Ordenando o Caos: o papel da escrita

Ordenando o Caos: o papel da escrita

Gastei meses planejando uma viagem para o Marrocos, país que conheci lendo os livros de Paul Bowles, Elias Canetti e Tahar Ben Jelloun. Assim que comprei as passagens aéreas um terremoto incidiu sobre aquele país deixando áreas históricas em ruínas. Enquanto mudava os meus planos de viagem lembrei do ditado yidish que, se fosse traduzível, soaria como: Enquanto o homem planeja, Deus ri.

A incerteza incomoda, preferimos a segurança que nos permite planejar. O risco se distingue da incerteza, no primeiro conhecemos o padrão de variabilidade de determinado fenômeno. No caso da incerteza tateamos na escuridão da ignorância, torna-se impossível planejar. Basta um olhar para o mundo para que se perceba que os eventos não antecipados são a norma e não a exceção. Este tema preocupou autores de diferentes especialidades, da psicanálise à economia, da filosofia à geologia, da meteorologia à literatura. Dois autores cativaram a minha leitura: Douglass North e Villém Flusser.

North elaborou sobre o papel das instituições para gerar previsibilidade. Instituições são regras formais e informais que criamos, na sua ausência resta a barbárie. Crítico da economia ortodoxa, por não enfatizar o papel das instituições, North, como historiador econômico, demonstrou que instituições que não protegem os direitos dos indivíduos resultam em sociedades estagnadas. Instituições fracas, capturadas, criadas com disfuncionalidades, geram resultados catastróficos, em último caso descambam em conflitos e violência. North recebeu o prêmio Nobel em Economia em 1993 pelo seu trabalho sobre a origem, a evolução e as patologias das Instituições, que ele definiu como: As regras do jogo em uma sociedade, que pautam o comportamento humano. As instituições por vezes falham no seu intento de gerar previsibilidade, se mostram tão imperfeitas quanto os seus idealizadores. Em alguns casos elas falham intencionalmente, quando são criadas para não funcionar. Oliver Williamson criou o termo: “ineficient by design” para designar instituições que nascem para cumprir propósitos velados. O Congresso Nacional está pleno de exemplos.

A obra de North espanta pela atualidade. No livro, Violence and Social Orders de 2009, ele explora como instituções imperfeitas degeneram o tecido social. Em um artigo de 1999 o autor se preocupou com o aquecimento global e propôs a necessidade de criarmos um mercado de créditos de carbono. No mesmo artigo ele elaborou sobre a imprevisibilidade, afirmou que vivemos em um “non ergodic world”. Ou seja, no mundo não ergódico o passado não explica o presente e tem pouca utilidade para explicar o futuro. A imprevisibilidade é a regra e as instituições devem ser resilientes e maleáveis para cumprirem o seu papel. Para criarmos um mercado de créditos de carbono precisamos de instituições flexíveis.

Douglass North e DeZylber

O segundo autor que citei é Villém Flusser. Perseguido pelo nazismo, deixou Praga quando tinha 21 anos e se estabeleceu em São Paulo. Abandonou os estudos de filosofia e prosseguiu como autodidata, interagiu com pensadores nas áreas da filosofia e da comunicação, para as quais contribuiu de forma decisiva. Acolhido por diferentes universidades brasileiras, deu aulas e produziu uma obra que se tornou reconhecida internacionalmente. Nos anos 1970, retornou para a Europa com a agenda cheia de convites para aulas e palestras. A caminho para uma destas palestras, um acidente fatal interrompeu a sua trajetória.

Se North focalizou a sociedade, Flusser mergulhou no papel da simbologia, da construção e uso dos códigos de linguagem e de comunicação, que transformam a mente humana. Tratou da abstração, competência única da nossa espécie, que é capaz de observar um objeto inútil, sem serventia para alimentação nem para a cópula, e criar um conceito abstrato sobre ele. Em um ato de fundamental transformação, o ser humano foi capaz de elaborar conceitos e representar o objeto inútil por meio de diferentes expressões. Ele gerou utilidade ao representar o objeto por meio do desenho, elaborou códigos escritos com os quais descreveu o objeto. Desenvolveu ideogramas que representam o conceito sobre o objeto. Desenvolveu a linguagem fonética, criou símbolos que alinhados formaram palavras, que alinhadas formaram frases, e exprimiram o conceito. Flusser se despreendeu da análise da imagem estática – a fotografia – e a colocou em movimento ao discorrer sobre o cinema. No seu livro “A Escrita: Há futuro para a escrita?”, elaborou sobre a superioridade da imagem e explorou os limites da escrita. Oh, pobres de nós, escritores.

