
Há coisas que, pela lógica, não deveriam ocorrer, mas acontecem bem à frente dos nossos olhos. No início me neguei a crer, deve ter sido impressão disse um amigo, ilusão de ótica comentou uma amiga, não brinque com coisas sérias reagiu o meu vizinho. Decidi me calar, parar de comentar e conviver respeitosamente com os elefantes voadores. Desde então acompanho os HONBASHÔ, os festivais de sumô que acontecem seis vezes ao ano no Japão.
Se restava dúvida, uma imagem revelou a verdade. Foi quando o YOKOZUNA Terunofuji, esquivou-se do golpe que fatalmente o atiraria para longe do DOHYÔ, o círculo onde se pratica a luta, e o adversário, tal como ele, originário das planícies da Mongólia, lançou-se como uma pluma ao vento, nadou pelo ar em câmera lenta, e aterrissou sobre a plateia do Kokujikan, o estádio tradicional no bairro de Ryogoku em Tóquio. Em meio a reações delirantes, a massa de 204 kg ergueu-se, retornou ao DOHYÔ galgando a escada lateral esculpida em barro, sal e cascas de arroz. Definitivamente, o SUMODÔ, o caminho do sumo, não é para iniciantes.

Penetrar na NYU NIHON KA, a tradição profunda que sustenta a cultura japonesa, tem sido um obstáculo para os RIKISHIS, os praticantes, não japoneses cuja presença é crescente no HONBASHÔ. Há seis torneios anuais que congregam a nata dos praticantes que conseguem chegar ao MAKUUSHI, a divisão superior do sumo no Japão, liderada pelos lutadores da Mongólia. Há um brasileiro de nome Kaisei, entre eles.
A NIHON KYOKAI JAPAN, a entidade cujo painel de experts dita as regras e controla os passos dos praticantes, está preocupada com o declínio do OSUMÔ entre os mais jovens no Japão. São eles que definem quem deve entrar para a MAKUUSHI, quem deve ser eliminado por comportamento impróprio à tradição do SUMODÔ, e quem deve ser promovido até atingir os graus maiores, o grau de OZEKI e de YOKOZUNA, este último o maior a que pode chegar um praticante. Se um OZEKI não mantiver o número de vitórias adequado poderá ser demovido do grau, já um YOKOZUNA tem a perpetuidade do título.
Um não iniciado pode entender que as lutas duram dez a vinte segundos, tempo médio em que um lutador é derrubado ou desiquilibrado de modo a encostar uma parte do corpo no chão. Um observador cuidadoso perceberá que o início da luta é só aparentemente marcado pelo choque dos lutadores. Os corpos propositalmente obesos são cultivados com a ingestão de alimentos em quantidade tal que faria qualquer cardiologista perder o sono. Um olhar atento ao combate percebe que a peleja começou antes do choque físico, quando os RIKISHIS trocam o primeiro olhar ao entrarem no círculo consagrado do DOHYÔ.
A cada torneio uma equipe de artesãos tem a função de construir o local que abrigará os seis festivais anuais de SUMÔ. O início é marcado pela cerimônia de consagração do local que tem raiz na cultura xintoísta, ao final outra cerimônia precede o desmonte do DOHYÔ. Os rituais estão vivos na cultura japonesa, e talvez expliquem a sobrevivência da prática.
O painel de experts que controla a vida dos praticantes distingue SUMÔ do OSUMÔ, o segundo deve seguir as regras impostas pela tradição, as mulheres estão fora da prática, os estrangeiros são aceitos com reservas. A escolha do SUMODÔ é uma exigência que implica na adoção dos costumes, do idioma, e do comportamento alinhado à cultura, qualquer desvio implica na expulsão sumária daqueles que a desafiam.
O direito de abrir uma academia é regulado pela associação, em geral os YOKOZUNA tentam abrir uma HEYA quando se aposentam. Ao maior lutador de todos os tempos, o YOKOZUNA HAKUO que se aposentou em 2021, foi negada a licença, por comportamento não alinhado ao SUMODÔ. Não bastou viver no Japão desde os 14 anos de idade, de ter se tornado cidadão japonês, de ter se casado com uma mulher japonesa, de ter filhas japonesas, e de ter ganho um número recorde de 45 torneios. O seu feito não foi suficiente para justificar que um nativo da Mongólia, pudesse abrir o seu próprio centro de treinamento.

Nos torneios, muito antes do choque físico, uma vez trocado o primeiro olhar, a luta está iniciada. A coreografia envolve sucessivas aproximações e afastamentos. Os RIKISHIS jogam sal no chão onde os lutadores se enfrentam, ameaçam movimentos, batem as mãos nas pernas, no dorso e na protuberante pança cultivada pela ingestão de homéricas quantidades de alimentos nos HEYAS onde vivem e treinam. A qualquer momento, os corpos poderão afastar-se e retornar para o ponto do círculo onde duas caixas com sal ficam estrategicamente colocadas. Cada lutador toma nas mãos um punhado que é jogado sobre a área do DOHYÔ onde a luta será travada. Os corpos suados são enxutos com uma toalha entregue pelo auxiliar que zela pelo bem-estar dos RIKISHIS. As idas e vindas, o sal aspergido, os olhares trocados que podem ser tão expressivos a ponto de atravessar o corpo do oponente, se repetem até que o juiz-sacerdote sinaliza que a luta deve ter início. As preliminares podem demorar cinco minutos ou mais, e são tão ou mais importantes do que os vinte segundos da luta. Tal como no sexo, as preliminares são tão relevantes quanto o ato.
O RIKISHI que nadou no ar e aterrissou sobre a plateia, retornou ao local da peleja, postou-se diante do adversário, e fez um aceno com a cabeça reconhecendo a derrota. Em caso de dúvida um MIAUI é chamado, imediatamente quatro juízes se dirigem ao centro do círculo e proferem a sentença. Quando um YOKOZUNA perde, o público se manifesta jogando para o alto as almofadas utilizadas para acomodá-los na plateia. O inesperado é sempre recebido com júbilo. Em tempo de pandemia a plateia foi orientada a refrear o impulso de gritar ou fazer gestos largos.
O OSUMÔ ensina que que a vida é plena de improbabilidades. Ensina também que, como em qualquer cultura, há contrastes e incoerências no OSUMÔ, e penetrar na tradição – NYU NIHON KA – representa obstáculo, talvez intransponível para um não japonês. O OSUMÔ ensina que a prática da paciência, da luta virtual, do estudo dos gestos e dos movimentos ínfimos, pode explicar a vitória. A luta é um ato efêmero, pode durar um interminável segundo e, tal como na vida, os elefantes podem voar.