Bibliotopia: A Leitura Criativa

Bibliotopia: A Leitura Criativa

O que acontece quando lemos um texto? Seja ele uma notícia, um romance, um artigo de jornal, um artigo científico ou um poema, a nossa mente associa os símbolos que compõem o código escrito e os traduz segundo um critério definido, uma convenção.

A convenção da linguagem é composta por regras compartilhadas que orientam a escrita e a leitura de modo a oferecer uma diretriz baseada na ortografia, na sintaxe, que servem de guia e facilitam a comunicação. Convenções sobre o significado das palavras permitem que compartilhemos textos. Quando lemos, a interpretação dos conteúdos varia amplamente conforme o olhar de cada leitor. Ou seja, temos um código comum que fundamenta a comunicação, e ao mesmo tempo existem processamentos mentais que são característicos de cada leitor. A percepção da realidade, aquela que chamamos de objetiva, é flexível, varia entre observadores.

Existem diferentes formas de leitura. Uma que qualifico como burocrática, que prima pela exatidão e reflete a intenção do autor de reduzir o ruído interpretativo. Aparecem nos contratos comerciais, receitas de cozinha, ou em protocolos médicos que orientam a realização de uma cirurgia. Diferentemente outra existem textos que causam estranhamento deixando elementos inconclusos que provocam o leitor, convidam-no a concluir preencher vazios, provocam dúvida e motivam a escolha entre possibilidades de interpretação. Essa inexatidão faz da arte em geral, e da ficção literária em particular, uma experiências vivencial, ainda que não necessariamente experimentada no mundo real, mas vivida no plano das emoções. Afinal, o que é o mundo real?

Sobre a Leitura e Leitores

Vivemos num tempo em que os textos são cada vez menores, e o repertório de palavras se reduz entre gerações. Corremos o risco de perder as experiências vivenciais, no sentido amplo, que a leitura nos permite. As imagens são meios que oferecem significados de fácil digestão e transmitem mensagens com muita facilidade. Como somos preguiçosos, aceitamos as mensagens encurtadas, aceitamos imagens nem sempre verdadeiras, que nos indicam qual o produto que devemos comprar, quais os lugares que devemos frequentar, quais as pessoas que devemos admirar.

Os influenciadores, portadores de intenções nem sempre transparentes, orientam o cardume social que segue aqueles que fazem a promessa de mais fácil digestão. A leitura exige um tempo humano, que a sociedade vem perdendo, e cuja recuperação está na raiz do nosso equilíbrio mental.

Os livros são objetos perigosos que nos fazem parar as atividades mecânicas a que somos induzidos, nos permitem respirar de modo lento, recuperar o sentido crítico, e sentir emoções. Para todos os efeitos, metem medo. Escrever e ler são atos arriscados e, de alguma forma, atos de resistência. É sobre este tema que quero conversar e explorar diferentes perspectivas associadas ao ato da leitura. Para tanto, publicarei uma série de textos que chamei de: Leitura Criativa-Bibliotopia. Vou apreciar a sua presença no blog : www.zylberblog.wordpress.com e em @dezylber. Os seus comentários enriquecerão a nossa conversa, portanto inscrevam-se no zylberblog.wordpress.com e participem. As postagens serão curtas e provocativas. Alguns dos temas que tratarei são:

Leitura Criativa: o que vem a ser?

Sobre leituras e leitores

Leitura e Escrita

O Mundo Codificado de Vilém Flusser

Uma tipologia dos Leitores em Umberto Eco

O leitor que vai além da obra

Observação e interpretação em Siri Hustvedt

Perdidos no bosque da leitura

Juntando autores (que não se conhecem)

Estes são alguns dos temas que pautarão as primeiras conversas. Espero a sua companhia. Os seus comentários me permitirão aprimorar os textos.

