As Moiras Encantadas

"Mouriscos do Reino de Granada, passeando pelo campo com mulher e criança". Desenho de Christoph Weiditz (1529)

Cinco horas da manhã, ouço o andar da égua a escolher o pedaço de chão que não coloque a viagem a perder. Cinco horas, todos os dias ouço o som da montaria quando se aproxima. Uma Moira Encantada monta a égua árabe que segue seu intento. Há confiança entre elas, respeito tácito das parcerias perenes.

Pensei em correr até a estrada para vê-las, tive medo. Há encontros que devem ficar restritos ao espaço do pensamento, ao mundo dos sonhos. Ouvi o mesmo som que se repetiu por anos. Criei um passado para a égua árabe, dei-lhe uma progênie de raça moura que lutou contra os cruzados. Seus antepassados foram levados para a Espanha, atravessaram o Marrocos, a Argélia, a Mauritânia, o Saara Ocidental e chegaram à Andaluzia. No trajeto derramaram sêmen em terras da Sicília, Malta e até na Gália. Serviram no Emirado de Córdova e transportaram o filho do Califa. A estirpe obedecia aos comandos em árabe, basco, catalão, hebraico e espanhol.

Certa vez, uma das éguas auxiliou um homem que se apaixonara por uma Moira Encantada que diziam ter poderes sobrenaturais. Viviam entorpecidas enquanto não se lhes quebrasse o encanto. Elas, e só elas, sabiam onde havia o tesouro oculto pelos mouros quando expulsos das terras de Espanha. 

As éguas árabes e as Moiras Encantadas ainda hoje guardam os locais de passagem para o interior da terra. Elas reaparecem quando se sentem seguras, cuidam das nascentes, cavernas, poços e construções abandonadas. Os passos que eu ouço todas as madrugadas são de uma delas. Imerso no sono, vejo a moira entorpecida a pentear os cabelos negros enquanto é levada pela montaria.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.