Um Sonho Amazônico

Qual a chance de se encontrar alguém de Laranjal do Jari (Amapá) ou de Monte Dourado (Pará) no círculo polar ártico? Pois foi o que aconteceu em 2017 na Islândia onde conheci Rose e Sebastian no saguão da Prefeitura de Reikjavik durante um evento literário. Ouvi frases em português e identifiquei o casal de pesquisadores que deixou o Brasil para seguir uma carreira universitária na Islândia. Sebastian é alemão e viveu em Belém onde fez doutorado, conseguiu uma posição na Universidade de Reikjavik. Se bem me lembro, línguas em risco de desaparecimento era o seu interesse, tema que seria abordado no evento literário por uma escritora e pesquisadora inglesa.

No Círculo Polar Ártico

Um idioma que morre representa perda cultural inestimável, com ele se perde a memória coletiva das gerações que contribuíram para a sua formação. Os rastros dos idiomas que sobrevivem na história oral ou nos textos escritos revelam os sonhos dos povos, sua extinção tem paralelo com a perda da biodiversidade de uma floresta devastada. Conheço bem esta história pois a minha família viveu o drama do desaparecimento do yidishe, língua que cresci ouvindo os meus pais falarem e que foi quase extinta pela mão insana do holocausto. O advérbio “quase” revela que o idioma e a cultura que ele representa, sobreviveram à violência, o yidishe tornou-se língua de resistência.

O encontro com o casal de brasileiros foi um episódio furtivo e eu não os encontrei depois. Rose nasceu em de Monte Dourado, cidade criada pelo milionário norte-americano Daniel Ludwig – dono de frotas para transporte de Petróleo – que desejava criar um império econômico na Amazônia brasileira, o projeto Jari nos anos 60. Antes de Ludwig os coronéis José Júlio de Andrade (1889) e Manoel Carlos Ferreira Martins (1902) exploraram e tomaram posse das terras às margens do Rio Jari de onde expulsaram – ou aniquilaram – os índios que lá habitavam. Exploraram a castanha do pará, a seringueira e as madeiras nobres, deixando as espécies pobres, de madeira e de gente ribeirinha. Depois vieram os mineradores industriais com as bênçãos dos militares brasileiros que não apreciavam a presença de Ludwig cujas atividades incluíam a produção de minério, madeira e o projeto de uma fábrica de celulose. A fábrica, montada sobre um navio, deixou o Japão, foi rebocada pelo mar da Índia, contornou a Cidade do Cabo – o Cabo das Tormentas – atravessou o Atlântico, subiu a costa brasileira e entrou na água-mãe do Amazonas. Dali derivou para o Rio Jari, um dos afluentes da margem esquerda, a fábrica-barco ancorou na trincheira aberta sobre pilares de massaranduba que lá permanecem depois de décadas.

Do Japão até o Rio Jari

As atividades que desenvolvi na Universidade de São Paulo me levaram àquelas paragens onde conheci o projeto Jari já nas mãos do empresário brasileiro Sergio Amoroso. Em um leilão ele assumiu uma dívida impagável junto a vários bancos públicos e privados, pagou dois dólares pelo pacote. Para os credores era melhor ter um sonhador à frente do projeto a vê-lo naufragar nas águas amazônicas. Definiu-se uma complexa fórmula para pagamento da dívida que nunca foi efetivada.

Ludwig, no melhor estilo Casa Grande e Senzala, construiu uma cidade para os engenheiros – Monte Dourado – com escola, hospital, aeroporto, água tratada e utilizou a massa de trabalhadores disponíveis do outro lado do Rio Jari, na cidade de Laranjal do Jari, onde viviam em ruas sem calçamento ou saneamento. Veio gente de Macapá, Mazagão, Belém, chegaram nordestinos que, trazendo a sabedoria adquirida na lide com a seca, povoaram a região, aprenderam a lidar com as cheias e com a falta de tudo, menos de esperança.

Havia dois aeroportos nas cidades ribeirinhas, um era oficial e funcionava em Monte Dourado, nas boas épocas da fábrica de celulose um voo diário conectava com Belém. Do outro lado, em Laranjal do Jari, um aeroporto sem registro formal tinha movimento intenso de aviões do garimpo. Lá um monomotor pousou sem a porta do passageiro, pelo buraco desembarcou um sujeito bamburrado – cheio de pulseiras e colares de ouro – que tirou de dentro da cabine…. um bezerro. 