Decio Zylbersztajn

Escritor e Professor Titular Sênior – USP

A Inutilidade da Arte: Uma visita ao Inhotim

A Inutilidade da Arte: Uma visita ao Inhotim

A finalidade do objeto de arte é gerar uma representação. Não precisa ter significado objetivo, não serve como ferramenta, não serve para comer e não serve para copular. Ora, objetivamente não serve para nada! Entretanto dá alento à vida tornando-a possível. Como manifestação do espírito, a arte exige predisposição para vivenciá-la, existe algo de entrega na interação com uma obra de arte. Aquele que aceita o convite do(a) artista passa a ser coautor da obra, resultado da interação artista-observador. Deduz-se que a arte não se consuma fora do coletivo. Tivemos a experiência ao visitarmos o Instituto Inhotim onde nos emocionamos com as obras de Yoyoi, Kilomba e Meireles, e com o Jardim Botânico que era muito mais do que parecia ser.

Inhotim como metáfora da arte

No caminho para Brumadinho enfrentamos as hostilidades da autoestrada que nos levou da Mantiqueira aos Campos Gerais. Atravessamos congestionamentos e sentimos a agressividade dos caminhões que, segundo minha dedução, disputavam um assento ao lado de alguma divindade. A autoestrada é um caso típico de não lugar, como diria Marc Augé, nenhuma interação positiva emerge dessa invenção humana. Ao longo do trajeto questionamos a nossa decisão de visitar o Instituto Inhotim.

Finalmente chegamos em Brumadinho, para sempre marcada pelo desastre causado pela mineração. A mesma agressividade sentida na viagem, estava presente ali. O ambiente férreo, pesado, poluído e inumano, se apresentava conforme nos aproximávamos da cidade. Ali percebemos que uma parcela dos recursos da indenização paga pela mineradora foi utilizada para fazer melhorias urbanas. Pensei que não há indenização que pague pelo que se perdeu motivado pela negligência das mineradoras.

Lembrei-me dos debates com os alunos sobre a responsabilidade das corporações. Deveriam se limitar ao pagamento dos impostos e salários como apregoava Milton Friedman? Minas Gerais sofre séculos de exploração das suas veias férreas, tão conhecidas de Drumond. Cinzas, ferro, chumbo, água podre, ar irrespirável, poucas calçadas e muitos caminhões, eis o entorno de Brumadinho. Definitivamente eu não concordo com Milton Friedman, o capitalismo só funciona com freios amparados por instituições e regramentos estabelecidos.

Jardins:  Mudança de Estação

Chegamos ao portão que dá acesso ao Inhotim. O lugar estava vazio a não ser por um grupo de estudantes que aguardava o momento da visitação. Nos metemos entre eles e seguimos guiados pela Professora que aceitou de forma tácita a nossa presença. Um sopro de alegria e curiosidade foi o que sentimos daqueles olhos vivos, peles morenas, e doce sotaque mineiro.

Caminhamos à meia sombra das árvores com copas altas e amplas. A paisagem mudou quando atravessamos o portão de entrada. Estávamos no meio de um jardim botânico elevado à categoria de arte. Alguém desenhou aqueles caminhos, escolheu e cultivou as espécies e as distribuiu de forma harmônica para dar sentido ao espaço. Quem idealizou o jardim considerou o porte das plantas na fase adulta, as cores, a época do florescimento, e pensou na sua adequação para acolher visitantes, teve a intenção de sensibilizar o observador. As plantas oferecem sons acolhedores, temperatura e luminosidade que estimulam de uma só vez, a visão, a audição, o tato, o olfato. Ali, a botânica é arte. Um “lugar”, enfim.

Sensações

Com os sentidos despertos, visitamos as instalações e percebemos a arte como resultado da interação observador-obra. Passou algum tempo desde a viagem a Inhotim, tempo que selecionou as impressões deixando apenas aquelas que emocionaram. A memória está conectada com emoções, e a interpretação de uma obra de arte depende do repertório de experiência do obsrvador ou de algum fato trazido pelo acaso. Cabe aos neurocientistas explicarem como os elementos impressionam os sentidos do observador. Com o tempo, somos capazes de relatar a experiência, subjetiva e relacional, entre observador e obra. Compartilho as impressões que permaneceram na minha mente.

