Interdisciplinaridade: um debate (in)disciplinado

Interdisciplinaridade: um debate (in)disciplinado

Interdisciplinaridade: o que é?

O pesquisador que explora os limites entre áreas do conhecimento se arrisca a receber críticas. O especialista terá ferramentas para destruir um argumento de largo espectro, ou mesmo desafiar um conceito ou um jargão, cujo “real” significado tem domínio definido e não aceita que estranhos ousem dele lançar mão. É como se houvesse certo direito de propriedade definindo quem pode utilizar a teoria. A lógica especialista é parte do animus que motiva – de modo inconsciente – a produção acadêmica, com base na aceitação tácita de que não se pode gerar conhecimento senão dentro dos limites de um campo especializado. Qualquer passo perpetrado fora da delimitação conhecida e aceita, tende a expor o incauto pesquisador ao ridículo ou a uma crítica mortal que soará familiar aos ouvidos dos pares. Ao explorador restará o cadafalso ou o retorno à circunscrição da sua área de domínio.

A interdisciplinaridade pode ser definida como uma abordagem não especialista de um problema. Distingue-se da multidisciplinaridade que representa a justaposição – não integrada portanto – de áreas do conhecimento. Pode ser definida pela utilização de elementos teóricos oriundos de disciplinas disjuntas que se baseiam em construtos e adotam métodos independentes. J.Moran define interdisciplinaridade como qualquer forma de diálogo ou interação de duas ou mais disciplinas. Complementa dizendo que o nível, o tipo, o propósito e o efeito da interação, são temas a serem tratados ad hoc.

Cabe indagar o quanto se ganha ou se perde em termos de geração de conhecimento, com o reducionismo e a acomodação à disciplina especialista. Cabe indagar quantas respostas aos problemas da sociedade, interdisciplinares na sua raiz, permanecem oclusas, escondidas e protegidas sob o véu do saber especializado, fora do trajeto da lógica da pesquisa interdisciplinar que deixamos de trilhar. Esta a motivação do presente texto.

 

Interdisciplinaridade é a contramão da prática científica?

O significado de “disciplina” é o sentido de ordem imposta ou livremente assumida, que convém ao funcionamento de uma organização. A mesma raiz latina designa um conjunto de conhecimentos ou uma matéria de ensino. A hierarquização do conhecimento tem a ver com o surgimento das disciplinas, ordenadas portanto, a partir de elementos que constroem o conhecimento. A lógica aristotélica sugere o fracionamento do conhecimento em campos especialistas e este ordenamento define uma prática especialista e uma hierarquia, presente no debate contemporâneo entre ciências sociais e exatas, como ocorre na Economia, com reflexo na organização da Universidade governada a partir de departamentos especializados. Em contraposição ao reducionismo disciplinar, se coloca o saber filosófico, cuja raiz é integradora do conhecimento.   

O reducionismo científico levou ao paradoxo do saber mais, sobre um campo restrito, em detrimento de um conhecimento amplo, que caracterizou o homem enciclopédico até o século XIX. Entre os especialistas soa como puro diletantismo ter conhecimento fora do restrito campo especializado. Causa surpresa saber da amplitude dos interesses de personalidades como Da Vinci, Galileu, Einstein. Causa espanto saber que Richard Feynman, Professor da Universidade da Califórnia, Nobel em Física em 1965, dominou o seu campo do conhecimento mas que também estudou a interpretação dos hieróglifos dos Maias, foi músico e agitador cultural. É dele a frase:

 “Os poetas reclamam que a ciência retira a beleza das estrelas. Mas eu posso vê-las de noite no deserto e senti-las. Vejo menos ou mais?” Na palestra “Ode to a Flower” (que pode ser acessada no sitio http://www.feynman.com) Feynman explora a capacidade de ver o mundo real ao seu redor, afirmando que o cientista costuma ver pouco desta realidade e das possibilidades de explorar o Universo. Feyman, que está interessado em saber mais sobre o mundo e não em descobrir mais uma lei da física, nos convida a perceber e aceitar o estado de ignorância e não abominá-lo. Ou seja, vai além da questão da interdisciplinaridade científica. Propõe algo ainda mais desafiante que é um olhar sobre a nossa invencível ignorância, que talvez os poetas saibam explorar com maior competência.

