Helena Antipoff Educadora

O Brasil sofre com o sistema educacional público cuja precariedade alargou o fosso entre aqueles que pagam pelo ensino privado – este também fragilizado – e a massa dos desassistidos sem acesso à alavanca social da educação. Nada mais injusto para a sociedade do que o cerceamento de oportunidades. É visível o descompasso com países que popularizaram a educação de qualidade faz mais de um século. O desalento aumenta quando os arquitetos da política educacional desdenham do conhecimento científico, ignoram modelos reconhecidos de aprendizagem, não respeitam diferenças propondo que todos marchem em uníssono, demonstram aversão ao livre debate e rejeitam a aplicação dos princípios democráticos ao ensino.
Nem sempre foi assim. O Brasil contou com a ação de Educadores que transitaram na fronteira do conhecimento do seu tempo e implantaram modelos educacionais compatíveis com as necessidades atuais. Assim foi o trabalho de Helena Antipoff.
Nascida no final do século XIX na Rússia Czarista, filha de pai militar e mãe Professora de Grego, educou-se na Rússia e seguiu para a França onde estudou na Sorbonne, depois graduou-se em Genebra com Edouard Claparède, médico dedicado ao estudo dos processos cognitivos aplicados à educação. Neste caminho conviveu com educadores como Montessori, Alfred Binet e Jean Piaget. Retornou para a Rússia onde o regime comunista ditava o que deveria ser a educação, a arte, a literatura e a ciência engajados com a revolução proletária. Vozes críticas como do seu esposo Victor Iretsky, jornalista e escritor, não eram admitidas, o que levou o casal a deixar o país.
A vinda de Helena para o Brasil resultou do convite do Governo de Minas Gerais em 1929, para formar educadores e educadoras, ensinar psicologia da educação, lançar as bases da pedagogia científica e do ensino focalizado nos princípios que estudara com seus mestres na Europa. E assim foi feito na Fazenda do Rosário em Ibirité, próximo a Belo Horizonte, transformada em centro de pensamento educacional onde funciona a Fundação Helena Antipoff. Em Conselheiro Mata, município de Diamantina, um prédio construído para ser um retiro de religiosos foi transformado em unidade educacional. Abrigou a escola para formar educadoras e a escola agrícola dirigida pelo agrônomo Professor Ferdinando Albrechter. Nos dois casos, Ibirité e Conselheiro Mata, foram implantadas atividades aplicadas, bibliotecas e áreas coletivas de convívio próprias para uma educação humanista. Os depoimentos dos egressos do sistema implantado apontam para as transformações provocadas nas suas vidas.
Helena Antipoff atuou no Brasil até falecer em 1974. Os princípios que nortearam o seu trabalho são atuais e sugerem uma gama de propostas ignoradas pelos formuladores de políticas educacionais. Alguns princípios são:
O reconhecimento da educação com base na prática e na observação do ambiente físico e cultural, pilares do construtivismo que originou as Escolas de Aplicação, cuja experiência no Brasil foi abortada nos anos 70.
O modelo educacional calcado no reconhecimento e respeito às diferenças. Foi o que Claparède chamou de “Escola sob Medida“ que implica na formação de grupos homogêneos com foco nas diferenças entre os jovens. Conceito que Helena criticou mais tarde.
Vivência no ambiente rural, uma dose de romantismo que preconizava a importância da natureza para o aprendizado. As escolas deveriam mesclar elementos do mundo urbano e rural tal como se observa nos projetos implantados em Minas Gerais.
O rigor e disciplina do cotidiano das crianças que dedicavam períodos do dia à leitura, à música, ao convívio e debate, ao trabalho em grupos.
O trabalho de Helena Antipoff motivou a formação de clubes literários que precederam os Clubes de Leitura e clubes agrícolas com práticas que chamaríamos de ambientalmente sustentáveis. Os resultados do trabalho da Educadora são visíveis em projetos por ela influenciados tais como a Sociedade Pestalozzi, as APAES e as escolas profissionais rurais. O modelo implantado por Helena Antipoff poderia ser adequado aos dias atuais e contrastaria com as propostas reducionistas de militarização da educação, questionável como modelo de política pública.
Helena Antipoff nos remete ao sonho de Paulo Freire, de Darcy Ribeiro, de Anísio Teixeira e de professores que ampliaram horizontes de jovens estudantes do ensino público, como fez minha mestra Rachel Gevertz, cuja vida merece outro relato, na escola pública na cidade de São Paulo onde estudei nos anos 60 e 70.
A escola de Conselheiro Mata está fechada. Para visitar o prédio precisei de uma dose de arrojo da juventude do amigo Bruno, arquiteto que vive em Conselheiro Mata a defender o meio ambiente. Saltamos pela janela e nos vimos nos corredores onde a luminosidade generosa do sol das Minas Gerais entrava pelas frestas das janelas e revelava os salões vazios.
Pequenas surpresas me esperavam, um órgão antigo em um canto de corredor, cozinhas, salas de refeição coletiva, quartos e salas de aula. Na minha mente eu reconstruí os sons das crianças, dos talheres e do órgão, recriando imagens de outrora. As panelas limpas guardadas na cozinha estão à espera de que o Brasil acorde para o desafio mor, de fornecer educação universal, de qualidade, humanista, formadora do caráter crítico, democrático e focalizada na realidade.
Helena Antipoff representa a utopia da educação transformadora deveria ser mais bem conhecida. Merece nosso respeito, admiração e homenagem como fez Drumond no poema A Casa de Helena. A seguir reproduzo um trecho.
Helena reúne
os que não se conformam com a vida estagnada
e com os mandamentos da educação de mármore.
Leva com eles para o campo
uma ideia-sentimento
que faz liga com as árvores
as águas
os ventos
os animais
o espaço ilimitado da esperança.
(Carlos Drumond de Andrade)