Experiência 1:  Yayoi Kusama (1929, Japão)

Eu sabia que a artista nonagenária vive entre internações e desinternações causadas por problemas mentais. A maneira pela qual observei sua obra deve ter sido afetada pela sua loucura, tema que sempre me sensibilizou. Entrei nas instalações criadas por Yayoi Kusama. Eu sabia que seria território limítrofe entre o desequilíbrio e o que chamamos de comportamento normal.

Na primeira experiência, a artista estica a corda dos sentidos. Na instalação denominada Espelhos Infinitos, rompe com os limites sensoriais de espaço. A alegria explode nas bolinhas coloridas como um mantra visual. A repetição sem fim de um gesto criativo gera círculos coloridos, que se assemelham a pequenas mandalas a expressar a busca pelo controle de uma mente acelerada.

Toda uma vida a produzir bolinhas e a romper com as sensações estáveis. A dialética existe entre a estabilidade e a ruptura com os sentidos. Assim é Yayoi Kusama, uma fonte de alegria e de desequilíbrio.

Experiência 2: Grada Kilomba (1968, Portugal)

Da obra de Kilomba, as sensações emergiram das palavras, dos volumes carbonizados espalhados pelo piso. Lembro ter ouvido sons, mas não registrei algum elemento que os identificasse. Um navio é delimitado por caixas pretas, volumes cúbicos espalhados pelo chão a lembrar uma nave negreira. Caixões com nomes de pessoas perdidas para a vida. Madeira carbonizada a lembrar o fim de cada um, nas cinzas que serão reincorporadas ao ambiente. O ciclo recompõe átomos e moléculas. Esse conjunto define um corpo, que vive, morre e torna a se decompor. Nomes de histórias perdidas nos porões negreiros, histórias nunca reveladas de desterro. Seres feridos de morte que insistem em sobreviver. Dor e resistência compartilhadas com observadores desconhecidos, séculos depois, em local seguro.

O contraste foi a sensação percebida no diálogo observador-obra. Eu estava aparentemente seguro, livre para sair quando desejasse. Os mortos estavam presos aos caixões pretos e carbonizados, para sempre e sem esperança.

Experiência 3: Cildo Meirelles (1948, Brasil)

Vermelho é cor primária, marcante, impressiona o observador. Na instalação de Cildo Meireles há duas marcas instigantes. A primeira é formada por ambientes e objetos do cotidiano reduzidos a um denominador comum: o vermelho. A outra é composta pelos sons do vidro quebrando sob os pés dos visitantes que passam pela instalação.

O vermelho está em todas as partes. Nos livros, quadros, geladeira, sofá, todo o cotidiano familiar provocado pela cor pecaminosa que acorda os sentidos e movimenta a libido. O contraste é provocativo. Um lar típico é subvertido. Tudo o que se possa descrever posiciona o cotidiano de uma família burguesa. Tudo, exceto a cor. Vermelha de cabo a rabo, de cima a baixo. A cor alerta que nos bastidores do cotidiano familiar, permanecem os desejos reprimidos e os sentidos ávidos pela ruptura.

Um trajeto marcado no piso leva o visitante a um ambiente que sai do lar e envereda pela escuridão. A segurança abalada pelo vermelho é substituída por um trajeto que conduz ao êxtase. Uma explicação se configura diante de um tanque com uma torneira que despeja continuamente um fluido vermelho, o mesmo que alimenta a vida. Esse mesmo fluido quebra a lógica do cotidiano.

