Islândia, Futebol e Literatura :

Islândia, Futebol e Literatura :

O time nacional da Islândia enfrentou a seleção da França nas quartas de final da copa da UEFA de 2016. Perdeu o jogo, mas gostei de torcer pelo time semiprofissional da ilha do ártico formado por atletas de pequenos times da Europa cujo técnico é dentista por profissão. A minha preferência tem a mesma razão da escolha que fiz pelo Juventus da Mooca como o meu time do coração. Mas como? Eu não sou descendente de italianos e nasci no Bom Retiro e não na Mooca! Explico, o time da Islândia demonstrou que o homem comum representa o verdadeiro espetáculo da vida. Os atletas não sucumbiram, ao menos por enquanto, ao canto da sereia que desencaminhou os ronaldos, os patos e os neymares que se vestiram de brilhos e passaram a viver uma vida esterilizada, descasada do mundo real. São algo que se convencionou chamar de celebridades. Ao visitar a Islândia compreendi o espírito simples do povo islandês. A fragilidade dos seus habitantes expostos aos desígnios da natureza os obriga a construir estradas e pontes sem luxo, pois a cada 50 ou 60 anos uma erupção varrê-las-á do mapa. As casas são simples como simples é a vida dos habitantes da ilha. Sem idealizar, são pessoas que como qualquer um de nós tem as suas fragilidades, desvios e preconceitos. Me recordo de um episódio quando um grupo de jovens islandeses cuspiu na nossa direção quando caminhávamos pela praça principal da cidade de Reykjavík. Reagem ao estrangeiro como vemos acontecer em outros locais da Europa. Foi ao final da segunda guerra que o país ganhou independência, mas a presença das forças da OTAN, as novas indústrias, a urbanização acentuada e o crescente contato com outros países, romperam o isolamento da sociedade islandesa. Reykjavík abrigou o jogo de xadrez entre Fisher e Spassky em 1972 e foi lá que Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev se encontraram em outubro de 1986 traçando a rota para o final da guerra fria. As artes refletiram a ruptura com os conceitos tradicionais, na pintura, escultura e na arquitetura, basta observar a catedral de Reykjavík. A literatura chama a atenção pelo seu enraizamento social que levou a UNESCO a considerar Reykjavík uma das capitais mundiais da literatura. Um país cujo símbolo são as “Sagas”, um conjunto de textos que relatam a história do povo islandês, só poderia amar a literatura. Uma lista de nomes de autores aparece no pós guerra como Snorri Hjartarson, Jón Jónsson, Einar Bragi Sigurdsson, Elias Mar, Gudbergur Bergsson, Frida Sigrdardóttir e Alldór Laxness (na fotografia acima), o mais conhecido dos autores islandeses. O tamanho da lista contrasta com o tamanho do país, com poucos habitantes que são leitores dedicados e cultuam os seus escritores, tal como vi no museu dedicado a Thorbergur Thordarson (website: thorbergur.is). Outro museu que abriga a memória de Laxness, foi montado na sua antiga morada, que transpira vida tal qual fosse habitada pelo escritor. A equipe de futebol da Islândia não serve para quem deseja falsos ídolos, mas é importante para quem busca valores. A vida simples é a lição que a Islândia nos dá, sem brilhos, sem celebridades efêmeras, cultivando a literatura do dia a dia e a vida do homem comum. Ah, o Juventus da Mooca também.

Em junho de 2018 a seleção da Islândia, sob o comando do mesmo técnico-dentista, empatou com a seleção da Argentina. Nos últimos anos o turismo cresceu no pequeno país que passou a sofrer transformações consideráveis. Se, por um lado, ainda não perdeu o caráter de intimidade conferido pela pequena dimensão, por outro lado o isolamento foi rompido, com todos os efeitos que tal fato poderá gerar. Alguns dos jogadores da seleção agora jogam no rico futebol da liga europeia. Uma coisa não mudou, o país continua sendo um país de escritores, os vulcões e os glaciais continuam a sua presença altiva, silenciosa, permanente.

Scholem Aleichem (1859-1916)

Viva Scholem Aleichem (1859-1916)  – No ano do centenário da morte do escritor – revisado em 2023

Qual o alcance da pena de um escritor? Qual a sua função na sociedade? O olhar do escritor nos ajuda a compreender o passado? Os escritores seriam profetas que lançam luzes sobre o futuro? A obra de Scholem Aleichem sugere respostas a estas questões.

