Categoria: Livros, Arte, Ciência
Textos sobre literatura, vida contemporânea e arte.
A Inutilidade da Arte: Uma visita ao Inhotim
A finalidade do objeto de arte é gerar uma representação. Não precisa ter significado objetivo, não serve como ferramenta, não serve para comer e não serve para copular. Ora, objetivamente não serve para nada! Entretanto dá alento à vida tornando-a possível. Como manifestação do espírito, a arte exige predisposição para vivenciá-la, existe algo de entrega na interação com uma obra de arte. Aquele que aceita o convite do(a) artista passa a ser coautor da obra, resultado da interação artista-observador. Deduz-se que a arte não se consuma fora do coletivo. Tivemos a experiência ao visitarmos o Instituto Inhotim onde nos emocionamos com as obras de Yoyoi, Kilomba e Meireles, e com o Jardim Botânico que era muito mais do que parecia ser.
Inhotim como metáfora da arte
No caminho para Brumadinho enfrentamos as hostilidades da autoestrada que nos levou da Mantiqueira aos Campos Gerais. Atravessamos congestionamentos e sentimos a agressividade dos caminhões que, segundo minha dedução, disputavam um assento ao lado de alguma divindade. A autoestrada é um caso típico de não lugar, como diria Marc Augé, nenhuma interação positiva emerge dessa invenção humana. Ao longo do trajeto questionamos a nossa decisão de visitar o Instituto Inhotim.
Finalmente chegamos em Brumadinho, para sempre marcada pelo desastre causado pela mineração. A mesma agressividade sentida na viagem, estava presente ali. O ambiente férreo, pesado, poluído e inumano, se apresentava conforme nos aproximávamos da cidade. Ali percebemos que uma parcela dos recursos da indenização paga pela mineradora foi utilizada para fazer melhorias urbanas. Pensei que não há indenização que pague pelo que se perdeu motivado pela negligência das mineradoras.
Lembrei-me dos debates com os alunos sobre a responsabilidade das corporações. Deveriam se limitar ao pagamento dos impostos e salários como apregoava Milton Friedman? Minas Gerais sofre séculos de exploração das suas veias férreas, tão conhecidas de Drumond. Cinzas, ferro, chumbo, água podre, ar irrespirável, poucas calçadas e muitos caminhões, eis o entorno de Brumadinho. Definitivamente eu não concordo com Milton Friedman, o capitalismo só funciona com freios amparados por instituições e regramentos estabelecidos.
Jardins: Mudança de Estação
Chegamos ao portão que dá acesso ao Inhotim. O lugar estava vazio a não ser por um grupo de estudantes que aguardava o momento da visitação. Nos metemos entre eles e seguimos guiados pela Professora que aceitou de forma tácita a nossa presença. Um sopro de alegria e curiosidade foi o que sentimos daqueles olhos vivos, peles morenas, e doce sotaque mineiro.
Caminhamos à meia sombra das árvores com copas altas e amplas. A paisagem mudou quando atravessamos o portão de entrada. Estávamos no meio de um jardim botânico elevado à categoria de arte. Alguém desenhou aqueles caminhos, escolheu e cultivou as espécies e as distribuiu de forma harmônica para dar sentido ao espaço. Quem idealizou o jardim considerou o porte das plantas na fase adulta, as cores, a época do florescimento, e pensou na sua adequação para acolher visitantes, teve a intenção de sensibilizar o observador. As plantas oferecem sons acolhedores, temperatura e luminosidade que estimulam de uma só vez, a visão, a audição, o tato, o olfato. Ali, a botânica é arte. Um “lugar”, enfim.
Sensações
Com os sentidos despertos, visitamos as instalações e percebemos a arte como resultado da interação observador-obra. Passou algum tempo desde a viagem a Inhotim, tempo que selecionou as impressões deixando apenas aquelas que emocionaram. A memória está conectada com emoções, e a interpretação de uma obra de arte depende do repertório de experiência do obsrvador ou de algum fato trazido pelo acaso. Cabe aos neurocientistas explicarem como os elementos impressionam os sentidos do observador. Com o tempo, somos capazes de relatar a experiência, subjetiva e relacional, entre observador e obra. Compartilho as impressões que permaneceram na minha mente.