Em outra instalação, o observador entra em uma área quadrangular cercada por alambrados e cordas. O chão está coberto por cacos de vidro. O visitante ouve os seus próprios passos que estilhaçam os pedaços de vidro por onde pisa. Ouvir os estilhaços dá uma sensação ácida, pungente, cortante, o passante provoca a destruição do ambiente que visita. Lembro do ar frio do ambiente – estaria frio no lugar ou a minha mente entendeu que deveria estar? – que compõe, com os ruídos do vidro estilhaçando, um ambiente hostil cuja execução é completada pelo visitante. A obra me lembrou que vivemos no “antropoceno”. Esta é a era inaugurada quando passamos a esbanjar a energia fóssil que alterou a condição de vida no planeta. Por onde passamos, quebramos os cacos de vidro e provocamos destruição.

Eis o alerta do artista que instiga o observador a repensar a comodidade do lar burguês quebrada pelo vermelho. Ele expõe a destruição causada pela nossa passagem, por mais leve que tente ser.

A Volta

O exterior hostil, deu a tônica ao contraste. O caos é que dá relevância à harmonia sugere que o conflito é real e necessário. Não conseguiríamos sobreviver sem que os opostos dialogassem. Esta é a pura dissonância yin-yang expressa por Lao Tsu. A ausência dá substância à presença, a sombra valoriza a luz, a velhice complementa a juventude. Daí a energia desestabilizadora e ao mesmo tempo estabilizadora das obras de Kusama, Kilomba e Meireles. Os artistas realizando o seu papel de agitar a superfície do espelho d’água recriando a realidade.

A arte não serve para nada! Ainda bem que existem coisas sem serventia a não ser descontruir certezas, criar obstáculos e incomodar os sentidos adormecidos. Seria, talvez, uma maneira de interpretar as impressões de uma visita ao Instituto Inhotim. A viagem de volta foi leve, eu nem percebi a violência dos caminhões em trânsito pela estrada. Dá para enfrentar a vida. Ainda bem que a arte não tem serventia.

Um Olhar para Carmen

Um Olhar para Carmen

Caminhos em Albacín

Nas ladeiras de Albaicín, bairro que circunda o Alhambra, existem vielas que conectam, a outrora morada de nobres famílias mouras, ao centro de Granada. Para quem faz o trajeto do topo ao pé da colina, é preciso ter cuidado com o chão irregular e inclinado. Para qualquer direção que se olhe, se avista o vale que abriga a cidade. A cada passo, o ambiente pacífico esconde as pelejas havidas naquela paragem.

As marcas dos romanos, árabes, judeus e ibéricos estão visíveis, o local foi habitado pelos pelos mouros até a sua expulsão final pelos católicos reis de Castela e Aragão em 1492. Granada foi o último reduto árabe a cair. Uma revolta popular ocorreu em 1568 contra as limitações de culto impostas pelos reis católicos. Foi o estopim para o esvaziamento e decadência do lugar que ganhou o nome de Realejo onde se instalou um acampamento militar. Dos 30 mil habitantes contados em 1560, 5 mil restavam no censo de 1620. Sobre as mesquitas foram construídas igrejas com aspecto pesado, inequívoco sinal de poder e força.

Abandonado, o local foi ocupado por grupos sem lei, o mesmo ocorreu com o Alhambra, pérola da arquitetura, remanescente de uma época na qual judeus e árabes conviviam em paz e Granada era conhecida como Garnata al-Yahud, ou Granada dos Judeus. O Alhambra e o Albaicín restaram vazios da vida que antes era abundante, dos jardins, dos espelhos d’água e das alamedas, apenas as ladeiras sobreviveram como uma ponte ligando ao passado.

Carmen de Zhamar

O Albaicín atual é pontilhado por lugares recônditos. Nas suas vielas, aqui e ali, avista-se muros caiados e portões em madeira elaborada que protegem os ambientes dos olhares de quem passa pelo local. Eu ali, me perguntava o seria tão importante para ser protegido de maneira quase hermética? Uma grade de ferro que substituiu o portão de madeira permitiu que o meu olhar desvendasse o segredo mouro guardado desde os tempos. Eu pude ver Carmen, desnuda!

