Cartão de Embarque para Ezeiza

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Negro Ordoñez

Buscando algo para ler, escolhi ao acaso entre os dois grupos de livros que habitam a minha biblioteca. De um lado estão os livros já vividos, quero dizer, lidos. Do outro lado estão aqueles livros que aguardam a sua vez. O livro escolhido me revelou uma surpresa que dormia guardada entre as suas páginas. Encontrei um cartão de embarque datado de 1994 para um voo de São Paulo com destino ao aeroporto internacional de Ezeiza. De imediato o livro repousou no meu colo e cedeu espaço em minha mente para as memórias guardadas da cidade de Buenos Aires. O que teria ido eu fazer por lá?

Eu me lembrei dos odores e imagens da Calle Florida, da Casa Rosada, da Plaza de Maio, de Puerto Madero, da Universidade de Buenos Aires e da Católica, locais onde ministrei aulas. Me lembrei do Clube Gricel para onde me levou o amigo Julio Pena para conhecer o tango bailado pelos tipos populares da periferia de Buenos Aires. “Foi aqui que eu conheci a minha esposa”, me confessou Julio.

De todas as lembranças da cidade de Buenos Aires, a minha mente me levou com todo o cuidado, ao amigo Hector Ordoñez, ou apenas Negro Ordoñez. Não conheci pessoa com o conjunto de características humanas que transbordavam do Negro. Ele, carismático, sem ter concluído um doutorado, conduzia com brilhantismo o programa de estudos pós-graduados sobre organizações agrícolas, tal como eu fazia na Universidade de São Paulo. Hector tinha a formação em Psicologia e em Ciências Agrárias e eu o criticava por não se atrever a fazer um Doutoramento rigoroso, que entendia ser a única maneira de tratar em alto nível os temas que estudávamos. Como fui tolo.

Hector me ensinou que a mente humana tem a plasticidade para captar ideias e aplicá-las sempre que houver inteligência suficiente. Eu o criticava explicita e veladamente, ele reagia telefonando para Rose, minha esposa, para lhe dizer que eu jogava muito duro com ele, que não acreditava na sua competência. “ Rose, fale para Decio que sou um tipo sério”, pedia o amigo por meio de minha esposa. Queria me provar que conhecia e que dominava os temas. Depois vim compreender que o fazia muito melhor do que eu. Hector me elogiava publicamente e me convidava para dar aulas nas suas disciplinas na Escola de Agronomia da Universidade de Buenos Aires.

O meu amigo nem imaginava o quanto eu o admirava e invejava a sua capacidade de fazer coisas inusitadas que eu adoraria fazer, mas nunca me atreveria. Em um congresso em Paris, durante uma degustação de vinhos, Hector levou todas as garrafas que pode para o seu quarto fazendo seguidas viagens pelo elevador e depois convidou os amigos para celebrar, sem nenhuma moderação, fugindo dos controles das doses medidas dos degustadores. Hector transgredia, tinha o mais belo que a alma portenha pode nos dar e compreendia o caráter brasileiro como poucos. Fazia chistes com ambos.

Com frequência, depois do trabalho ele me levava a caminhar pelas ruas de Buenos Aires. Certa feita, numa noite no bairro da Recoleta me disse com ar maroto; siga-me. Caminhamos, sem pressa, por ruas cheias de vida até que Hector parou à frente de um edifício e, com o seu o seu olhar, me apontou para uma placa postada ao lado da porta de entrada. “Aqui viveu Ortega y Gasset”. O amigo sabia do meu gosto pelas ideias do autor espanhol, havia me presentado com suas obras completas e fez questão de me levar ao local onde o filósofo vivera o exílio nos tempos de Franco.

O Negro me ensinou que a mente humana pode fazer muito fora dos cânones estabelecidos. O brilhantismo e o traço humano do seu caráter fizeram de Hector um Ph.D. no convívio, no amor pelas pessoas, na abertura da mente para o inusitado e na ousadia em fazer aquilo que todos desejariam, mas não fazem quando são tolhidos pelas convenções. Hector tal como uma criança que não percebe o perigo, fazia.

O cartão de embarque há muito esquecido nas páginas de um livro me fez recordar do amigo que dorme profundamente em terras portenhas.   Não me recordo do livro que retornou ao seu lugar na minha estante. Talvez, no futuro, alguém encontre o cartão de embarque para Ezeiza e se pergunte. O que será que o dono deste livro foi fazer por lá em 1994?

