O Fim do Isolamento

O Fim do Isolamento

A literatura me levou a conhecer a Islândia. Ganhei o livro “Gente Independente”, autoria de Aldór Laxness, um escritor nascido em um país de escritores, prêmio Nobel em Literatura em 1955. O livro, uma das raras traduções do Islandês para o Português, é reconhecido como o Magnum opus do autor. Narra a saga de Bjortur de Summerhouse que decidiu viver com sua filha em uma propriedade rural, a Casa Estival, onde cria ovelhas em busca da independência.

Tal busca é representada pela decisão de Bjortur de trocar o trabalho como empregado, pela vida em um local distante de Reykjavík, sujeito ao frio, às erupções vulcânicas, epidemias e solidão. Nas primeiras décadas do século XX era normal nas áreas rurais na Islândia, que os habitantes passassem períodos longos sem trocar palavra com alguém, bem como não encontrar mais do que algumas dezenas de pessoas ao longo da vida. 

Durante a primeira guerra mundial o país experimentou tragédias marcadas pela erupção do vulcão Katla e pela gripe espanhola que dizimou parte da população em 1918, tema tratado pelo autor islandês contemporâneo Sjón, no livro Moonstone. A pobreza motivou uma onda migratória para os EUA, associada ao pensamento religioso conservador. 

A sobrevivência na solidão é o mote do enredo de Gente Independente. Bjortur perde a esposa no parto, perde um filho para o frio, outro filho emigra para os EUA. Com parcos recursos adquire a propriedade onde passa a viver com a filha Asta, que não conheceu a mãe, no espaço confinado da Casa Estival, onde atravessam o inverno. Ainda podem ser encontradas as típicas casas rurais islandesas com o teto de turfa e janelas mínimas quase enterradas no solo. Sob o piso da Casa Estival fica o estábulo onde vivem o cavalo, ovelhas e a vaca que tem o nome de Búkolla. O feno colhido no verão, alimenta os animais no inverno. O frio impede que se abram portas e janelas, fazendo com que pai, filha e os animais, vivam reclusos durante o inverno ártico. A pobreza, a doença e o isolamento social, representam o preço pago pela independência.

Uma cena do livro se destaca pela beleza. No momento que marca o final do inverno, o estábulo é aberto e os animais são soltos no campo ainda coberto pela neve. A escuridão dará lugar aos dias longos da primavera e verão. Búkolla deixa o estábulo, corre, urra, salta e rola o corpo no campo. O comportamento do animal expressa o contraste entre o isolamento e a escuridão, que dará lugar à liberdade e à luz. O pasto ainda não cresceu e o verde é apenas uma esperança, mas a luz é suficiente para motivar a reação do animal reconhecendo o liberdade recém adquirida. 

Compreendo a reação de Búkolla, de modo particular em tempo de pandemia, pois somos, nós também, movidos pela esperança do término do isolamento social, da penumbra, da reclusão. Qual será o nosso comportamento quando as portas se abrirem? Possivelmente nos espelharemos no comportamento de Búkolla.

Outro livro de Laxness apresenta cena que reporta o mesmo momento. No livro “Under the Glacier”, o dia 11 de Maio, a data do término da estação de pesca do inverno, é descrito como um tempo chamado “between hay and grass” – entre o feno e o pasto – um tempo no qual o feno já acabou mas a grama ainda não cresceu.  O autor escreve: “Um período preocupante para os ruminantes. De fato, a primavera tem sido a estação, na Islândia, na qual os animais e os homens, costumam morrer”.

A leitura de Laxness me levou a conhecer a Islândia, país do Atlântico Norte, cortado pelo círculo polar ártico a meio caminho entre a Europa e o continente americano. A vida acadêmica me ajudou a chegar lá quando um colega, professor da Universidade de Reykjavík, presidiu a entidade científica da qual eu fazia parte. O encontro científico anual ocorreria em Reykjavik, duraria quatro dias e terminaria no primeiro dia do verão.

Findo o congresso, seguimos, eu e minha esposa, a viajar pelo país. Visitamos uma aldeia com doze edificações, onze casas e a décima segunda, um museu dedicado a um escritor nascido no local. Escritores têm alta reputação na Islândia. Visitamos a casa onde viveu Aldór Laxness, hoje um museu. O sol não permitia que a noite se manifestasse, um drama para quem precisa organizar o sono. Rodamos pela estrada que circunda a ilha, paramos em pousadas mantidas por famílias que normalmente vivem em isolamento. Em uma delas havia um estábulo encravado em um barranco sobre o qual a casa da família fora edificada. Me fez lembrar da Casa Estival.

Me impressiona a resiliência do povo islandês, que construiu um país com uma das maiores rendas per capita do mundo, que ganhou a independência da Dinamarca em 1944, cujo símbolo nacional é uma coleção de livros, as Sagas, e cuja capital é uma das Cidades da Literatura da UNESCO. A Islândia e a obra de H. Laxness nos ensinam que independência e liberdade são valores inegociáveis, mesmo que a natureza nos imponha períodos de epidemias. 

Hoje, eu compreendo a reação de Búkolla ao sair do isolamento, saltando no campo, esfregando a cara na neve, respirando o ar puro, sentindo o vento e encontrando outros animais. Uma reação de todo, humana. Mas, com cautela, pois o período da liberdade recém adquirida é o tempo em que animais e homens costumam morrer.

Under the Glacier. Vintage Books. New York. 1968. Edição em Inglês de 1972, com introdução de Susan Sontag.

Gente Independente. Ed. Globo, 2005.

Decio Zylbersztajn

Voltei a Reykjavik em abril de 2022 para um encontro de escritores. O país passa por uma transformação acelerada, o histórico de isolamento não mais persiste. O Presidente e sua esposa Lisa, nos convidaram para uma recepção. Diagnosticado com COVID, o Presidente não pode comparecer, sua esposa discursou em seu nome. Ela afirmou que o convite que recebemos demonstra o compromisso do país com a literatura. Para a Islândia, a palavra importa.

2 comentários sobre “O Fim do Isolamento

  1. Que bacana ler os texto de Décio.Gera um desejo imediato de ler a obra citada.Desde o evento Além das Letras”, melhorei muito, mas muito mesmo, o hábito de ler.Tem sido muito bom.
    A mensagem final do texto aqui é bem interessante: “cuidado com a liberdade”, acrescentaria : necessidade do recolhimento.Ainda que por um motivo grave como essa Pandemia, temos lidado com o recolhimento,
    com novos cotidianos.Mas creio ser um recolhimento bem mais ameno que o recolhimento de quem viveu na Islândia em meados do século passado e menos ainda que muitos dos nossos brasileiros nas comunidade carentes ou miseráveis.Abraços.
    Ps: Meu nome é Alfredo Augusto, mas me apresento como Guto, como foi no Além da Letra em Gonçalves.

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