O dia 31 de maio de 2016 marca o centenário da morte do autor cuja obra retratou o cotidiano dos judeus da Europa oriental até o início do século XX. O escritor nasceu em Pereieslav, cidade que fica na província Poltava, na Ucrânia e cidades como Kiev, Baranovitch, Kasrilevke, Paris, Viena, Vilna, Odessa, Lodz, são citadas em sua obra. Viveu na região onde havia considerável presença judaica que desapareceu com o holocausto. Diferente da maioria dos jovens judeus, Scholem Rabinovitch – seu nome oficial – estudou na escola comum, o que era raro pois aos judeus só era reservada uma restrita quota de acesso. Em um dos seus contos chamado Gymnasia, o autor explorou o drama de um menino que desejava estudar mas foi barrado pelo limite de alunos judeus que podiam frequentar a escola na Rússia czarista. Na época os judeus desfrutavam de quotas, porém `as avessas. Na escola aprendeu o russo, idioma que utilizou no início da sua atividade literária, na sinagoga aprendeu o hebraico que renascia como idioma laico, mas foi o ídiche que adotou como seu idioma literário. Na sua infância frequentou a Casa de Estudos, o heder, aonde conheceu métodos didáticos arcaicos associados ao ensino das escrituras, explorados na sua obra.

O ambiente hostil dos pogroms e a onda de antissemitismo crescia na região. Em Kiev, descobriu que não teria direito de se estabelecer como cidadão. A crescente instabilidade social afetou sobremaneira a sua obra, a mesma motivação o levou a focalizar, na sua escrita, não as grandes cidades mas sim a shtetl, a pequena vila onde os judeus levavam seu cotidiano marcado ao mesmo tempo pela miséria material e pela riqueza de tipos humanos. Os nomes dos locais que frequentam a sua obra, como Kasrilevke ou Zlodievke podem significar qualquer uma das vilas de onde emigraram os judeus em busca de refúgio, deixando no solo europeu e o pouco-quase-nada que tinham de bens. O idioma iídiche permitia retratar, com riqueza de detalhes, a pobreza e a alegria, a miséria e o humor, o drama e o sofrimento, característicos do período. Como afirma Inwing Howe, o autor conhecia intuitivamente que a fronteira entre a comédia e a tragédia é uma linha tênue, por vezes inexistente. Tendo na sua raiz elementos do alemão, eslavo e hebraico, o ídiche era a falado no ambiente polilinguístico onde os judeus dividiam o espaço, mas não as instituições, com as populações cristãs. O idioma, um reflexo da realidade social, funcionava como a língua popular que se distinguia do hebraico, falado nas casas de estudo e de oração. O ídiche era apropriado para lidar com os tipos comuns como; o shleper (maltrapilho), o entregador de água, o shames (bedel da sinagoga), o mohel (que cumpre o ritual da circuncisão), o gabai (administrador da sinagoga), o shlim-mazel (azarado), o alfaiate, o daian (juiz), o schohet (faz o abate ritual dos animais), o hazan (cantor da sinagoga), o schnorrer (miserável) a casamenteira e o rabino.

O crítico Borukh Rivkin afirma que Scholem Aleihem construiu um universo ficcional sólido e realista, para compensar a crescente insegurança, a hostilidade, a intolerância e a falta de um território e uma nação próprios. Se uma língua reflete o momento do grupo social que a utiliza, o século XX vivenciou o fim do idioma ídiche, reflexo do fim da cultura enraizada na Europa cuja população seguiu três caminhos. Alguns foram para Israel, a exemplo de intelectuais como Gershom Sholem e Martin Buber, e adotaram o hebraico atraídos pelo movimento sionista cujo inicio ocorreu no século anterior. Outros seguiram para as Américas e adotaram os idiomas locais, seja o inglês, o espanhol e o português, a exemplo de Isaac Bashevis Singer e Scholem Aleihem, nos EUA. No Brasil cabe citar nomes como; Stefan Zweig, Jacó Guinsburg, Anatol Rosenfeld e Boris Schnaiderman. Os que permaneceram em solo europeu encontraram o seu destino nos campos de concentração e nos guetos, como Janusz Korczak, e outros escolheram outra saída, como Walter Benjamin e Primo Levi.

