OS ELEFANTES PODEM VOAR

VELHOS TEMPOS

Há coisas que, pela lógica, não deveriam ocorrer, mas acontecem bem à frente dos nossos olhos. No início me neguei a crer, deve ter sido impressão disse um amigo, ilusão de ótica comentou uma amiga, não brinque com coisas sérias reagiu o meu vizinho. Decidi me calar, parar de comentar e conviver respeitosamente com os elefantes voadores. Desde então acompanho os HONBASHÔ, os festivais de sumô que acontecem seis vezes ao ano no Japão.

Se restava dúvida, uma imagem revelou a verdade. Foi quando o YOKOZUNA Terunofuji, esquivou-se do golpe que fatalmente o atiraria para longe do DOHYÔ, o círculo onde se pratica a luta, e o adversário, tal como ele, originário das planícies da Mongólia, lançou-se como uma pluma ao vento, nadou pelo ar em câmera lenta, e aterrissou sobre a plateia do Kokujikan, o estádio tradicional no bairro de Ryogoku em Tóquio. Em meio a reações delirantes, a massa de 204 kg ergueu-se, retornou ao DOHYÔ galgando a escada lateral esculpida em barro, sal e cascas de arroz. Definitivamente, o SUMODÔ, o caminho do sumo, não é para iniciantes.

PREPARAÇÃO DO VÔO

Penetrar na NYU NIHON KA, a tradição profunda que sustenta a cultura japonesa, tem sido um obstáculo para os RIKISHIS, os praticantes, não japoneses cuja presença é crescente no HONBASHÔ. Há seis torneios anuais que congregam a nata dos praticantes que conseguem chegar ao MAKUUSHI, a divisão superior do sumo no Japão, liderada pelos lutadores da Mongólia. Há um brasileiro de nome Kaisei, entre eles.

A NIHON KYOKAI JAPAN, a entidade cujo painel de experts dita as regras e controla os passos dos praticantes, está preocupada com o declínio do OSUMÔ entre os mais jovens no Japão. São eles que definem quem deve entrar para a MAKUUSHI, quem deve ser eliminado por comportamento impróprio à tradição do SUMODÔ, e quem deve ser promovido até atingir os graus maiores, o grau de OZEKI e de YOKOZUNA, este último o maior a que pode chegar um praticante. Se um OZEKI não mantiver o número de vitórias adequado poderá ser demovido do grau, já um YOKOZUNA tem a perpetuidade do título.

Um não iniciado pode entender que as lutas duram dez a vinte segundos, tempo médio em que um lutador é derrubado ou desiquilibrado de modo a encostar uma parte do corpo no chão. Um observador cuidadoso perceberá que o início da luta é só aparentemente marcado pelo choque dos lutadores. Os corpos propositalmente obesos são cultivados com a ingestão de alimentos em quantidade tal que faria qualquer cardiologista perder o sono. Um olhar atento ao combate percebe que a peleja começou antes do choque físico, quando os RIKISHIS trocam o primeiro olhar ao entrarem no círculo consagrado do DOHYÔ.

A cada torneio uma equipe de artesãos tem a função de construir o local que abrigará os seis festivais anuais de SUMÔ. O início é marcado pela cerimônia de consagração do local que tem raiz na cultura xintoísta, ao final outra cerimônia precede o desmonte do DOHYÔ. Os rituais estão vivos na cultura japonesa, e talvez expliquem a sobrevivência da prática.

O painel de experts que controla a vida dos praticantes distingue SUMÔ do OSUMÔ, o segundo deve seguir as regras impostas pela tradição, as mulheres estão fora da prática, os estrangeiros são aceitos com reservas. A escolha do SUMODÔ é uma exigência que implica na adoção dos costumes, do idioma, e do comportamento alinhado à cultura, qualquer desvio implica na expulsão sumária daqueles que a desafiam.