Flusser sugeriu que ao criarmos a escrita inauguramos um processo de transformação da mente humana. O receptor da mensagem escrita a decodifica e reorganiza segundo critérios próprios que podem não ser os mesmos do emissor que elaborou a mensagem original. No livro “Seis passeios no bosque da ficção”, Umberto Eco elabora sobre o mesmo tema: o autor que é surpreendido pelo leitor que interpreta o texto de modo criativo, diferente da intenção original do autor. Eis o ato de recriação, razão pela qual a leitura gera prazer estético. O leitor não é um agente passivo, ele interpreta, reinventa e reescreve a mensagem conforme a sua própria métrica.

Flusser afirmou que escrever nos ajuda a colocar ordem no caos das nossas mentes. Ele não está só nesta observação, Clarice Lispector afirmou: “Escrevo por estar desesperada, se não fosse a escrita eu morreria simbolicamente todos os dias”. Do mesmo modo em Elias Canetti lê-se: “Tranquilizar-me, talvez seja a principal razão por que escrevo. É quase inacreditável o quanto a frase escrita pode acalmar e domar o ser humano”. Esta ação terapêutica da escrita foi elaborada por Siri Hustvedt no livro de ensaios: Living, Thinking, Looking. Escrever e ler, por exigirem ordenamento, são ações geradoras de estabilidade.

Eis o drama humano; desejamos ordem em um mundo caótico, não ergótico. Se para Flusser escrever e ler ajudam a ordenar o caos das nossas mentes, para North as instituições ordenam o caos da sociedade. A escrita e as instituições são criações humanas, sujeitas a limitações, imperfeitas e mutantes, tal como as sociedades que as originam. North e Flusser nasceram no ano de 1920 e, até onde eu saiba, nunca se encontraram. Se tal encontro tivesse ocorrido, creio que eles gastariam horas a elaborar, com humor, sobre o drama da incerteza humana. Quanto a minha viagem, não farei planos, decidirei na véspera, aprendi que enquanto o homem planeja, Deus ri.

Leituras e Releituras

Conversando com meus livros.

Quando dei por mim a tarefa estava concluída, reorganizei o espaço da minha biblioteca. Durante a pintura do meu apartamento removi os livros das estantes e os guardei em caixas. Retomei contato com velhos amigos que ficam a me espreitar quando estou a trabalhar, sei que os livros me observam e tentam se comunicar comigo quando os deixo à toa por muito tempo.

Caso considerem loucura posso concordar, mas o que declaro é a mais pura verdade: eu ouço vozes dos livros que se apresentam com sotaques, idiomas e entonações diferentes e me convidam para – digamos assim – uma conversa. Há dias em que ouço verdadeira balbúrdia quando eles – os livros – me acusam:

– Você me deixou pela metade! – Eu contra-argumento.

– Fique calmo, se não te doei é porque devo ter alguma intenção oculta.

A minha biblioteca – que não é grande e eu nunca me dei ao trabalho de enumerar os volumes – é formada por autores que me deram um norte e me ajudaram a ser quem eu sou. Ao remover os livros das estantes descobri várias duplicatas, constatei que sou um consumidor insensato que compra o mesmo título repetidas vezes movido por um ímpeto incontrolável. Dou guarita aos autores que admiro, os levo para casa, dou-lhes alimento, calor e paz, sabe-se lá onde iriam parar se eu não os recolhesse, entendam como uma atitude de proteção.

