A Chama de uma Vela: interpretando a realidade

A Chama de uma Vela: sobre interpretações da realidade

No final dos anos 60 uma Professora pediu aos alunos que observassem a chama de uma vela acesa posicionada ao centro de uma mesa. – Descrevam o quê vocês observam. – Pediu aos alunos, eu entre eles.

A nossa experiência se limitava àquilo que 16 anos de vida permitem acumular. Nossos interesses eram mais imediatos, ígneos, tal como a chama da vela, e a nossa curiosidade, livre dos tapa-olhos que a vida viria a nos impor. Observávamos a chama da vela estimulados pela flama dos hormônios que atiçavam a nossa libido. Nas observações compartilhadas, revelamos pontos de vista diferentes a respeito da chama que, de forma insuspeita, permanecia a tremeluzir e apontar para o alto.

A intenção da mestra foi alcançada, compreendemos que olhares sobre um mesmo objeto podem ser diferentes. Aprendemos que o ato criativo nem sempre significa gerar algo novo, um olhar do óbvio por um ângulo inaudito pode bastar para causar impacto. Observar a realidade pelo avesso, ou ver o ângulo que ninguém observou, equivale a uma descoberta. Para a experiência limitada daqueles jovens que éramos, estava pavimentado o caminho para a busca da criatividade na vida.

A Educadora que nos posicionou ao redor da chama da vela chamava-se Raquel Gevertz e na minha tese de livre docência apresentada à Universidade de São Paulo, eu lhe prestei devida homenagem.

Realidade, qual realidade?

Incomoda admitir que dois observadores diante do mesmo fenômeno possam perceber realidades diferentes. Ou que o mesmo observador, em momentos diferentes, pode interpretar um fenômeno de maneira díspar. A observação não é um ato objetivo, dois médicos podem dar diagnósticos diferentes frente aos mesmos sintomas do paciente. Dois psicoterapeutas podem interpretar patologias psicológicas distintas no mesmo paciente, e cada um de nós precisa se reconciliar com o fato de que, ao longo do tempo mudamos as opiniões que defendemos com veemência.

Eu tinha deixado os 16 anos de idade no passado quando me deparei com as observações de Gaston Bachelard (1884-1962). As obras deste filósofo tratam de temas cuja observação concreta é limitada, ou mesmo impossível. A Poética do Espaço, A Terra e os Devaneios da Vontade, A Poética do Devaneio, e o livro que tem por título: A Chama de Uma Vela, em cujo parágrafo inicial o autor afirma:

Neste pequeno livro, de pura fantasia, sem a sobrecarga de saber algum, sem nos aprisionarmos na unidade de um método de investigação, gostaríamos de dizer que a renovação da fantasia recebe um sonhador na contemplação de uma chama solitária. A chama, dentre os objetos que nos fazem sonhar, é um dos maiores operadores de imagens.

Assim, a chama de uma vela, além de incitar o exercício da pluralidade de observações, sugere uma viagem interior pelo mundo das fantasias que habitam a mente humana, sobre a qual nosso conhecimento ainda é limitado.

A Respeito das Interpretações da Realidade:

A escritora e ensaísta Siri Hustvedt explora o problema de “olhar e não ver”. Citando exemplos de cientistas que estudam a cognição humana, ela expõe o drama que decorre da nossa incapacidade de interpretarmos a realidade de maneira objetiva. É comum não percebermos um elefante sentado na nossa poltrona predileta.

No conjunto de ensaios que compõem o livro: Living, Thinking, Looking, ela afirma que interpretamos subjetivamente as nossas próprias histórias de vida, a memória é seletiva e muda ao longo do tempo e, acima de tudo, é criativa. De certa maneira a nossa memória é uma ficção e o significado dos fatos que recordamos muda conforme envelhecemos. Esta condição é conhecida pelos neurocientistas que a chamam de “consolidação da memória”. Outra dimensão é de como vemos uma obra de arte. Aquilo que se representa em linguagem artística vem carregado de experiências e significados particulares que emocionaram o autor. O processo se repete quando alguém que vê a obra, lê um livro, ou assiste um filme, interpreta a mensagem ali expressa utilizando o crivo particular das suas próprias experiências. A intenção original do autor ou autora deixa de ser relevante, muito menos a realidade que motivou a obra.