O direito de abrir uma academia é regulado pela associação, em geral os YOKOZUNA tentam abrir uma HEYA quando se aposentam. Ao maior lutador de todos os tempos, o YOKOZUNA HAKUO que se aposentou em 2021, foi negada a licença, por comportamento não alinhado ao SUMODÔ. Não bastou viver no Japão desde os 14 anos de idade, de ter se tornado cidadão japonês, de ter se casado com uma mulher japonesa, de ter filhas japonesas, e de ter ganho um número recorde de 45 torneios. O seu feito não foi suficiente para justificar que um nativo da Mongólia, pudesse abrir o seu próprio centro de treinamento.

Golpe do YOKOZUNA

Nos torneios, muito antes do choque físico, uma vez trocado o primeiro olhar, a luta está iniciada. A coreografia envolve sucessivas aproximações e afastamentos. Os RIKISHIS jogam sal no chão onde os lutadores se enfrentam, ameaçam movimentos, batem as mãos nas pernas, no dorso e na protuberante pança cultivada pela ingestão de homéricas quantidades de alimentos nos HEYAS onde vivem e treinam. A qualquer momento, os corpos poderão afastar-se e retornar para o ponto do círculo onde duas caixas com sal ficam estrategicamente colocadas. Cada lutador toma nas mãos um punhado que é jogado sobre a área do DOHYÔ onde a luta será travada. Os corpos suados são enxutos com uma toalha entregue pelo auxiliar que zela pelo bem-estar dos RIKISHIS. As idas e vindas, o sal aspergido, os olhares trocados que podem ser tão expressivos a ponto de atravessar o corpo do oponente, se repetem até que o juiz-sacerdote sinaliza que a luta deve ter início. As preliminares podem demorar cinco minutos ou mais, e são tão ou mais importantes do que os vinte segundos da luta. Tal como no sexo, as preliminares são tão relevantes quanto o ato.

O RIKISHI que nadou no ar e aterrissou sobre a plateia, retornou ao local da peleja, postou-se diante do adversário, e fez um aceno com a cabeça reconhecendo a derrota. Em caso de dúvida um MIAUI é chamado, imediatamente quatro juízes se dirigem ao centro do círculo e proferem a sentença. Quando um YOKOZUNA perde, o público se manifesta jogando para o alto as almofadas utilizadas para acomodá-los na plateia. O inesperado é sempre recebido com júbilo. Em tempo de pandemia a plateia foi orientada a refrear o impulso de gritar ou fazer gestos largos.

O OSUMÔ ensina que que a vida é plena de improbabilidades. Ensina também que, como em qualquer cultura, há contrastes e incoerências no OSUMÔ, e penetrar na tradição – NYU NIHON KA – representa obstáculo, talvez intransponível para um não japonês. O OSUMÔ ensina que a prática da paciência, da luta virtual, do estudo dos gestos e dos movimentos ínfimos, pode explicar a vitória. A luta é um ato efêmero, pode durar um interminável segundo e, tal como na vida, os elefantes podem voar.

O Claro Enigma da Livraria Duas Cidades

Se o livro impresso desaparecer como se cogita, ficarei órfão da minha biblioteca. Eu a estruturei em duas partes, uma delas são os livros lidos merecedores de releitura futura, a outra parte é composta por livros virgens de leitura. Reconheço que eu não terei tempo de vida sequer para ler os livros do segundo bloco que, devo dizer, cresce a olhos vistos. Como dizia, se o livro impresso desaparecer, ficarei órfão da minha biblioteca, talvez um ou outro leitor compartilhe semelhante sentimento de orfandade. Se o avanço da digitalização for inevitável, as futuras gerações não mais poderão limpar livros, mudá-los de lugar, cheirar os aromas do tempo guardados entre as folhas ainda virgens, uma atividade digna de um Sísifo. Futuras gerações de leitores não se surpreenderão como eu que, entre uma espanada[1] e outra a remover o pó das estantes, encontrei os livros da coleção Claro Enigma editados pela Livraria e Editora Duas Cidades nos anos 80, cada volume protegido por uma sobrecapa de plástico com acabamento esmerado e dedicatória dos autores e autoras. Como me alegrei ao ler as mensagens recebidas de José Paulo Paes, Orides Fontela, Alcides Villaça, João Moura Jr. entre outros. Lembrei-me da Rua Bento Freitas 158 em São Paulo, outrora endereço da Livraria Duas Cidades que eu visitava com regularidade nas paulistanas manhãs de sábado.