A Universidade, como a conhecemos nos dias de hoje, aprofundou a segmentação do conhecimento de tal forma, que atingiu até mesmo a sua arquitetura. Um exemplo é a ocupação espacial do campus da Universidade de São Paulo e outros campi universitários, indutor do isolamento entre as áreas do conhecimento[1]. As diferentes tribos, para utilizar um conceito antropológico, se visitam em reuniões bem estruturadas e cuidadosamente conduzidas, de modo a não ferir a sensibilidade delicada de cada etnia que se encontra nos colegiados. No âmbito institucional, a disciplinaridade se instalou e serve de base para as negociações de contratações de docentes, para a construção de laboratórios e para a estabilidade da Universidade. Parece um caso de sucesso no qual as tribos crescem e se multiplicam, não entram em conflito aberto, aprofundando os laços culturais enquanto produzem. É a pax científica, que reina.

A fragmentação acadêmica se fortalece com o desenvolvimento de identidades particulares para cada grupo especialista.No livro “Identity and Violence: the illusion of destiny”, Amartya Sen explora o tema da identidade, de modo especial da pluralidade que nos caracteriza enquanto seres sociais. No prólogo do livro citado, o autor, Prêmio Nobel em Economia, descreve um episódio no qual o agente da imigração no aeroporto de Heathrow em Londres, examinando o seu passaporte lhe faz perguntas sobre a sua identidade. Ele tinha então o título de “Master of the Trinity College em Cambridge” e o seu endereço era “Master´s Lodge”, no campus daquela Universidade. O agente, ao examinar o passaporte daquele hindu, queria saber se o endereço indicado significava que ele era amigo do “Master do Trinity College”. Ou seja, uma pessoa com a tez escura, com toda a aparência de um hindu só poderia ser um hóspede na casa do Master. Escreve Sen, que se viu premido pela pergunta se ele era ele mesmo.

Amartya Sen utilizou o episódio, para explorar o tema da identidade dos diferentes grupos na sociedade, presente na raiz da maioria dos conflitos sociais, uma vez que a identidade influencia o nosso pensamento, crenças e ações. O mesmo autor segue o seu argumento e demonstra que, temos identidades múltiplas. Afirma: “..we do belong to many different groups, in one way or another, and each of these collectivities can give a person a potentially important identity.”  A cada momento elegemos quais os grupos sociais aos quais desejamos pertencer e definimos a sua importância relativa.  Seria insensato escolher um e apenas um grupo social.

Em ciência não é diferente. Cada identidade se caracteriza por uma linguagem própria, que é simbólica e se expressa pelo uso de jargões linguísticos particulares. O jargão é muito importante para facilitar a comunicação dentro do grupo e ao mesmo tempo cria dificuldades para a comunicação entre grupos. Observa-se que a identidade se materializa também no gestual, em alguns casos na indumentária e até mesmo no território onde o cientista habita. Os estereótipos são falhos mas nos utilizamos deles, simbolicamente, para trocar informações.

A identidade na produção científica é facilitador de relações. Um redutor de custos de transação que facilita o trânsito de ideias dentro do grupo e dificulta a interação com o outro grupo. O esforço da interdisciplinaridade não escapa da sina da exploração do desconhecido, devendo ser entendido como aquele esforço associado a riscos de um diálogo mais lento, cuidadoso e que pode ser facilitado se percebermos identidades comuns, compartilhadas portanto pelos membros dos diversos grupos. Tal identidade comum só pode ser calcada sobre valores sociais mais amplos e pelo conhecimento dos elementos fundadores da sociedade.

 

Casos, Exemplos e Exageros:

A Economia, como campo teórico, pode ser vista como um exemplo do fracionamento especialista. Diferentes abordagens dentro das ciências econômicas fragmentaram a comunicação nesta área do conhecimento com efeitos sobre o discurso, sobre o método, sobre as instituições e sobre a arquitetura dos centros de conhecimento.

Com uma abordagem bem humorada, Axel Leijonhufvud (1973) descreve a antropologia dos diferentes grupos de economistas. No artigo “Life Among the Econ.”, o autor explora a vida entre uma tribo de índios, a tribo dos Econ. Eles vivem em um vasto território do norte. A sua região é muito hostil aos estrangeiros, de modo especial às tribos dos Polscis e dos Sociogs. A despeito da herança comum, a relação entre as tribos é de desconfiança e pautadas cerimônias específicas e por tabus. A vida entre os Econ dificulta e torna perigoso o convívio com os estrangeiros. O autor conclui que “… a tribo do Econ não foi ainda devidamente estudada. A informação existente sobre a sua vida social é fragmentada, o que sugere a necessidade urgente de se estudar mais profundamente esta interessante tribo.”

Outro economista, Harold Demsetz, lança mão do conhecimento antropológico, desta vez sem o uso de ironia. Desenvolve um artigo sobre a origem dos direitos de propriedade, com base na atitude de duas categorias de tribos indígenas na América do Norte. Demonstra ou propõe uma teoria sobre o surgimento dos direitos de propriedade da terra, definidos como uma resposta eficiente para o uso de recursos naturais. Ou seja, a propriedade privada já era do interesse dos antropólogos, antes de interessar os economistas e de tornar-se uma das áreas relevantes de conhecimento interdisciplinar para a Análise Econômica do Direito.