Maio, 2019.

Lucio Cardoso: 60 anos da Crônica da Casa Assassinada

O legado literário de Lucio Cardoso merece ser redescoberto. O autor produziu contos, um livro de memórias e romances, entre os quais se destaca a Crônica da Casa Assassinada de 1959. Faleceu em 1968 com 56 anos. Quando um acidente vascular cerebral afetou sua capacidade de falar e escrever passou a pintar usando a mão esquerda.

Ao ler a Crônica da Casa Assassinada na edição comemorativa dos 40 anos da sua publicação – a obra completou 60 anos em 2019 – tive a sensação de ler um roteiro pronto para ser levado à tela. Quando fiz este comentário para o amigo, cineasta e escritor, João Batista de Andrade, dele ouvi resposta de quem domina o tema. “A obra foi filmada por Paulo Cesar Saraceni com Norma Bengell no papel de Nina e com música de Tom Jobim.”

Lucio Cardoso, nascido em Curvelo nas Gerais, faz parte da estirpe de escritores que migraram para o Rio de Janeiro onde passam a exercer sua mineiridade, no caso de Lúcio, arredia. A obra de Lúcio expõe o espírito humano. O livro Contos da Ilha e do Continente, uma coletânea organizada por Valéria Lamego, tem prefácio que trata da vida e obra do autor. No livro Diários, Lucio trava luta com a religiosidade, talvez um traço do seu caráter mineiro.

Lucio expõe um conflito irresoluto com Minas ao afirmar: “Meu movimento de luta, aquilo que busco destruir e incendiar pela visão de uma paisagem apocalíptica e sem remissão, é Minas Gerais. Meu inimigo é Minas Gerais….Que me entendam bem: contra a família mineira. Contra a literatura mineira. Contra a concepção de vida mineira. Contra a fábula mineira.“

Um elemento fundamental na vida do autor é sua relação com Clarice Lispector a quem conheceu quando ela tinha 20 anos e ele, um lustro mais velho. Tudo sugere a existência de duas almas irmãs, grandes demais para caberem no mundo. Clarice escreveu em crônica publicada no Jornal do Brasil quando da morte de Lucio:

“Lucio e eu sempre nos admitimos: ele com sua vida misteriosa e secreta, eu com o que ele chamava de vida apaixonante. Em tantas coisas éramos tão fantásticos que, se não houvesse a impossibilidade, quem sabe teríamos nos casado.” 

Talvez tal impossibilidade tenha feito de Clarice uma escritora, a mesma impossibilidade que revela uma escolha pessoal do autor cuja vida atormentada fica desnuda nos Diários onde ele escreve: Que casa é esta, onde será a minha casa? Existirá, eu a verei um dia?

Na Crônica da Casa Assassinada o autor retrata transgressões em todas as letras. Descreve a Chácara dos Meneses, um local decadente como a família que nele habita. Desenha a planta da casa e da chácara, que permite ao leitor identificar a estrada de Vila Velha por onde entrará Nina, a personagem central, mulher que se casa com o dono da fazenda para depois o trair e abandonar. Nina deixa Chácara dos Meneses para retornar duas décadas depois e encontrar o seu filho. Lucio descreve a Serra do Baú, presente no horizonte como um local inacessível que fica para os lados da Fazenda Antiga. A família decadente admira um Coronel, vizinho, poderosa figura que lhes promete uma visita nunca concretizada. A espera infindável obriga que a família esteja sempre preparada para o encontro. Demétrio, personagem rejeitado pela família, fica confinado em um quarto e veste roupas femininas herdadas da mãe. É a metáfora do homossexualismo do autor que explica a impossibilidade explicitada por Clarice. Timóteo, repleto de humanidade, é quem Nina escolhe como confidente se tornando conhecedor da verdade sobre o crime ocorrido naquele jardim escondido onde o jardineiro é assassinado. Nina trai o esposo, seu filho retorna para casa e emerge entre ambos uma relação intensa, por assim dizer. Emoldurando a obra, o tabu do incesto incomoda o leitor em todo o percurso da leitura. A tensão cresce e a aproximação da morte de Nina, anunciada no início da narrativa, traz uma quebra de expectativas, uma revelação, um amor escuso, dignos do melhor que a literatura pode proporcionar.

