presidente da Islândia. Eu queria ver uma cena impossível de ocorrer no meu país, um escritor debatendo sobre literatura com um líder político.
A escolha que fiz mostrou-se correta. O autor convidado, Professor da Universidade de Yale e especialista em história europeia, discorreu sobre o livro “On Tyranny”, cujas páginas são um convite para o leitor pensar no desengajamento do homem contemporâneo e nos riscos que correm as democracias. O premiado autor e acadêmico (Prêmios: Hannah Arendt, Leipzig pelo Entendimento Europeu, Ralph Waldo Emerson da Academia Americana de Artes e Letas) foi capaz de produzir um livro dirigido ao público geral que traz um subtítulo; vinte lições do século vinte. A leitura revela o risco ao qual a sociedade contemporânea se expõe ao sucumbir a discursos populistas, politicamente corretos e ideologicamente restritos.
O autor nos alerta que a desigualdade social é mãe do populismo oportunista, fértil em propor soluções inalcançáveis. Assim instala-se a tirania, definida por Snyder como a usurpação do poder por um indivíduo ou grupo que captura o aparato institucional em seu próprio benefício ou por uma ideologia opressora. O historiador alerta para o surgimento, nos séculos XX e XXI, de lideranças ou de partidos que se autodenominam representantes únicos do povo, cujo método é menosprezar o debate e ridicularizar argumentos antagônicos, ignorar o conhecimento científico e desinformar.
Antes de relatar as vinte lições do século XX, o autor faz um alerta. Sociedades podem se desintegrar, democracias podem falir e a ética pode entrar em colapso, abrindo caminho para a apropriação do poder. As democracias, por sólidas que possam parecer, são suscetíveis aos ideários falaciosos que retomam argumentos vindos dos extremos do espectro político, argumentos potencializados pela desigualdade, pela ignorância e ausência de debate. O isolamento dos indivíduos somado à rapidez da conectividade, podem promover um caos perfeito explodindo falsas ideias pelas redes sociais. O comportamento da massa beligerante, que mata antes de julgar, que perde o senso crítico antes de dialogar e que que ignora as múltiplas identidades dos indivíduos, dá lugar às ações irracionais que marcaram o século XX e que se repetem na primeira metade do século XXI.
Snyder explora o efeito da falta do debate que permitiria contrastar ideários. A censura coletiva gera o desprezo pelo antagônico que é uma primeira aproximação para o uso da violência. O discurso politicamente correto e o desprezo ao antagonismo conduzem ao isolamento confortável do debate dentro da mesma tribo, debate que já nasce prejudicado pela falta da referência do outro modo de ver.
Snyder discorre sobre temas como a obediência social marcada pela perda do senso crítico, e a reverência ao poder, seja por interesse, medo ou covardia. Ressalta a importância das instituições, o perigo de um Estado capturado por uma ideologia, a necessidade do engajamento cidadão, o surgimento de ações paramilitares protegidas pelo Estado tirano, a necessidade de manter laços sociais, de garantir a privacidade, de observar experiências de outros países, de acreditar no poder das ideias e de manter a calma quando o impensável acontece.
Snyder baseia as ideias do livro nos estudos da história recente, que demonstra como sociedades podem entrar em colapso. Os líderes fascistas e comunistas rejeitaram a realidade em nome do combate a ameaças externas, apresentadas como conspirações tramadas contra a nação cujo verdadeiro representante só pode ser o tirano. O monopólio da razão não se mostrou eficiente levando ao caos social e colapso dos regimes. A herança democrática representa um valor que deve ser cuidado, salvaguardado dos tiranos. A experiência vivida pelos regimes totalitários e formas outras de absolutismo, demonstram a importância de cuidarmos da democracia, o que exige o debate desarmado das ideias, que a priori não desqualifique o oponente e que permita refinar os próprios argumentos ao invés de mirar-se a si mesmo, como Narciso, belo e solitário.
Ao final do debate eu cumprimentei ambos, o Professor Snyder e o Presidente da Islândia. Falei de como aquele evento seria de difícil replicação no meu país, ao que o Presidente respondeu: “ Entendo, não precisa explicar. ”
(On Tyranny: twenty lessons from the twentieth century – The Bodley Head – Peguin, 2017, publicado no Brasil pela Companhia das Letras com o título, Sobre a Tirania)
O time nacional da Islândia enfrentou a seleção da França nas quartas de final da copa da UEFA de 2016. Perdeu o jogo, mas gostei de torcer pelo time semiprofissional da ilha do ártico formado por atletas de pequenos times da Europa cujo técnico é dentista por profissão. A minha preferência tem a mesma razão da escolha que fiz pelo Juventus da Mooca como o meu time do coração. Mas como? Eu não sou descendente de italianos e nasci no Bom Retiro e não na Mooca! Explico, o time da Islândia demonstrou que o homem comum representa o verdadeiro espetáculo da vida. Os atletas não sucumbiram, ao menos por enquanto, ao canto da sereia que desencaminhou os ronaldos, os patos e os neymares que se vestiram de brilhos e passaram a viver uma vida esterilizada, descasada do mundo real. São algo que se convencionou chamar de celebridades. Ao visitar a…