A Obra Reflete a Vida: A obra de Scholem Aleichem, ainda que prenunciasse os tempos difíceis que viriam, é obra que celebra a vida. O convívio com as rotinas da schtetl lhe deu suficiente munição para o seu trabalho literário. Os imigrantes seguiram a vida a seu modo, no Bronx, no Once, no Bom Retiro, no Bomfim, ou na Praça 11. De algum modo, a motivação presente na obra de Scholem Aleichem influenciou os escritores judeus estabelecidos nas Américas. A narrativa em primeira pessoa marca o seu estilo literário que se aproxima da tradição da narrativa oral. O narrador conta o fato ocorrido quase sempre centrado no drama humano presente nos eventos simples do cotidiano. Mesmo quando o personagem é um animal, o drama humano aparece por contraste. A criança que rouba um canivete, objeto do seu desejo, a mulher que quer uma cabra e tortura o marido até que a consiga comprar, o relógio que bate treze vezes, o cavalo velho chamado Matusalém, ou Robtchik, o cachorro perdido expulso pelos cães locais que não querem dividir o osso, o roubo do dinheiro no Yom Kipur, são narrativas que envolvem fatos e personagens com os quais nos identificamos em qualquer tempo e lugar. Recorro ao lugar comum para reafirmar que o caráter universal dos seus personagens é a marca da sua obra. A mãe que se preocupa com a entrega do filho para a casa de estudos, a figura do leiteiro, do bedel da sinagoga, do entregador de água, todos são imagens que, por um lado marcam um modo de vida que não sobreviveu ao tempo, por outro encontram paralelo na nossa vida metropolitana do século XXI.

Alguns dos perfis que desfilam na sua obra refletem a sua experiência, como o pai doente, o professor cruel, a mãe dominadora. Talvez o perfil de Tevye, o leiteiro, seja o mais conhecido por ter inspirado a obra O Violinista no Telhado. A explicação do sucesso dos tipos criados por Scholem Aleichem traz mensagem que extrapola o drama do judeu da diáspora. Na verdade representa o drama de todas as culturas premidas pelo exílio e consequente convívio extra muros que põe em risco a preservação do seu modo de vida. Seja um cigano vivendo nos Estados Unidos, um japonês no Brasil ou no Peru, um índio brasileiro do Xingú, todos compreenderão o drama de Tevye cujos filhos seguiram caminhos não programados. Uma filha foi para a Sibéria, outra se casou com um goi (não judeu), uma terceira ficou viúva, outra se suicidou e outra se casou por interesse e seguiu para a América.

Os seus contos trazem elementos de contemporaneidade. O furto do dinheiro da comunidade durante cerimônia no Yom Kipur tinha um suspeito, o visitante recém chegado e desconhecido que seguiu as orações com fervor. Toda a comunidade, ao negar o roubo, não deixou outra saída para o Rabino a não ser revistar cada um dos presentes. Foi quando um deles chorou e esperneou, não querendo ser revistado, e todos entenderam que haviam encontrado o ladrão do dinheiro. A surpresa, que caracteriza o conto enquanto estilo narrativo, veio ao abrirem suas vestes onde encontraram não o valor furtado, mas os ossos de um frango recém devorado. A transgressão deixou de ser o roubo mas sim a não observâncias do jejum. O autor do roubo passou a ter papel secundário, a verdade nunca se revelou mas sim a da transgressão religiosa.

No conto “Os dois antissemitas”, dois homens inequivocamente judeus a partir da sua aparência, tudo fazem para negar a sua identidade durante uma viagem de trem. No restaurante pedem comida impura (não kasher). Ambos, sem se conhecer, compram o conhecido jornal antissemita e com ele cobrem os seus rostos durante a viagem de trem. Ao acordarem, ambos se olham e desconfiam das identidades. Um deles tem a ideia de assobiar conhecida canção judaica, Ao fazê-lo eles se identificam, desistem de dissimular a identidade e passam a dançar e cantar em público. Ou seja, no momento em que eles se aceitam como judeus, o olhar dos outros deixa de ser o mais relevante. O pior antissemita é aquele que não assume a sua própria identidade.