Embora não enumere os livros, eu os agrupo segundo um critério tribal. É uma questão de segurança, os semelhantes se unem para se defenderem de predadores. Se os elefantes agem assim por que não os livros? E assim tenho feito, criei regiões nas estantes onde habitam tribos como: Filosofia e Ensaios, Literatura Brasileira e Internacional (Japão tem uma área própria), Poesia, Judaica, Agricultura, e os meus brinquedos: Mineralogia e Lapidação, Folclore Brasileiro e Viola Caipira, Orquídeas. A tribo da Teoria Literária reflete a minha opção pela escrita, e a minha vida acadêmica pregressa tem algumas tribos que preservei pois persistem a influenciar o meu modo de pensar com destaque para a Economia das Organizações e a Economia Institucional.

De vez em quando encontro Ortega y Gasset e debato com ele sobre a sua visão elitista de cultura da qual eu discordo, mas concordo com tantas das suas posições que ele me escuta e ignora as provocações. Ai de mim se eu ignorar Jorge Amado, Thomas Mann, Haldorr Laxness, que reclamam pelo meu olhar.

Tal como ocorre entre os humanos, há livros inquietos que gostam de explorar territórios alheios, se metem entre diferentes tribos, ora residindo em um local ora se mudando para outras paragens. Tenho particular apreço por estes livros meio soltos que não sabem direito a sua personalidade. Autores como Edgard Morin, Siri Hustvedt, Villém Flusser, Rolando Garcia, transitam livremente pelos espaços, curiosos e atraídos por sotaques diferentes. Gosto deste modo de ser.

Quando me sinto acuado e preciso ordenar o caos da minha mente, eu me ponho a ler e reler os donos das vozes. Ler ou reler? Ora, quem relê não é mais quem leu da primeira vez, portanto não existe releitura, o que existe é o tempo presente. Há livros que eu ainda não li, outros que não li na íntegra, outros que sei que vou reler. Aqueles que não se enquadram em nenhuma categoria costumam passar uma temporada e depois são destinados a outros olhares. Não desenvolvi um critério para as doações, talvez seja baseado em algo que eu chamo de biblio-empatia, sei que doei centenas de livros e talvez tenha cometido enganos dos quais me arrependeria se tivesse dado atenção à segunda página, ou tivesse feito uma releitura. As resenhas ajudam a decidir por um autor desconhecido bem como as opiniões dos amigos que me apresentam autores contemporâneos, jovens talentos da literatura, quando gosto eu torço para que sobrevivam em meio ao moinho editorial que destrói bons autores no berço.

Aldorr Laxness conversando com um livro.

Com o passar do tempo eu aderi aos ebooks, e nos dias de hoje tenho lido a respeito do impacto da inteligência artificial. Será que os sistemas inteligentes substituirão o fazer humano? Será que terão espaço nas bibliotecas do futuro? Umberto Eco e Siri Hustvedt me ajudaram a responder. Nada substitui a alma humana e a emoção, sem estes ingredientes os livros gerados pela inteligência artificial ficarão calados nas estantes.

Fico intranquilo ao perceber que não terei tempo de para reler tudo o que tenho ao meu redor. Descubro que a vida é miseravelmente pequena para tantas leituras que pretendo fazer. É quando as vozes voltaram a falar: Tenha calma, nós estamos aqui para permitir as suas viagens, para que leitura e releitura nunca não sejam iguais, para que você perceba a sua mediocridade frente ao pensamento humano. Respiro aliviado ao compreender a minha insignificância. Quando consigo ordenar o caos da minha mente as vozes param de falar, talvez querendo me poupar. Mas elas continuam presentes, sei que ficarão caladas por um tempo e persistirão à espreita do meu próximo movimento.

Repentinamente a balbúrdia se reinstala: Por favor, é a minha vez, me leia!

Um Sonho Amazônico

Qual a chance de se encontrar alguém de Laranjal do Jari (Amapá) ou de Monte Dourado (Pará) no círculo polar ártico? Pois foi o que aconteceu em 2017 na Islândia onde conheci Rose e Sebastian no saguão da Prefeitura de Reikjavik durante um evento literário. Ouvi frases em português e identifiquei o casal de pesquisadores que deixou o Brasil para seguir uma carreira universitária na Islândia. Sebastian é alemão e viveu em Belém onde fez doutorado, conseguiu uma posição na Universidade de Reikjavik. Se bem me lembro, línguas em risco de desaparecimento era o seu interesse, tema que seria abordado no evento literário por uma escritora e pesquisadora inglesa.