Pelo Rio Jari subi até a cachoeira de Santo Antônio, uma imagem deslumbrante vista a partir do barco que se aproximou até o ponto de segurança. Na volta, o piloto parou na margem e me mostrou um túmulo com uma suástica que indica o local onde está enterrado Joseph Greiner do exército alemão. Parece que Hitler tinha intenções expansionistas na Amazônia e organizou viagens de reconhecimento. A malária abateu o chefe do grupo e dispersou os demais, e a história abateu o führer.

Eu mantive contato com a região por alguns anos, vários estudos foram conduzidos pelos meus alunos. A situação financeira da empresa piorou a partir da decisão de construir nova planta de celulose em substituição à primeira importada do Japão. A empresa deixou de operar na década de 2020. A ideia de conduzir projetos na região desafia empresários e governos, sabemos que a Amazônia não é para principiantes e que a floresta pede abordagem diferente dos modelos produtivistas tradicionais.

A Amazônia está cheia de histórias de perdedores, explorados, sem voz, dos que foram escorraçados e seguiram para a serra do Tumucumaque na fronteira com a Guiana Francesa, quase não há rastros dos povos originais, da sua cultura ou do seu idioma. Eu cruzei pelas áreas de florestas públicas, depredadas por invasores que exploraram tudo o que puderam. A reserva que pertencia à empresa demandava considerável soma de recursos para ser protegida, quanto a floresta pública, esta não sobreviveu.

Qual será o destino da Amazônia se o Estado não cumprir o papel? Qual o destino dos povos originários que seguem sendo alvos predatórios dos interesses imediatistas? Como proteger as gerações futuras do risco de viverem em uma sociedade sem florestas, sem história, sem gente? Eu nunca mais soube do casal Rose e Sebastián, espero que o destino tenha sido bondoso com eles.

Um Café com o Professor Ronald Coase

Reencontrar velhos amigos é bom, foi o que aconteceu ao reorganizar os livros da minha biblioteca onde eu acomodo aqueles que contribuíram para a formação das minhas dúvidas e incertezas, lá estão os autores que deram forma ao meu modo de ver o mundo, alguns me influenciaram por empatia, outros por antagonismo. Procurei identificar a lógica na escolha dos autores que elegi para habitarem a minha biblioteca – que não é imensa, mas é seleta – a maioria se enquadra no perfil humanístico, desafia as ortodoxias e em algum momento de suas vidas foram incompreendidos. Há aqueles que foram criticados pela, assim chamada, direita e esquerda, por esses últimos eu tenho especial atração.

Um dos escolhidos influenciou a minha fase acadêmica, o seu nome é Ronald Coase (1910-2013) foi um gerador de conceitos que renderam o prêmio Nobel em economia em 1991. Eu o encontrei em diversos momentos ao longo da minha trajetória acadêmica quando ele tinha mais de 85 anos. De personalidade crítica e bem-humorada, andava cercado por jovens estudantes e de futuros cientistas desejosos de absorver algo do seu espírito criativo. Não usava cartões de crédito, desconhecia os métodos quantitativos o que ainda é visto como pecado pelos economistas ortodoxos, apreciava um bom debate, um estudo de caso conhecido como Fisher Body contribuiu para o conhecimento do crescimento das firmas e gerou troca de artigos críticos com Benjamin Klein que só foi interrompida quando o editor da revista interrompeu o entrevero acadêmico.

Para o padrão de exigências do mundo acadêmico atual Coase publicou pouco, ele não receberia apoio das agências de fomento pela baixa produtividade. A diferença estava na qualidade, no impacto das ideias e na observação do inusitado. No artigo “The Problem of Social Cost”, ele apresentou argumentos contraintuitivos para a solução dos problemas de externalidades, fundamental para lidar com as questões ambientais e que deu o fundamento para a criação dos mercados de créditos de carbono. Incomodou os economistas ortodoxos ao criticar a falta de realismo da teoria econômica dominante que chamava de “blackboard economics”. Insistia em manter a atenção na solução problemas do mundo real e motivava os seus alunos a observarem a realidade, para tanto criou o bordão: what is going on here?  para sugerir a necessidade de lidar com problemas reais. Ao longo do tempo descobri que a maior parte dos meus alunos e mesmo cientistas maduros, partem para a batalha sem saber qual o seu alvo.