Demsetz cita o trabalho de Eleanor Leacock, “The Montagnes Hunting Territory and the Fur Trade”, que se baseou no trabalho de Frank G. Speck sobre os índios da península do Labrador. O último autor revelou a relação destes índios com a propriedade privada do território, em contraposição aos índios do sudoeste norte americano, cuja tradição era de campos abertos ao uso comum, portanto prescindiam da definição de direitos de propriedade.  Leacock relacionou o surgimento dos diferentes regimes de direito de propriedade à prática da caça de animais para a exploração da pele. Sem os direitos definidos, haveria a sobre exploração dos recursos na região de campo aberto, motivada pela facilidade de realizar a caça. Possivelmente tribos que não desenvolveram mecanismos especializados de definição e proteção de direitos de propriedade, teriam se extinguido ou empobrecido.

A partir do estudo antropológico, Demsetz desenvolveu uma teoria de surgimento dos direitos de propriedade, por alguns autores considerada “naive”. Entretanto, Demsetz foi seguido por outra Economista, Elinor Ostrom, que veio a tornar-se a primeira mulher a receber o Nobel em Economia em 2009. A pesquisadora dedicou a carreira ao estudo dos arranjos sociais informais que explicam o uso sustentável de recursos naturais, com base no comportamento de diferentes grupos sociais. Estudou casos que indicam a relevância das regras sociais associadas à exploração sustentável dos recursos.

Tanto o trabalho de Demsetz, como de Ostrom, mostraram que o controle das externalidades pode ser o motor do surgimento de regras sociais eficientes. O resultado do trabalho é um exemplo da reaproximação entre a Economia e a Sociologia, que também caracteriza a literatura da Nova Economia Institucional, que consagrou nomes como Ronald Coase, Douglass North e Oliver Williamson, todos ganhadores de Prêmios Nobel, que compartilham a visão da importância do estudo das instituições – formais e informais – para a Economia.

Tentativas de explorar as interfaces disciplinares ocorrem em outros campos. A área da “Análise Econômica do Direito” é um exemplo que representa a razão de ser da série de iniciativas interdisciplinares.[2] Artigos e revistas especializadas surgiram nesta área, como o livro, “Análise Econômica do Direito e das Organizações” (Zylbersztajn e Sztajn,2005). A existência de uma base comum nas ciências sociais não impediu que as áreas da Economia e do Direito se afastassem a não ser quando o dilema de eficiência e equidade é tratado. Existem poucos Economistas dando aulas nas faculdades de Direito no Brasil e são raros os departamentos de Economia com juristas nos seus quadros. Em alguns casos a relação entre as áreas ficou restrita ao estudo da concorrência, coroada pelo convívio cordial entre os Economistas e Juristas nos órgãos de defesa da concorrência. Entretanto este convívio é tímido e não explora o potencial de pesquisa latente nos tópicos de interesse comum.

O convívio experimentado pelo Centro de Estudos de Direito Economia e Organizações, iniciativa de um grupo de pesquisadores da Universidade de São Paulo em 2001, levou não apenas ao debate sobre a interdisciplina que conduziu ao aprendizado mútuo sobre os jargões e tabus existentes em cada área. O convívio revelou que a interface vai muito além do debate da concorrência, permitindo um olhar inovador sobre direitos de propriedade, estratégia das organizações, direitos de decisão, contratos e acordos, que extrapolam em muito o campo das relações de produção. Dirão os Juristas que esta é a essência da teoria jurídica. Dirão os Economistas que o estudo da sociedade é a essência da teoria econômica. Entretanto se observa que tais essências se nublaram com o correr do tempo, fruto da especialização simplificadora e do enclausuramento do conhecimento.

A área da “Análise Econômica do Direito” evoluiu e, em alguns países, gerou uma nova tribo, com tabus e idioma próprio, em outros ela foi capturada por uma das duas tribos originárias. Ainda sabemos pouco a respeito da evolução desta área do conhecimento, se é que assim pode ser chamada. Como abordagem, tem proporcionado perspectivas inovadoras para o estudo da sociedade. Não duvido que alguns dos que se aventuraram na exploração do território proibido, pagaram alguma penalidade por tê-lo feito. Entretanto também reconheço que colheram resultados promissores da ousadia exploratória.

Crítica ao Reducionismo: a título de conclusão.