Tendo perdido parte da herança recebida do seu sogro e desfrutando de reconhecimento como escritor, Scholem Aleichem seguiu para os Estados Unidos, primeiro para ministrar palestras e depois em caráter definitivo. Depois dos pogroms ocorridos ao redor de 1905, Sholem Aleichem viajou para Nova Iorque, retornou para a Europa em 1906 e para Nova Iorque pouco antes de falecer em 31 de Maio de 1916. Viu surgirem e colaborou com diversos jornais escritos em iídiche. Conheceu uma fase rica do teatro ídiche. Os seus textos foram traduzidos para o inglês, como “Holiday Tales of Sholom Aleichem” que conta histórias para crianças, obra organizada e traduzida por Aliza Shevrin (Alladin Books, 1979), ou a coletânea “The Best of Sholom Aleichem” editado por Irwing Howe e Ruth Wisse (New Republic Books, 1979). Esta coletânea traz, a título de introdução, uma longa troca de correspondências entre os organizadores que viviam, um no Canadá e outro nos Estados Unidos. Os organizadores tecem, pela via epistolar, uma análise da vida e obra do autor.

No Brasil temos a coletânea que leva o título “A Paz seja Convosco”, organizada por Jacó Ginsburg, com notas e textos de Otto Maria Carpeaux, Tatiana Belinki entre outros. Esta obra, parte da coleção “Judaica” editada pela Editora Perspectiva, surgiu para celebrar 50 anos da morte do autor. Nos dias atuais, ao lembrarmos da obra deste autor, cabe uma reflexão. Qual o alcance da pena de um escritor? Qual a sua função na sociedade? O olhar do escritor pode ajudar a compreender o passado? Ou quem sabe, profetizar, lançar luzes sobre o futuro?

A resposta é “sim”, literatura exerce estas funções e mais. Ao observar o mundo contemporâneo, Scholem Aleichem não se surpreenderia ao ver os refugiados deslocados dos seus países a vagar em busca de um porto seguro, tampouco se surpreenderia ao ver o pensamento radical extremista, a intolerância religiosa e étnica. A obra de Scholem Aleichem é atual pois o drama humano não mudou, nem o papel da literatura.

Sholem aleichem (a paz seja convosco).

Decio Zylbersztajn

Abril 2016 – Revisado em Janeiro de 2023.

Impressões sobre a Islândia

 

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A Escassez que nos Falta: impressões sobre a Islândia

Bemvindo a Thingvellir. Fica na Islândia às margens do rio Oxara. O local tem significado central na vida dos islandeses até os dias de hoje. Encontros, cerimônias cívicas e datas importantes lá são celebrados atraindo milhares dos 300 mil habitantes do país. Evidente sentido de civismo e orgulho nacional marcam o local e a maneira pela qual os islandeses o distinguem.

No ano de 930 a Althingi, a assembléia geral, foi instalada e funcionou ininterruptamente até 1264 com plena atividade legislativa e cumprindo o papel de suprema corte de justiça. Thingvellir está estrategicamente localizada fora da capital, Reykjavik, o que visava facilitar o acesso das comunidades mais distantes, em um país que manteve vilas isoladas até recentemente. Em várias partes do país as geleiras e a falta de portos na costa, fizeram com que a sobrevivência dos habitantes dependesse da cooperação e do trabalho para, literalmente, colher no verão o feno a ser utilizado no inverno para alimentar as criações. Qualquer falha significaria a fome. O período de junho-julho é marcado pelas pastagens pontilhadas de grandes fardos de feno cobertos por um plástico branco. É a necessária poupança para o inverno de escuridão plena que virá em breve.

Até o final da primeira fase da organização política da Islândia, Thingvellir era o centro das grandes decisões. Não havia um rei, pois os “clans” que se estabeleceram nas quatro áreas da ilha não conseguiam definir uma única liderança. As disputas eram decididas em Thingvellir onde atuava um juiz, o “Law Speaker”, que conhecia e recitava as leis. Não havia então um código formalmente escrito. Toda a população tinha acesso ao local e ao encontro anual.

A Islândia ficou sob o domínio da Dinamarca a partir de 1662. O local perdeu a relevância legislativa, mas manteve o funcionamento da corte suprema até 1798. Nos séculos XIX, XX até os dias de hoje manteve o valor simbólico para os seus habitantes. A moderna história de independência do país começou em 1944, em plena segunda guerra mundial, quando a República da Islândia foi fundada ganhando autonomia da Dinamarca com base em um regime presidencialista parlamentar. Thingvellir foi o local escolhido para realizar a cerimônia embora a casa legislativa hoje funcione na capital.