No Círculo Polar Ártico

Um idioma que morre representa perda cultural inestimável, com ele se perde a memória coletiva das gerações que contribuíram para a sua formação. Os rastros dos idiomas que sobrevivem na história oral ou nos textos escritos revelam os sonhos dos povos, sua extinção tem paralelo com a perda da biodiversidade de uma floresta devastada. Conheço bem esta história pois a minha família viveu o drama do desaparecimento do yidishe, língua que cresci ouvindo os meus pais falarem e que foi quase extinta pela mão insana do holocausto. O advérbio “quase” revela que o idioma e a cultura que ele representa, sobreviveram à violência, o yidishe tornou-se língua de resistência.

O encontro com o casal de brasileiros foi um episódio furtivo e eu não os encontrei depois. Rose nasceu em de Monte Dourado, cidade criada pelo milionário norte-americano Daniel Ludwig – dono de frotas para transporte de Petróleo – que desejava criar um império econômico na Amazônia brasileira, o projeto Jari nos anos 60. Antes de Ludwig os coronéis José Júlio de Andrade (1889) e Manoel Carlos Ferreira Martins (1902) exploraram e tomaram posse das terras às margens do Rio Jari de onde expulsaram – ou aniquilaram – os índios que lá habitavam. Exploraram a castanha do pará, a seringueira e as madeiras nobres, deixando as espécies pobres, de madeira e de gente ribeirinha. Depois vieram os mineradores industriais com as bênçãos dos militares brasileiros que não apreciavam a presença de Ludwig cujas atividades incluíam a produção de minério, madeira e o projeto de uma fábrica de celulose. A fábrica, montada sobre um navio, deixou o Japão, foi rebocada pelo mar da Índia, contornou a Cidade do Cabo – o Cabo das Tormentas – atravessou o Atlântico, subiu a costa brasileira e entrou na água-mãe do Amazonas. Dali derivou para o Rio Jari, um dos afluentes da margem esquerda, a fábrica-barco ancorou na trincheira aberta sobre pilares de massaranduba que lá permanecem depois de décadas.

Do Japão até o Rio Jari

As atividades que desenvolvi na Universidade de São Paulo me levaram àquelas paragens onde conheci o projeto Jari já nas mãos do empresário brasileiro Sergio Amoroso. Em um leilão ele assumiu uma dívida impagável junto a vários bancos públicos e privados, pagou dois dólares pelo pacote. Para os credores era melhor ter um sonhador à frente do projeto a vê-lo naufragar nas águas amazônicas. Definiu-se uma complexa fórmula para pagamento da dívida que nunca foi efetivada.

Ludwig, no melhor estilo Casa Grande e Senzala, construiu uma cidade para os engenheiros – Monte Dourado – com escola, hospital, aeroporto, água tratada e utilizou a massa de trabalhadores disponíveis do outro lado do Rio Jari, na cidade de Laranjal do Jari, onde viviam em ruas sem calçamento ou saneamento. Veio gente de Macapá, Mazagão, Belém, chegaram nordestinos que, trazendo a sabedoria adquirida na lide com a seca, povoaram a região, aprenderam a lidar com as cheias e com a falta de tudo, menos de esperança.

Havia dois aeroportos nas cidades ribeirinhas, um era oficial e funcionava em Monte Dourado, nas boas épocas da fábrica de celulose um voo diário conectava com Belém. Do outro lado, em Laranjal do Jari, um aeroporto sem registro formal tinha movimento intenso de aviões do garimpo. Lá um monomotor pousou sem a porta do passageiro, pelo buraco desembarcou um sujeito bamburrado – cheio de pulseiras e colares de ouro – que tirou de dentro da cabine…. um bezerro. 