No mundo da ciência, os pesquisadores definem os problemas de pesquisa a partir da observação da realidade. O Professor Ronald Coase (1910-2013), prêmio Nobel em Economia, criou um mantra: “What is Going on Here?”, que utilizava para desafiar os alunos a observarem a realidade para identificar “problemas” merecedores do esforço de pesquisa. A imprecisão na identificação de um problema de pesquisa, ou seja, da interpretação da realidade, é um problema endêmico enfrentado pelos pesquisadores. Cientistas também estão expostos ao drama fundamental da interpretação subjetiva da realidade.

 Humberto Eco, no livro “Seis passeios pelos Bosques da Ficção”, discute o tema da interpretação dos leitores. Um autor nem sempre explicita sua intenção, e o leitor interpreta o texto com base no seu repertório de informações, que implica na quase impossibilidade de emparelhamento com a intenção do autor. A leitura interpretativa torna o leitor um parceiro criativo, um cúmplice do autor o que sobretudo valoriza o ato da leitura. Tal reconhecimento foi expresso por Borges ao dizer que a leitura é mais importante do que a escrita, é um ato anônimo, humilde, entretanto criativo por natureza.

O que nos resta fazer?

Enfim, o que somos capazes de observar? A interpretação da realidade é fruto das experiências, crenças e vieses acoplados às nossas emoções. A observação interpretativa – questionadora, oclusa, hostil, carinhosa, inclusiva, amorosa – refletirá as nossas sombras e emoções. Não existe realidade objetiva, portanto estamos, todos nós, sentados ao redor da mesa, observando a chama de uma vela que continua a flamular dirigida para o alto.

Ordenando o Caos: o papel da escrita

Ordenando o Caos: o papel da escrita

Gastei meses planejando uma viagem para o Marrocos, país que conheci lendo os livros de Paul Bowles, Elias Canetti e Tahar Ben Jelloun. Assim que comprei as passagens aéreas um terremoto incidiu sobre aquele país deixando áreas históricas em ruínas. Enquanto mudava os meus planos de viagem lembrei do ditado yidish que, se fosse traduzível, soaria como: Enquanto o homem planeja, Deus ri.

A incerteza incomoda, preferimos a segurança que nos permite planejar. O risco se distingue da incerteza, no primeiro conhecemos o padrão de variabilidade de determinado fenômeno. No caso da incerteza tateamos na escuridão da ignorância, torna-se impossível planejar. Basta um olhar para o mundo para que se perceba que os eventos não antecipados são a norma e não a exceção. Este tema preocupou autores de diferentes especialidades, da psicanálise à economia, da filosofia à geologia, da meteorologia à literatura. Dois autores cativaram a minha leitura: Douglass North e Villém Flusser.

North elaborou sobre o papel das instituições para gerar previsibilidade. Instituições são regras formais e informais que criamos, na sua ausência resta a barbárie. Crítico da economia ortodoxa, por não enfatizar o papel das instituições, North, como historiador econômico, demonstrou que instituições que não protegem os direitos dos indivíduos resultam em sociedades estagnadas. Instituições fracas, capturadas, criadas com disfuncionalidades, geram resultados catastróficos, em último caso descambam em conflitos e violência. North recebeu o prêmio Nobel em Economia em 1993 pelo seu trabalho sobre a origem, a evolução e as patologias das Instituições, que ele definiu como: As regras do jogo em uma sociedade, que pautam o comportamento humano. As instituições por vezes falham no seu intento de gerar previsibilidade, se mostram tão imperfeitas quanto os seus idealizadores. Em alguns casos elas falham intencionalmente, quando são criadas para não funcionar. Oliver Williamson criou o termo: “ineficient by design” para designar instituições que nascem para cumprir propósitos velados. O Congresso Nacional está pleno de exemplos.

