
A obra do neurocientista Ivan Izquierdo representa um marco na relação entre a ciência e a sociedade. O autor, tido como um dos cientistas argentino-brasileiros que mais publicam em veículos especializados, traduz para o público geral, um tema que a todos interessa; o funcionamento do cérebro.
A obra do cientista compreende desde textos que revelam o funcionamento bioquímico dos mecanismos cognitivos, a ensaios e textos de cunho literário que se assemelham à prosa poética. Entre tantos temas, Ivan Izquierdo explora o tema da memória.
O autor recorre, e o faz com frequência, à obra de J.L.Borges que tratou do tema da memória como no conto “Funes o Memorioso”, onde o personagem central jamais esquecia do que tivesse vivenciado. “Podía reconstruir todos los sueños entre sueños”. Funes afirmava; “Más recuerdos tengo yo solo que los que habrán tenido todos los hombres desde que el mundo es mundo”.
Borges, utilizando o inverossímil, trata da necessidade do esquecimento, mecanismo sem o qual nós enlouqueceríamos.
A capacidade de esquecer revela a dimensão seletiva da mente humana que se desfaz do lixo da memória, aquela que nos fere, aquela que associamos a fatos que não mais nos identificam, aquela memória associada à dor, física e mental. Tratar do esquecimento seletivo é o mesmo que discorrer sobre a recordação seletiva, aquela lembrança que nos permite viver melhor. Assim é a lembranças materna, que Izquierdo considera como a primeira que registramos, ao discorrer sobre a lembrança do seio materno. Lembranças como as do primeiro amor, do quintal da infância, do tempo da juventude são exemplos conhecidos. Tais lembranças vivem nas nossas mentes revelando elementos aos quais recorremos quando precisamos. São como chispas luminosas que clareiam tempos obscuros.. Sobrevivemos assentados sobre lembranças que, segundo algum critério, guardamos na nossa memória.
Crer que as imagens e cheiros que guardamos em locais preciosos e protegidos dos nossos cérebros são idênticos à realidade vivida, quase certamente será inverídico. Nós não apenas selecionamos as memórias como as criamos, as inventamos. Aí reside um elemento revelador da capacidade criativa, particularmente daqueles que passam a vida a narrar histórias, a quem chamamos de escritores.
Para vida cotidiana, a memória construída significa um mecanismo de criação da personalidade com base naquilo que desejamos ser. Somos uma criação de nós mesmos, para o nosso bem ou para a nossa desgraça. Um idoso, ao narrar a sua história de vida, revela fatos que são, em parte reais e em parte criados, ambos com igual relevância e, paradoxalmente para nós, verdadeiros. É a mente humana revelando o seu lado criativo e profundo que caracteriza a nossa espécie. Somos autores desde sempre. Somos contadores de histórias que crianças e velhos bem sabem fazer.
Há aqueles que exercitam esta competência ao longo da vida. De algum modo se dão o direito de prosseguir criando histórias como faziam ainda crianças, e não precisam de esperar a velhice para retoma-las na forma de histórias construídas. São os escritores e artistas que cultivam diferentes formas de narrativas, construídas e compartilhadas, tal como as verdades criadas pela mente.
A Ivan Izquierdo eu devo o prazer de melhor compreender este mistério, o da construção da memória e do mecanismo de escolha da persona que queremos ser, da máscara que queremos utilizar. A memória construída é real e necessária, como necessário é o sonho.
Nós somos a nossa memória. Somos a memória que não descartamos, sejam as que vivemos, ou aquelas que a nossa mente criou para que pudéssemos viver. Quando a nossa memória se apagar, e certamente se apagará, nós deixaremos de existir.
Referências escolhidas de Ivan Izquierdo: Memória, 2018; A Arte de Esquecer: Cérebro, memória e esquecimento, 2010; Releituras do Óbvio, 2015. Há palestras e entrevistas disponíveis no youtube.
Decio Zylbersztajn