Pelo Rio Jari subi até a cachoeira de Santo Antônio, uma imagem deslumbrante vista a partir do barco que se aproximou até o ponto de segurança. Na volta, o piloto parou na margem e me mostrou um túmulo com uma suástica que indica o local onde está enterrado Joseph Greiner do exército alemão. Parece que Hitler tinha intenções expansionistas na Amazônia e organizou viagens de reconhecimento. A malária abateu o chefe do grupo e dispersou os demais, e a história abateu o führer.

Eu mantive contato com a região por alguns anos, vários estudos foram conduzidos pelos meus alunos. A situação financeira da empresa piorou a partir da decisão de construir nova planta de celulose em substituição à primeira importada do Japão. A empresa deixou de operar na década de 2020. A ideia de conduzir projetos na região desafia empresários e governos, sabemos que a Amazônia não é para principiantes e que a floresta pede abordagem diferente dos modelos produtivistas tradicionais.

A Amazônia está cheia de histórias de perdedores, explorados, sem voz, dos que foram escorraçados e seguiram para a serra do Tumucumaque na fronteira com a Guiana Francesa, quase não há rastros dos povos originais, da sua cultura ou do seu idioma. Eu cruzei pelas áreas de florestas públicas, depredadas por invasores que exploraram tudo o que puderam. A reserva que pertencia à empresa demandava considerável soma de recursos para ser protegida, quanto a floresta pública, esta não sobreviveu.

Qual será o destino da Amazônia se o Estado não cumprir o papel? Qual o destino dos povos originários que seguem sendo alvos predatórios dos interesses imediatistas? Como proteger as gerações futuras do risco de viverem em uma sociedade sem florestas, sem história, sem gente? Eu nunca mais soube do casal Rose e Sebastián, espero que o destino tenha sido bondoso com eles.

O Meu Nome é Débora

É possível fazer o trajeto entre Vilna e Lódz em 6 horas ao longo de 600 km. Tal viagem entre a Lituânia e a Polônia seria impossível para os meus pais que de lá saíram ainda crianças na década de 1920. Eles se conheceram no Brasil, por coincidência ambos eram Zylbersztajn ou Zylberstein, as grafias levemente distintas foram geradas pelos agentes da imigração. Eles tiveram sorte, outros parentes não deixaram a Europa por diferentes razões, uns por não acreditarem no ambiente hostil que se instalava por lá – afinal já eram calejados na arte de sobreviver aos pogroms – outros não conseguiram vistos ou não tinham recursos para a jornada.  Os que saíram foram dar em destinos tão distantes como Melbourne, Santos e Nova York onde refizeram as suas vidas. Entre os que permaneceram na área devastada pelo nazismo nós conhecemos apenas traços de informações, fragmentos que tivemos que juntar para criarmos memórias. Vou narrar um destes acontecimentos que me marca de modo particular, e vocês saberão a razão.

A minha avó materna, Baba Liba, foi uma mulher de poucos sorrisos. Ela saiu da região de Swir, então na Lituânia, e chegou a Santos acompanhada pelo meu avô Aron e dois filhos, a minha mãe, Sara e o meu tio, José. A família seguiu para Porto Alegre onde minha mãe viveu até a adolescência. Eu convivi com Baba Liba quando ela se mudou para São Paulo onde passou os últimos anos da vida. Lembro dela sentada em uma cadeira a ler tudo o que lhe caisse nas mãos, lia textos em alemão, polonês, litvak e yiddish, o idioma do dia a dia. Pouco falava, escrevia cartas para quem precisasse se comunicar com parentes na diáspora. Ela separou-se do meu avô, fato raríssimo na época, que permaneceu no Rio Grande do Sul onde viveu a mascatear. Comprava e vendia tudo o que lhe caísse nas mãos e o seu apego por um rabo de saia deixou rastros cujos frutos surgiram até mesmo depois da sua morte.

Foto da Imigração: Baba Liba, avô Aron, Sara minha mãe e tio José. A boneca se perdeu no mar.