A obra de North espanta pela atualidade. No livro, Violence and Social Orders de 2009, ele explora como instituções imperfeitas degeneram o tecido social. Em um artigo de 1999 o autor se preocupou com o aquecimento global e propôs a necessidade de criarmos um mercado de créditos de carbono. No mesmo artigo ele elaborou sobre a imprevisibilidade, afirmou que vivemos em um “non ergodic world”. Ou seja, no mundo não ergódico o passado não explica o presente e tem pouca utilidade para explicar o futuro. A imprevisibilidade é a regra e as instituições devem ser resilientes e maleáveis para cumprirem o seu papel. Para criarmos um mercado de créditos de carbono precisamos de instituições flexíveis.

Douglass North e DeZylber

O segundo autor que citei é Villém Flusser. Perseguido pelo nazismo, deixou Praga quando tinha 21 anos e se estabeleceu em São Paulo. Abandonou os estudos de filosofia e prosseguiu como autodidata, interagiu com pensadores nas áreas da filosofia e da comunicação, para as quais contribuiu de forma decisiva. Acolhido por diferentes universidades brasileiras, deu aulas e produziu uma obra que se tornou reconhecida internacionalmente. Nos anos 1970, retornou para a Europa com a agenda cheia de convites para aulas e palestras. A caminho para uma destas palestras, um acidente fatal interrompeu a sua trajetória.

Se North focalizou a sociedade, Flusser mergulhou no papel da simbologia, da construção e uso dos códigos de linguagem e de comunicação, que transformam a mente humana. Tratou da abstração, competência única da nossa espécie, que é capaz de observar um objeto inútil, sem serventia para alimentação nem para a cópula, e criar um conceito abstrato sobre ele. Em um ato de fundamental transformação, o ser humano foi capaz de elaborar conceitos e representar o objeto inútil por meio de diferentes expressões. Ele gerou utilidade ao representar o objeto por meio do desenho, elaborou códigos escritos com os quais descreveu o objeto. Desenvolveu ideogramas que representam o conceito sobre o objeto. Desenvolveu a linguagem fonética, criou símbolos que alinhados formaram palavras, que alinhadas formaram frases, e exprimiram o conceito. Flusser se despreendeu da análise da imagem estática – a fotografia – e a colocou em movimento ao discorrer sobre o cinema. No seu livro “A Escrita: Há futuro para a escrita?”, elaborou sobre a superioridade da imagem e explorou os limites da escrita. Oh, pobres de nós, escritores.

Flusser sugeriu que ao criarmos a escrita inauguramos um processo de transformação da mente humana. O receptor da mensagem escrita a decodifica e reorganiza segundo critérios próprios que podem não ser os mesmos do emissor que elaborou a mensagem original. No livro “Seis passeios no bosque da ficção”, Umberto Eco elabora sobre o mesmo tema: o autor que é surpreendido pelo leitor que interpreta o texto de modo criativo, diferente da intenção original do autor. Eis o ato de recriação, razão pela qual a leitura gera prazer estético. O leitor não é um agente passivo, ele interpreta, reinventa e reescreve a mensagem conforme a sua própria métrica.

Flusser afirmou que escrever nos ajuda a colocar ordem no caos das nossas mentes. Ele não está só nesta observação, Clarice Lispector afirmou: “Escrevo por estar desesperada, se não fosse a escrita eu morreria simbolicamente todos os dias”. Do mesmo modo em Elias Canetti lê-se: “Tranquilizar-me, talvez seja a principal razão por que escrevo. É quase inacreditável o quanto a frase escrita pode acalmar e domar o ser humano”. Esta ação terapêutica da escrita foi elaborada por Siri Hustvedt no livro de ensaios: Living, Thinking, Looking. Escrever e ler, por exigirem ordenamento, são ações geradoras de estabilidade.