O histórico local é hoje um Monumento da Humanidade, assim definido pela UNESCO. Fica em meio a um parque nacional. Chegando ao sítio procurado eu segui as indicações e cheguei a uma encosta escarpada de onde se pode avistar uma área plana cortada por um rio e seus meandros. Ao longe achei aquilo que procurava. O antigo parlamento lá está, com uma construção caracterizada por quatro pequenas casas adjacentes, quatro telhados pontiagudos, ladeados por uma pequena igreja. Para um visitante episódico como eu, senti a plena força das instituições e da organização da sociedade.

A sobriedade da Islândia é marcada pela luta contra as ameaças da natureza. Quem coopera sobrevive, quem se isola perece. Em circunstâncias difíceis, só instituições fortes e bem implantadas podem permitir a sobrevivência de uma sociedade. A escassez de recursos no país exige uma vida caracterizada por regramentos rígidos que por sua vez premia a população local com o mais elevado índice de desenvolvimento humano do mundo. A renda de 46 mil dólares per capita em 2005 era a quinta maior do mundo. A indústria é baseada na pesca, alguma lã, e uma indústria de alumínio para lá atraída pela energia geotérmica abundante.

Sem obras faraônicas e contando cada tostão gasto, assim vive o país que tangencia o círculo polar ártico. Grandes pontes que ligam o sul, onde fica a capital do país, ao norte, foram varridas do mapa quando uma erupção vulcânica ocorreu na área da maior geleira, que cobre 10 % do país. O derretimento do gelo causou uma inundação de proporções catastróficas, devidamente registrada em filmes exibidos continuamente para os visitantes do parque nacional de Skaftafell. O fato ocorrido em 1976 deixou um rastro de desolação e morte.

Novas pontes foram feitas. São simples, de uma única pista e de estrutura metálica, um pouco a nos dizer que se nova erupção ocorrer, será mais fácil permitir que a natureza faça o seu trabalho. A fragilidade humana fica evidenciada no local.

Não pude deixar de pensar em Brasilia, também escolhida pela UNESCO como um patrimônio da humanidade. Comparada com Thingvellir, Brasília é suntuosa. Enquanto o primeiro é apenas um lugar de encontro entre cidadãos, Brasília é uma estrutura física privilegiada pelas formas modernas que chamam a atenção em especial quando vistas a alguma distância. Tentei traçar outros paralelos, mas não consegui. Como o contraste pela negação também nos permite entender a nossa própria sociedade, ficou claro que a abundância dos recursos no Brasil sempre foi de tal ordem que pouco regramento foi necessário para a sua utilização. A escassez nos faz falta.

Os dois patrimônios da humanidade, Brasília e Thingvellir são ética e esteticamente diferentes. Os sentimentos cívicos dos cidadãos dos dois países que resultam das diferenças éticas, sinalizam que crédito, orgulho nacional, respeito pelas instituições, normas de convívio e respeito social são as marcas necessárias para o desenvolvimento econômico.

Guardo a esperança de visitar, um dia, a esplanada dos ministérios em BRasilia e sentir a mesma sensação que experimentei ao chegar à escarpada encosta de Thingvellir. Certamente deverei esperar que os atuais habitantes do planalto central mudem os seus hábitos.

Não posso deixar de comentar que para melhor conhecer a alma da Islândia, sugiro a leitura da obra de Alldór Laxness. Em especial Gente Independente (traduzida), The Fish Can Sing e Paradise Reclaimed. O autor ganhou o Nobel de Literatura em 1955. A capital Reykjavik é uma das Cidades da Literatura da UNESCO.

Zylber Sztajn

 

 

 

 

