As Nossas Máscaras

Uma imagem contendo pessoa, homem, em pé, água

Descrição gerada automaticamente
Máscaras do Escritor

As máscaras voltaram. Sempre estiveram presentes de forma oculta. Nos tempos de pandemia elas ressurgem, assim foi na Peste Negra e na Gripe Espanhola. Ignorá-las seria fechar os olhos à magia ou desprezar a criatividade humana. 

Algumas assumem a forma de objeto, outras nos conectam com a esfera do mundo ritual como aquelas utilizadas no teatro a simbolizar a comédia e o drama. Na ritualização da vida e da morte as máscaras aparecem nos cultos onde personificam a luta entre o bem e o mal, entre a luz e a sombra, entre o yin e yang, ou dão vida aos orixás afugentando os espíritos impuros. São metáforas que representam o inconsciente coletivo, elas nos oferecem proteção.

Além do simbólico, as máscaras se associam às nossas múltiplas identidades. Quando as percebemos não raro nos surpreendemos com os seres que em nós habitam como parte da nossa persona. Algumas máscaras, nós as criamos para ocultar uma identidade. Nossas múltiplas faces, estas que muitas vezes nos surpreendem, longe de serem uma patologia, refletem a complexidade do caráter humano. São fundamentais para facilitar a convivência, escolhemos entre aquela mais adequada a cada situação e a cada interlocutor. As máscaras nos permitem lidar com o outro que nos atormenta. 

Saber utilizá-las é sinal de maturidade, se temos múltiplas máscaras é preciso saber escolhe aquelas que devemos utilizar. Amartya Sen descreve uma cena, no livro “Identity and Violence: the illusion of destiny”, que retrata o seu desembarque no aeroporto de Heathrow voltando de uma visita ao país de origem, a Índia. O que seria um episódio trivial ganhou relevância quando um agente de imigração o abordou, e de forma pouco delicada arguiu. Quem é o senhor? O Professor Sen teve que escolher a identidade que melhor o representasse naquela circunstância ameaçadora. Poderia afirmar que era um hindu residente no Reino Unido, ou que era um homem de cor negra ou parda, poderia dizer que era filósofo, que era o Master of the Trinity College em Cambridge, ou que lhe fora outorgado o Prêmio Nobel de Economia, ou ainda que era simplesmente um cidadão voltando para casa. Todas as máscaras eram verdadeiras, mas qual deveria escolher naquele momento?

As máscaras, ao invés de nos revelarem determinado perfil, podem ter a intenção de ocultar uma identidade e garantir o anonimato. Máscaras de carnaval ocultam desejos incongruentes com as identidades públicas de quem as utiliza. No carnaval tudo é permitido, os desejos contrários ao código moral são postos a nu, as máscaras protegem o lado oculto da personalidade do julgamento moral, salvaguardando a reputação de quem as utiliza. Com a máscara tudo é permitido, sem mácula. A máscara reaparece, no estado virtual, nos perfis falsos de grupos sociais da internet, Reconstrução sofisticada da máscara objetopermanece a intenção de ocultar a identidade no espaço da web onde tudo é permitido sem penalidade.

No teatro duas máscaras simbolizam o drama e a comédia, foram utilizadas para ampliar o alcance da voz do ator, para permitir que fossem ouvidos. Per sonare, leva à raiz etimológica de persona. Na obra literária existe um paralelo ao teatro, a máscara no caso tem a função de fazer soar a intenção do autor no processo de criação do personagem. Na ficção, a matéria prima para esculpir o personagem são os padrões do comportamento humano que conferem à obra o caráter de universalidade e atemporalidade. Entretanto, os padrões sem ornamentos serão insuficientes para a construção do personagem. Será preciso espalhar cores na face da máscara, conferir-lhe tempero, cheiro, imagem, identidade. 

O personagem resultará do labor do autor que cria tendo em mãos apenas um conjunto de máscaras sem carácter, apenas moldes diferentes cada qual com a superfície em branco. O autor dá visibilidade ao personagem pela sobreposição das tintas que ele dispensa sobre a superfície em branco das máscaras. O molde sem acabamento pode ser visto como um padrão arquetípico e a pintura sobre sua superfície refletirá a competência do autor de colocar o personagem no mundo. O autor ou autora convencerá a depender da sua competência em equilibrar os padrões arquetípicos gerais e os ornamentos de identidade, que definirão o personagem. 

Opor fim, a criação da obra precisará de contar com o ato mágico da leitura que revelará se as escolhas foras adequadas, se as máscaras foram convincentemente escolhidas e adornadas. É quando o leitor toma a máscara das mãos do autor e a coloca sobre o rosto, só então a obra estará pronta. No ato da leitura ele toma contato íntimo com o autor, entra na sua casa, come na sua mesa, dorme na sua cama. O leitor experimentará o molde e observará a pintura exterior das máscaras, dos personagens, das identidades expressas na obra. 

Voltemos às máscaras da pandemia, ao colocaremos a máscara ela nos protegerá do ambiente infecto, uma máscara protetiva e sem adornos que reflete um gesto de apego à vida. Talvez as máscaras nos permitam viver para ler o próximo livro, talvez não, mesmo que convoquemos todos espíritos que elas representam.

Decio Zylbersztajn

Publicado na Revista Capitolina #6 editada pela Escritora Nara Vidal.

Um comentário sobre “As Nossas Máscaras

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.