Eis o drama humano; desejamos ordem em um mundo caótico, não ergótico. Se para Flusser escrever e ler ajudam a ordenar o caos das nossas mentes, para North as instituições ordenam o caos da sociedade. A escrita e as instituições são criações humanas, sujeitas a limitações, imperfeitas e mutantes, tal como as sociedades que as originam. North e Flusser nasceram no ano de 1920 e, até onde eu saiba, nunca se encontraram. Se tal encontro tivesse ocorrido, creio que eles gastariam horas a elaborar, com humor, sobre o drama da incerteza humana. Quanto a minha viagem, não farei planos, decidirei na véspera, aprendi que enquanto o homem planeja, Deus ri.

Um Café com o Professor Ronald Coase

Reencontrar velhos amigos é bom, foi o que aconteceu ao reorganizar os livros da minha biblioteca onde eu acomodo aqueles que contribuíram para a formação das minhas dúvidas e incertezas, lá estão os autores que deram forma ao meu modo de ver o mundo, alguns me influenciaram por empatia, outros por antagonismo. Procurei identificar a lógica na escolha dos autores que elegi para habitarem a minha biblioteca – que não é imensa, mas é seleta – a maioria se enquadra no perfil humanístico, desafia as ortodoxias e em algum momento de suas vidas foram incompreendidos. Há aqueles que foram criticados pela, assim chamada, direita e esquerda, por esses últimos eu tenho especial atração.

Um dos escolhidos influenciou a minha fase acadêmica, o seu nome é Ronald Coase (1910-2013) foi um gerador de conceitos que renderam o prêmio Nobel em economia em 1991. Eu o encontrei em diversos momentos ao longo da minha trajetória acadêmica quando ele tinha mais de 85 anos. De personalidade crítica e bem-humorada, andava cercado por jovens estudantes e de futuros cientistas desejosos de absorver algo do seu espírito criativo. Não usava cartões de crédito, desconhecia os métodos quantitativos o que ainda é visto como pecado pelos economistas ortodoxos, apreciava um bom debate, um estudo de caso conhecido como Fisher Body contribuiu para o conhecimento do crescimento das firmas e gerou troca de artigos críticos com Benjamin Klein que só foi interrompida quando o editor da revista interrompeu o entrevero acadêmico.

Para o padrão de exigências do mundo acadêmico atual Coase publicou pouco, ele não receberia apoio das agências de fomento pela baixa produtividade. A diferença estava na qualidade, no impacto das ideias e na observação do inusitado. No artigo “The Problem of Social Cost”, ele apresentou argumentos contraintuitivos para a solução dos problemas de externalidades, fundamental para lidar com as questões ambientais e que deu o fundamento para a criação dos mercados de créditos de carbono. Incomodou os economistas ortodoxos ao criticar a falta de realismo da teoria econômica dominante que chamava de “blackboard economics”. Insistia em manter a atenção na solução problemas do mundo real e motivava os seus alunos a observarem a realidade, para tanto criou o bordão: what is going on here?  para sugerir a necessidade de lidar com problemas reais. Ao longo do tempo descobri que a maior parte dos meus alunos e mesmo cientistas maduros, partem para a batalha sem saber qual o seu alvo.

Coase tratou de temas tão diversos como a existência e os limites do crescimento das firmas, as múltiplas formas de organização na sociedade, as soluções para os problemas das externalidades, e o crescimento da China. É considerado o fundador da Nova Economia Institucional e alavancou o estudo da Economia das Organizações, abordagens que adotei para o estudar das organizações agrícolas. A provocação coasiana se mostrou útil para refletir a respeito dos fenômenos sociais da forma como entendemos o mundo. Se partirmos de realidades distorcidas, nossas interpretações estarão fadadas à inconsistência e geraremos soluções inúteis.

Certa feita fui convidado a ser o porta voz da comunidade acadêmica em homenagem ao Professor Coase pela Faculdade de Direito da Universidade de Chicago onde ele trabalhou na maior parte da sua vida. Na oportunidade lembrei que aquele jovem nascido na Inglaterra e que fora rejeitado pela London School of Economics, foi autor de um artigo icônico escrito em 1937 denominado “A Natureza da Firma” que questionou o conceito de firma utilizado pela teoria econômica. É considerado um dos artigos mais citados na história das ciências sociais que revolucionou a forma pela qual compreendemos as organizações da sociedade. No discurso que fez ao receber o Prêmio Nobel de Economia ele mencionou o artigo dizendo que foi escrito quando ele tinha apenas 21 anos, idade na qual – segundo suas palavras – o sol nunca deixa de brilhar.

