Incêndio no Coração da Floresta

Incêndio no Coração da Floresta

Na matine de um domingo em 1959 meu pai me levou para assistir ao filme de Walt Disney, Incêndio no Coração da Floresta. Tomamos o bonde no Bom Retiro que nos levou até o Largo do Paissandu e dali, em uma caminhada a dois, eu segurando a mão do meu pai, seguimos até o Cine Ipiranga. Eu, com 6 anos, fui feliz de mãos dadas com o meu pai para viver aquela que seria a minha primeira experiência como espectador em uma grande sala de cinema. Meu pai me prometeu que comeríamos cachorro quente na Salada Paulista, ao lado do cine Ipiranga, depois da sessão.

Do filme, misto de desenho e documentário, eu pouco me lembro. Apenas guardei as cenas de perigo e desamparo que ficaram marcadas na minha memória hoje septuagenária. Lembro do esquilinho fêmea sofrendo por ter perdido sua prole que ficara para trás na fuga desembalada do incêndio que engolia a floresta. Sofri com o desamparo daquela criatura perdida, impotente diante do monstruoso fenômeno das labaredas que estalavam. Como a nossa memória é flexível – aprendi com a obra do neurocientista Professor Ivan Izquierdo –  posso jurar que ainda sinto o cheiro forte da fumaça a envolver a plateia do imenso cine Ipiranga. Chorei!

Chorei como choro hoje ao ver o nosso despreparo para cuidar do meio ambiente, seremos punidos por desconhecermos como se forma o imaginário global quando se trata da Floresta Amazônica. Os três poderes, com destaque para o legislativo, se apequenam aos olhos do mundo ao urrarem a plenos pulmões slogans conhecidos como: eles não ditarão as nossas políticas internas ou, temos soberania sobre a Amazônia brasileira. Não é assim, aos brados, que se resolvem problemas reais e que também envolvem o imaginário universal.

Aos olhos do mundo, a floresta está em chamas e o Brasil é um país sem competência para gerir os seus recursos e incapaz de apresentar diagnósticos corretos. O ex presidente culpou terceiros sem nenhum indicativo concreto de suspeita, sugeriu complôs internacionais, proferiu bestialidades a respeito de organizações não governamentais e desprezou irrefutáveis dados cientificamente coletados e analisados. Culpou um cientista por revelar a verdade que incomoda.

Em 2024 a situação é diferente, embora as chamas sejam as mesmas. O executivo assume a existência do desastre, mas não encontra um caminho para o enfrentamento. Não temos instituições competentes para lidar com o problema.

Eu, menino a esconder o choro, saí do cinema com os olhos vermelhos. Levado por meu pai entramos na Salada Paulista. Eu ainda vejo o grande painel de azulejos fixado ao fundo do imenso salão, o balcão de mármore onde os garçons serviam e escreviam a lápis os pedidos dos clientes. A conta era calculada ali mesmo, no balcão de mármore e depois apagada com a toalha. Eu, desamparado, pensando nos animaizinhos da floresta, fui consolado com um cachorro quente cheio de mostarda regado com guaraná.

Eu hoje sou homem feito, Agrônomo e Escritor, o meu trabalho me levou à Amazônia inúmeras vezes. Sei da relevância da floresta para o meu país, sei do código florestal que poderia nos colocar na vanguarda do ambientalismo consciente, sei da relevância dos recursos florestas para os vinte milhões de habitantes da região amazônica que não é um vazio intocado como se pensa, mas que deve ser cuidada. Sei da relevância da Amazônia para o mundo, seja real ou no imaginário dos jovens europeus que se manifestam defronte das embaixadas brasileiras e são formadores de opinião. E sofro com a incompetência do governo para lidar com temas mais complexos.

Já não tenho o meu pai a segurar a minha mão e nem sobreviveu a Salada Paulista na Avenida Ipiranga. Quem me consolará hoje, senhor presidente?

 Incêndio no Coração da Floresta, filme de 1957 produzido nos estúdios Walt Dysney e dirigido por Paul Kenworthy e Ralpf Wright narra as aventuras de um esquilo fêmea em meio a um incêndio na floresta.

Decio Zylbersztajn – 24 de Julho de 2019, revisado em setembro de 2024.

2 comentários sobre “Incêndio no Coração da Floresta

  1. É sempre bom ler de quem sabe o que fala ( ir ao cinema, Maraba ou Ipiranga, é comer um cachorro quente na SP, era meu programa quinzenal)

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