Considerando que a Filosofia tem o papel de ser o campo integrador do conhecimento, recorro a Ortega Y Gasset, para apoiar a conclusão deste ensaio. No seu livro “La Rebelión de las Masas”, Gasset(1992) escreve um capítulo que chama de “La Barbarie Del Especialismo”. O filósofo espanhol mostra que o avanço da sociedade ocidental teve base em dois pilares. A democracia e o desenvolvimento tecnológico. Ao mesmo tempo, critica o que denomina de “homem massa”, caracterizado pelo isolamento, impessoalidade e mecanização. O cientista, que deveria ser o perfil do homem de conhecimento, se amesquinha e passa a ser o protótipo do homem massa, como resultado do processo de fragmentação e especialização científica. Diz Gasset que o cientista passa a ser um primitivo, um bárbaro moderno.

O processo descrito pelo autor é o da especialização que levou à construção de campos intelectuais estreitos e à perda do contato com as demais partes da ciência. O apogeu do processo gerou um personagem discreto, conhecedor de um único campo do conhecimento, que proclama a virtude de ignorar tudo o que não tenha a ver com o seu campo de interesse. O especialista sabe muito do seu pequeno pedaço do universo, e ignora todo o resto. Se no passado, podíamos classificar os homens como sábios e ignorantes, o especialista não cabe nestas categorias. Gasset o chama de um sábio-ignorante. Comporta-se como um ignorante, e mantém a petulância de um sábio.

Gasset bate duro. Afirma (op. cit. p. 147) “ La advertência no es vaga. Quien quiera puede observar la estupidez com que piensam, juzgan y actuan hoy em política, em arte, em religión, y en los problemas generales de la vida y el mundo los “hombres de ciência”.

O alerta de Gasset é importante para a Universidade contemporânea, quando vemos surgirem modelos inovadores de geração do conhecimento nas empresas, nas organizações não governamentais. Em um tempo de hiperfluxo de informações, cabe indagar se o conhecimento profundo e especialista não pode conviver com o conhecimento enciclopédico, que por natureza se derrama fora do continente científico. Tomo o risco de afirmar que o conhecimento básico de filosofia, literatura, história, podem ser os candidatos para atuar como linguagem comum, facilitadora da comunicação entre os grupos especializados.  

Ao juntar as partes das leituras que me motivaram para escrever o presente ensaio não posso ignorar algo que foi comum ao pensamento de Feynman, Gasset e de outros cientistas, como Ernesto Sábato. Este último, um argentino que foi Ph.D. em física, trabalhou no Institute Curie em Paris, antes de tornar-se um dos maiores escritores da América Latina. Onde estão as coincidências?

Com base na experiência de Feynman, as óticas do cientista e do poeta são complementares para observar e compreender o universo. Com base Ortega y Gasset, no livro citado “A Rebelião das Massas):  “Da tragédia da ciência nasce a arte. Quando os métodos científicos nos abandonam, começam os métodos artísticos. Com base em Ernesto Sábato (2009), que abandonou a física pela literatura: ”… a menos que neguemos a realidade a um amor ou uma loucura, devemos concluir que o conhecimento de vastos territórios da realidade está reservado para a arte e somente para ela.

Nossas instituições estão profundamente desequilibradas na direção da ciência especialista. As entidades de fomento científico têm tímida ação para classificar revistas científicas em área multidisciplinar. A Universidade é segmentada e pouco faz para promover a interdisciplinaridade. O acesso dos alunos aos programas de pós-graduação, é feito com base no conhecimento codificado, específico de cada área.

Cabe indagar quantas respostas aos problemas da sociedade, interdisciplinares na sua raiz, permanecem oclusas, escondidas e protegidas sob o véu do saber especializado, fora do trajeto da lógica da pesquisa interdisciplinar que deixamos de trilhar, por esta ou aquela razão. Talvez Feynman, Gasset e Sábato tenham razão. Pode ser que fora da ciência como a conhecemos, nas artes, reside a revelação de regiões inexploradas pela mente humana.

Tulio Seppilli: o resgate do acadêmico

Tulio_Seppilli

Tulio Seppilli: o resgate do Acadêmico (in memoriam)

Sinto falta de dois tipos humanos, os estadistas e os acadêmicos. O acaso me levou a conhecer a Fundação Angelo Celli localizada no Mosteiro de Santa Catarina Velha em Perugia onde Tulio Seppilli me aguardava. Uma voz pelo interfone me orientou a abrir o portão de ferro que dava para o jardim. Entrei em um antigo mosteiro Beneditino transformado nas dependências da Fundação dirigida por Tulio Seppilli dedicada a estudos em Antropologia da alimentação e saúde humana. A equipe era formada por quatro Antropólogos, Anita, uma gata negra e, nos bastidores, Ana, a esposa chinesa de Tulio me aguardavam.