Carmen, um encontro consigo mesmo

Carmen da Espanha árabe. Carmen granadino. O nome Carmen tem origem hebraica que significa: vinha de Deus, um lugar sagrado onde cresce um jardim. Hoje, um carmen designa uma habitação urbana, granadina por excelência, enfeitada por jardins e hortas, um espaço protegido do exterior como os que existem nos bairros de Albaicín e Realejo. O aspecto urbano de um carmem surgiu depois da decadência que sucedeu a expulsão. No século XVII surgiu a configuração atual, um bairro com propriedades amplas, e jardins protegidos que originaram o carmen moderno cujas paredes, flores e pergolados guardam a história da intolerância.

O carmen atual convida à introspecção, a busca do recôndito proibido é a metáfora representada pelos muros caiados quase intransponíveis. Ao ver um carmem com jardins vinhas e hortas, me lembrei das aulas de paisagismo do Professor Jairo Ribeiro de Matos que cursei na Escola de Agronomia da Universidade de São Paulo que nos ensinou sobre os diferentes tipos de jardins. Uns desenhados para serem vistos, admirados, comportando apenas a presença do olhar observador. Outros, desenhados como locais de estar, lugares onde a presença humana é essencial, onde sombras e sons convidam a apurar os sentidos, ambientes onde se pode exercer a magia de parar o tempo e aplainar os solavancos da vida.

Carmen de Bellavista

Um carmen, como lugar de estar, existe para quem deseja usufruir da própria intimidade e permanecer isolado em contemplação e observação interna, atitude rara em tempos de hiper conectividade.  Há quem adote origem latina de carmen para designar uma composição poética ou musical. O nome ganhou conotação religiosa como um local sagrado, um Carmelo onde irmãs religiosas passam a vida a orar. Uso alternativo, profano, se associou a personagens femininos dotados de espírito forte, como a cigana sedutora e sensual da ópera de Bizet de 1875. Um local para o exercício da contemplação só poderia ter um nome cujo significado pendular permitisse transitar entre o pecado e a pureza, entre a volúpia e a ascese.

Acerba Dor: Contos de Mudança e Ruptura na Literatura Brasileira

BIBLIOTOPIA

“O importante e bonito no mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando.” (Guimarães Rosa)

As mudanças incomodam, é natural que as pessoas se acomodem, se acostumem com as coisas como elas estão. Seja a mudança de um móvel dentro da casa, ou a mudança de casa, de país, de emprego, de companhia, as mudanças consomem energia e exigem adaptação, talvez essa a razão pela qual preferimos a estabilidade.

Ocorre que a estabilidade sugere estagnação, a falta de desafios associados ao enfrentamento do desconhecido acomoda as mentes o que acaba por limitar a sensibilidade das pessoas. As mudanças estão presentes de forma natural nas nossas vidas e o tema foi tratado ao longo do tempo. O I Ching, o livro das mutações, trata da impermanência e influenciou a obra de Jung de maneira decisiva. Diferentemente, outro elemento gerador de instabilidade é a busca, largamente explorada na literatura como atesta a obra de Cervantes, “El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha”.

Nas aulas de zoologia que assisti na universidade, eu fiquei fascinado pelo conceito de ecdise, um fenômeno biológico que caracteriza algumas espécies. O termo é definido no dicionário do Aurélio como: “Mudança periódica de pele de certas larvas de insetos e revestimento calcáreo de certos crustáceos.”  As espécies que trocam de pele compartilham uma característica, a pele antiga limita o seu crescimento, elas a abandonam, trocam-na por uma pele nova ajustada ao novo volume do corpo em crescimento. Durante a ecdise os animais ficam expostos aos predadores, pois o momento da troca da pele é delicado, expõe o interior desprotegido.