Sou grato ao Professor Coase por iluminar o caminho para o estudo das organizações na sociedade e questionar a função da pesquisa acadêmica. Eu não imaginava que o bordão “what is going on here” seria importante na vida de escritor que sucedeu a minha atuação na universidade. Encontrei paralelos com citações de Walter Benjamin sobre a importância de observarmos o mundo real para elaborar a escrita. Eis uma boa oportunidade, vou convidar Ronald Coase e Walter Benjamin para um café na minha biblioteca onde serei um observador privilegiado e atento à conversa que vai rolar.

Nós os Contadores de Histórias

Nascemos para contar histórias, a espécie humana é narradora por excelência e os símbolos são a nossa ferramenta. Não existe narrativa objetiva, limitar a narrativa à objetividade não só é impossível como nos igualaria ao comportamento instintivo dos animais. Em que pese o esforço de um narrador – um cientista ou um jornalista – pela busca da objetividade e imparcialidade, no momento de relatar ocorre a troca da objetividade pela linguagem codificada. As palavras formam frases, nada mais do que símbolos encadeados que carregam significados particulares de quem escreve e de quem lê.

A linguagem deu luz ao homem narrador, primeiro por meio da oralidade – que nos acompanha até hoje – depois pela imagem pictórica nas cavernas, pelo ideograma, pela escrita fonética, pela magia da imagem seja na fotografia no cinema na televisão ou na tela do computador, as imagens são imbatíveis como forma de expressão segundo Vilém Flusser. A narrativa por meio da imagem transmite mensagens com inigualável eficiência, o receptor gasta pouca energia para decodificar.

A propaganda utiliza a imagem para capturar e criar desejos e o bolso do público. A autora Siri Hustvedt no livro “Living, Thinking, Looking” nos alerta que o desejo difere da necessidade, o primeiro se caracteriza pela insaciabilidade após o ato de apropriação. Fato é que vivemos o momento da volta ao uso da imagem – tal como fez o homem primitivo – e da oralidade com a popularização do podcast. Parece que ambas, a imagem e a oralidade, subjugam a escrita, como afirma Flusser no livro que tem por subtítulo: há futuro para a escrita?”. Se o autor tinha razão ao profetizar o fim da escrita isto não significa o fim do homem narrador. Se Fernando Pessoa afirmou que navegar é preciso, viver não é preciso, Flusser teceu um paralelo, scribere necesse est vivere non est que talvez melhor se ajustasse à sua intenção se afirmasse que narrar é preciso, viver não é preciso.

Seja qual for o meio escolhido, o texto, a imagem ou a voz, quando narramos transmitimos mensagens simbólicas e o receptor decodifica os símbolos à sua maneira. Ambos, emissor e receptor, têm códigos próprios, únicos, que habitam o seu córtex cerebral, eis a beleza da leitura que a faz tão criativa quanto a escrita. Eu – e certamente qualquer escritor – já fui surpreendido por interpretações inesperadas dos meus textos. O leitor decodifica, reconstrói, interpreta, e pode fazê-lo de forma criativa superando o autor.

O prazer da narrativa resulta do ordenamento das ideias que o autor se obriga a fazer ao narrar. Flusser afirmou que escrever significa organizar o pensamento, colocar ordem no caos da mente. Talvez possamos afirmar que o ordenamento do caos resulta da transmissão dos sentimentos por meio dos símbolos, das letras enfileiradas na escrita fonética, das ideias encapsuladas pelos ideogramas, pelos sentimentos embutidos no traço do desenho, pela textura da tela, pela sequência de imagens e sons no cinema, pela harmonia na música, pela forma da escultura ou pela plasticidade dos corpos em uma coreografia. Impregnado no meio escolhido para expressão encontraremos o sentimento e a intenção do autor.