Experiência 1: Yayoi Kusama (1929, Japão)

Eu sabia que a artista nonagenária vive entre internações e desinternações causadas por problemas mentais. A maneira pela qual observei sua obra deve ter sido afetada pela sua loucura, tema que sempre me sensibilizou. Entrei nas instalações criadas por Yayoi Kusama. Eu sabia que seria território limítrofe entre o desequilíbrio e o que chamamos de comportamento normal.
Na primeira experiência, a artista estica a corda dos sentidos. Na instalação denominada Espelhos Infinitos, rompe com os limites sensoriais de espaço. A alegria explode nas bolinhas coloridas como um mantra visual. A repetição sem fim de um gesto criativo gera círculos coloridos, que se assemelham a pequenas mandalas a expressar a busca pelo controle de uma mente acelerada.

Toda uma vida a produzir bolinhas e a romper com as sensações estáveis. A dialética existe entre a estabilidade e a ruptura com os sentidos. Assim é Yayoi Kusama, uma fonte de alegria e de desequilíbrio.
Experiência 2: Grada Kilomba (1968, Portugal)

Da obra de Kilomba, as sensações emergiram das palavras, dos volumes carbonizados espalhados pelo piso. Lembro ter ouvido sons, mas não registrei algum elemento que os identificasse. Um navio é delimitado por caixas pretas, volumes cúbicos espalhados pelo chão a lembrar uma nave negreira. Caixões com nomes de pessoas perdidas para a vida. Madeira carbonizada a lembrar o fim de cada um, nas cinzas que serão reincorporadas ao ambiente. O ciclo recompõe átomos e moléculas. Esse conjunto define um corpo, que vive, morre e torna a se decompor. Nomes de histórias perdidas nos porões negreiros, histórias nunca reveladas de desterro. Seres feridos de morte que insistem em sobreviver. Dor e resistência compartilhadas com observadores desconhecidos, séculos depois, em local seguro.
O contraste foi a sensação percebida no diálogo observador-obra. Eu estava aparentemente seguro, livre para sair quando desejasse. Os mortos estavam presos aos caixões pretos e carbonizados, para sempre e sem esperança.
Experiência 3: Cildo Meirelles (1948, Brasil)
Vermelho é cor primária, marcante, impressiona o observador. Na instalação de Cildo Meireles há duas marcas instigantes. A primeira é formada por ambientes e objetos do cotidiano reduzidos a um denominador comum: o vermelho. A outra é composta pelos sons do vidro quebrando sob os pés dos visitantes que passam pela instalação.
O vermelho está em todas as partes. Nos livros, quadros, geladeira, sofá, todo o cotidiano familiar provocado pela cor pecaminosa que acorda os sentidos e movimenta a libido. O contraste é provocativo. Um lar típico é subvertido. Tudo o que se possa descrever posiciona o cotidiano de uma família burguesa. Tudo, exceto a cor. Vermelha de cabo a rabo, de cima a baixo. A cor alerta que nos bastidores do cotidiano familiar, permanecem os desejos reprimidos e os sentidos ávidos pela ruptura.
Um trajeto marcado no piso leva o visitante a um ambiente que sai do lar e envereda pela escuridão. A segurança abalada pelo vermelho é substituída por um trajeto que conduz ao êxtase. Uma explicação se configura diante de um tanque com uma torneira que despeja continuamente um fluido vermelho, o mesmo que alimenta a vida. Esse mesmo fluido quebra a lógica do cotidiano.
Em outra instalação, o observador entra em uma área quadrangular cercada por alambrados e cordas. O chão está coberto por cacos de vidro. O visitante ouve os seus próprios passos que estilhaçam os pedaços de vidro por onde pisa. Ouvir os estilhaços dá uma sensação ácida, pungente, cortante, o passante provoca a destruição do ambiente que visita. Lembro do ar frio do ambiente – estaria frio no lugar ou a minha mente entendeu que deveria estar? – que compõe, com os ruídos do vidro estilhaçando, um ambiente hostil cuja execução é completada pelo visitante. A obra me lembrou que vivemos no “antropoceno”. Esta é a era inaugurada quando passamos a esbanjar a energia fóssil que alterou a condição de vida no planeta. Por onde passamos, quebramos os cacos de vidro e provocamos destruição.