Eu não poderia encontrar metáfora mais adequada para o fenômeno de mudanças a que algumas pessoas se permitem submeter, o que me motivou a escrever o livro Acerba Dor, formado por contos cujos personagens passam por ecdises, se expõem ao risco, rompem convenções. Esta característica foi identificada pelo jornalista e escritor Joaquim Maria Botelho na apresentação do volume de contos “Acerba dor”: “Exacerbar é o verbo-síntese dessa espessa amálgama de sentimentos que a escrita habilidosa de Decio Zylbersztajn nos desvela. Homens e mulheres prisioneiros de hábitos e amarras sociais, ávidos da consciência de si mesmos, experimentam um mergulho alma adentro, resgatando similares rancores, desejos e incompletudes. E atingem profundezas abissais, porque ‘um abismo chama outro abismo'”.

Imagem: Quadro de J.F. Almeida Junior: Saudade – acerba dor de 1899. Óleo sobre tela, Pinacoteca do Estado de São Paulo

“Acerba dor” mostra seres humanos na encruzilhada de suas vidas. O que fazer? Para onde ir? A partir de um inventário que remete às escolhas no passado, novos caminhos despontam e anunciam mudanças e rupturas. A começar pelo conto que dá título ao livro, no qual duas mulheres, Luz e Edith, se encontram em um museu de arte e questionam as suas escolhas pessoais. Em “Mineira de Cordisburgo”, um casal se conhece na Big Apple – ela brasileira, ele financista norte-americano – e decidem morar em Cordisburgo, interior de Minas, vivendo na pele todas as consequências dessa escolha radical. Em “O chinês Dong”, a amizade – quase amor – entre uma diarista e um chinês que mal fala Português – é alinhavada pelo interesse no livro de Guimarães Rosa cuja leitura muda o modo de viver de Dong. Em Tributo a Caymmi, o pianista João rompe com a rotina estabelecida há anos, de se apresentar em um piano-bar sempre no mesmo dia, no mesmo horário, tocando o mesmo repertório. Até o dia em que decide ficar em casa, no seu quarto sem atender aos chamados dos amigos, sequer da sua mulher.

Esses e outros contos de “Acerba dor”, refletem o poder que tem a literatura, de mover águas paradas e incomodar o leitor. Não fosse assim, não cumpriria um dos papéis da arte, que é o de questionar as nossas certezas.

Contato para adquirir o livro autografado: zylberblog@zylber-books.blog

A Chama de uma Vela: interpretando a realidade

A Chama de uma Vela: sobre interpretações da realidade

No final dos anos 60 uma Professora pediu aos alunos que observassem a chama de uma vela acesa posicionada ao centro de uma mesa. – Descrevam o quê vocês observam. – Pediu aos alunos, eu entre eles.

A nossa experiência se limitava àquilo que 16 anos de vida permitem acumular. Nossos interesses eram mais imediatos, ígneos, tal como a chama da vela, e a nossa curiosidade, livre dos tapa-olhos que a vida viria a nos impor. Observávamos a chama da vela estimulados pela flama dos hormônios que atiçavam a nossa libido. Nas observações compartilhadas, revelamos pontos de vista diferentes a respeito da chama que, de forma insuspeita, permanecia a tremeluzir e apontar para o alto.

A intenção da mestra foi alcançada, compreendemos que olhares sobre um mesmo objeto podem ser diferentes. Aprendemos que o ato criativo nem sempre significa gerar algo novo, um olhar do óbvio por um ângulo inaudito pode bastar para causar impacto. Observar a realidade pelo avesso, ou ver o ângulo que ninguém observou, equivale a uma descoberta. Para a experiência limitada daqueles jovens que éramos, estava pavimentado o caminho para a busca da criatividade na vida.

A Educadora que nos posicionou ao redor da chama da vela chamava-se Raquel Gevertz e na minha tese de livre docência apresentada à Universidade de São Paulo, eu lhe prestei devida homenagem.

Realidade, qual realidade?

Incomoda admitir que dois observadores diante do mesmo fenômeno possam perceber realidades diferentes. Ou que o mesmo observador, em momentos diferentes, pode interpretar um fenômeno de maneira díspar. A observação não é um ato objetivo, dois médicos podem dar diagnósticos diferentes frente aos mesmos sintomas do paciente. Dois psicoterapeutas podem interpretar patologias psicológicas distintas no mesmo paciente, e cada um de nós precisa se reconciliar com o fato de que, ao longo do tempo mudamos as opiniões que defendemos com veemência.