Lucio Cardoso escreveu com competência. A caracterização do espaço onde o enredo se desenvolve, os personagens, o decaimento de Nina, trazem elementos que dão visualidade ao texto. Os personagens são delineados com esmero escultórico. A provocação do leitor fica por conta de cenas de elevada tensão como o velório de Nina e, acima de tudo, por elementos psicológicos da transgressão.

A obra de Lucio Cardoso não perdeu o vigor e a atualidade. Lucio faleceu sem se reconciliar com a alma mineira, mas transformou a vida de Clarice Lispector que escreveu:

“Foi Lucio que me transformou em mineira: ganhei diploma e conheço os maneirismos que amo nos mineiros.”

E nós também.

The Vegetarian ou A Transgressora

Finalmente traduzida.

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Com o lançamento do livro de Han Kang no Brasil em 2018 pela Editora Todavia, traduzido por Mauricio S. Dias, resolvi reblogar o meu texto. Eu conheci Han em um encontro literário na Europa. Ela falou para um público pequeno, falou em Coreano. 

Han Kang é uma escritora Sul Coreana cuja obra chegou ao ocidente com a tradução do livro “The Vegetarian”.  Originalmente publicado em 2007 no seu país, a obra lhe rendeu o Man Booker Prize em 2016.  A autora tem estilo pessoal que transcende o que se pode esperar da escrita contemporânea. Ela nos instiga e conduz aos limites do comportamento humano.

O livro aborda o direito de escolha e chega ao extremo da escolha pela vida. Como indaga Yeong-hye, a personagem central da novela, “por que assumir que morrer é ruim?”  A personagem trata do direito sobre o seu ser integral, primeiro sobre o corpo e sexualidade…

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Ecdises Literárias

 

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ilustração Bertrand Costilhes

Um autor não deve atrapalhar a vida dos leitores ao tratar da própria obra, entretanto falar a respeito da motivação para a escrita pode não ser um ato egoísta. O que me levou a escrever um livro de contos que focaliza mudanças nas vidas de personagens comuns foram duas descobertas. (Acerba Dor, 2017)

A primeira, a descoberta literária da obra de Ernesto Sábato, cientista argentino que atuou como pesquisador na França antes de tornar-se um dos maiores escritores da América Latina. Sábato preferiu a desordem da literatura à ordem da ciência tal como relata na obra Nós e o Universo:

“ A ciência foi como um companheiro de viagem, durante um trecho, mas já ficou para trás. No entanto, quando nostalgicamente volto a cabeça, posso ver algumas das altas torres que divisei em minha adolescência e que me atraíram com sua beleza alheia aos vícios carnais. Logo desaparecerão do meu horizonte e só restará a lembrança. Muitos pensarão que isto é uma traição à amizade, quando é, na verdade, fidelidade à minha condição humana. De todas as formas, reivindico o mérito de abandonar esta cidade de torres – onde reina a segurança e a ordem – em busca de um continente cheio de perigos, onde domina a conjetura. “

A segunda foi a descoberta do fenômeno biológico que ocorre na vida de insetos que em certo momento da vida trocam de pele, que é representada pelo exoesqueleto, a carapaça que contém e protege o corpo do inseto. Quando o corpo cresce, mas não a carapaça, os insetos abandonam a proteção antiga enquanto uma nova carapaça amadurece. Sinais do fenômeno podem ser observados quando encontramos a casca vazia de uma cigarra agarrada ao tronco de uma árvore. A cigarra abandonou as amarras da pele antiga para poder crescer.

Sabem os entomologistas que a ecdise – nome dado ao fenômeno – é um período crítico para a vida do inseto uma vez que a sua nova proteção ainda não existe e a antiga não lhe serve mais. Neste período o inseto fica desprotegido, sujeito aos ataques dos predadores.

Não são os fenômenos entomológicos que me interessam, mas as ecdises do homem refletidas nas obras literárias, mudanças dos personagens em um romance, novela ou conto. Ecdises, nas obras literárias, capturam a atenção do leitor. Senão vejamos. Kafka começa assim a primeira frase do livro Metamorfose.

“Quando­ certa­ manhã­ Gregor­ Samsa­ acordou­ de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama meta­morfoseado num inseto monstruoso. …. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremu­lavam desamparadas diante dos seus olhos. – O que aconte­ceu­ comi­go? ­ – pensou­”.