Coase tratou de temas tão diversos como a existência e os limites do crescimento das firmas, as múltiplas formas de organização na sociedade, as soluções para os problemas das externalidades, e o crescimento da China. É considerado o fundador da Nova Economia Institucional e alavancou o estudo da Economia das Organizações, abordagens que adotei para o estudar das organizações agrícolas. A provocação coasiana se mostrou útil para refletir a respeito dos fenômenos sociais da forma como entendemos o mundo. Se partirmos de realidades distorcidas, nossas interpretações estarão fadadas à inconsistência e geraremos soluções inúteis.

Certa feita fui convidado a ser o porta voz da comunidade acadêmica em homenagem ao Professor Coase pela Faculdade de Direito da Universidade de Chicago onde ele trabalhou na maior parte da sua vida. Na oportunidade lembrei que aquele jovem nascido na Inglaterra e que fora rejeitado pela London School of Economics, foi autor de um artigo icônico escrito em 1937 denominado “A Natureza da Firma” que questionou o conceito de firma utilizado pela teoria econômica. É considerado um dos artigos mais citados na história das ciências sociais que revolucionou a forma pela qual compreendemos as organizações da sociedade. No discurso que fez ao receber o Prêmio Nobel de Economia ele mencionou o artigo dizendo que foi escrito quando ele tinha apenas 21 anos, idade na qual – segundo suas palavras – o sol nunca deixa de brilhar.

Sou grato ao Professor Coase por iluminar o caminho para o estudo das organizações na sociedade e questionar a função da pesquisa acadêmica. Eu não imaginava que o bordão “what is going on here” seria importante na vida de escritor que sucedeu a minha atuação na universidade. Encontrei paralelos com citações de Walter Benjamin sobre a importância de observarmos o mundo real para elaborar a escrita. Eis uma boa oportunidade, vou convidar Ronald Coase e Walter Benjamin para um café na minha biblioteca onde serei um observador privilegiado e atento à conversa que vai rolar.

Nós os Contadores de Histórias

Nascemos para contar histórias, a espécie humana é narradora por excelência e os símbolos são a nossa ferramenta. Não existe narrativa objetiva, limitar a narrativa à objetividade não só é impossível como nos igualaria ao comportamento instintivo dos animais. Em que pese o esforço de um narrador – um cientista ou um jornalista – pela busca da objetividade e imparcialidade, no momento de relatar ocorre a troca da objetividade pela linguagem codificada. As palavras formam frases, nada mais do que símbolos encadeados que carregam significados particulares de quem escreve e de quem lê.

A linguagem deu luz ao homem narrador, primeiro por meio da oralidade – que nos acompanha até hoje – depois pela imagem pictórica nas cavernas, pelo ideograma, pela escrita fonética, pela magia da imagem seja na fotografia no cinema na televisão ou na tela do computador, as imagens são imbatíveis como forma de expressão segundo Vilém Flusser. A narrativa por meio da imagem transmite mensagens com inigualável eficiência, o receptor gasta pouca energia para decodificar.

A propaganda utiliza a imagem para capturar e criar desejos e o bolso do público. A autora Siri Hustvedt no livro “Living, Thinking, Looking” nos alerta que o desejo difere da necessidade, o primeiro se caracteriza pela insaciabilidade após o ato de apropriação. Fato é que vivemos o momento da volta ao uso da imagem – tal como fez o homem primitivo – e da oralidade com a popularização do podcast. Parece que ambas, a imagem e a oralidade, subjugam a escrita, como afirma Flusser no livro que tem por subtítulo: há futuro para a escrita?”. Se o autor tinha razão ao profetizar o fim da escrita isto não significa o fim do homem narrador. Se Fernando Pessoa afirmou que navegar é preciso, viver não é preciso, Flusser teceu um paralelo, scribere necesse est vivere non est que talvez melhor se ajustasse à sua intenção se afirmasse que narrar é preciso, viver não é preciso.

Seja qual for o meio escolhido, o texto, a imagem ou a voz, quando narramos transmitimos mensagens simbólicas e o receptor decodifica os símbolos à sua maneira. Ambos, emissor e receptor, têm códigos próprios, únicos, que habitam o seu córtex cerebral, eis a beleza da leitura que a faz tão criativa quanto a escrita. Eu – e certamente qualquer escritor – já fui surpreendido por interpretações inesperadas dos meus textos. O leitor decodifica, reconstrói, interpreta, e pode fazê-lo de forma criativa superando o autor.