Eis o alerta do artista que instiga o observador a repensar a comodidade do lar burguês quebrada pelo vermelho. Ele expõe a destruição causada pela nossa passagem, por mais leve que tente ser.
A Volta
O exterior hostil, deu a tônica ao contraste. O caos é que dá relevância à harmonia sugere que o conflito é real e necessário. Não conseguiríamos sobreviver sem que os opostos dialogassem. Esta é a pura dissonância yin-yang expressa por Lao Tsu. A ausência dá substância à presença, a sombra valoriza a luz, a velhice complementa a juventude. Daí a energia desestabilizadora e ao mesmo tempo estabilizadora das obras de Kusama, Kilomba e Meireles. Os artistas realizando o seu papel de agitar a superfície do espelho d’água recriando a realidade.
A arte não serve para nada! Ainda bem que existem coisas sem serventia a não ser descontruir certezas, criar obstáculos e incomodar os sentidos adormecidos. Seria, talvez, uma maneira de interpretar as impressões de uma visita ao Instituto Inhotim. A viagem de volta foi leve, eu nem percebi a violência dos caminhões em trânsito pela estrada. Dá para enfrentar a vida. Ainda bem que a arte não tem serventia.
Um Olhar para Carmen

Caminhos em Albacín
Nas ladeiras de Albaicín, bairro que circunda o Alhambra, existem vielas que conectam, a outrora morada de nobres famílias mouras, ao centro de Granada. Para quem faz o trajeto do topo ao pé da colina, é preciso ter cuidado com o chão irregular e inclinado. Para qualquer direção que se olhe, se avista o vale que abriga a cidade. A cada passo, o ambiente pacífico esconde as pelejas havidas naquela paragem.
As marcas dos romanos, árabes, judeus e ibéricos estão visíveis, o local foi habitado pelos pelos mouros até a sua expulsão final pelos católicos reis de Castela e Aragão em 1492. Granada foi o último reduto árabe a cair. Uma revolta popular ocorreu em 1568 contra as limitações de culto impostas pelos reis católicos. Foi o estopim para o esvaziamento e decadência do lugar que ganhou o nome de Realejo onde se instalou um acampamento militar. Dos 30 mil habitantes contados em 1560, 5 mil restavam no censo de 1620. Sobre as mesquitas foram construídas igrejas com aspecto pesado, inequívoco sinal de poder e força.
Abandonado, o local foi ocupado por grupos sem lei, o mesmo ocorreu com o Alhambra, pérola da arquitetura, remanescente de uma época na qual judeus e árabes conviviam em paz e Granada era conhecida como Garnata al-Yahud, ou Granada dos Judeus. O Alhambra e o Albaicín restaram vazios da vida que antes era abundante, dos jardins, dos espelhos d’água e das alamedas, apenas as ladeiras sobreviveram como uma ponte ligando ao passado.
Carmen de Zhamar

O Albaicín atual é pontilhado por lugares recônditos. Nas suas vielas, aqui e ali, avista-se muros caiados e portões em madeira elaborada que protegem os ambientes dos olhares de quem passa pelo local. Eu ali, me perguntava o seria tão importante para ser protegido de maneira quase hermética? Uma grade de ferro que substituiu o portão de madeira permitiu que o meu olhar desvendasse o segredo mouro guardado desde os tempos. Eu pude ver Carmen, desnuda!