A atual sala de trabalho já serviu como área de refeições do mosteiro. Tem o piso e as paredes de pedra e o teto ostenta a forma de arcos com tijolos emparelhados de modo a conferir equilíbrio estrutural. A arquitetura sólida e equilibrada faz perfeita harmonia com o perfil de Tulio Seppilli. 

Tulio nasceu em 1928, filho da antropóloga Anita Schwartzkopf e de Alessandro Seppilli, médico sanitarista. A mãe foi autora de livros como Poesia e Magia e A exploração da Amazônia. O pai foi criador da cadeira de medicina social da Universidade de Perugia e da Fundação de Estudos em Medicina Social. A importância do trabalho científico e intelectual de ambos não foi suficiente para dar-lhes algum alento durante o governo fascista de Mussolini, que lhes roubou a cidadania. Eram comunistas de origem judaica, qualquer das duas identidades bastaria para tornar intolerável a permanência na Itália em 1935. Seguiram para o Brasil, onde foram acolhidos por famílias italianas. Os Seppilli se instalaram em segurança durante a guerra, o pai conseguiu um emprego na indústria farmacêutica em São Paulo, não podendo praticar a medicina.

O jovem Tulio foi estudar no colégio Dante Alighieri e depois na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, onde teve contato com os acadêmicos formadores das Ciências Sociais no Brasil. Estudou ou recebeu influência de nomes como Bastide, Levi Strauss e Hugon. A mesma matriz que formou Antonio Candido, Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Diva Benevides Pinho, formou também Tulio Seppilli. Findo o conflito a família retornou para a Itália em 1946 e Seppilli pai retomou o posto na universidade de Perugia. O filho concluiu os estudos no Brasil e retornou ao seu país onde desenvolveu estudos na área da Antropologia voltada à saúde e alimentação.

Eu conheci Tulio em Perugia no ano de 2010, em uma reunião com pesquisadores na área da Economia aplicada à Agricultura. Tentávamos estruturar um projeto de pesquisa que trataria do tema dos alimentos aglutinando as óticas da Antropologia, da Economia e do Direito. Após um dia de trabalho, Tulio – sentado ao meu lado – me perguntou em português claro e límpido se eu aceitaria um convite para jantar. Eu, surpreso com o domínio da língua portuguesa pelo Antropólogo com quem havia debatido durante todo o dia sem saber da sua ligação com o Brasil, aceitei o convite. Durante o jantar ouvi os detalhes da experiência acadêmica, da história de vida e do interesse pelo Brasil expressos por Tulio. Soube da sua contribuição para as políticas públicas de saúde mental, principalmente a desinternação de doentes mentais adotadas na Itália e do interesse pelas populações indígenas brasileiras, cujo desenraizamento cultural provocava problemas de suicídio entre os jovens.

Retornei a Perugia em 2012 para continuar o trabalho de cooperação com a Universidade de São Paulo. Fui recebido por Gaetano Martino, Economista Agrícola como eu, com quem compartilho interesses que vão além da academia. Debatemos literatura, arte e discutimos temas da organização da sociedade. Gaetano me passou textos antropológicos e outros que tratam da relação entre Economia, Agricultura e as outras ciências sociais. Ao me despedir do amigo ele me informou que mantinha encontros quinzenais com Tulio para debater temas de interesse comum. Eu lhe disse. – Que sorte a sua ter tal privilégio. – Gaetano não me respondeu, apenas concordou.

Ao me despedir de Tulio, no mesmo portão de ferro do Mosteiro de Santa Catarina – que segundo Tulio foi uma Santa que nunca existiu – ele me disse que viria ao Brasil dentro de duas semanas para uma série de conferências na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Eu o reencontrei em Junho de 2013. Na manhã marcada pelo clima chuvoso do início do inverno, enquanto as ruas ferviam com as reações de insatisfação da sociedade brasileira com o perfil da classe política. Tulio estava à mesa da sala de conferências da “Casa de Arnaldo”, na Faculdade de Medicina da USP, uma sala tradicional com a mesa do palestrante no nível inferior e as cadeiras do auditório postadas de tal forma que os presentes olham para baixo na direção do palestrante. Mesmo com a experiência acumulada de muitas décadas, Tulio parecia nervoso.

Eu, um professor de Economia das Organizações Agrícolas era um ser estranho no ninho, em meio a estudantes e professores de medicina. Sendo o palestrante quem era eu me senti à vontade, muito pela atitude inclusiva de Maria de Lourdes Beldi de Alcântara, a Lurdinha – uma Antropóloga dedicada ao estudo das comunidades indígenas brasileiras – colaboradora e amiga de Tulio Seppilli.