O prazer da narrativa resulta do ordenamento das ideias que o autor se obriga a fazer ao narrar. Flusser afirmou que escrever significa organizar o pensamento, colocar ordem no caos da mente. Talvez possamos afirmar que o ordenamento do caos resulta da transmissão dos sentimentos por meio dos símbolos, das letras enfileiradas na escrita fonética, das ideias encapsuladas pelos ideogramas, pelos sentimentos embutidos no traço do desenho, pela textura da tela, pela sequência de imagens e sons no cinema, pela harmonia na música, pela forma da escultura ou pela plasticidade dos corpos em uma coreografia. Impregnado no meio escolhido para expressão encontraremos o sentimento e a intenção do autor.

A leitura, tal como a observação da imagem, a contemplação da escultura e da dança, sugerem que em alguma medida o observador, leitor no caso do livro, se torna coautor da obra. O ato da leitura é um ato de reconstrução, de reinvenção. A arte existe para nos ajudar a reordenar o caos das nossas mentes, seja para o autor – emissor da mensagem – seja para o leitor/observador – receptor da mensagem. Os lugares comuns aqui são permitidos, a arte existe porque a vida não basta, o livro e o cinema nos transportam a lugares desconhecidos, e no limite a arte existe porque desejamos a vida.

O debate a respeito do impacto da inteligência artificial sobre a criação artística me permite afirmar que os algoritmos são pouco habilitados para lidar com a linguagem simbólica que se reconstrói a cada geração ou a cada momento. Algoritmos poderão até tentar incorporar arquétipos universais ou imitar as reações humanas que possam ser vislumbradas por um meta-programador e assim tentar imitar a criação, entretanto o sentimento humano tem inabalável profundidade, se transfigura, tem plasticidade. O prazer da criação artística é insubstituível, narrar é ato humano, o olhar de uma criança ao ouvir uma história reconhece isto. Nascemos para contar histórias, a espécie humana é narradora por excelência e os símbolos são a nossa ferramenta.

O Meu Nome é Débora

É possível fazer o trajeto entre Vilna e Lódz em 6 horas ao longo de 600 km. Tal viagem entre a Lituânia e a Polônia seria impossível para os meus pais que de lá saíram ainda crianças na década de 1920. Eles se conheceram no Brasil, por coincidência ambos eram Zylbersztajn ou Zylberstein, as grafias levemente distintas foram geradas pelos agentes da imigração. Eles tiveram sorte, outros parentes não deixaram a Europa por diferentes razões, uns por não acreditarem no ambiente hostil que se instalava por lá – afinal já eram calejados na arte de sobreviver aos pogroms – outros não conseguiram vistos ou não tinham recursos para a jornada.  Os que saíram foram dar em destinos tão distantes como Melbourne, Santos e Nova York onde refizeram as suas vidas. Entre os que permaneceram na área devastada pelo nazismo nós conhecemos apenas traços de informações, fragmentos que tivemos que juntar para criarmos memórias. Vou narrar um destes acontecimentos que me marca de modo particular, e vocês saberão a razão.

A minha avó materna, Baba Liba, foi uma mulher de poucos sorrisos. Ela saiu da região de Swir, então na Lituânia, e chegou a Santos acompanhada pelo meu avô Aron e dois filhos, a minha mãe, Sara e o meu tio, José. A família seguiu para Porto Alegre onde minha mãe viveu até a adolescência. Eu convivi com Baba Liba quando ela se mudou para São Paulo onde passou os últimos anos da vida. Lembro dela sentada em uma cadeira a ler tudo o que lhe caisse nas mãos, lia textos em alemão, polonês, litvak e yiddish, o idioma do dia a dia. Pouco falava, escrevia cartas para quem precisasse se comunicar com parentes na diáspora. Ela separou-se do meu avô, fato raríssimo na época, que permaneceu no Rio Grande do Sul onde viveu a mascatear. Comprava e vendia tudo o que lhe caísse nas mãos e o seu apego por um rabo de saia deixou rastros cujos frutos surgiram até mesmo depois da sua morte.

Foto da Imigração: Baba Liba, avô Aron, Sara minha mãe e tio José. A boneca se perdeu no mar.