A livraria tinha três elementos que me atraiam. Primeiro, o acervo com livros de qualidade que refletiam a preferência humanista do fundador e dos frequentadores. Segundo, a mesa ao redor da qual se acomodavam pessoas que nem sempre se conheciam e tinham uma identidade comum. Terceiro, a presença de Maria Antonia que, sempre delicada, indicava livros, encomendava aquele que eu desejava, ou separava um livro infantil para o meu filho. A Duas Cidades era formada pelos três pilares – uma mesa democrática, bons livros e Maria Antonia – elementos humanos que me faziam feliz.

A livraria, fundada por José Petronilo Benevenuto de Santa Cruz no início dos anos 50, trazia uma intenção no seu nome. As duas cidades estavam significadas no logo escolhido, duas torres sobrepostas a indicar a cidade celestial e a terrestre. A Duas Cidades editou livros, abriu espaços para a poesia, como exemplifica a coleção Claro Enigma. Editar poesia denota um ato de coragem que não faltou ao Frei Benevenuto e nem a Maria Antonia, que nos anos de chumbo acolheram muitos que sonhavam com a liberdade perdida nos anos 60 e 70, como Frei Fernando e outros intelectuais que pediam por um país livre, educado e cheio de livros. Talvez um sonho parecido com aquele que a cadelinha Baleia teve no livro Vidas Secas de Graciliano Ramos que, esfomeada, sonhou com preás gordas ao seu redor. Quanta felicidade haveria em um mundo cheio de preás e de livros. Nasceu a Duas Cidades como uma livraria que tornou-se uma instituição, um polo cultural, um ponto de encontro irradiador de ideias. Ao longo de décadas frequentei os espaços daquela livraria. As noites de autógrafos da coleção Claro Enigma nos anos 80 reforçaram o meu gosto pela poesia, lá conheci Orides Fontela, a refinada escritora maldita cuja luta poética, segundo Antonio Candido, “resulta na possibilidade de transformar a vida em palavra”. Na década de 2000 eu visitava a Duas Cidades acompanhado pelo meu filho, que anos depois – já adulto – me confidenciou ter guardado na sua memória as visitas feitas `a livraria de onde seguíamos para a loja da Aerobrás para namorar os aeromodelos ou para a loja Aquários Brasil para admirar os peixes coloridos nos aquários borbulhantes.

Não foram a ditadura nem o sofrível mercado brasileiro de livros, reflexo do país com educação precária, que feriram de morte a livraria. O tiro fatal veio em 2006 e foi fruto da decadência, da desocupação do centro da cidade e do pouco caso com o espaço urbano. No lugar das ruas cheias de vida urbana, cresceram os espaços fechados dos shopping centers, os lugares dando lugar aos “não-lugares”. A cada visita à livraria eu ouvia queixas de Maria Antonia sem ter como dar-lhe algum alento. Certa feita ela se debatia com a prefeitura pelo direito de plantar árvores na calçada para melhorar o ambiente árido da Rua Bento Freitas. Por fim a decisão pelo encerramento das atividades foi inevitável, decisão que veio a público com o anúncio de uma liquidação do acervo de livros. Covarde, eu preferi não assistir a esta cena.