Ou em Guimarães Rosa quando Riobaldo narra:

“O senhor, mire, veja. O mais importante e bonito do mundo é isto: Que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. ”

Aparentemente não existe literatura que não trate de mudanças sem o que, o texto seria enfadonho. Podem ser mudanças que não se concretizam, ou ainda aquelas que o critério de verossimilhança sugeriria como infactíveis, mas que se realizam. A obra literária captura o leitor que, na viagem da leitura, muda com o personagem que o encantou, e encantou porque mudou, trocou de pele em seu lugar.

COMPARTILHANDO ESPAÇOS

COMPARTILHANDO ESPAÇOS

Ainda que não exista nada de novo sob o sol, ideias antigas ganham fôlego quando ressuscitadas pelos, assim chamados, formadores de opinião. É o que ocorre quando se apresenta como novo os conceitos de cohousing e coworking, definidos como o uso de espaços para viver ou trabalhar compartilhando equipamentos e áreas de uso comum. É interminável a capacidade humana para adotar nomes novos – de preferência em Inglês – para velhos conceitos. Tratada como fenômeno inovador, a prática de dividir espaços para viver e trabalhar diluindo custos por meio do compartilhamento, nada tem de inovadora.

O compartilhamento pode ser encontrado nos índios brasileiros que habitam imensas ocas onde a vida coletiva promove segurança, acolhimento, cuidado compartilhado das crianças e idosos, além do uso coletivo dos ativos onde todos investiram o tempo dedicado ao trabalho de construção. Lembrei-me dos cortiços que existem na cidade de São Paulo e que adquirem cores específicas em diferentes períodos de tempo. Assim, o bairro do Bixiga e o Bom Retiro da minha infância tiveram – e ainda têm – espaços compartilhados por levas de imigrantes movidos pelo incentivo de conjugar pequenos ambientes para viver, compartilhar custos, obedecendo regras para garantir o convívio, nem sempre harmônico, diga-se de passagem.

Cohousing me fez recordar outras formas românticas de convívio como as pensões e as repúblicas. As primeiras foram comuns na organização da sociedade brasileira. Relata Pedro Nava no seu “Baú de Ossos”:

Quando meu pai deixou Juiz de Fora e mudou-se para o Rio veio morar com suas irmãs …. com Alice e Antonio Salles, em uma pensão à Rua das Marrecas 24.

Foi o tempo em que Nava reconhecia a cidade que o acolheria e onde se formaria como médico e escritor. A mesma cidade onde morreu de forma trágica.

Ao abrir outro escaninho de recordações encontrei um local que foi especial para a minha formação como indivíduo. A Zonzeira, uma república de estudantes que habitei na cidade de Piracicaba. Comuns nas comunidades universitárias, as repúblicas são exemplos do compartilhamento de ativos sob regras de convívio. Foi onde eu passei quatro anos da minha vida como estudante de ciências agrárias, convivendo com cerca de nove jovens com os humores juvenis explodindo, que dividiam quarto, banheiro, cozinha, sala, telefone, campinho para a pelada diária e a mesa para jogar truco posta na calçada da Rua João Sampaio. Quem colocava ordem na casa era o Valdir, um jovem que se ofereceu para trabalhar nos cuidados da casa. Rejeitado no mercado de trabalho pela sua opção sexual, Valdir foi um excelente apoio com quem muito aprendemos sobre o convívio humano. Como estudantes, nós dividimos mais do que o espaço, dividiamos experiências. Nossas histórias de vida seguiram caminhos diferentes, entretanto o compartilhamento vivenciado nos permitiu criar uma identidade que dá base ao convívio que mantemos até hoje. A socialização que experimentei como um jovem urbano, paulistano, me permitiu aprender com as experiências dos colegas vindos de outros cantos do Brasil. As regras de convívio eram definidas e muitas vezes ultrapassadas, o que por óbvio, causava conflitos. Nós ainda ignorávamos que tais conflitos fariam parte do aprendizado para a vida que teríamos pela frente.

Cohousing, coliving, regras de convívio, compartilhamento de despesas, uso comum de equipamentos, formas de vida de baixo custo. Nada de novo debaixo do sol, como dito no Eclesiastes, apenas novos nomes para bodes velhos.