Em Porto Alegre, vivia Iankel Shimen, meu tio avô, irmão de Baba Liba, que dava aulas de bar mitzvah e mergulhava nos livros enquanto sua esposa cuidava de uma loja de presentes. Ele era um intelectual, algumas famílias relutavam em contratar os seus serviços pois ele costumava ensinar ideais socialistas misturados aos textos das orações que os jovens deveriam aprender para o ritual da maioridade.O meu tio Josel falava com respeito e carinho do tio que o preparou para a maioridade. Outro irmão de minha avó foi Max, que seguiu para NY onde minha irmã o encontrou certa feita, tinha uma farmácia e não foi muito cordial com a visita da família brasileira. Desconfiado, talvez achasse que havia alguma intenção oculta no encontro.

Baba Liba era Barchanovitch quando solteira, além do irmão que emigrou para Nova Yorque, o segundo irmão Iankel Shimen foi o primeiro a viajar para o Rio Grande do Sul e incentivou os meus avós a que viessem ao Brasil pois o visto norteamericano lhes foi negado. Naquela época o destino era pouco relevante, o que importava era deixar o ambiente tóxico que se instalava na Europa. A minha mãe e o meu tio já eram nascidos como demonstra a única foto que tenho com a família reunida, no documento de imigração onde Liba, Aron, Sara e José aparecem. A minha mãe com uma boneca nas mãos, que segundo ela teria sido atirada ao mar por uma menina no curso da viagem de navio em terceira classe. Chegou sem boneca e sem sorriso. Ao longo da sua vida sempre tivemos alguma dificuldade em fazê-la sorrir para tirar fotos, talvez lhe faltasse a boneca.

A quarta irmã dos Barchanovitch não conseguiu emigrar para o novo mundo. Morta pelos nazistas, o seu nome era Dvoyre (Deborah) Barchanovitch. Tal como o irmão Iankel Chimen ela era socialista, diferente dele era ativista nos movimentos que fervilhavam na Europa entre as duas guerras. O compromisso progressista estava impregnado na família materna. Temos poucas informações sobre ela, minha mãe a descrevia como uma ativista capaz de subir nas mesas dos bares para fazer discursos inflamados. Ela estava na Europa quando Hitler subiu ao poder em 1934, socialista, judia e sem família foi presa e encarcerada. Consta que teve um filho e que ambos morreram em um dos campos de exterminio instalados entre Vilna e Lódz.

Na foto Dvoyre veste uma roupa discreta, colarinho redondo colado ao pescoço, quatro botões encimados por um broche. Os óculos redondos protegem um olhar assustado, talvez antecipando o destino que lhe aguardava. O cabelo repartido era curto ou preso atrás da cabeça, não é possível precisar. Os lábios finos, levemente arcados, não sugerem um esboço de sorriso. Estes são os fragmentos que temos de Dvoyre e a história poderia terminar neste ponto, entretanto houve um desdobramento que me envolveu de modo direto.

Os judeus recebem um nome no batismo e eu sabia que o meu nome era David. Eu tinha esta informação coerente com a tradição judaica que sugere que os filhos recebam nomes dos antepassados ou algum nome alusivo à tradição bíblica, portanto eu compreendia a lógica do meu nome de batismo. Assim foi até que eu soube que o meu caso era diferente, muito diferente.  Minha mãe passara dos 90 anos quando o assunto reapareceu. Eu a visitei no lar de idosos onde ela residia e ela me revelou que o meu nome de batismo não era Davi, era Dvoyre. Eu fora batizado com o nome da sua tia, um nome feminino, nada usual na tradição judaica.

A notícia me espantou primeiro e em seguida me alegrou. A revelação me mostrou que poucos elementos biográficos deixados por uma pessoa podem ser suficientes para que a sua memória seja honrada. A partir de poucos fragmentos soubemos que Dvoyre foi uma mulher humanista, lutadora pela causa em que acreditava, e que morreu coerente com seus princípios. Assim, uma nova história pode ser gerada e eu compreendi mais um elemento do caráter de minha mãe, cujas atitudes nem sempre corriam dentro das normas. Em suma, minha mãe me deu um nome precioso, feminino, forte.

