
D. ROSA RIBEIRO – ARTISTA de Minas Gerais
Nascer, envelhecer e morrer, compõem um roteiro sobre o qual temos pouco controle. A morte, em particular, não há quem a possa descrever como protagonista, embora saibamos que ela nos visitará mais dia, menos dia. Ad cautelam, é melhor esperar para conferir. O nascimento, por sua vez, é uma cena remota, marcada por alegrias e dores do parto. No passado dela havia poucos registros a não ser aqueles formulados nas narrativas dos adultos. Algo como: foi um parto difícil, chovia muito. Hoje, registrado nas redes sociais, o momento que deveria ser privativo entre mãe e rebento talvez com alguma participação coadjuvante paterna tornou-se público. Não publicar é como não existir.
Quanto ao envelhecimento, diferentemente do nascimento e da morte, ele chega aos poucos. A princípio despercebido, instala-se na nossa casa, na mesa, na sala e na nossa cama. Ganha intimidade e nos acompanha até o fim dos dias. O envelhecer prolonga-se por um período longo caso tenhamos a fortuna de pertencer ao grupo dos longevos, que cresce a cada dia. O fato é que temos tempo para aprender sobre o visitante.
A memória que em nós habita brinca com o envelhecimento. Acumula informações no início, depois nos surpreende com pequenos lapsos que se tornam mais frequentes. Em algum momento a memória passa a ignorar os fatos recentes, e em troca recupera informações do passado remoto guardadas em algum lobo do cérebro. Como ela seleciona os fatos recuperados, não sabemos ao certo, sabemos que pode nos revelar lembranças que afloram para enfeitar o tempo presente. Em outros casos traz à tona fatos desagradáveis que nos causam incômodo e podem ser devolvidos aos arquivos inativos do passado.
O envelhecimento revela elementos indicativos da nossa finitude, razão pela qual alguns tentam evitá-lo. Não morrer ou não envelhecer seria despropositado. A literatura tratou da ânsia pela vida eterna como na obra O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde. Há quem venda a alma ao diabo para postergar o envelhecimento. É uma luta vã que expõe as pessoas ao ridículo. Não tardou para que o mercado passasse a ofertar epidermes plastificadas, cabelos implantados, pintados, tonificados por processos de validade questionável e efêmera cuja artificialidade é facilmente detectada. Mulheres que expõem lábios exagerados, libidinosos que destoam do corpo transformado. A pele do rosto, olhos, braços, pernas e seios passam a ser imitações frágeis dos mecanismos que natureza dotou as fêmeas férteis para atrair os machos no período do acasalamento. Tudo tem o seu tempo e fora dele as tentativas são vãs.
Nem tudo está perdido pois há quem dialogue com o envelhecimento. Podem ser ser indivíduos serenos e alegres que exibem cabelos brancos, andam com passo lento, carregam experiências ricas, por vezes algo embaçada pelos lapsos da memória. Acatam a companhia do velho senhor com quem aprendem a compartilhar o cotidiano. Em uma entrevista a atriz norueguesa, nascida em Tókio em 1938, Liv Ullmann, afirmou o seu desejo de vivenciar e apreciar o seu envelhecimento sem intervenções plásticas. A escritora mineira Adélia Prado, coroada por cabelos brancos, revela na sua literatura a pacificação proporcionada pelo tempo e um misto de erotismo e religiosidade não piegas. A Dona Rosa Ribeiro que aparece na foto, artista, catireira, poeta. Todas são exemplos que exibem vitalidade e beleza. A exuberância senil se pode observar na obra do poeta sul mato-grossense Manoel de Barros, que fala dos quintais e muros da sua infância e em Mário Quintana, poeta gaúcho que, ao final da vida se dizia apaixonado pela atriz e poeta Bruna Lombardi e que culpava o destino pelo descasamento cronológico entre ambos. Os poetas produziram obras por toda a vida, mas floresceram mesmo foi na idade madura. Parece que a arte também ganha com a serenidade dos velhos, quando o erotismo emerge na forma de remanso e não de vulcão.
Com o período do envelhecimento alongado esta população de idosos ativos tem a opção entre ser um Dorian Gray moderno com corpos mutilados e descasados das mentes, ou indivíduos plenos de vivências a serem compartilhadas. Aqueles que nasceram ao final da segunda guerra mundial são chamados de baby boomers. O final da guerra veio acompanhado pela esperança de que os tiranos não sobreviveriam e a paz perduraria. O desejo de viver, o Eros, resultou em uma explosão demográfica que viveria dias melhores. Os baby boomers viraram elder boomers no mundo polarizado de hoje, pleno de ódio, cheio de tiranos e falsos líderes impulsionados pela alienação e pelas redes sociais.
Ainda que o cenário atual não seja o desejado, os elder boomers passaram dos setenta anos com a expectativa de uma década a ser vivida possivelmente com alguma condição física e mental, prontos para exercerem escolhas. Poderão desfrutar os seus dias não como observadores, mas protagonistas do seu tempo, cultivarão memórias reais ou inventadas, criarão relacionamentos, amarão de forma plena e sonharão com fantasias. Convidarão o visitante, aquele que ninguém quer por perto, à mesa para desfrutarem juntos uma taça de vinho.
Agosto,2019