Tulio falou longamente e o tempo passou rápido. Tratou das relações entre saúde mental e saúde orgânica. Explorou as funções dos rituais no processo de cura. Discutiu a função do alimento e do ato ritual que acompanha a refeição. Debateu a importância da relação médico-paciente com exemplos claros aos ouvidos leigos de um economista. Discorreu sobre os obstáculos do modelo vigente da medicina de massa. Tratou da relação médico-paciente vista como parte de um ritual no qual o contato físico e a identidade fazem parte do processo de cura. Ao tratar do tema do alimento, me lembrou das aulas que tive na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP e dos trabalhos de Walter Radamés Accorsi, dedicado aos estudos de ervas medicinais cuja eficácia tinha muito a ver com os conceitos explorados por Tulio.

Seppilli trouxe à tona a desvalorização dos estudos sociais e antropológicos no atual cenário da pesquisa médica. Eu pensei no declínio da relação entre a Sociologia e a Economia, exatamente quando os Economistas e os Sociólogos mais deveriam realizar pesquisas conjuntas. Lembrei das aulas de Sociologia Rural que tive com José Molina Filho e Maria Ignez Molina na ESALQ, importantes para mim ainda hoje.

Tulio explorou temas marginalizados pela ciência, considerados exotéricos, lembrando que a ciência deveria estudar os fenômenos ao invés de ignorá-los. Segundo Tulio, temas como a possessão e os diferentes estados de consciência deveriam ser estudados pela medicina. Seppilli, lembrou que em uma cidade como Salvador, onde larga porcentagem da população frequenta os terreiros de Umbanda, o efeito da crença sobre a saúde pública deveria ser estudado. O enraizamento cultural importa para o equilíbrio. Túlio lembrou que existem dificuldades inerentes para o estudo de fenômenos sociais não replicáveis e não controlados. Certamente esta mesma dificuldade existe em todas as áreas das ciências sociais incluindo a Economia. Tulio me fez lembrar do trabalho de Simone Weil sobre enraizamento cultural como fonte de equilíbrio social, que devo ao amigo Ivan Vilela.

Não tive tempo para debater sobre a relevância dos estudos de caso, que são comuns na Medicina, no Direito e na Administração embora menos aceitos pela área da Economia, e não tive tempo para conversar mais com aquele homem notável.

Ao me despedir de Tulio Seppilli, por telefone, agradeci pela experiência que me proporcionou. O pensamento de Tulio tumultua as nossas certezas causa desconforto nas mentes dos ouvintes. Tulio me fez compreender que existe potencial para a pesquisa interdisciplinar, de modo especial para o diálogo entre a Sociologia, Antropologia e Economia, no meu caso, aplicados à agricultura. Em determinado momento Tulio me revelou que Gaetano, o meu colega em Perugia, está fazendo um – novo – doutorado em Antropologia, sob a sua orientação. Eu compreendi a razão das reuniões quinzenais e do seu interesse pelas ciências sociais.

O Brasil em determinado momento da sua história acolheu a família Seppilli, assim como acolheu Claude Levi Strauss e outros cientistas refugiados. Tal fato, além de ter gerado um resultado positivo para a ciência me faz pensar na importância e na responsabilidade que o Brasil tem, como um país capaz de acolher refugiados dos mais diferentes perfis. A Universidade de São Paulo, pode se orgulhar de ter tido em seus quadros discentes um jovem italiano que aqui estudou ciências sociais e que seguiu brilhante carreira, representando uma geração de Acadêmicos da melhor estirpe que se pode produzir. No plano pessoal, Tulio semeou idéias que ficaram reverberando na minha mente.  No dia 23 de Agosto de 2017, aos 89 anos, Tulio Seppilli faleceu na cidade de Perugia, Italia. 

Portas Abertas pela Educação: um relato pessoal

Portas Abertas pela Educação: um relato pessoal

img_3213

Atuo na área da educação superior e pesquisa científica faz 40 anos. A minha esposa – Rosmarie – aposentou-se como professora do segundo grau, depois de trinta anos de atividade ensinando matemática e ética. O debate sobre ensino e educação faz parte do nosso dia a dia. Com base nas nossas experiências com alunos de diferentes faixas etárias compreendemos a relevância da educação como agente de mudança e promotora de cidadania. Vivenciamos a deterioração da qualidade da educação, refletida nos alunos com os quais trabalhamos.