Em Porto Alegre, vivia Iankel Shimen, meu tio avô, irmão de Baba Liba, que dava aulas de bar mitzvah e mergulhava nos livros enquanto sua esposa cuidava de uma loja de presentes. Ele era um intelectual, algumas famílias relutavam em contratar os seus serviços pois ele costumava ensinar ideais socialistas misturados aos textos das orações que os jovens deveriam aprender para o ritual da maioridade.O meu tio Josel falava com respeito e carinho do tio que o preparou para a maioridade. Outro irmão de minha avó foi Max, que seguiu para NY onde minha irmã o encontrou certa feita, tinha uma farmácia e não foi muito cordial com a visita da família brasileira. Desconfiado, talvez achasse que havia alguma intenção oculta no encontro.

Baba Liba era Barchanovitch quando solteira, além do irmão que emigrou para Nova Yorque, o segundo irmão Iankel Shimen foi o primeiro a viajar para o Rio Grande do Sul e incentivou os meus avós a que viessem ao Brasil pois o visto norteamericano lhes foi negado. Naquela época o destino era pouco relevante, o que importava era deixar o ambiente tóxico que se instalava na Europa. A minha mãe e o meu tio já eram nascidos como demonstra a única foto que tenho com a família reunida, no documento de imigração onde Liba, Aron, Sara e José aparecem. A minha mãe com uma boneca nas mãos, que segundo ela teria sido atirada ao mar por uma menina no curso da viagem de navio em terceira classe. Chegou sem boneca e sem sorriso. Ao longo da sua vida sempre tivemos alguma dificuldade em fazê-la sorrir para tirar fotos, talvez lhe faltasse a boneca.

A quarta irmã dos Barchanovitch não conseguiu emigrar para o novo mundo. Morta pelos nazistas, o seu nome era Dvoyre (Deborah) Barchanovitch. Tal como o irmão Iankel Chimen ela era socialista, diferente dele era ativista nos movimentos que fervilhavam na Europa entre as duas guerras. O compromisso progressista estava impregnado na família materna. Temos poucas informações sobre ela, minha mãe a descrevia como uma ativista capaz de subir nas mesas dos bares para fazer discursos inflamados. Ela estava na Europa quando Hitler subiu ao poder em 1934, socialista, judia e sem família foi presa e encarcerada. Consta que teve um filho e que ambos morreram em um dos campos de exterminio instalados entre Vilna e Lódz.

Na foto Dvoyre veste uma roupa discreta, colarinho redondo colado ao pescoço, quatro botões encimados por um broche. Os óculos redondos protegem um olhar assustado, talvez antecipando o destino que lhe aguardava. O cabelo repartido era curto ou preso atrás da cabeça, não é possível precisar. Os lábios finos, levemente arcados, não sugerem um esboço de sorriso. Estes são os fragmentos que temos de Dvoyre e a história poderia terminar neste ponto, entretanto houve um desdobramento que me envolveu de modo direto.

Os judeus recebem um nome no batismo e eu sabia que o meu nome era David. Eu tinha esta informação coerente com a tradição judaica que sugere que os filhos recebam nomes dos antepassados ou algum nome alusivo à tradição bíblica, portanto eu compreendia a lógica do meu nome de batismo. Assim foi até que eu soube que o meu caso era diferente, muito diferente.  Minha mãe passara dos 90 anos quando o assunto reapareceu. Eu a visitei no lar de idosos onde ela residia e ela me revelou que o meu nome de batismo não era Davi, era Dvoyre. Eu fora batizado com o nome da sua tia, um nome feminino, nada usual na tradição judaica.

A notícia me espantou primeiro e em seguida me alegrou. A revelação me mostrou que poucos elementos biográficos deixados por uma pessoa podem ser suficientes para que a sua memória seja honrada. A partir de poucos fragmentos soubemos que Dvoyre foi uma mulher humanista, lutadora pela causa em que acreditava, e que morreu coerente com seus princípios. Assim, uma nova história pode ser gerada e eu compreendi mais um elemento do caráter de minha mãe, cujas atitudes nem sempre corriam dentro das normas. Em suma, minha mãe me deu um nome precioso, feminino, forte.

Eu me chamo Decio, caso prefiram não tenham receio de homenagear a mulher sonhadora com a liberdade humana, com ideais de igualdade social, tão importantes nos dias de hoje. Caso queiram podem me chamar de Dvoyre ou Deborah.

