Sobre: MOONSTONE: the boy who never was : em tempos de epidemias, intolerância e histeria coletiva.
Sjon, 2013 -Tradução para o Inglês de Victoria Cribb, 2016.
O livro “Moonstone: the boy who never was do autor Islandês Sjon, trata da INTOLERÂNCIA, do isolamento e da repressão. O jovem Mani Steinn tinha 16 anos na Islândia do início do século XX, viveu com a mãe em um leprosário e é gay, duas verdades que ninguém poderia saber. O isolamento de Reykjavík era compensado pelos filmes europeus exibidos nas duas salas, o Cinema Velho e o Cinema Novo, e pelo porto que recebia navios dinamarqueses. A Islândia no início do século XX era colônia da Dinamarca, situação que persistiria até 1944. O autor apresenta elementos históricos que situam o leitor no início do século XX em Reykjavík. A vida na cidade foi impactada pela gripe espanhola que dizimou parte da população de 14 mil habitantes e pela erupção do vulcão Katla que coloriu os céus, fatos que tiveram como pano de fundo a guerra que acontecia na Europa cujos ecos eram sentidos na Islândia.
O menino vivia entre as duas salas de cinema e sobrevivia fazendo programas sexuais que lhe rendiam algumas coroas islandesas. Dividia um cômodo com uma velha senhora desde quando foi separado da mãe que permaneceu internada no leprosário. A relação com Sóla G tem especial papel na narrativa marcada pela motocicleta Índia e pelo lenço que ela deixou cair em algum encontro frugal.
O autor informa, de maneira crua e sem reticências, sobre a realidade do “menino que nunca foi”. A primeira cena desnuda o menino de programa que oferece favores sexuais nos becos escuros de Reykjavík. A descoberta daquilo que não deveria ser conhecido tudo mudou. Foi surpreendido em pleno ato com um marinheiro dinamarquês, o que desnudou a intolerância e resultou no degredo do jovem que foi enviado para a Inglaterra. O marinheiro sofreu as sanções constantes do código de conduta. O degredo na Inglaterra lembra a relação com o país para onde a população islandesa fugiu muitas vezes ao longo da sua história que foi pontuada por evacuações em momentos críticos.
A febre maldita, gripe espanhola, que dizimou parte da população e o leprosário onde eram internados os doentes que não deveriam ser tocados, representam uma metáfora da AIDS que chegaria ao mundo décadas mais tarde ao final do século XX. Uma doença maldita e pessoas intocáveis.
Sjon é um dos mais conhecidos autores contemporâneos da Islândia, seja pelo estilo de frases curtas e lapidadas, seja pelo uso medido da prosa, da escrita poética, e do uso da realidade mesclada ao fantástico. Imaginação e realidade se sobrepõem na escrita do autor. Sobretudo, Sjon vivencia a realidade da literatura contemporânea, presidindo o comitê gestor do programa da UNESCO “Creative Cities” que tornou Reykjavík uma das Cidades Globais da Literatura e presidindo o capítulo local do Pen International, associação global de escritores que apoia autores em situação de perseguição política, religiosa e ideológica.
A conclusão do livro traz surpresas que não devem ser antecipadas. Apenas cabe dizer que o passado encontra o presente, o real visita o imaginário e a ficção imita a realidade. Em tempos de Corona Virus, de isolamento de pessoas, as metáforas são atuais.
Zylber Sztajn