Eu conheci a minha esposa em uma escola estadual paulistana no bairro do Bom Retiro. Ainda hoje os ex-alunos do antigo Colégio Estadual e Escola Normal Dr. Alarico Silveira se reúnem periodicamente. É quando tenho a oportunidade de encontrar pessoas formadas no “ginásio” em 1968 ou no “científico” em 1971. Tenho o privilégio de rever amigos como o Homero, hoje escritor, que morava ao lado da antiga rodoviária no local hoje conhecido por cracolândia. Tenho contatos com o Roberto, Miquele e Alberto, todos médicos. Não tenho tido contato com o Baldi, também médico. Lembro do Breno e do Marcio, ambos médicos que “partiram antes do combinado”. Ambos foram pediatras com excelente reputação. Breno ensinava na Faculdade de Medicina da Santa Casa. Troco correspondências com o Alberto-Betão, hoje engenheiro, e com o Adolfo, que é advogado e sociólogo, recentemente por meio das redes sociais encontrei Cláudio e Maria da Graça, ambos casualmente morando na mesma cidade. O Ito, que também nos deixou, era poeta e músico. Era filho do zelador de um edifício na São João, onde costumávamos brincar a apreciar a vista do último andar, teve sucesso como homem de marketing. A Rosa é artista plástica com um atelier na Vila Madalena, a Sonia é advogada, professora e mestre em Direito, formada no Largo São Francisco e outra Rosa é psicóloga no Rio de Janeiro. Débora formou-se em línguas e hoje mora nos Estados Unidos, onde a Mari também vive, tendo seguido carreira de executiva em um banco internacional.

O leitor pode perguntar qual a razão de eu mencionar estes nomes tão pouco relevantes para quem não nos conhece. A resposta é que o grupo de pessoas citadas teve algo em comum. O acesso ao ensino público de boa qualidade. Fizemos o primário no Grupo Escolar Marechal Deodoro na Rua dos Italianos e o colegial e o científico no Alarico Silveira, que na época compartilhavam o mesmo endereço. Era um truque do governo militar, para dobrar o número de escolas. Os estabelecimentos funcionavam no mesmo endereço, em horários diferentes.

Tínhamos em comum a origem simples de filhos ou netos de imigrantes ou de gente que trabalhava no comércio e serviços na região central da cidade.  Conviviam no espaço público, os filhos de judeus, de italianos, de japoneses, de gregos, negros, brancos ou mulatos. Os coreanos ainda não tinham chegado ao bairro. No domingo pela manhã frequentávamos a escola, para treinar basquete, sob a batuta do professor de educação física. Tivemos em comum o uso de um espaço físico que se deteriorava a olhos vistos – os banheiros eram impossíveis de serem utilizados – O problema era compensado pela presença de Educadores de qualidade como Luiza Helena, que me ensinou geografia na escola primária, Raquel Geverts (Fisica), Chana (Matemática), e Violete Nagib Amary que nos ensinava Português apoiada na atividade de criação cênica. O trabalho de teatro e literatura foi dirigido por Evaristo de Oliveira, um apaixonado pelo teatro, que nos apresentou as técnicas do laboratório de Jerzy Grotowski e com quem acompanhamos o teatro de Augusto Boal e de Vianinha.

Guiados pelas amizades do Evaristo com profissionais das artes cênicas, assistíamos os espetáculos no dia da classe ou no enterro das peças em cartaz, o que nos poupava de pagar a entrada. Evaristo foi uma amizade sincera, até que soubemos da sua morte, não pela AIDS que o acometera, mas por atropelamento na Praça das Bandeiras. Não tenho como esquecer da montagem de O Alienista de Machado de Assis, ou de um espetáculo chamado “Falou e Disse” produzido pela Professora Violette e dirigido pelo Evaristo, apresentado no Teatro João Caetano pelo TEDRAS – Teatro Estudantil Dr. Alarico Silveira. Tudo isto acontecia na escola pública.

No antigo primário, o ensino de música utilizava o conceito lançado por Mario de Andrade, baseado na musicalização pelo canto orfeônico que utilizava um instrumento natural – as cordas vocais – para trabalhar o cancioneiro popular brasileiro que davam a base para o nosso estudo. A Professora Iolanda de Quadros Arruda nos ensinava música, vindo – se bem me recordo – de Santos todos os dias. Vi por acaso, o seu nome em um livro de música achado em um sebo em São Paulo. A escola pública tinha, então, um teatro, com palco e um piano, onde a Maria da Graça Martins – que se formou matemática – demonstrava a sua qualidade pianística. O espaço foi transformado em várias salas de aula apertadas, anunciando a mudança dos tempos.

A Educadora Raquel Gevertz, nos levou a conhecer as faculdades de medicina e engenharia. Com ela fomos visitar a Escola de Agricultura da USP em Piracicaba, onde fiquei impressionado com o Centro de Estudos Nucleares na Agricultura – o CENA – que tinha recebido a bomba de cobalto para irradiar alimentos e conduzir pesquisas com marcadores e radioisótopos. Assim eu fui capturado pela faculdade de agronomia da USP, a “gloriosa” ESALQ, onde eu viria a estudar e completar a minha educação. Virei Economista Agrícola.