Carmen, um encontro consigo mesmo
Carmen da Espanha árabe. Carmen granadino. O nome Carmen tem origem hebraica que significa: vinha de Deus, um lugar sagrado onde cresce um jardim. Hoje, um carmen designa uma habitação urbana, granadina por excelência, enfeitada por jardins e hortas, um espaço protegido do exterior como os que existem nos bairros de Albaicín e Realejo. O aspecto urbano de um carmem surgiu depois da decadência que sucedeu a expulsão. No século XVII surgiu a configuração atual, um bairro com propriedades amplas, e jardins protegidos que originaram o carmen moderno cujas paredes, flores e pergolados guardam a história da intolerância.
O carmen atual convida à introspecção, a busca do recôndito proibido é a metáfora representada pelos muros caiados quase intransponíveis. Ao ver um carmem com jardins vinhas e hortas, me lembrei das aulas de paisagismo do Professor Jairo Ribeiro de Matos que cursei na Escola de Agronomia da Universidade de São Paulo que nos ensinou sobre os diferentes tipos de jardins. Uns desenhados para serem vistos, admirados, comportando apenas a presença do olhar observador. Outros, desenhados como locais de estar, lugares onde a presença humana é essencial, onde sombras e sons convidam a apurar os sentidos, ambientes onde se pode exercer a magia de parar o tempo e aplainar os solavancos da vida.
Carmen de Bellavista

Um carmen, como lugar de estar, existe para quem deseja usufruir da própria intimidade e permanecer isolado em contemplação e observação interna, atitude rara em tempos de hiper conectividade. Há quem adote origem latina de carmen para designar uma composição poética ou musical. O nome ganhou conotação religiosa como um local sagrado, um Carmelo onde irmãs religiosas passam a vida a orar. Uso alternativo, profano, se associou a personagens femininos dotados de espírito forte, como a cigana sedutora e sensual da ópera de Bizet de 1875. Um local para o exercício da contemplação só poderia ter um nome cujo significado pendular permitisse transitar entre o pecado e a pureza, entre a volúpia e a ascese.
Histórias do Edifício 1911: o aluno que cuspia fumo.
Quantas vezes julgamos pessoas a partir da aparência. Não raro evitamos contato com pessoas tomando por base o seu estereótipo. Resulta que cometemos erros e podemos perder a oportunidade de conhecer perfis interessantes. O relato a seguir conta uma dessas situações.
O edifício 1911 fica localizado no campus da Universidade do Estado da Carolina do Norte nos EUA, onde me graduei como PhD em Economia Agrícola. Foi construído para ser o dormitório dos alunos, posteriormente transformado em salas para alunos de pós-graduação. O nome dado ao prédio de estilo Vitoriano cuja elegância é marcada por colunas, janelas simétricas e tijolos aparentes, tem a ver com a rebeldia dos alunos que se posicionaram contra a tradição do trote a que eram submetidos os calouros. O prédio é de 1908 e a turma rebelde, de 1911, daí a homenagem pela coragem de se contrapor a tradições espúrias que serviam para delimitar o espaço de poder dentro do campus.

A minha sala ficava no centro do prédio – a janela está marcada na foto – por ser pequena eu a ocupava sozinho a não ser quando era necessário acomodar algum aluno por pouco tempo. Foi o que aconteceu no outono de 1981 quando um jovem, trajando chapéu e roupa de vaqueiro, dividiu o espaço comigo. Ao entrar na sala, eu o encontrei em uma escrivaninha colocada na minha frente, era impossível não olharmos um para o outro. Acenei com um cumprimento, mas não obtive resposta, pensei não ter sido notado, tentei novamente sem sucesso. Ao tomar o meu lugar notei que havia um recipiente no chão, ao lado da cadeira do meu novo companheiro de sala. Achei estranho, mas evitei perguntar do que se tratava.
Eu convivi no campus com os tipos de todo o mundo. Logo imaginei que tinha à minha frente um exemplar de aluno norte-americano do sul, marcado por atitudes preconceituosas contra pretos, e contra estrangeiros em geral. Enquanto eu tentava compreender o silêncio que se instalara entre nós, o meu colega – talvez eu possa chamá-lo assim – sacou um pacote do bolso do casaco e pegou algo que parecia uma massa homogênea que levou à boca inflando a bochecha do lado direito do seu rosto. Aquele volume permaneceu por certo tempo circulando na sua boca, ora inchando o lado direito, ora se alojando do lado esquerdo, até que aconteceu o inesperado. O jovem se debruçou sobre o recipiente ao seu lado e cuspiu um volume líquido de coloração escura que atingiu o fundo, ainda vazio, do spitoon, nome dado ao utensílio que conheci naquele dia. Uma cuspideira utilizada em bares e locais públicos frequentados por consumidores de tabaco de mascar.