Eu tinha deixado os 16 anos de idade no passado quando me deparei com as observações de Gaston Bachelard (1884-1962). As obras deste filósofo tratam de temas cuja observação concreta é limitada, ou mesmo impossível. A Poética do Espaço, A Terra e os Devaneios da Vontade, A Poética do Devaneio, e o livro que tem por título: A Chama de Uma Vela, em cujo parágrafo inicial o autor afirma:

Neste pequeno livro, de pura fantasia, sem a sobrecarga de saber algum, sem nos aprisionarmos na unidade de um método de investigação, gostaríamos de dizer que a renovação da fantasia recebe um sonhador na contemplação de uma chama solitária. A chama, dentre os objetos que nos fazem sonhar, é um dos maiores operadores de imagens.

Assim, a chama de uma vela, além de incitar o exercício da pluralidade de observações, sugere uma viagem interior pelo mundo das fantasias que habitam a mente humana, sobre a qual nosso conhecimento ainda é limitado.

A Respeito das Interpretações da Realidade:

A escritora e ensaísta Siri Hustvedt explora o problema de “olhar e não ver”. Citando exemplos de cientistas que estudam a cognição humana, ela expõe o drama que decorre da nossa incapacidade de interpretarmos a realidade de maneira objetiva. É comum não percebermos um elefante sentado na nossa poltrona predileta.

No conjunto de ensaios que compõem o livro: Living, Thinking, Looking, ela afirma que interpretamos subjetivamente as nossas próprias histórias de vida, a memória é seletiva e muda ao longo do tempo e, acima de tudo, é criativa. De certa maneira a nossa memória é uma ficção e o significado dos fatos que recordamos muda conforme envelhecemos. Esta condição é conhecida pelos neurocientistas que a chamam de “consolidação da memória”. Outra dimensão é de como vemos uma obra de arte. Aquilo que se representa em linguagem artística vem carregado de experiências e significados particulares que emocionaram o autor. O processo se repete quando alguém que vê a obra, lê um livro, ou assiste um filme, interpreta a mensagem ali expressa utilizando o crivo particular das suas próprias experiências. A intenção original do autor ou autora deixa de ser relevante, muito menos a realidade que motivou a obra.

No mundo da ciência, os pesquisadores definem os problemas de pesquisa a partir da observação da realidade. O Professor Ronald Coase (1910-2013), prêmio Nobel em Economia, criou um mantra: “What is Going on Here?”, que utilizava para desafiar os alunos a observarem a realidade para identificar “problemas” merecedores do esforço de pesquisa. A imprecisão na identificação de um problema de pesquisa, ou seja, da interpretação da realidade, é um problema endêmico enfrentado pelos pesquisadores. Cientistas também estão expostos ao drama fundamental da interpretação subjetiva da realidade.

 Humberto Eco, no livro “Seis passeios pelos Bosques da Ficção”, discute o tema da interpretação dos leitores. Um autor nem sempre explicita sua intenção, e o leitor interpreta o texto com base no seu repertório de informações, que implica na quase impossibilidade de emparelhamento com a intenção do autor. A leitura interpretativa torna o leitor um parceiro criativo, um cúmplice do autor o que sobretudo valoriza o ato da leitura. Tal reconhecimento foi expresso por Borges ao dizer que a leitura é mais importante do que a escrita, é um ato anônimo, humilde, entretanto criativo por natureza.

O que nos resta fazer?

Enfim, o que somos capazes de observar? A interpretação da realidade é fruto das experiências, crenças e vieses acoplados às nossas emoções. A observação interpretativa – questionadora, oclusa, hostil, carinhosa, inclusiva, amorosa – refletirá as nossas sombras e emoções. Não existe realidade objetiva, portanto estamos, todos nós, sentados ao redor da mesa, observando a chama de uma vela que continua a flamular dirigida para o alto.