Impressões sobre a Islândia

Nada mudou em Brasilia desde a primeira postagem deste texto.

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A Escassez que nos Falta: impressões sobre a Islândia

Bemvindo a Thingvellir. Fica na Islândia às margens do rio Oxara. O local tem significado central na vida dos islandeses até os dias de hoje. Encontros, cerimônias cívicas e datas importantes lá são celebrados atraindo milhares dos 300 mil habitantes do país. Evidente sentido de civismo e orgulho nacional marcam o local e a maneira pela qual os islandeses o distinguem.

No ano de 930 a Althingi, a assembléia geral, foi instalada e funcionou ininterruptamente até 1264 com plena atividade legislativa e cumprindo o papel de suprema corte de justiça. Thingvellir está estrategicamente localizada fora da capital, Reykjavik, o que visava facilitar o acesso das comunidades mais distantes, em um país que manteve vilas isoladas até recentemente. Em várias partes do país as geleiras e a falta de portos na costa, fizeram com que a sobrevivência dos habitantes dependesse da cooperação e…

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Moonstone – livro de Sjón

moonstone

Sobre:       MOONSTONE: the boy who never was : em tempos de epidemias, intolerância e histeria coletiva.

Sjon, 2013 -Tradução para o Inglês de Victoria Cribb, 2016.

O livro “Moonstone: the boy who never was do autor Islandês Sjon, trata da INTOLERÂNCIA, do isolamento e da repressão. O jovem Mani Steinn tinha 16 anos na Islândia do início do século XX, viveu com a mãe em um leprosário e é gay, duas verdades que ninguém poderia saber. O isolamento de Reykjavík era compensado pelos filmes europeus exibidos nas duas salas, o Cinema Velho e o Cinema Novo, e pelo porto que recebia navios dinamarqueses. A Islândia no início do século XX era colônia da Dinamarca, situação que persistiria até 1944. O autor apresenta elementos históricos que situam o leitor no início do século XX em Reykjavík. A vida na cidade foi impactada pela gripe espanhola que dizimou parte da população de 14 mil habitantes e pela erupção do vulcão Katla que coloriu os céus, fatos que tiveram como pano de fundo a guerra que acontecia na Europa cujos ecos eram sentidos na Islândia.

O menino vivia entre as duas salas de cinema e sobrevivia fazendo programas sexuais que lhe rendiam algumas coroas islandesas. Dividia um cômodo com uma velha senhora desde quando foi separado da mãe que permaneceu internada no leprosário. A relação com Sóla G tem especial papel na narrativa marcada pela motocicleta Índia e pelo lenço que ela deixou cair em algum encontro frugal.

O autor informa, de maneira crua e sem reticências, sobre a realidade do “menino que nunca foi”.  A primeira cena desnuda o menino de programa que oferece favores sexuais nos becos escuros de Reykjavík. A descoberta daquilo que não deveria ser conhecido tudo mudou. Foi surpreendido em pleno ato com um marinheiro dinamarquês, o que desnudou a intolerância e resultou no degredo do jovem que foi enviado para a Inglaterra. O marinheiro sofreu as sanções constantes do código de conduta. O degredo na Inglaterra lembra a relação com o país para onde a população islandesa fugiu muitas vezes ao longo da sua história que foi pontuada por evacuações em momentos críticos.

A febre maldita, gripe espanhola, que dizimou parte da população e o leprosário onde eram internados os doentes que não deveriam ser tocados, representam uma metáfora da AIDS que chegaria ao mundo décadas mais tarde ao final do século XX. Uma doença maldita e pessoas intocáveis.

Sjon é um dos mais conhecidos autores contemporâneos da Islândia, seja pelo estilo de frases curtas e lapidadas, seja pelo uso medido da prosa, da escrita poética, e do uso da realidade mesclada ao fantástico.  Imaginação e realidade se sobrepõem na escrita do autor. Sobretudo, Sjon vivencia a realidade da literatura contemporânea, presidindo o comitê gestor do programa da UNESCO “Creative Cities” que tornou Reykjavík uma das Cidades Globais da Literatura e presidindo o capítulo local do Pen International, associação global de escritores que apoia autores em situação de perseguição política, religiosa e ideológica.

A conclusão do livro traz surpresas que não devem ser antecipadas. Apenas cabe dizer que o passado encontra o presente, o real visita o imaginário e a ficção imita a realidade. Em tempos de Corona Virus, de isolamento de pessoas, as metáforas são atuais.

Zylber Sztajn

Sobre Alcateias

lobo

Alcateia, palavra de origem árabe, designa um coletivo de lobos. Podem ser lobos, lobinhos ou lobões, uma família de lobos enfim. Não considerou o saudoso Aurélio que alcateias apreciam colecionar obras de arte, certamente por puro senso estético. Observações demonstram que alcateias podem ter mais de 1000 obras guardadas nas suas tocas. Dedicarei aos lobinhos e aos lobões que tanto apreciam arte, um poema de Ferreira Gullar, que também amava quadros, que era do Maranhão, que não era lobo e nem bobo.