A operação foi repetida algumas vezes ao longo do dia, exigindo repetidas manobras do jovem, que não errou o alvo uma vez sequer. Era impossível viver na Carolina do Norte sem saber do costume de mascar fumo que os colonizadores aprenderam com os índios que viviam no local. Convivi com o meu silencioso parceiro de sala por um mês. Soube que se tratava do filho de um produtor de tabaco, que participava em uma pesquisa sobre o produto. Em silêncio chegou, em silêncio permaneceu, e em silêncio desapareceu sem que eu tivesse conseguido romper a barreira de comunicação. Fiquei sem saber o seu nome, o que ele pensava de mim e perdi a oportunidade de conhecer um tipo diferente do perfil com o qual eu estava acostumado. Nunca saberei se foi melhor assim.
A experiência mais marcante dos quatro anos passados no campus da N.C. State foi a de conhecer variados tipos humanos. Aprendi que estereótipos resolvem o problema do observador que não deseja gastar energia para conhecer pessoas diferentes. Estereótipos são generalizações compartilhadas, associadas a uma raça, religião, nacionalidade, ou a um simples tipo como um morador de rua, ou um cowboy mascando fumo. Podem vir carregados de preconceitos e ignoram o mais relevante: as características complexas dos indivíduos.
Quando eu decidi estudar na Carolina do Norte fui alertado que encontraria um país conservador, racista e preconceituoso e que os estudantes norte-americanos nunca travariam contato comigo. Não posso endossar este preconceito, encontrei colegas norte-americanos que me ajudaram na minha pesquisa mais do que o meu orientador e se mostraram pessoas de raro caráter. Depois de quatro anos retornei ao Brasil, enriquecido pelos encontros que tive. Assim foi com os primeiros chineses que receberam permissão para estudar nos EUA, resultado do estabelecimento de laços diplomáticos com a China. Tive colegas coreanos, indianos, australianos, sudaneses, franceses, ingleses, gregos, e uma amiga, com quem mantenho contato até hoje, de origem taiwanesa, além de pencas de brasileiros, bolsistas como eu, que foram estudar ciências agrárias. Aprendi muito com aqueles que passaram pela minha pequena sala no 1911 Building.
Na Carolina do Norte presenciei, com medo e repulsa, uma passeata da Ku KLux Kan. Por outro lado, foi lá que eu vi nos anos 1980 uma celebração do dia do orgulho gay, que no Brasil só viria a ocorrer em 1997. Foi naquele país, dito conservador onde participei de uma reunião com um grupo que celebrava a Revolução Sandinista de 1979 que substituiu o ditador de direita, Somoza, pelo ditador de esquerda, Daniel Ortega, que ainda anda por lá. Pobres nicaraguenses, massacrados pelas ideologias. Nem a polícia, nem o exército apareceram para atrapalhar os manifestantes, como aconteceria no Brasil dos anos de chumbo.
Conheci conservadores e progressistas nos EUA. Tentei, mas tive dificuldade, me aproximar da comunidade preta norte-americana, cujo isolamento pode ser compreendido pelo histórico de violência vivida naquela região, onde nasceu Nina Simone, e em uma Universidade onde até os anos 1960 não era permitido o ingresso de pretos. Eram, e ainda são, discriminados, mas ovacionados quando faziam maravilhas nas quadras de basquetebol, onde vi Michael Jordan antes de ser famoso e seguir para o Chicago Bulls.
Aprendi a ter cuidado com estereótipos, o que não me ajudou a resolver o fracasso por não ter descoberto o significado do silêncio do meu colega de sala, aquele vestido de cowboy que cuspia fumo.