Li crônicas sobre o episódio do encerramento das atividades da livraria, escritas por pessoas que experimentaram as mesmas sensações que eu. A sensação de estranhamento com o lugar perdido está contida na poesia de José Paulo Paes chamada Taquaritinga, sua cidade natal, quando visitada em algum momento da sua vida.  No livro da coleção Claro Enigma que tem por título: A poesia está morta, mas juro que não fui eu, o poeta escreve.

cidade:

nas ruas em pé

eternas namoradas me espreitam

eu é que não posso vê-las

cidade:

no jardim a fonte

insiste em jorrar

suas águas luminosas

só que me falta a sede

cidade:

agora nem as pedras

me conhecem

As cidades mudam e nós mudamos junto com elas. Eu me acostumei `a falta do espaço da Duas Cidades, a mesa ao fundo da livraria passou a ocupar um local na minha mente, eu já compro livros pela internet e leio textos via e-book, a vida segue o seu curso o que não impede que surpresas aconteçam.

Certo dia ao desembarcar do Metrô da Praça da Sé a caminho da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, avistei a livraria da UNESP e resolvi entrar. Rodei pelas prateleiras à procura de um livro, fui até o balcão para pedir informação sobre a obra. Chamei por uma senhora que, de costas para mim, atendia ao telefone. Ela virou-se e eu reconheci Maria Antonia, estava feliz em meio aos livros que representam a sua vida. Trocamos palavras de afeto e ela perguntou pelo meu filho.

Tempos depois eu voltei `a livraria da UNESP para agradecer Maria Antonia presenteando um exemplar do meu livro de contos, “Como são Cativantes os Jardins de Berlim”. Uma pequena homenagem a alguém que incorpora o papel de uma casa de livros, o papel de salvar almas, de dar sabor à vida, de formar leitores, e quem sabe, escritores.


[1] Espanador é um objeto formado por um cabo ao qual se prendem penas de aves, que serve para remover o pó dos objetos. Acho que caiu um desuso.

Cicatrizes Douradas

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A vitrine suja não impedia que eu observasse o trabalho do artesão dentro da loja de artigos de cerâmica. Eu andava pela Liberdade, o bairro oriental de São Paulo, diante de uma vitrine vi um homem com traços orientais cuja idade não consegui identificar. Era imberbe e tinha cabelos grisalhos, com movimentos lentos espalhava, sobre uma mesa, fragmentos de um objeto de cerâmica. Utilizava pinças tentando juntá-los com devoção quase religiosa. Comparava, media, encaixava as partes do objeto em busca do encontro perfeito, do ideal das almas gêmeas. O homem mantinha a respiração sob controle e o olhar focalizado no trabalho. Parecia ser uma tarefa difícil, com um lenço ele enxugava o suor que lhe escorria pela fronte enquanto examinava as peças do quebra-cabeças tridimensional. Quando a tentativa não tinha êxito o seu semblante acusava o insucesso, o que era revelado por meio de contorções labiais, suspiros profundos e ar desolado. Algumas vezes encheu as bochechas que inflaram antes de expelirem o ar acumulado, como um Louis Armstrong oriental. Algumas vezes colocava as partes de cerâmica sobre a mesa e se afastava rolando a cadeira giratória. Assim fazia para melhor observar a cena da luta que ele travava em busca da perfeição, depois voltava à carga.

A certa altura pareceu exausto, colocou as pinças sobre a mesa, apagou lâmpada que o auxiliava, deu um suspiro de desesperança e saiu do meu campo de visão. Quando retornou eu ainda observava o local de trabalho vazio sem perceber o quanto era invasivo, eu era um intruso a testemunhar um momento do insucesso, e ninguém gosta de ser observado em meio a uma batalha perdida. Ele olhou para o lado e ao me ver na rua fez sinal com as mãos para que eu entrasse. O seu olhar sincero me fez aceitar o convite, abri a porta de vidro emoldurada em madeira e ao fazê-lo ouvi o som de um sino. Entrei acompanhado pelo som agudo que anunciava a chegada dos clientes, a loja estava entulhada com objetos de cerâmica sem padrão definido, alguns pretendiam ser decorativos, outros utilitários, todos estavam empoeirados. O homem não perguntou o que eu queria, apenas disse – fique à vontade – acendeu a lâmpada e retomou o trabalho.