Pintura

Eu sei que se tocasse

Com a mão aquele canto do quadro

Onde um amarelo arde

Me queimaria nele

Ou teria manchado para sempre de delírio

A ponta dos dedos. (Ferreira Gullar)

Veza Canetti – escritora

veza_canetti

Veza Canetti (1897-1963), nascida Venetiana Taubner-Calderon, escreveu desde os anos 20. Produziu romances, novelas, textos para teatro, contos e traduções. Antecipou o debate sobre o gênero, o que fica claro nos seus textos. O livro A Rua Amarela retrata o local do comércio de couro onde tipos humanos levavam uma vida empobrecida e mesquinha, as mulheres eram vendidas como mercadorias e as crianças sobreviviam à margem do mundo dos adultos. É um relato da vida em Viena do início dos anos 30 cuja decadência prenunciava tempos difíceis. O cenário, a Rua amarela, é um universo dentro de uma rua. Veza conheceu Elias Canetti em 1924 com quem se casou. Elias viria a receber o Prêmio Nobel de Literatura em 1981, vindo a falecer em 1994. O casal exilou-se em Londres em 1939, fugindo do nazismo. Veza faleceu em 1963 não sem antes destruir parte dos seus manuscritos em um arroubo de melancolia. Elias lhe dedicou o livro de ensaios “A Consciência das Palavras”.

Um Autor: Menis Koumandareas

koumandareas

Sempre gostei de fotografar barbearias. Talvez um atavismo explicado pela minha hereditária calvície – com a qual nunca disputei um milímetro. Ela tem vida própria e eu nunca interferi no seu lento e inevitável progresso. Resolvi compartilhar as fotos das barbearias que tirei em São João Del Rei, Diamantina, Roma, Praga e em outras cidades. Foi o bastante para mexer com os brios do meu amigo Kostas Karantininis, grego obviamente, que vive na Dinamarca. Kostas enigmaticamente pediu o meu endereço postal.
Semanas depois recebi um livro do escritor grego Menis Koumandareas que traz na capa a foto de uma barbearia em Atenas e cujo título replica uma frase de Pablo Neruda:
“El olor de las peluquerias me hace llolar a gritos”.
A edição é uma tradução para o Inglês do livro escrito originalmente em Grego, publicado em 1997. O título em Inglês, “Their smell makes me want to cry” foi publicado em 2004 pelo Centro de Estudos Bizantinos, Otomanos e Grego Moderno da Universidade de Birmingham. O autor publicou 24 novelas, livros de contos e traduziu para o Grego autores como H. Hesse, W. Faulkner, H. Melville, E. Hemingway e Scott Fitzgerald.
Sob protesto dos livros que aguardam pacientemente pela leitura na minha estante, passei Menis na frente dos demais e li cada um dos nove contos com o passo lento do tempo que sobrevive em algumas livrarias, cafés e nas barbearias. Em cada história, Eurípides o barbeiro, recebe clientes que se miram no espelho da barbearia, se despem e destrambelham a relatar as mais íntimas experiências. Atenas é o cenário, uma cidade que vive na memória coletiva e que sofre mudanças como todas as metrópoles do mundo. Eurípides ouve muito e pouco fala. Compartilha suas ponderações com o leitor criando uma atmosfera de cumplicidade. A barbearia com o espelho defronte da cadeira de barbeiro, oferece o quadro para o desenrolar de estórias de morte, desejo, vida marginal, de taras que de tão humanas não espantam o leitor, são verossímeis. Os relatos conexos me fizeram lembrar o Livro das Mil e uma Noites. Os contos são enlaçados pelo cenário, pela presença de Eurípides e pelo espelho a refletir os dramas humanos.
Em um dos contos, Eurípides ao ouvir o relato de um garoto de programa, esboça um sorriso. Indagado pelo cliente pela razão da reação, explica que ouvira estória parecida de outro cliente. Referiu-se ao personagem de outro conto defronte do mesmo espelho. A conexão intencional dos relatos promove uma densa rede de sensações que mesclam compaixão, culpa, doença, desejos ilícitos.
A leitura pausada que fiz resultou da profundidade dos relatos. Atenas poderia ser São Paulo, Nova Iorque, Tóquio. Eu precisava respirar entre um e outro clientes à frente do espelho. Ao concluir a leitura de pronto quis conhecer mais sobre Menis Koumandareas.
Existem traduções para o português? Achei uma obra em espanhol. Quem é o autor apresentado na orelha do livro cuja tradução do grego para o inglês foi publicada em 2004?
Fui buscar a resposta no Google que, sem respeitar a minha alegria por ter encontrado um autor extraordinário, informou com frieza indesculpável sua trágica morte ocorrida em 2014. O autor foi assassinado no seu apartamento em Atenas. Consta que Menis frequentava um café na proximidade do apartamento onde morava, estava com um amigo quando se desculpou e saiu às pressas pouco antes da meia noite dizendo que retornaria em breve. Com a demora, o amigo foi ver o que ocorrera, encontrou o corpo possivelmente asfixiado e o local revirado por algum assaltante. Nenhuma referência conclusiva sobre a causa da morte foi encontrada, a imprensa à época explorou o seu ativismo político e a participação em manifestações antirracistas.
Não quis ler os outros textos que o Google encontrou, senti como se tivesse perdido um novo amigo a quem acabara de conhecer. Resolvi enviar uma mensagem para Kostas que me contou a sua versão.
“ Sim Decio, Menis foi assassinado, possivelmente por um garoto de programa. Ele levava uma vida dupla, era homossexual e tinha 83 anos. ”
Não sei se é um fato verdadeiro pois a imprensa da época não fez esta conexão, é comum que a imprensa tente blindar a imagem de personalidades como fez com Pedro Nava no Brasil, que se suicidou ao sofrer a chantagem de um garoto de programa, o que revelaria a sua vida dupla. Perdemos o maior memorialista que conheço na língua portuguesa. Penso que a Grécia perdeu um grande escritor do realismo social moderno. Pensei no drama de Menis Koumandareas ao deixar o café de forma apressada. Qual o fato o teria motivado a subir ao apartamento?
Não sei responder, mas sei que nunca mais verei uma barbearia da mesma maneira.