Toponímias e outros nomes

Toponímias e outros nomes.
Existem nomes que chamam a atenção, mas nenhum me causou maior prazer estético do que Póvoa do Varzim, cidade entre o Minho e o Douro, onde nasceu o meu amigo Américo Craveiro. Fico a imaginar a sensação de ser questionado, “onde você nasceu?”, e ouvir uma altiva e bem acabada resposta. “Nasci em Póvoa do Varzim”, e ponto final. Há nomes que encantam pelo inusitado do possível significado, como São Sebastião das Três Orelhas, onde vivem minhas amigas Denise e Cecilia, outros nomes encantam pela sonoridade, é o caso de Toque Toque Grande, ou por informar alguma característica do local, que é o caso de Butantã, toponímia Tupi-Guarani que significa; lugar onde venta muito. Existem nomes que encantam pela sonoridade como, Freguesa do Ó – cantada por Gilberto Gil – outros que relatam a sua história, como a Estrada da Boiada, e outros que sugerem alguma característica, como a Praça do Por do Sol, o Beco do Batman, a Ladeira da Memória, o Largo do Piques. São muitos nomes ao nosso redor, e cada qual nos instiga a imaginar a sua origem. Em Piracicaba – e outras cidades do interior – existe a Rua da Boa Morte, que certamente vai morrer no cemitério. Ruas com nomes de flores abundam na Vila Madalena em São Paulo, como Margarida e Girassol, e a Rua Três Rios existe no Bom Retiro, o bairro central de São Paulo, onde eu nasci, local de confluência da graciosa rua da Graça e da Ribeiro de Lima. Se três rios ali existiram, devem estar enterrados sob o asfalto do bairro. Aliás, Bom Retiro é revelador da função que o local já exerceu, um local de sítios de recreio antes de tornar-se local das olarias situadas `a margem do Rio Tietê, e depois virar o bairro industrial, e hoje um local de comércio desmedido.
Além das toponímias, os nomes dos edifícios paulistanos também são reveladores. Na cidade de São Paulo percebe-se um modismo na escolha dos nomes, que revelam o possível ordenamento cronológico. Assim são os edifícios com o nome das matriarcas, que são comuns em Higienópolis, e em Santa Cecilia. É o caso dos edifícios Dona Carolina, Dona Veridiana cujos nomes informam que ali existiu uma mansão que não sobreviveu `a derrocada da bolsa em 1929 e do café. As famílias venderam as suas fazendas e puseram abaixo as mansões para saldar as dívidas. Ficou o nome da falecida. Nomes tupi guaranis representam outro período, como Indaiá, Paraty e Itaúna. Outros são atemporais, como Edifício Olimpo, uma construção da década de 60 no bairro de Santa Cecilia e o edifício Pirâmides bem no início da Alameda Santos. Em tempo mais recente, premidos pela exigência do mercado, os edifícios passaram a receber nomes em inglês, sugerindo a criatividade pífia dos marqueteiros das incorporadoras. Alguém acreditou que chamar um edifício de Open View, como é o caso da minha morada, é mais bonito do que Bela Vista, ou Vista Ampla. Pobreza de espírito das mentes colonizadas, que cultivam os lugares sem significado. Assim são os nomes como Market Place, Pinheiros Office, e Office Space. São nomes que não nos dizem nada. Um ou outro caso anômalo sugere que existe salvação para o mundo, como o Edifício Stan Gets em Pinheiros. Passo por lá a até ouço o sax bem tocado.
Acho que os nomes surgiram para facilitar a comunicação, mas as transformações impostas pelo mercado passam como um trator pelos significados íntimos que os nomes poderiam sugerir. Existem reações isoladas, como a de uma empresa de produção florestal, que contratou um historiador para redescobrir os nomes dos locais nas propriedades agrícolas por ela administrada. Saber que a curva do rio se chama toca da onça, podia evitar problemas para os frequentadores eventuais. Na maior parte das vezes, em clara ação de desobediência coletiva, os moradores preferem manter os nomes antigos em desalinho com os registros formais. Se visitarmos a cidade de Sapucaí Mirim, é bom que se saiba que ela é chamada carinhosamente pelos locais pelo nome de Aparecidinha e que Luiz Eduardo Magalhães, na Bahia, hoje município produtor de algodão e soja, já foi Mimoso do Oeste, aliás, muito melhor, mais sonoro e prenhe de significados. É bom saber que e Chapada Gaúcha fica no norte de Minas Gerais, ao lado do Parque Grande Sertão Veredas, onde foram parar os gaúchos vindo do município de Espumoso, em busca de vida melhor.
Nomes podem ser belos. Conheci uma moça em um arraial no interior de Minas Gerais que atende pelo nome de Última. O seu pai explicou tudo ao escolher o nome. Respiro fundo quando passo pelo Largo do Café e me encho de alegria quando caminho pelo Jardim da Luz, local onde eu brinquei boa parte da minha infância, e onde resiste um coreto dos mais bonitos que conheço. Os locais são depositários de história vivida por muitos, que anônimos ou não, ali deixaram as suas marcas. Apagá-las é como limpar a memória afetiva e coletiva, dando lugar a um mundo mais árido.
Por falar em memória afetiva, ainda vou conhecer Póvoa do Varzim. O sitio oficial da cidade informa sobre a origem do nome. Diz assim: no início era Terra de Varzim, ignoto senhor que a possuiu, em tempo não menos ignoto. Muito esclarecedor.