Eu fingi escolher um objeto enquanto mantinha a atenção nos gestos do artesão. Percebi quando ele tomou fôlego de Sisifo e voltou a reconstruir as partes espalhadas pela mesa. Ao encontrar duas peças que se casaram perfeitamente, um ar de felicidade transpareceu não apenas do seu rosto mas de todo o corpo.

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– Conseguiu? – Eu perguntei.

– Sim, um bom começo, mas terei um longo caminho pela frente.

– É uma peça valiosa?

– Depende como você a olhar. A peça compõe um jogo de chá que a minha avó trouxe do Japão, é um conjunto comum produzido por um ceramista anônimo da aldeia da minha família. Esta é a única herança que eu tenho, o único objeto que minha avó deixou. Foi estilhaçado em um acidente.

– Você vai conseguir recuperá-lo como o original?

O homem me apontou o olhar sugerindo que eu não havia compreendido o que ele fazia.

– Seria impossível, não honraria a história do objeto. A beleza desta cerâmica está na imperfeição e se esconde nos fragmentos sobreviventes. O objeto antigo foi perdido quando se quebrou no acidente, o que me resta é aceitar a perda e recompô-lo na medida do possível. Se eu tiver sucesso, outra beleza surgirá da recomposição das partes. Este é o conceito da arte do kintsugi que recompõe fragmentos de cerâmica quebrada juntados com uma mistura de goma e pó de ouro.

– Kintsugi, pó de ouro! – Eu repeti as palavras tal como as ouvi e ele explicou.

– Kin, significa ouro e tsugi significa conectar, portanto kintsugi é conectar com ouro, uma arte que tem 500 anos.

O homem girou a cadeira que o acomodava, levantou-se e mostrou um objeto recuperado, era uma chávena feita de fragmentos conectados com pó de ouro. Ela revelava certa harmonia nos veios dourados marcados em ouro na superfície.

– Esta cerâmica foi reconstruída, não é aquela que lhe deu origem. Se eu fui feliz na sua reconstrução, os veios dourados visíveis nas faces conectadas devem exprimir a beleza das imperfeições. Sugerem que a perda é um passo para revelar outra beleza, diferente daquela que ficou na memória. Novo ou velho, são adjetivos que não capturam a essência dos trajetos percorridos.

O homem levantou-se e caminhou com dificuldade, precisou apoiar-se na parede. Ao aproximar-se da lâmpada eu vi que ele tinha o rosto, o pescoço e os braços marcados por cicatrizes. Talvez um acidente, talvez ele mesmo tenha sido reconstituído. O artesão retomou o trabalho de busca das peças que seriam as próximas a compor o jogo de chá da sua avó. Compreendi que ele recompunha a sua própria história, colava com ouro as peças que que se encaixavam e recriava as partes desencontradas. O rosto do homem, marcado por cicatrizes, tinha certa beleza.

Apesar de Você

Um Ogro à Solta

Em 1977 eu era um jovem pesquisador a viver o tempo da ditadura. Cursava o programa de mestrado em economia agrícola na USP quando recebi um convite para participar do encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que teria lugar em Fortaleza. Seria bom respirar um pouco pois os tempos eram difíceis, o debate acadêmico reprimido, as lideranças políticas e culturais perseguidas. Foi quando eu recebi um ofício do ministério que me provia uma bolsa de estudos, o texto era claro. Eu estava proibido de participar do encontro, era a ordem da organização que provia a minha bolsa de estudos. Compreendi que para as ditaduras pensar é perigoso e o debate, ameaçador.

Passadas quatro décadas, senti repulsa pela postura do governo federal que puniu docentes da Universidade Federal de Pelotas por terem criticado a incompetência que emana a partir de Brasília no trato com a pandemia. Assim, seguindo sua cartilha, o governo ameaça o livre pensar, captura e tolhe as instituições entre as quais a Universidade. A história se repete e reforça os sinais de medo com o debate de ideias.