Multidão Furiosa

É assustador observar uma boiada correndo em disparada, os animais pacíficos se enfurecem e sem que se perceba o motivo, se revoltam. Para quem está próximo do tumulto pouco resta fazer. Correr é uma alternativa, sair do caminho da manada em disparada, mas qual direção tomar? Como saber o rumo que ela seguirá? É impossível identificar quem lidera o grupo que se comporta como se fosse um único indivíduo.

O pavor que se sente advém da nossa repulsa pelo imprevisto, pelo inexplicável, pelo incontrolável. A sobrevivência da espécie humana foi fruto das reações impressas no nosso DNA como a repulsa ao sabor amargo, a insegurança que sentimos na escuridão – que sugere que a noite foi feita para o recolhimento – e, talvez a reação que melhor explique a nossa sobrevivência: o medo do desconhecido.

O tema do controle da violência me faz lembrar o economista Douglass North, ele elaborou a teoria sobre a origem e evolução das instituições definidas por ele como: as regras desenvolvidas pela sociedade para controlar os seus próprios impulsos, para criar ordem, para mitigar o caos, a violência, o imprevisível. North, a quem eu tive o privilégio de conhecer e trazer ao Brasil, ganhou o prêmio Nobel de Economia em 1993.

Outro prêmio Nobel que admiro é Elias Canetti (1905-1994), laureado em 1981 com o prêmio em literatura. Canetti vivia entre Londres e Zurique, eu lembro que, de passagem por Londres, tentei fazer um contato pessoal com ele. O meu telefonema foi atendido por uma voz feminina, talvez fosse Veza Canetti sua esposa também escritora, que limitou-se a dizer que ele não poderia me receber. A notícia da sua morte foi anunciada pouco tempo depois.

Canetti transitou pela ficção, com destaque para Auto-de-Fé (1931), passou pelo ensaio, pelo memorialismo, como em A Língua Absolvida, e pelo comportamento coletivo como atesta a obra Crowds and Power (1960), um verdadeiro tratado antropológico centrado no tema que o apaixonava: o comportamento das massas. Canetti demonstrou rara erudição, descreveu rituais funerais que compara a uma “festa dos sobreviventes”, analisou o comportamento humano individual em contraste com o comportamento coletivo. É marcante o caso do soldado que mata o inimigo à distância, mas que não consegue dar o tiro de misericórdia quando olha os olhos do mesmo inimigo – a identidade importa.  O autor comparou o comportamento coletivo aos cardumes que nadam em harmonia sob o mando de uma liderança por vezes oculta.

O ponto de maior densidade em sua análise se dá quando identifica o momento da transição do comportamento individual, pautado por regras morais, para o comportamento de massa, quando as referências individuais deixam de existir e o indivíduo passa a se comportar como massa amorfa, como cardume, sem as peias da moralidade e outras regras – instituições diria North – que normalmente controlam a sua ação. Uma vez atingido este limiar, nada há a ser feito, a boiada estourada passará por sobre cercas, derrubará muros, invadirá o Capitólio e a Praça dos Três Poderes. Ao ler esta obra de Canetti eu percebi o quanto ela é relevante para quem lida com a manutenção da ordem pública. A estes cabe perceber que o tal ponto de virada, o non plus ultra, o momento de transformação e despersonalização do indivíduo que pode ser reconhecido e gerenciado para evitar o uso da violência.

A fragilidade humana é imensa e o enfrentamento das incertezas que nos cercam podem explicar o desaparecimento de sociedades inteiras. O comportamento coletivo deixou marcas na história que demonstram o poder destruidor de quem manipula as massas. O nazismo na Alemanha de Hitler, o grande salto à frente de Mao Tse Dong, são exemplos que não podem ser esquecidos. Custaram milhões de vidas. Os casos do Capitólio e de Brasília ficam para a história pelo nítido caráter de consentimento que o poder público adotou ao tentar transferir a responsabilidade da violência para a multidão amorfa e sem identidade definida.

As instituições, as regras do jogo social, formais e informais, nos ajudam a criar estabilidade, previsibilidade, e assim diminuir a dispersão de energia e de recursos. Aquelas sociedades que conseguem criar estabilidade se destacam, progridem, sobrevivem. As incertezas fazem parte do ambiente que nos envolve, entretanto somos capazes de interpretar fenômenos, e ao fazê-lo podemos criar mecanismos para reduzir as incertezas e assim garantir que podemos continuar vivos por mais algum tempo. Os ensaios observados nas invasões do Capitólio e da Esplanada dos Três Poderes em Brasília sugerem a oportunidade da leitura de North e Canetti.