Foi no ensino público de boa qualidade onde eu me formei e aprendi a conviver com a mescla cultural brasileira. Fiz doutoramento nos Estados Unidos apoiado por uma bolsa de estudos do governo e também foi uma bolsa da FAPESP que me permitiu seguir para o pós-doutorado em Berkeley. À educação básica e superior de boa qualidade, custeada pelo Estado brasileiro, eu devo a minha carreira e muito dos meus valores.

Nenhum dos amigos citados precisou de cotas para entrar na faculdade. Tivemos o acesso ao ensino superior, lastreados pelo ensino básico de qualidade. Se os edifícios se deterioravam, os Professores ainda eram de excelente qualidade. Constatei que o capital humano demora mais a decair do que o capital físico.

Ao relatar estas experiências, fico em dúvida se são muito particulares e pessoais. Se forem, peço desculpas ao leitor. Se o faço é por estar convencido que devo compartilhá-las em um momento onde se debate um modelo educacional com base em valores invertidos e desfigurados. Estamos a discutir as soluções para o ensino superior, que demonstram o nosso desmazelo pelo papel formador do cidadão, que é forjado no ensino básico e fundamental. Preocupamo-nos mais em prover bolsas para que alunos despreparados entrem em universidades privadas, quase sempre de baixa qualidade, do que em prover uma educação fundamental de real qualidade, que encaminhe o futuro cidadão. Ou ainda, oferecemos soluções institucionais de quotas que prometem resgatar a nossa dívida social, ampliando o acesso de jovens ao ensino superior público, sem que se apresente solução para o problema verdadeiro, que está no ensino básico e fundamental.

Nem tudo funcionou perfeitamente com os meus colegas de escola pública. Ao longo dos anos 60 e 70, alunos como o Josmelino Quintino Silva, desapareceram tragados pela realidade da miséria. Josmelino morava em uma favela do Bom Retiro, próximo à várzea do Tietê. Era o melhor entre todos nós. Brilhante e de pouca fala, nos deixava cheios de inveja nas aulas da D. Romana, que ministrava um curso preparatório para o exame de admissão ao ginásio, em uma pequena quitinete do nono andar de um prédio do Largo General Osório. Cruzávamos diariamente com os tanques da ditadura postados defronte ao antigo DEOPS. Josmelino, que não pagava pelas aulas de reforço, desapareceu tragado pelas necessidades de sobrevivência.

Eu hoje sou professor titular sênior da Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis da Universidade de São Paulo, onde exerci várias funções e formei dezenas de mestres e doutores. Não posso deixar de apontar para a real solução educacional que deveria focalizar a retomada do bom ensino fundamental de qualidade. O núcleo familiar – qualquer que seja o sentido atual deste conceito – e a escola pública, são os locais onde se deveria forjar valores e competências para o aprendizado continuado. A Universidade não forma bons tratoristas, escritores, artistas, operadores de máquinas, técnicos agrícolas, técnicos de enfermagem, de que precisamos tanto quanto de engenheiros e médicos e enfermeiros.

Na década de 2010-2020 o Brasil vive o momento histórico de estabilização do crescimento populacional, avanços e recuos na distribuição da renda e – esperamos – de possível retomada do crescimento da economia. É um bom momento para repensarmos o ensino pré-universitário, onde se forjam valores e se fornece a base de conhecimento a ser depois utilizada.  Qualquer solução educacional focalizada exclusivamente no ensino superior, será temporária, de alcance limitado, ainda que o discurso político diga o contrário. Não podemos mais perder Josmelinos.

Decio Zylbersztajn

Dez 2012 /Jan 2013

Creative Contacts.

IMG_0012

Welcome dear reader.

Sharing views about literature, arts, and life is my motivation to write.

According to Vilém Flusser, writing – as well as reading – helps to bring order to the chaos of our minds.

To share my ideas does not mean that you have to agree with me.

I like to learn perspectives other than my own, mainly when we diverge.

Antagonism helps me to understand what is going on in my mind.

So, I expect your visit, comments, and criticisms.

A minha motivação neste blog é compartilhar experiências de vida por meio da arte e da literatura em particular.

Segundo Vilém Flusser, escrever e ler nos ajuda ajuda a colocar ordem no caos das nossas mentes. Eu concordo.

Compartilhar não significa concordar, eu aprecio ser exposto a perspectivas diferentes da minha, portanto critique sem piedade, mas com elegância. Aliás elegância anda em falta no mercado.

O contraditório me ajuda a compreender o que ocorre no mundo e na minha própria mente.

Eu apreciarei a sua leitura e os seus comentários.