O ato do governo não foi solitário nem inocente. Ao contrário, ele se coaduna com a postura refratária à crítica que faz parte da cultura e da razão de ser da academia, das artes e da imprensa.  A imprensa é acusada de informar, as artes acusadas de viés ideológico e as Universidades acusadas de pensar, ou seja, são acusadas por cumprirem o seu papel. Para um presidente que padece de incontinência verbal, mais fácil é punir, ameaçar, e tergiversar das suas responsabilidades. Assim fazendo descumpre o seu papel e desrespeita os cidadãos por atos e pelo verbo.

A insanidade do planalto gera repulsa nacional e internacional. A inabilidade demonstrada no trato com a saúde pública trará reflexos no desequilíbrio fiscal cujos efeitos amargaremos nos anos vindouros. Práticas populistas prometem efeitos eleitoralmente interessante para os militares no poder. O governo adota estratégias genocidas forjadas com o olhar voltado para as eleições que se aproximam e para o plano de tornar o país um imenso quartel sob a guarda divina. Assim fazendo promete garantir os interesses pecuniários de um contingente de militares alocados em postos para os quais não estão preparados. 

Para o governo mais vale buscar o voto do miserável do que ouvir a crítica dos cientistas e da imprensa. Mais vale organizar missão internacional que expõe ao mundo a insanidade mental do ministro das relações exteriores, fiel observante da doutrina ultradireitista. Seria cômico, não fosse trágico. Pagaremos a conta dos atos inconsequentes que servem como cortina de fumaça para garantir o voto ingênuo de seguidores apalermados em busca de um salvador da pátria. Punir cientistas e desinformar são ações que ludibriam a boa fé pública e jogam o país no fosso do debate ideológico irresponsável.

O governo atua como um ogro dos contos de fadas, capturou o legislativo, fez uso de métodos que classificava como abomináveis, aparelhou os órgãos da administração direta com fardados que não se envergonham de exporem a instituição das forças armadas. Os atos deste governo serão julgados, não pelo supremo, não por alguma comissão de ética no congresso, não por algum tribunal internacional. Serão julgados pela história.

O encontro da SBPC em Fortaleza em 1977 foi cancelado e eu segui carreira científica. Vivi para ver o país trilhar o caminho da democracia, percorri uma carreira na Universidade da qual me orgulho e que não se coaduna com a cultura militar de obediência servil e avessa à crítica. O mesmo afirmo sobre a minha atuação como escritor, as artes vivem da liberdade de criar. Compreendo a lógica da hierarquia militar, mas ela não serve para a sociedade extra caserna. As ordens inconsistentes emanadas de Brasília, induzem os lambe botas colaboracionistas a cumprirem-nas sem pudor ou senso crítico. Afinal, na caserna há quem mande e quem obedeça.

Pensar continuará a ser um ato livre a incomodar ditadores. Pensar ameaça o maniqueísmo tosco que rege o discurso do mandatário que descumpre o seu papel com discursos que ofendem a nação. A ciência segue afirmando o óbvio, que a terra é redonda, que a Amazônia vem sendo destruída, que as vacinas salvam, que o distanciamento social é necessário, que o aquecimento global existe e persiste.

Apesar das palavras do senhor presidente.

Decio Zylbersztajn

Escritor e Professor Titular Sênior da Universidade de São Paulo

Os Povos do Sertão

O caminho que nos levou à Chapada Gaúcha é longo. Aceitei o convite para dar uma palestra na cooperativa de agricultores e fui com minha esposa conhecer a região entre Minas Gerais, Goiás e Bahia. 

Contrariando o que o topônimo sugere, Chapada Gaúcha fica no Estado de Minas Gerais. Ali perto, na vila da Serra das Araras, ocorre uma festa popular denominada Encontro dos Povos do Sertão. Aproveitei o trabalho acadêmico para conhecer a terra e a gente daquele canto das Minas Gerais.