A leitura, tal como a observação da imagem, a contemplação da escultura e da dança, sugerem que em alguma medida o observador, leitor no caso do livro, se torna coautor da obra. O ato da leitura é um ato de reconstrução, de reinvenção. A arte existe para nos ajudar a reordenar o caos das nossas mentes, seja para o autor – emissor da mensagem – seja para o leitor/observador – receptor da mensagem. Os lugares comuns aqui são permitidos, a arte existe porque a vida não basta, o livro e o cinema nos transportam a lugares desconhecidos, e no limite a arte existe porque desejamos a vida.

O debate a respeito do impacto da inteligência artificial sobre a criação artística me permite afirmar que os algoritmos são pouco habilitados para lidar com a linguagem simbólica que se reconstrói a cada geração ou a cada momento. Algoritmos poderão até tentar incorporar arquétipos universais ou imitar as reações humanas que possam ser vislumbradas por um meta-programador e assim tentar imitar a criação, entretanto o sentimento humano tem inabalável profundidade, se transfigura, tem plasticidade. O prazer da criação artística é insubstituível, narrar é ato humano, o olhar de uma criança ao ouvir uma história reconhece isto. Nascemos para contar histórias, a espécie humana é narradora por excelência e os símbolos são a nossa ferramenta.

O Meu Nome é Débora

É possível fazer o trajeto entre Vilna e Lódz em 6 horas ao longo de 600 km. Tal viagem entre a Lituânia e a Polônia seria impossível para os meus pais que de lá saíram ainda crianças na década de 1920. Eles se conheceram no Brasil, por coincidência ambos eram Zylbersztajn ou Zylberstein, as grafias levemente distintas foram geradas pelos agentes da imigração. Eles tiveram sorte, outros parentes não deixaram a Europa por diferentes razões, uns por não acreditarem no ambiente hostil que se instalava por lá – afinal já eram calejados na arte de sobreviver aos pogroms – outros não conseguiram vistos ou não tinham recursos para a jornada.  Os que saíram foram dar em destinos tão distantes como Melbourne, Santos e Nova York onde refizeram as suas vidas. Entre os que permaneceram na área devastada pelo nazismo nós conhecemos apenas traços de informações, fragmentos que tivemos que juntar para criarmos memórias. Vou narrar um destes acontecimentos que me marca de modo particular, e vocês saberão a razão.

A minha avó materna, Baba Liba, foi uma mulher de poucos sorrisos. Ela saiu da região de Swir, então na Lituânia, e chegou a Santos acompanhada pelo meu avô Aron e dois filhos, a minha mãe, Sara e o meu tio, José. A família seguiu para Porto Alegre onde minha mãe viveu até a adolescência. Eu convivi com Baba Liba quando ela se mudou para São Paulo onde passou os últimos anos da vida. Lembro dela sentada em uma cadeira a ler tudo o que lhe caisse nas mãos, lia textos em alemão, polonês, litvak e yiddish, o idioma do dia a dia. Pouco falava, escrevia cartas para quem precisasse se comunicar com parentes na diáspora. Ela separou-se do meu avô, fato raríssimo na época, que permaneceu no Rio Grande do Sul onde viveu a mascatear. Comprava e vendia tudo o que lhe caísse nas mãos e o seu apego por um rabo de saia deixou rastros cujos frutos surgiram até mesmo depois da sua morte.

Foto da Imigração: Baba Liba, avô Aron, Sara minha mãe e tio José. A boneca se perdeu no mar.

Em Porto Alegre, vivia Iankel Shimen, meu tio avô, irmão de Baba Liba, que dava aulas de bar mitzvah e mergulhava nos livros enquanto sua esposa cuidava de uma loja de presentes. Ele era um intelectual, algumas famílias relutavam em contratar os seus serviços pois ele costumava ensinar ideais socialistas misturados aos textos das orações que os jovens deveriam aprender para o ritual da maioridade.O meu tio Josel falava com respeito e carinho do tio que o preparou para a maioridade. Outro irmão de minha avó foi Max, que seguiu para NY onde minha irmã o encontrou certa feita, tinha uma farmácia e não foi muito cordial com a visita da família brasileira. Desconfiado, talvez achasse que havia alguma intenção oculta no encontro.