Eu me chamo Decio, caso prefiram não tenham receio de homenagear a mulher sonhadora com a liberdade humana, com ideais de igualdade social, tão importantes nos dias de hoje. Caso queiram podem me chamar de Dvoyre ou Deborah.

A Longa Noite dos Cristais

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Noite dos Cristais, kristallnacht, a noite da Intolerância

Nos dias 9 e 10 de novembro de 1938 o governo nazista organizou um pogrom contra os judeus alemães conhecido como: a Noite dos Cristais. Faz 84 anos que o mundo experimentou, sem reagir, o terror oficial que deu guarita à intolerância e causou desespero à população judaica. O ataque aos judeus na Alemanha marcou o início do holocausto, revelou a fragilidade das instituições alemãs, mostrou que o comportamento das massas pode ser induzido pelo discurso oficial a ponto de torná-lo incontrolável, tudo em nome de uma ilusória identidade superior.  

Os tiranos desprezam, humilham, hostilizam e desclassificam aqueles que entendem serem seus oponentes. Ao criarem um inimigo da pátria, justificam a invasão dos espaços individuais, não apenas físico mas também o espaço moral. O discurso “nós e eles” ou do “bem contra o mal” estimula o comportamento da massa. Os indivíduos, facilmente manipulados, perdem a noção de individualidade e o discernimento crítico. Vivemos em 2022, um período em que a massa ignota é induzida a humilhar aqueles que pensam, agem ou se comportam de modo distinto do tirano de plantão. Preservar a memória, manter o senso crítico, controlar a violência passa por três fundamentos.

Primeiro, reconhecer que temos múltiplas identidades que dão colorido à existência humana. Perceber as diferenças, compreendê-las e aceitá-las, é um processo que nos auxilia a viver em um mundo plural, complexo e sobretudo belo. Segundo, é necessário compreender o comportamento dos grupos, em especial quando as midias sociais criam massas humanas virtuais que fortalecem o comportamento de cardume acrítico. Terceiro, cabe reconhecer que as instituições – as regras do jogo social – são mecanismos construidos pelo homem para pautar, regular e mitigar a sua própria natureza violenta.

Ponderar sobre os três fundamentos e cultivar a memória podem nos ajudar a encontrar soluções para que a história da tirania não se perpetue. O diferente, por ser espelho, nos incomoda, ainda assim existe e tem o direito de não ser como nós. E sobretudo, tem o direito de ser.

Em memória aos 6 milhões de judeus e dos demais homens e mulheres que pereceram na SHOÁ, reescrevo a cada ano esta breve mensagem. A diferença não nos ameaça, apenas embeleza a vida. 

Livros que iluminam o tema da intolerância:

Identidade e Violência de Amarthia Sen. O livro trata da persistência da violência como decorrência da ilusão de uma única identidade, quando na verdade o homem tem múltiplas identidades. (Identity and Violence: The Illusion of Destiny, 2007, Peguin Books. O autor foi Prêmio Nobel de Economia.

 A Massa e o Poder de Elias Canetti. O autor escreve um tratado sobre a natureza humana. Em particular discorre sobre os limites entre o comportamento individual, no qual o indivíduo mantém a identidade, e o comportamento de massa, perigoso e imprevisível, que decorre da perda da identidade individual substituida pela ação da multidão amorfa. (Crowds and Power, Peguin Books, England, 1973). O autor foi Prêmio Nobel de Literatura.

Violence and Social Orders de Douglass North, John Wallis e Barry Weingast, trata da importância das instituições para o ordenamento social. Instituições são mecanismos criados pelos homens para controlar, regular, mitigar a sua natureza violenta. (Violence and Social Orders, Cambridge University Press, 2009). North recebeu o Prêmio Nobel em Economia.

On Violence de Hannah Arendt, que foi escrito para ajudar a compreender a turbulência dos tempos em que vivemos. A autora levanta a questão da natureza da violência e indica as causas para as várias manifestações nos dias em que viveu, no pós segunda guerra mundial. (A Harvest/HBJ Book, 1969)

Nestes dias de novembro de 2022 escrevo em memória das vítimas da violência e da tirania.

Decio Zylbersztajn