Fomos por caminho de terra via Montes Claros, a alternativa seria pegar o asfalto a partir de Brasília. A rota foi escolhida com a intenção de cruzar o Velho Chico na cidade de São Francisco. O caminho corta o cerrado e oferece um cenário que espanta ao primeiro olhar e encanta a partir do segundo. Tudo ali é raro, o rastro da onça, o pequizeiro a atrair o desavisado, as veredas a indicar água à flor do chão e a gente que se confunde com o pó do sertão. Habitantes de pele curtida e alma mansa, desconfiam por natureza e espelham o que o meio físico lhes ensina.

De Montes Claros passamos por Brasília de Minas e chegamos à cidade de São Francisco onde atravessamos o rio. Lembrei-me das citações de Guimarães Rosa que descreve aquele lugar, outrora habitado por jagunços, como palco de refregas a risco de facas. A viagem começava ali, evitamos Januária e fomos na direção de Urucuia e Arinos, e dali para o norte até Chapada Gaúcha. 

Levamos oito horas para cumprir 425 km de estrada de chão, cruzamos o sertão que revelou alguns dos seus segredos. Vimos rastros de animais, uma escola rural cheia de vida, de cores e de crianças a correr. De onde vieram tantos miguilins? Paramos em uma casa, pequenina e ladeada por uma roça, para conferir se o caminho era o correto. Palmas na porteira e nenhuma resposta, avistei um homem que correu mato adentro, e uma mulher que nos recebeu com uma caneca. A água fresca tinha sabor que não sei explicar, mas guardei na memória onde são guardadas as coisas do coração. Um pouco sem jeito ela explicou para minha esposa que planejava construir um banheiro, mas a cisterna teve prioridade.

O sorriso da mãe revelou a chegada da filha, uma menina de 12 anos que trajava uniforme escolar e mochila. Aquela criança poderia estar em Copacabana, em Pinheiros ou na Asa Norte em Brasília. Tinha um ar alegre, talvez por viver naquele lugar de lendas e histórias. No meu sonho desejei-lhe um futuro feliz.

Rodamos mais uma centena de quilômetros, passamos pela Serra das Araras sem parar. O compromisso na cooperativa nos obrigou a seguir até Chapada Gaúcha que revelou ser uma cidade sem belezas, com ruas planas, tratores e caminhões indicando uma economia em movimento. Um CTG na entrada da cidade e a cooperativa refletiam a tradição das ações coletivas das famílias que lá chegaram nos anos 70, vindas do município de Espumoso no Rio Grande do Sul. Venderam as suas herdades de 30, 40, 50 hectares e compraram mil, dois mil de terras férteis. O solo da chapada somado ao trabalho das famílias resultou em um padrão de vida invejável. Eu quis saber mais a respeito do local, da sua história, do seu povo. Quem habitava ali antes dos gaúchos?

Ouvi duas histórias. A primeira revelou que as famílias compraram terras ociosas de um projeto de colonização privado. Havia recursos de Brasília e apoio internacional para trazer os gaúchos, ávidos pela terra que lhes faltava no sul. De boa fé eles vieram, receberam a documentação, fincaram pé no local e trabalharam.

A segunda história revelou outra face. Havia famílias no local como sempre houve nas chapadas férteis do interior do país. Lá viviam por gerações, tinham o sangue dos índios, dos negros e dos brancos, da gente que aprendeu a conviver com o cerrado. Sabiam do regime de chuvas, tinham uma cultura rica, produziam para viver e faziam pequenas trocas. Só não tinham documentos que lhes dessem algum direito sobre as propriedades onde viveram por gerações. Sem amparo, foram empurrados para as beiras da chapada fértil, foram para a parte baixa, para a Serra das Araras onde vivem até hoje e onde celebram a festa dos povos do sertão.

Fiz o meu trabalho e tomamos o caminho da volta, descemos a encosta da chapada e paramos no povoado. A festa tinha acabado só restando as bandeirolas a vibrar ao vento, marcando a história de um povo justo, humano, rico e desprotegido. As duas histórias que ouvi eram verdadeiras, conhecidas, brasileiras.