Baba Liba era Barchanovitch quando solteira, além do irmão que emigrou para Nova Yorque, o segundo irmão Iankel Shimen foi o primeiro a viajar para o Rio Grande do Sul e incentivou os meus avós a que viessem ao Brasil pois o visto norteamericano lhes foi negado. Naquela época o destino era pouco relevante, o que importava era deixar o ambiente tóxico que se instalava na Europa. A minha mãe e o meu tio já eram nascidos como demonstra a única foto que tenho com a família reunida, no documento de imigração onde Liba, Aron, Sara e José aparecem. A minha mãe com uma boneca nas mãos, que segundo ela teria sido atirada ao mar por uma menina no curso da viagem de navio em terceira classe. Chegou sem boneca e sem sorriso. Ao longo da sua vida sempre tivemos alguma dificuldade em fazê-la sorrir para tirar fotos, talvez lhe faltasse a boneca.

A quarta irmã dos Barchanovitch não conseguiu emigrar para o novo mundo. Morta pelos nazistas, o seu nome era Dvoyre (Deborah) Barchanovitch. Tal como o irmão Iankel Chimen ela era socialista, diferente dele era ativista nos movimentos que fervilhavam na Europa entre as duas guerras. O compromisso progressista estava impregnado na família materna. Temos poucas informações sobre ela, minha mãe a descrevia como uma ativista capaz de subir nas mesas dos bares para fazer discursos inflamados. Ela estava na Europa quando Hitler subiu ao poder em 1934, socialista, judia e sem família foi presa e encarcerada. Consta que teve um filho e que ambos morreram em um dos campos de exterminio instalados entre Vilna e Lódz.

Na foto Dvoyre veste uma roupa discreta, colarinho redondo colado ao pescoço, quatro botões encimados por um broche. Os óculos redondos protegem um olhar assustado, talvez antecipando o destino que lhe aguardava. O cabelo repartido era curto ou preso atrás da cabeça, não é possível precisar. Os lábios finos, levemente arcados, não sugerem um esboço de sorriso. Estes são os fragmentos que temos de Dvoyre e a história poderia terminar neste ponto, entretanto houve um desdobramento que me envolveu de modo direto.

Os judeus recebem um nome no batismo e eu sabia que o meu nome era David. Eu tinha esta informação coerente com a tradição judaica que sugere que os filhos recebam nomes dos antepassados ou algum nome alusivo à tradição bíblica, portanto eu compreendia a lógica do meu nome de batismo. Assim foi até que eu soube que o meu caso era diferente, muito diferente.  Minha mãe passara dos 90 anos quando o assunto reapareceu. Eu a visitei no lar de idosos onde ela residia e ela me revelou que o meu nome de batismo não era Davi, era Dvoyre. Eu fora batizado com o nome da sua tia, um nome feminino, nada usual na tradição judaica.

A notícia me espantou primeiro e em seguida me alegrou. A revelação me mostrou que poucos elementos biográficos deixados por uma pessoa podem ser suficientes para que a sua memória seja honrada. A partir de poucos fragmentos soubemos que Dvoyre foi uma mulher humanista, lutadora pela causa em que acreditava, e que morreu coerente com seus princípios. Assim, uma nova história pode ser gerada e eu compreendi mais um elemento do caráter de minha mãe, cujas atitudes nem sempre corriam dentro das normas. Em suma, minha mãe me deu um nome precioso, feminino, forte.

Eu me chamo Decio, caso prefiram não tenham receio de homenagear a mulher sonhadora com a liberdade humana, com ideais de igualdade social, tão importantes nos dias de hoje. Caso queiram podem me chamar de Dvoyre ou Deborah.